O Corinthians deve destravar até o fim de 2026 uma “novela” que movimentou os bastidores do Parque São Jorge nos últimos anos.
O clube anunciou ainda em abril que o Arena Fundo de Investimento Imobiliário passará a ter a Asarock Asset Management como responsável por conduzir a gestão dos fundos ligados à Neo Química Arena, enquanto a Genial Investimentos assume a administração fiduciária.
Em entrevista à ESPN, Gabriel Pupo Nogueira, sócio da Asarock Asset Management, detalhou o processo de regularização das demonstrações financeiras da Arena FII, que é o principal instrumento de governança financeira da Neo Química Arena.
No centro dos trabalhos está a resolução sobre uma diferença de lançamentos financeiros na casa dos R$ 100 milhões.
“É importante dizer que a arena está dentro de um fundo imobiliário e que tem um patrimônio totalmente segregado do clube. Não só o patrimônio, como a gestão. O que acontece nesse sentido? Ela tem suas próprias receitas, ela é superavitária”, disse Gabriel Pupo à ESPN.
“A gente vê muitas vezes: 'Ah, o Corinthians, falta dinheiro, falta não sei o que'. Isso não se contamina, não passa pela arena. A arena tem a receita de parte da bilheteria, de toda a locação de alimentos e bebidas, lojas, camarotes, eventos. Isso compõe o caixa da arena e ela usa para manutenção, melhoria, conservação, como se fosse um prédio que precisa da sua manutenção de dia-a-dia. Às vezes parece uma coisa muito complexa, mas no fim é uma administração predial”.
“Muitas vezes o pessoal confunde e fala: ‘Mas e a dívida com a Caixa?’ A dívida é paga pelo clube, ela não é paga pela arena. A arena é garantia da dívida. O clube tem lá suas receitas de venda de jogador, premiação, parte de bilheteria. Essas receitas vão diretamente para a Caixa, que faz lá uma série de divisões”.
“Qual era o problema? A arena veio de administradoras problemáticas. Um primeiro problema que surgiu foi durante a pandemia, inclusive, durante a reestruturação da dívida da arena. Isso atrapalhava muito o dia-a-dia da caixa. Então houve um aditivo ao contrato e que visou simplificar esse sistema e criou-se essa situação que estou falando, a divisão de o que é clube e o que é arena”.
Segundo balanços patrimoniais de 2022, o Corinthians teria R$ 99,54 milhões a pagar à Arena FII, valor que se manteve nos lançamentos de 2023.
A alteração aconteceu por conta de a Reag, administradora anterior do fundo, estar envolvida com as investigações da Operação Carbono Oculto pela Polícia Federal, sendo posteriormente alvo de decretação da liquidação pelo Banco Central.
“A administração da arena vinha sendo criticada porque tinha um problema com os balanços do fundo. O que que era esse problema? Um lançamento contábil errado”.
“Teve a administradora anterior, a Reag, e antes dela a Apex, que é um grupo estrangeiro, empresa grande, mas que lançou erradamente uma receita que deveria entrar, de acordo com a visão dele, com o contrato anterior. Então, no contrato anterior, o fundo teria a receber um valor [R$ 100 milhões], e esse valor não veio porque teve um aditivo. O que que a administradora anterior fez? Ela falou assim: ‘Bom, vou fazer o balanço, tenho o contrato, tenho os 100 milhões a receber’. Teve a reestruturação, mudou a administradora, e ela [Reag] começou a notificar a anterior [Apex]. Ficou aquele imbróglio. Aí vem o auditor e fala: ‘Olha, esse balanço está errado, porque não consigo conciliar, não enxergo esses R$ 100 milhões’”.
“O que foi feito, para simplificar a conversa: foi juntar todo mundo na mesa, mostrar o aditivo, chamar o auditor, chamar o clube, chamar a Caixa, chamar o administrador e falar: ‘Gente, esses R$ 100 milhões não existem, era um lançamento, que era uma expectativa de receber esse dinheiro, e que houve um aditivo que fez com que essa expectativa de direito não se materializasse. Então, o que tem que ser feito agora? Tem que dar baixa disso. Desconsidera e limpa o balanço do clube”.
Segundo Gabriel Pupo, a expectativa é de que esse ajuste contábil seja concluído no prazo de 180 dias, entre novembro e dezembro.
“O movimento que estamos fazendo é dessa limpeza, que naturalmente depende de terceiros. Isso tem que voltar no tempo. Para consertar, não adianta eu consertar em 2025. Eu tenho que voltar lá para trás, consertar e vir de forma correta até 2025. Na hora que foi fazer a transferência do fundo, está lavrado na ata e combinado com o auditor que em até 180 dias eles têm que nos entregar as demonstrações financeiras arrumadas, ou seja, com a baixa dos R$ 100 milhões, tirando a opinião negativa do auditor e entregando as demonstrações financeiras limpas”.
“A partir do momento que o clube tem a demonstração financeira limpa, ele está credenciado, junto ao mercado, a pensar em outros voos. Se vier a pensar em abrir capital, trazer investidor, passa a ser um cenário muito mais viável, porque agora tem um cenário saudável, em termos de contas. A arena é superavitária, tem R$ 20 milhões no caixa. Ela não precisa de dinheiro do clube, ela paga todas as suas contas, ainda sobra”.
O acordo atual entre Corinthians e Caixa foi assinado em 2022, ainda sob a gestão de Duilio Monteiro Alves. No centro da renegociação esteve a ampliação da carência, com o clube iniciando o pagamento dos juros pelo repasse a partir de 2023.
A quitação sobre o valor principal da dívida começou a ser feita apenas em 2025 sob a taxa de juros CDI+2%.
