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Libra ou escorpião? Como uma ligação 'mudou' o aniversário (e o signo) de Pelé

O dia oficial do nascimento do Rei do futebol, pelo menos para a família Arantes do Nascimento, é 23 de outubro de 1940. Mas, no registro de nascimento de Pelé, acreditem: a data que aparece é dia 21.

A descoberta surgiu quando, por intermédio de um telefonema, consultamos o cartório de Três Corações, cidade mineira, berço do maior craque do futebol mundial de todos os tempos.

A informação despertou a ideia de realizarmos nos canais ESPN uma série de reportagens com 70 histórias da vida de Edson Arantes do Nascimento. A ideia, “maluca”, só poderia partir de um jornalista “maluco” e genial como Roberto Salim, um dos maiores com quem já trabalhei, o criador do emblemático programa “Histórias do Esporte”.

Depois da informação coletada com a advogada e oficial do cartório de registro de Três Corações, Deise Caixeta, decidimos então começar a série que seria como uma novelinha diária, com histórias inéditas e reveladoras dos 70 anos de vida de Pelé.

E a primeira delas, claro, começou com a nossa grande descoberta. Para nós, o Rei já não era mais um cidadão do signo de escorpião, e sim de libra. Curioso foi descobrir, dias após a estreia da série, em 1º de outubro de 2010, que Pelé não perdia um só capítulo que, às vezes tinha três, quatro ou até cinco episódios por dia.

Neles, contamos histórias desde a primeira namorada do Rei em Bauru, no interior de São Paulo, passando por entrevistas com o amigo que quase morreu afogado com ele em uma represa do interior, a dupla infernal com Coutinho, as histórias de bastidores de um Pelé sonâmbulo, a casa que ele nasceu e que seria reconstruída em Três Corações... Enfim, foram 70 episódios sobre a trajetória de um fenômeno que dificilmente veremos novamente em nosso planeta.

Na Redação, foi formada uma verdadeira linha de produção para a realização da série, ideia de Salim, avalizada e bancada por outro gênio do jornalismo brasileiro, José Trajano. Nas reportagens, além de mim e Salim, contamos com o grande Helvidio Mattos. Na edição de texto, outros dois jovens e competentes jornalistas, Renato Senise e Fábio Calamari.

Lembro que, à época, ambos me falavam que até sonhavam com Pelé, de tanto que estavam envolvidos na confecção da série de reportagens especiais.

E assim tocamos as reportagens de 1º até 23 de outubro, quando, finalmente, fomos premiados com uma entrevista exclusiva do Rei e de Dona Celeste, que nos receberam na casa de Maria Lúcia, a única irmã de Pelé, para tirar, definitivamente a dúvida: Pelé nasceu no dia 21, como estava na certidão de nascimento da qual tiramos uma cópia, ou no dia 23, como o próprio diz ter nascido?

A verdade é que, naquele dia, eu e Salim, ao lado do repórter cinematográfico Nilson Pas, não desconfiávamos que o filho de Dona Celeste estaria escondido na mesma casa onde estávamos no Canal 5, na cidade de Santos.

Em contato com Maria Lúcia, o tio Jorge Arantes e a sobrinha Danielle, nossa expectativa é que conseguiríamos uma entrevista exclusiva com a mãe do Rei do futebol para esclarecer a dúvida e fechar o último capítulo da novelinha da vida real “70 Vezes Pelé”.

Acontece que, de repente, quando estávamos sossegados, sentados na sala da casa, a porta da cozinha se abriu e, como se fosse um prêmio de jornalismo para a nossa equipe, aparecem Pelé, com a filha de Danielle, sua sobrinha-neta no colo, e, ao lado dele, Dona Celeste. Se estivéssemos em pé, com certeza cairíamos de tanta emoção.

Lembro bem de ver Salim, um jornalista que havia feito dezenas de entrevista com Pelé, de queixo caído e pasmo, sentado no sofá. Eu mesmo não sabia o que fazer e disparei a falar, com certeza um monte de asneira, pois a única coisa que me veio na hora foi uma vontade incontrolável de andar de um lado para o outro. Minha vontade era de pular, dar socos no ar, como ele tanto fez ao comemorar suas obras de arte em formas de gols.

Por contrato, Pelé não podia nos dar entrevista. Por ali ficamos uns 30 minutos conversando com ele, ouvindo histórias e matutando como ele poderia participar da nossa reportagem sem que fosse importunado ou cobrado pela empresa detentora dos direitos da sua imagem e, por extensão, de quase sua vida.

De repente, ele veio com a seguinte ideia: “Gente, faz de conta que vocês estão gravando normalmente com a minha mãe, e eu chego sem saber de nada para dar um recado. Aí eu falo de vez que eu nasci no dia 23, e não no dia 21. O que vocês acham?”, perguntou o Rei.

Sem questionar absolutamente nada, topamos. Afinal de contas, como diz Gil, ex-atacante do Corinthians e do Cruzeiro, nessas horas vale quase tudo, não é?

Dito e feito. Pelé entrou em cena, falou com a mãe. Insistiu em afirmar que nasceu no dia 23 de outubro e foi embora passando pela porta da cozinha, de onde surgiu de surpresa. Dona Celeste, que não dava entrevista há anos, segundo a família, por causa de um trauma que viveu quando uma época a equipe do "Fantástico" transformou a casa dela em um verdadeiro estúdio de televisão, nos recebeu com 85 anos de idade e com uma humildade e lucidez de causar inveja.

Dona Celeste Arantes do Nascimento, em um breve depoimento, disse: “Meu filho nasceu no dia 23 de outubro de 1940. Podem falar o que quiser, mas ele saiu de mim e nada melhor do que eu, que tive ele, para confirmar essa informação”, decretou.

No mesmo ano, poucos dias antes desse emblemático encontro, gravamos com o irmão de Dona Celeste. O tio Jorge Arantes tinha 80 anos e nos deu a mesma versão que encontramos na certidão de nascimento do menino Dico, como Pelé é chamado até hoje pela família.

“Eu fui buscar a parteira, Dona Marta, para fazer o nascimento de Pelé. Ele veio ao mundo na madrugada de 21 de outubro de 1940. Eu tinha 10 anos”, relembrou Tio Jorge.

Infelizmente, o único tio vivo de Pelé não está mais entre nós. Tio Jorge morreu em maio desse ano, aos 89 anos, de causas naturais.

Para Dona Celeste, o fato de o filho ter sido registrado em data errada não faz diferença, pois naquela época esse tipo de confusão ao registrar os filhos era muito comum.

Nos registros do cartório aparece a informação de que Dondinho, o pai de Pelé, apareceu por lá para registrar o filho no dia 19 de novembro de 1940. E essa data nos remete a outro fato histórico, que aconteceu 29 anos depois do nascimento do menino Rei: o milésimo gol de Pelé. O tento histórico ocorreu no mesmo dia, no mesmo mês!

Taí a nossa inspiração para a nova série dos canais ESPN que já estamos preparando e que logo estará disponível no WatchESPN. Vem aí o “Memórias do Milésimo”. Serão oito capítulos com histórias inéditas daquele feito inimaginável do maior jogador de futebol de todos os tempos.

E quer saber de uma coisa?

Para nós, pouco importa se Pelé nasceu no dia 23 ou no dia 21. O que vale mesmo é que só nós temos esse cara, um verdadeiro patrimônio da história do esporte e da história do nosso Brasil.