Eles vivem como uma família brasileira comum, próximos à praia, na cidade de Santos.
Mas aqueles sobrados quase germinados fazem parte de um dos raros locais onde Pelé pode ser simplesmente “Dico”, como foi apelidado na infância.
Neste espaço, Pelé pode andar de um lado para o outro da casa sem ser assediado ou cercado de repórteres e fãs.
Ali, Dico se comporta como mais um entre os mais de 220 milhões de brasileiros. Pode andar com a roupa que quiser, pode ficar descalço e pode até bater um futevôlei com o cunhado, quatro anos mais novo.
Neste espaço vivem a Rainha-Mãe, Dona Celeste, a irmã do Rei, Maria Lúcia do Nascimento Magalhães, e o cunhado de Pelé, Davi Benedito Magalhães, um jogador aposentado dos gramados há mais de 40 anos.
Durante toda uma vida, o casal Davi e Lúcia cuidou de Dona Celeste, hoje prestes a completar 95 anos, e do tio Jorge Arantes, infelizmente falecido aos 89 anos, em maio de 2019.
Nosso primeiro encontro com a família real aconteceu no mês de outubro, quando começamos o processo de produção e captação da série especial de reportagens: “Memórias do Milésimo”.
Mas, a primeira vez que nos encontramos com Lúcia e Davi, quem intermediou a conversa foi a filha mais velha do casal, a advogada Danielle Nascimento Magalhães Zilli. Naquela ocasião, em 2009, entrevistamos Lúcia e Tio Jorge, que falaram sobre as histórias do menino Dico que completava, à época, 70 anos de vida.
No segundo encontro, também para a gravação dos últimos capítulos da série “70 Vezes Pelé”, chegamos à casa de Davi e Lúcia com a expectativa de gravar o depoimento com Dona Celeste, para conferir se o filho Pelé havia nascido no dia 21 e não no dia 23, como a certidão de nascimento do rei mostrava.
Naquele dia, ao lado do grande e querido jornalista Roberto Salim, fomos surpreendidos por uma entrada triunfal, só para a gente, de Pelé. Ao lado de Dona Celeste, eles saíram pela porta da cozinha, onde estavam escondidos, para nos encontrar na sala, onde estávamos à espera de algum depoimento. Jamais imaginávamos que iríamos falar com Pelé, ali, em um dos portos-seguros do Rei. Ou seja, na casa do cunhado Davi e da irmã Lúcia.
Lembro-me como se fosse hoje que eu e Salim ficamos atônitos, anestesiados com a surpresa que, literalmente, foi um prêmio para as nossas carreiras de jornalistas. Claro que ficamos boquiabertos e, durante os 40 minutos que o Rei permaneceu com a gente, ouvimos atentamente cada palavra, acompanhávamos cada gesto, cada olhar direcionado para a gente, pois presente assim tem que ser aproveitado e contemplado na íntegra e sem cortes, não é mesmo?
O Rei Davi
Além de estar com Lúcia, Dona Celeste e Pelé, naquelas duas oportunidades em que estivemos lá conhecemos e nos encantamos com um cara muito simples, humilde e extremamente sábio. O nome dele é Davi Benedito Magalhães, o único cunhado de Pelé.

Lucia e Davi, irmã e cunhado de Pelé, respectivamente (Arquivo pessoal)
Confesso que, nestas duas vezes, quase me ajoelhei para que ele nos desse uma entrevista, afinal, Davi foi um jogador de futebol dos bons. Iniciou a carreira no XV de Jaú, onde conheceu Lúcia e começou a paquerar a irmã do Rei, passando por Noroeste, Ferroviária, Cruzeiro, Grêmio, Corinthians, Santos, entre outros.
Edu, ex-ponta-esquerda do Santos e da seleção brasileira, garante que Davi era habilidoso e jogava muito com as camisas 7, pela ponta-direita, como se conhecia tempos atrás.
Nas duas oportunidades que estivemos ao lado de Davi, ouvimos histórias fantásticas de um cara que jogava bem, mas, claro, sofria muito ao ser comparado com o Rei do futebol. À época, Davi nos contou o gol que ele havia marcado pelo Grêmio contra o Santa Cruz, na mesma noite em que o cunhado Pelé brilhava no Maracanã ao fazer o mitológico gol 1000.
Nosso desafio era gravar esse depoimento, mas, gentil e educado, como sempre, Davi nos disse que não gravaria nada, pois nunca fez questão de aparecer, nem de falar para a mídia que era cunhado do Rei. Hoje, depois de 52 anos casado com Lúcia, se considera praticamente irmão do Rei.
A verdade é que, há 10 anos, para não complicar uma amizade que se iniciava, tentamos de tudo, com todos os argumentos, mas não conseguimos gravar com Davi.
Apelei e peço desculpas
O encontro de hoje foi bem diferente do que esperávamos. A princípio, depois de ter falado com Lúcia e Davi ao telefone, ambos decidiram receber a nossa reportagem, apesar de estarem muito ocupados devido aos problemas de saúde de Dona Celeste, que hoje carece de cuidados 24 horas ao dia.
Com dia da entrevista confirmada, seguimos para a cidade do Rei, ali perto do Posto 6.
Chegando lá, quem nos recebeu foi Maria Lúcia, que gosta de ser chamada apenas de Lúcia.
Foi um encontro maravilhoso e, de cara ela nos perguntou se gostaríamos de ver a Vó.
Seguimos atrás dela até a cozinha, a mesma de onde Dona Celeste e Pelé saíram, nos surpreendendo, dez anos atrás.
Toda serelepe, Dona Celeste nos recebeu com sorrisos e abraços, como se fôssemos grandes e velhos amigos. A cena, com certeza, vai ficar eternamente em nossas memórias.
Depois que a deixamos com a cuidadora, pensei: “Vida longa e muita saúde a mulher que colocou no mundo o maior jogador de futebol da história do planeta.”
Em seguida voltamos para a sala, e logo perguntei se Davi estava lá. Lúcia me disse que ele desceria para conversar com a gente, mas que já tinha avisado que entrevista... nem pensar.
Falei para a Lúcia que o não a gente já tinha e que não custava nada lutar pelo sim. Ela balançou a cabeça dando risadas e me disse: “Boa sorte, Marcelo.”

Pelé ao lado do cunhado Davi (Arquivo pessoal)
Começamos o cenário e a posicionar as câmeras, quando Davi desce as escadas. Generoso como sempre, logo o cunhado de Pelé começou a contar histórias. E ouvimos histórias deliciosas daqueles áureos tempos dourados da bola. Sentado à minha frente, depois de uns 30 minutos de conversa, soltei essa para Davi: “Olha, irmão, do mesmo jeito que você está contando essa história para a gente, dá só uma olhada, a câmera está do lado e você nem se incomodou. É dessa forma que a gente vai conversar gravando, beleza?”, perguntei.
Logo vi o nosso repórter cinematográfico, Marcelo D’Sants, jogando o cabo do microfone por baixo da mesa em direção a Davi, que, de canto de olho, conferia a movimentação estranha.
Sem titubear, Davi me disse, pela enésima vez que não iria gravar. Foi aí eu apelei: “Rapaz, estou com 50 anos de idade e jamais deixei de gravar com um entrevistado. Por mais difícil que ele fosse, sempre consegui. E gostaria de falar o seguinte: se eu morrer amanhã e não tiver feito a entrevista com você, certeza de que meu espírito ficará vagando aqui na sua casa”, decretei.
Apelando assim, Davi não encontrou outro argumento e deu a tão esperada entrevista que você confere na reportagem, em vídeo, que está lá em cima, no início da página.
No mais, foi um prazer imenso escutar as histórias de bastidores de Lúcia e Davi no refúgio da família, um dos poucos e raros lugares onde Pelé é chamado de Dico, apelido de infância, ou simplesmente de Edison, com “i”, mesmo, como está escrito na certidão de nascimento do menino que recebeu o nome em homenagem a Thomas Edison, o inventor da luz elétrica.
