Em comunicado divulgado durante a madrugada, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tentou se desvencilhar do espetáculo grotesco que se viu nas cadeiras do Maracanã, antes de Brasil x Argentina. As palavras utilizadas poderiam ter sido, digamos, mais suaves, mas aparentemente não existe a menor preocupação com o decoro. “A organização da partida foi realizada de forma cuidadosa e estratégica pela CBF”, informou a entidade, em mais uma evidência da perda de importância da verdade diante da utilização da informação como arma.
Tente conciliar a frase entre aspas acima e as cenas que adiaram o início do encontro em quase meia hora, ou imaginar como uma afirmação com este nível de esculacho foi recebida pelos torcedores argentinos que levaram uma surra da PM carioca, e, em especial, pelas crianças que choravam nos colos de adultos enquanto a pancadaria preocupava os jogadores visitantes, temerosos de que familiares se machucassem na confusão. A propósito, três perguntas: foi a ausência de parentes de jogadores brasileiros na briga o motivo da permanência da seleção no gramado, ao contrário do que fizeram os argentinos liderados por Lionel Messi? Os diversos torcedores brasileiros que correram riscos de ferimentos graves não mereciam uma atitude? Ou será que tudo é um Brasil x Argentina, até mesmo na contagem de vítimas?
Impressiona a derrota da sensibilidade quando o circo está sob ameaça. A curiosidade instantânea é sobre o que se passa, mas a seguinte não é a respeito das consequências para as pessoas envolvidas, e sim para a realização do jogo. Alguém morreu? Porque houve risco evidente. Repórteres de campo com larga experiência no Maracanã relataram este temor, inédito ali. As imagens mostraram pessoas com medo de esmagamento, o pior cenário possível nesse tipo de descontrole. Qual é o critério para que o evento - um Brasil x Argentina, um show de música... - seja colocado em seu devido lugar frente ao prejuízo humano? Qual é o limiar de dor que leva à conclusão de que é insano ir ver futebol no Maracanã e não voltar?
Passado o susto, celebra-se a sorte como se ela fizesse parte do plano, lembre-se, “cuidadoso e estratégico”. Feridos leves, um torcedor argentino com a cabeça aberta a madeiradas por um policial, nada mais sério. E vamos tratar do jogo, pois afinal a seleção brasileira perdeu pela primeira vez em seu território pelas eliminatórias, a terceira derrota seguida com a atual comissão técnica. Vergonha, vexame, inadmissível. Diniz, o treinador, será responsabilizado por um time excessivamente nervoso, que levou para o gramado o ambiente bélico das cadeiras - de acordo com meios argentinos, Rodrygo teria chamado Messi de “cagón” (covarde) quando a Argentina retornou ao campo -, competiu e perdeu.
Diniz, porém, é um interino, como era Ramon Menezes, os dois treinadores que a seleção brasileira de futebol teve durante o ano de 2023. Seu trabalho, que há poucos dias levou, no mesmo Maracanã - quando também houve violência da Polícia Militar contra torcedores visitantes -, o Fluminense ao troféu da Copa Libertadores, provavelmente necessita de um contato mais duradouro com os jogadores para começar a frutificar. Mas o planejamento da CBF, sempre “cuidadoso e estratégico” em todas as áreas, não lhe dará esse tempo. Conta-se aqui e ali que a mulher de Carlo Ancelotti está adorando a ideia de viver no Brasil.
