O meio-campista Edenilson, do Internacional, acusou o lateral Rafael Ramos, do Corinthians, de injúria racial durante o empate entre as equipes pelo Brasileirão
O empate em 2 a 2 entre Internacional e Corinthians ficou marcado pela acusação de injúria racial feita pelo volante Edenilson, que relatou ter ouvido o lateral-direito Rafael Ramos tê-lo chamado de ‘macaco’ em lance já no segundo tempo da partida disputada em Porto Alegre, na noite do último sábado (14).
Após lance disputado aos 30 minutos da etapa complementar, o meio-campista do Colorado reclamou ao árbitro Bráulio da Silva Machado que o adversário teria preferido a ofensa, fato que paralisou a partida.
Edenilson não falou do assunto na saída do gramado e foi representado por dirigentes, em nota oficial e também entrevista coletiva, após o apito final.
Policiais civis foram ao estádio para ouvir depoimento do jogador do Inter, que manteve as acusações, e também falaram com o lateral português, que ficou retido enquanto a delegação alvinegra deixava o estádio em Porto Alegre.
Os agentes ainda colheram os depoimentos da arbitragem, que relatou os fatos ocorridos em campo na súmula oficial da partida.
Em entrevista após a partida, o atacante Jô foi questionado sobre o assunto. “Ele (Edenilson) acusou o Rafa de racismo. O Rafa falou que não disse. Disse outra palavra no português de Portugal, que é diferente, não sei pronunciar e qual foi”.
“Mas ele disse que não teve ofensa racista. Ficou todo mundo confuso, mas agora vamos ver o que aconteceu realmente. Ele falou que parecia (com a palavra macaco), mas não podemos acusar alguém sem ter certeza", disse o atacante ao Premiere.
Relatos confirmados por diversas partes no Beira-Rio revelaram que Edenilson e Rafael Ramos conversaram no vestiário do estádio.
O diretor de futebol Roberto de Andrade e o técnico Vítor Pereira falaram sobre o assunto e prestaram apoio a Rafael Ramos, apontando que o defensor foi mal interpretado por Edenilson no vocabulário e que não proferiu ofensas racistas ao adversário.
“O que ele falou na verdade tem até palavrão no meio. Posso falar aqui? Ele falou: 'Mano, caralho'. É um menino bom, assim como o Edenilson também é. Não estamos dizendo que um ou outro está mentindo, nada disso. Mas, às vezes, você fala alguma coisa rápido, ele (Rafael) tem sotaque português, então às vezes as pessoas entendem outra coisa. Eles conversaram nos vestiários e, aparentemente, ficou tudo resolvido”, disse Roberto.
Em pronunciamento no Beira-Rio, Emílio Papaléo Zin ressaltou a "conduta exemplar" e afirmou que o volante "não se prestaria a esse tipo de 'encenação' se não tivesse se sentido atingido".
“Ele (Edenilson) entendeu outra coisa, por isso se deu esse fato. O Rafael pediu desculpas ao Edenilson se ele entendeu outra coisa, mas falou que não disse aquilo que o Edenilson alegou. Agora, fica na consciência dele (Edenilson) resolver o que vai fazer”, completou.
O primeiro a se manifestar oficialmente pelo lado do Internacional foi o vice-presidente Emilio Papaléo, do Internacional, que demonstrou apoio ao jogador.
“Nós acreditamos. Independente das declarações dadas do outro lado, nós acreditamos no nosso atleta. Nos solidarizamos com ele. Como clube e instituição nós estamos apoiando o Edenilson em todas suas atitudes”, disse. “O internacional lamenta o ocorrido e não admite, não compactua com racismo e nenhuma das suas formas e está ao lado do Edenilson se colocado à disposição para o que for necessário”, completou o dirigente.
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O clube ainda se posicionou em nota oficial.
“Mais uma vez, um lamentável caso de racismo é registrado no futebol nacional. Desta vez, em nossa casa, contra um jogador do Internacional. Na partida deste sábado, pelo Campeonato Brasileiro, Edenilson relata ter sofrido injúria racial por parte de Rafael Ramos, atleta do Corinthians”, escreveu a equipe gaúcha.
“É inadmissível que ainda ocorram fatos desse tipo em 2022, não há espaço para o racismo em nossa sociedade. O Clube do Povo reitera que repudia todo e qualquer ato de preconceito e apoia o seu atleta”, completou.
Horas após o jogo, o volante foi às redes sociais e manteve a versão de que ouviu a palavra "macaco".
“Boa noite pessoal. Passando aqui apenas para me pronunciar, eu sei o que ouvi. Realmente não reagi provavelmente da forma que deveria, pois foi a primeira vez que isso aconteceu comigo e me incomoda o fato de ficar chamando atenção de outra forma que não seja jogando futebol (quem me conhece sabe). Ser xingado pelo tom da minha pele, minha reação foi a de não paralisar a partida, pois o jogo estava bom e, ao mesmo tempo, eu não queria que tomasse a proporção que tomou justamente por nunca ter passado por isso”, publicou em suas redes sociais.
Durante o empate em 2 a 2 entre Internacional e Corinthians no Beira-Rio pela 6ª rodada do Brasileirão, o volante Edenílson relatou que o lateral português Rafael Ramos cometeu um ato de racismo contra ele na segunda etapa.
“Eu procurei o atleta para que ele assumisse e me pedisse desculpas, afinal, todos erramos e temos o direito de admitir, no meu modo de ver as coisas. Mas o mesmo continuou a dizer que eu havia entendido errado. Eu não entendi errado, o procurei pelo respeito que tenho por alguns integrantes do Corinthians e para que ele pudesse ter uma chance de se redimir, pois independente da nossa cor o caráter falará mais alto. Enfim, peço desculpas por não estar preparado para reagir a algo desse tipo”, concluiu.
Presidente do Internacional, Alessandro Barcellos detalhou os bastidores da conversa entre Edenilson e Rafael Ramos, confirmando a disponibilidade do meio-campista colorado em ouvir a versão do português sobre o ocorrido.
“Isso, inclusive, está no depoimento. O Edenilson manifestou o interesse de conversar com o atleta para que tivesse a oportunidade, naquele momento, de ele se retratar, mesmo que internamente, olho no olho. Infelizmente, o atleta nega que tenha falado e o Edenilson, diante disso, tomou a decisão, então, de fazer esta denúncia, esta ocorrência, para que esses fatos não se repitam”.
“A gente tem confiança que o Edenilson, pela sua história, pela sua trajetória, pela pessoa que é, jamais faria desse episódio diferente do que realmente ele está relatando. Então, é lamentável isso, que fique como um momento que a gente apague da história do futebol e que a gente possa tirar daí lições tão importantes para que a gente possa ter um esporte sem preconceito”.
“Eu não sei agora quais são os próximos procedimentos. O delegado está ouvindo, inclusive o árbitro da partida deve escutar, também, o atleta e tomar a decisão que cabe nesse momento à autoridade policial. Também temos, aqui no estádio, o juizado e não sei se isso também vai ser acionado”.
Após o trabalho da polícia civil, Rafael Ramos acabou detido em flagrante delito no estádio, e só foi liberado após o pagamento de fiança, com valor estipulado em R$ 10 mil.
Acompanhado por advogados após o clube arcar com a quantia da liberação, o lateral-direito do Corinthians falou à imprensa sobre as acusações de ter cometido injúria racial, e garantiu não ter proferido a palavra macaco e que foi um mal-entendido entre as partes.
“Estou aqui com a consciência e cabeça limpa para explicar o que aconteceu. Foi puramente um mal-entendido entre mim e o Edenilson. No fim do jogo estive com ele e tivemos uma conversa tranquila, onde expliquei o que tinha acontecido. Ele explicou o que realmente entendeu, que não é verdade. Eu expliquei a verdade daquilo que eu tinha dito. Foi isso que aconteceu. Tivemos uma conversa tranquila. Ele mostrou um receio de se passar por mentiroso, e aí eu falei que ele não é um mentiroso, apenas entendeu as palavras erradas. Apertamos a mão e desejei ele boa sorte”, afirmou Rafael antes de deixar o Beira-Rio, já na madrugada deste domingo.
Em nota oficial, o Corinthians também se manifestou e disse repudiar toda e qualquer forma de racismo.
“O Corinthians reafirma que, coerente com seus 111 anos de história, repudia e não compactua com o racismo. O atleta Rafael Ramos foi ouvido pelo clube e deu versão diferente do incidente no Beira-Rio, durante a partida contra o Internacional pelo Brasileirão 2022”, diz a nota.
“O pagamento de fiança não implica admissão de culpa, permitindo ao atleta que se defenda em liberdade no inquérito. Clube e atleta continuarão a colaborar com as autoridades, certos de que tudo será esclarecido o mais rapidamente possível”, finaliza o documento.
Pelas redes sociais, Rafael Ramos voltou a falar do caso.
“Há muito pouca coisa nas nossas vidas que temos certezas absolutas. Esta é uma delas. Não fui, não sou e nunca serei racista. Graças a Deus me educaram com a plena consciência de que todos somos iguais nesta vida, com os mesmos direitos e os mesmos deveres”, disse o português em comunicado postado em seu Twitter.
“Por isso, com esta certeza, fui explicar ao meu colega de profissão. Sempre me pautei por uma postura correta em toda a minha carreira, e não iria ser de outra forma agora. Que este caso tenha servido para que este tema seja novamente levantado, e que possamos todos reafirmar: racismo não!”, finalizou.
