Maria Lúcia do Nascimento Magalhães praticamente não chorou a morte do irmão Pelé.
Nem tem tempo para isso. Sua vida é de dedicação total à mãe, dona Celeste Arantes do Nascimento, 100, e ao marido, o ex-jogador de Santos, Corinthians, Grêmio, entre outros, Davi Benedito Magalhães, 78.
Só mesmo um amor celestial pode explicar de onde ela tira essa força descomunal para cuidar da mãe, acamada há mais de dois anos com Alzheimer, com todos os cuidados, como se fosse um bebê.
Aos 78 anos, Lúcia é a irmã caçula da família e uma figura quase anônima para que não faz parte do círculo íntimo dos Arantes do Nascimento. Ao mesmo tempo, é o porto seguro da família e já viu de tudo.
Desde os poucos e fiéis amigos aos traidores, aqueles que penetraram na família com o intuito de tirar vantagem e também aqueles que se passam por “amigos” só para se promover e sumir.
Hoje, na casa de Lúcia vive um casal acolhedor, de coração aberto aqueles que se mostram preocupados com a frágil saúde de dona Celeste. Nessa mesma casa já viveram o tio Jorge, irmão de Celeste, e também foram acolhidos os sobrinhos Edinho e Joshua, filhos de Pelé de casamentos diferentes.
A hóspede mais ilustre do sobrado vive em um dos quartos no andar de cima da casa. Até os 93 anos, dona Celeste se manteve ativa. Ainda saia para frequentar a igreja e passear no quarteirão. A alegria da matriarca da família sempre foi receber as visitas surpresas de Pelé, para ela eternamente chamado de Dico. Foram encontros que se tornaram menos frequentes depois que mãe e filho perderam a mobilidade. Quando o Rei do Futebol começou a usar a cadeira de rodas já não possível para ele subir os degraus para ver a mãe, assim como dona Celeste, já numa cama, não conseguia descer a escada para ver o filho.
As últimas conversas entre os dois aconteceram por telefone, sempre com ajuda de Lúcia. Pelé já lutava contra um problema que começou com a necessidade de colocar uma prótese no quadril. Depois se tornou crônico afetando a mobilidade das pernas. Por fim, descobriu um câncer no cólon do intestino. Dona Celeste sofre com o mal de Alzheimer. Até hoje ela não sabe da perda dos dois filhos (Jair, chamado de Zoca, enfrentou um câncer de próstata e faleceu em 25 de março de 2020).
No dia a dia Lúcia tem que se preocupar com os cuidados gerais com a mãe, que vão desde a alimentação especial, troca de fraldas, banho, passando pelo cuidado com os remédios, a aplicação de soros, além de organizar os horários para acompanhamentos de enfermeiros e fisioterapeutas, todos necessários para o mínimo de qualidade de vida para a mãe já centenária.
São cuidados que geram um alto custo, sempre bancado pelo filho rei enquanto vivo.
Hoje, ninguém sabe como Lucinha está se virando para sobreviver com a perda do irmão e sem o fundamental auxílio financeiro.
O que se sabe e o que se vê é uma mulher que mais parece uma leoa cuidando de um filhote. A diferença é que essa leoa tem 78 anos e seu filhote quase 101.
Certamente só o amor de mãe pode explicar o poder dessa força.
“Esse amor deve ter vindo dos meus avós, principalmente da minha família, porque minha mãe sempre foi muito carinhosa. Desde o começo da nossa convivência, de pequena e tudo, ela sempre foi uma mãe carinhosa, atenta e levando, junto com a minha avó Ambrosina que eu não posso esquecer, esse amor e carinho por nós. Eu acredito que vem daí. Vem dela”, disse Lúcia à reportagem.
De cara com Pelé e Celeste
Nos tempos áureos como jogador ou aposentado dos campos, sempre quando estava no Brasil, Pelé dava um jeito de visitar a mãe e a irmã, em Santos.
Uma dessas visitas, foi registrada por nossa equipe, de forma inusitada e surpreendente.
Era outubro de 2010.
Nossa equipe gravava o último capítulo de “70 vezes Pelé”, uma série de reportagens especiais em comemoração ao aniversário de 70 anos do Rei do Futebol.
À época, imploramos por um depoimento do homenageado. Parecia impossível.
Recebemos um verdadeiro presente de Maria Lúcia e de sua filha, Danielle Nascimento Magalhães Zilli, com o encontro marcado na casa de dona Celeste, no meio da sala.
Aos jornalistas Roberto Salim, Marcelo Gomes e Nilson Pas, Pelé disse que fez questão de estar no encontro para provar, ao lado da mãe, que, embora sua certidão de nascimento apontasse que seu nascimento foi em 21 de outubro de 1940, a verdadeira data era 23 de outubro.
Pelé passou quase uma hora com a nossa equipe, mas disse que não poderia nos conceder uma entrevista exclusiva porque tinha um contrato de exclusividade com uma empresa de comunicação norte-americana. A empresa era responsável pela marca Pelé e, sendo assim, ela é quem autorizava quando ele podia dar entrevistas, atender a imprensa etc. Mas a criatividade do Rei permitiu o encontro e o registro.
A ocasião também marcou a última vez que dona Celeste concedeu uma entrevista.
Na casa de Lucinha, o coração de mãe também nos apresentou tio Jorge, que nunca se casou. Viveu uma vida quase um irmão mais velho de Pelé, já que tinha 10 anos a mais que o sobrinho. Foi ele quem buscou a parteira Maria Café na madrugada de 23 de outubro de 1940 para auxiliar no nascimento do menino Edison --sim Edison com “i”, pois o nome dado pelos pais era em homenagem a Thomas Edison, o inventor da lâmpada incandescente de tantos outros benefícios para humanidade, morto em 1937.
Na casa da mãezona Maria Lúcia também fizemos reportagens sobre o cinquentenário do milésimo gol de Pelé, aliás, foi quando conseguimos entrevistar o cunhado do rei, Davi, avesso à entrevistas, para falar do golaço que ele marcou no mesmo dia em que o Rei marcou o gol 1.000 no Maracanã.
O adeus a Dico
A morte de Pelé foi anunciada na tarde do dia 29 de dezembro de 2022. No dia seguinte, Maria Lúcia, mais uma vez, abriu as portas de sua casa para receber a ESPN e só.
No dia 30, em meio ao turbilhão de emoções, ligações telefônicas e com suas atribuições e cuidados diários com a mãe Celeste, Lucinha entrou ao vivo no SportsCenter.
Lúcida como sempre, deu uma aula de sensibilidade e sabedoria, mesmo num dos momentos mais difíceis de sua vida. Afirmou que com a morte do irmão Dico, Pelé jamais morreria, mas que o futebol morreria um pouco sim, e foi além, ao falar decidir abrir os bastidores do caso Sandra Regina.
“Eu vou te falar um caso, que já faz algum tempo, que ninguém sabe, com relação a Sandra Regina. Ele, quando soube que era o pai da Sandra, pediu para que [a gente] chamasse a Sandra para se encontrar com ela na minha casa pra ele conversar com ela. Então, esse é o fato que depois da conversa foi gratificante, foi uma coisa muito especial que ninguém sabe. Inclusive, depois dessa conversa ela não quis ir com ele no cartório pra confirmar a paternidade. E ela depois de um tempo começou a frequentar a casa da minha mãe, que nós não conhecíamos [esse fato], e veio pedir perdão para a minha mãe. Perdão pra ele e perdão pra minha mãe. Mas aí têm as influências de várias coisas, da família mesmo, porque depois a mãe dela até conversou comigo, né? Envaidecimento, né? Mas tivemos uma convivência muito bacana com ela, ela veio visitar a minha mãe, de sentar no chão pra conversar. E isso aí fez parte de um pedido dele de conversar com ela em casa”, desabafou Lúcia, em meio a dor a irmã de Pelé.
Recado de mãe
Maria Lúcia não foi ao velório do irmão na Vila Belmiro nem na cerimônia de sepultamento no cemitério Memorial, em Santos. Aliás, faz tempo que não sai de casa.
Preferiu se despedir de Dico da sacada da casa vizinha, que anos atrás foi propriedade de Celeste, mas que foi vendida recentemente, como vários imóveis da família.
A convite dela e da filha Danielle, fomos a única equipe de reportagem a acompanhar a despedida da família na frente da casa Real, com uma verdadeira multidão de fãs invadindo o Canal 6.
Minutos antes da passagem do carro de bombeiros com o caixão do irmão, Lucinha chegou, nos abraçou e chorou. Foi a primeira e única vez que a vimos emocionada, praticamente entregue aquele momento de extrema comoção. Na mesma sacada estavam a neta Ester, a cunhada Giza Arantes, viúva de Zoca, e algumas amigas de longa data da família Arantes do Nascimento.
Daquela sacada o que se viu e o que se sentiu nem mesmo um gigante coração de mãe-irmã pode explicar. Foi uma emoção que tomou conta dela e de toda a nossa equipe naquele dia.
"Tenho 33 anos de jornalismo e nunca vi nada igual. Estão cantando para um cara que não morreu, o Pelé está vivo. Com a energia que está rolando nesse momento, temos a impressão que o Pelé está passando sentado em um trono e acenando para todo mundo." Marcelo Gomes#PeléEterno pic.twitter.com/KtlkAkmgZh
— SportsCenter Brasil (@SportsCenterBR) January 3, 2023
Herança real
Nossa última visita a casa de Maria Lúcia aconteceu há uma semana. Faz cinco meses que o irmão Dico foi embora. E a vida da irmã caçula continua a mesma. Sua rotina nada mudou. Dona Celeste continua bonitinha, muito bem cuidada 24 horas por dia pela filha que hoje faz o papel de mãe.
Quem vem visitar Dona Celeste?
Apenas os netos João e Danielle, alguns amigos e Giza, a última esposa de Zoca, sempre muito presente.
Quem aparece para perguntar se a mãe de Pelé precisa de algo como carinho, atenção, apoio financeiro, respeito?
Essa pergunta não tivemos coragem de fazer, pois em briga de família real, não nos metemos nem a pau. Mas torcemos. Torcemos para que o legado do Rei não pare apenas no imenso amor do coração de mãe, que já é lindo demais.
