Conhecido pelo sotaque típico de quem é natural do interior paulista e também pela língua afiada contra os clubes rivais, Antonio Roque Citadini, 67, é um dos candidatos à presidência do Corinthians, nas eleições que acontecem no próximo sábado, 3 de fevereiro.
Com experiência de já ter comandando o futebol da equipe por quatro anos (2000-2004), ele promete que a principal marca da sua gestão será fazer o clube ser atuante nos bastidores do futebol brasileiro, com a CBF, inclusive, em sua mira – e não teme retaliações.
No futebol, pretende trabalhar com pouco dinheiro, mas mantendo o time competitivo – segundo ele, sem mudanças drásticas, já que a equipe vem dos títulos dos campeonatos Paulista e Brasileiro. Já na base, quer cortar os empresários da base, apenas com jovens 100% do Corinthians.
Para suas ideias chegarem as urnas, porém, Citadini precisou ir à Justiça. Isso porque, em virtude de sua atuação como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, sua candidatura foi impugnada pelo Conselho do Corinthians e foi preciso uma liminar para, de fato, concorrer.
Conheça abaixo quem é Antônio Roque Citadini e o que ele propõe na quinta e última entrevista do especial com os candidatos à presidente do Corinthians, iniciado na última segunda-feira.
ESPN – Por que decidiu se candidatar à presidência do Corinthians?
Citadini - Veja, várias coisas. A primeira é que o clube vive um momento diferente. Vive uma crise muito grande. Uma crise que precisa resolver o problema da Arena, o problema do financiamento da Arena, o problema da gestão da Arena, o problema do Parque São Jorge. E eu acho que eu contribuo para resolver, eu acho que ajudarei a dar um passo à frente para resolver. Por outro lado, eu tenho um grande envolvimento com o Corinthians, eu estou há muitos anos envolvido em tudo. E sinto que o clube precisa de algumas ações que não está tomando. Por exemplo, no caso da Arena, o clube precisaria tomar a frente para resolver as questões finais da construção da Arena. Outra: o clube hoje é ausente do cenário do futebol. O Corinthians não fala nada com tudo que acontece na CBF, nas federações. A presença do Corinthians é inexistente. E eu acho que o Corinthians tem uma contribuição para dar. Eu sempre cito o exemplo: a CBF fez uma mudança no estatuto que reduziu o poder dos clubes. O Corinthians vale menos do que a federação do Acre. Não está certo.
ESPN – Não teme retaliações por esse perfil combativo?
Citadini - Até dizem que essa minha impugnação já é um pouco reflexo por eu estar falando. Mas eu não temo. A gente tem de enfrentar. Temos de tocar, sem essas preocupações.
ESPN – O que pensa da Arena Corinthians?
Citadini - Na Arena Corinthians precisamos de duas coisas. Primeiro precisamos resolver a contratação final. O que não foi feito; o que foi feito; o que falta completar; o que está errado; essas questões. Depois precisamos concluir a negociação com a Caixa. E terceiro precisamos pensar na gestão. A gestão da Arena deve render dinheiro ao Corinthians, e a gestão da Omni não está produzindo dinheiro ao Corinthians. Esses são os problemas que temos de enfrentar.
ESPN – E em relação a shows, naming rights...
Citadini - Show, não. Show só do lado de fora, no estacionamento. Dentro do estádio é futebol. Esse negócio de destruir o gramado não dá. Sou contra. Os namight rights só vai ter a hora que mudar muito o quadro no Corinthians. Com esse quadro de descrédito não vai ter.
ESPN – O que pensa do contrato com a Omni (empresa que administra o Fiel Torcedor)?
Citadini - Não sei, não sei. O contrato tem de ser moderno e que dê dinheiro. Se não for moderno e não der dinheiro, o prazo dele é até amanhã. Sentar em uma mesa de negócios, resolver ou buscar alternativas no mercado. Claramente.
ESPN - O que pensa para o Parque São Jorge?
Citadini - Começando pelo estádio. Não é mais estádio para futebol. Essa fase não tem mais. O tão querido Alfredo Schürig não é mais para futebol. Temos de encontrar uma alternativa. Alguns querem fazer uma arena multiuso para shows. Outros querem fazer um centro olímpico de atletismo. Acho que há várias alternativas para serem estudadas. A questão dos esportes olímpicos a gente precisa retomar. Nós estamos no fundo do poço. E a questão do sócio da parte recreativa vive um momento muito ruim. Nós temos hoje todo o clube largado. É uma fase difícil e temos de repensar.
ESPN – Mas tem dinheiro para fazer tudo isso?
Citadini - A gente tem um caminho: é o marketing. Tanto no futebol como nos esportes olímpicos. No futebol nós vivemos uma situação horrível. O Corinthians disputou o campeonato passado, liderou o campeonato inteirinho, sem propaganda na camisa. É um fracasso absoluto do marketing. Quando não botava umas empresas pouco conhecidas. O marketing é o fundo do poço. Para os esportes olímpicos é preciso ter patrocinadores, marketing. E nós vamos criar um grupo de marketing só para dentro do clube social e dentro dos esportes olímpicos para trazer receita. Para a gente equilibrar as contas a gente precisa aumentar a receita e diminuir as despesas. É isso.
ESPN – Qual será seu perfil na gestão do clube?
Citadini - Eu acho que o bom que a gente precisa trabalhar é para ter uma diretoria renovada, de gente nova em todos os aspectos, e delegar.
ESPN – Muitos candidatos avaliam que falta transparência na gestão atual.
Citadini - Eu já disse que a reunião da diretoria nas segundas-feiras será transmitida pela internet. Não vejo porque não transmitir. Eventualmente um outro assunto que deve ser reservado, será reservado. Mas, como regra, a maior parte dos assuntos pode ser do conhecimento de todo mundo. Agora essas regras de “bom administrar”, eu acho que o clube precisa aplicar. Mas está diretamente vinculada à transferência.
ESPN – Como avalia Roberto de Andrade como presidente?
Citadini - As informações são as mesmas que vocês têm... Eu tenho dúvida se o presidente sabe. Foi acumulando [problemas], o grupo que está no poder foi se soltando um para um lado, um para o outro. E foi esse processo de perda de qualidade. A situação é essa... Se for eleito, vou saber no dia seguinte.
ESPN – Pensa em uma auditoria?
Citadini - Eu penso em tocar o futuro. Vamos tocar o futuro porque o passado já tá perdido.
ESPN – Qual será sua política de contrações para o futebol?
Citadini - Nós temos um departamento de futebol profissional competente e vamos trabalhar com pouco dinheiro para manter um time competitivo. Não penso em parceria nenhuma. Não dá certo. Hora a categoria de base. Esse negócio de parceria com empresário só dá problema, não dá dinheiro e não revela jogador. Então não tem motivo nenhum para ter.
ESPN – E a base?
Citadini - A base é um problema porque essa política de parceria com empresário foi um desastre. É nós temos de mudar. Dá para aproveitar mais, mas precisamos ter o controle dos jogadores. Ter 20%, 30% não é coisa para o Corinthians.
ESPN – E como cortar empresários?
Citadini - A ideia é 100% do Corinthians. Quem não tiver satisfeito vai procurar o Comercial, a Portuguesa. Do Corinthians será 100%. Os clubes grandes europeus fazem isso? Tem empresário com participação com jogador? Se eles podem e a gente não? No Brasil, se o Corinthians não puder, ninguém pode.
ESPN - O que pensa de torcida única em clássicos e qual será seu relacionamento com as organizadas?
Citadini - Torcida única sou contra. Sou contra. É a morte do futebol ter torcida única. Não dá pra imaginar isso no futebol. Acaba até desmotivando. Você tem de ir, ver seu adversário, tirar sarro do seu adversário. Torcida única não dá. Não é futebol. Agora relacionar com torcida não tenho dificuldade. Mas vai ser dentro das bases do Corinthians. Não quero ter uma ou outra torcida. Relação institucional. Sem troca uma mão e outra. Olha dizem que o clube hoje oferece alguma coisa. Se oferece ou não vamos ver depois.
ESPN – Qual será a marca de sua gestão?
Citadini - Eu gostaria de ter uma presidência do Corinthians voltada para grandes questões do futebol. O dia a dia tocamos fácil. Gostaria de voltar para as grandes questões. E o futebol precisa muito de um Corinthians ativo na área de mudanças e reformas. Exatamente, que não fique parado.
ESPN – Como se preparou para ser presidente?
Citadini - De 2004 para cá continuei envolvido com o Corinthians. Tanto que não sou esquecido. Onde eu vou sou procurado. Curso não. Sou homem de fazer curso para futebol? E também os caras que dão curso sabem menos do que eu. Quem fica quatro anos como vice-presidente de futebol do Corinthians aprende tudo. Até mais do que deveria aprender.
ESPN – Fará mudanças no futebol?
Citadini - A princípio não. Até porque está bem.
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Para ver também a participação completa de cada candidato à presidência do Corinthians no Bate-Bola, acesse o WatchESPN.
