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Bruno Guimarães exclusivo: da incerteza no início pelo Newcastle à idolatria em apenas três meses

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Bruno Guimarães elogia Joelinton e fala da mudança de posição do colega de Newcastle: 'Virada de chave na carreira' (0:52)

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Em entrevista exclusiva à ESPN, Bruno Guimarães abriu o jogo sobre chegada à Inglaterra, adaptação meteórica ao Newcastle e seleção brasileira: 'As coisas estão acontecendo muito rapidamente'


Bruno Guimarães foi apresentado pelo Newcastle em 4 de fevereiro. Quatro dias depois, foi relacionado para o jogo contra o Everton, pela Premier League, e estreou aos 46 minutos do segundo tempo na vitória por 3 a 1 em casa. Na rodada seguinte, diante do Aston Villa, saiu do banco apenas aos 47 minutos já da etapa final. Mais uma partida, contra o West Ham, e pouco mudou ao entrar em campo aos 43 minutos da segunda etapa.

Contratado por 42 milhões de euros, estrela do Lyon na França, Bruno chegou a se questionar em alguns treinamentos sobre a mudança que fizera. 'O que estou fazendo? Não estou jogando', pensava consigo mesmo.

A paciência e a confiança no técnico Eddie Howe se justificaram. O meio-campista, com somente três meses de clube e 13 jogos disputados, já marcou quatro gols, deu uma assistência, foi fundamental na arrancada da equipe no Campeonato Inglês, ganhou música da torcida e se tornou uma febre em Newcastle upon Tyne, cidade de 300 mil habitantes no norte da Inglaterra, apaixonada pelo clube local e tudo que o cerca.

“Foi uma adaptação difícil, completamente diferente. É a liga mais difícil do mundo, sem dúvidas. As primeiras duas semanas foram bem complicadas, mas eu tinha confiança no treinador. Ele conversou bastante comigo, disse que queria que eu entendesse como funciona a Premier League, queria que eu começasse alguns jogos no banco. Foi bom para a minha adaptação, mesmo no começo sem entender muito, porque quando você chega, já quer jogar de qualquer jeito. E comigo não foi diferente”, explicou o meio-campista de 24 anos, em entrevista exclusiva à ESPN. “Ele me dizia que eu iria jogar, me pedia calma, falava para conversar com todos”.

Eddie Howe, treinador do Newcastle, também faz parte desse novo momento do clube, comprado por um consórcio saudita ligado ao governo do país árabe em outubro do ano passado.

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Bruno Guimarães fala da adaptação à Premier League e projeta futuro do Newcastle: 'Queremos o top 6'

Meia do Newcastle e da seleção brasileira conversou com o comentarista Gustavo Hofman

“Já atingimos nosso objetivo principal que era livrar o Newcastle do rebaixamento. Fizemos 43 pontos, estamos na nona colocação e tivemos uma arrancada histórica. Com os novos donos, o projeto para a próxima temporada é muito interessante. Começa uma linda história”. Quais seriam os próximos objetivos? Bruno é bastante ousado.

“A gente quer entrar no top 6. Brigar por Europa League, quem sabe por Champions. Sabemos que não é de um dia para o outro que vai virar um top 7, tem que provar no dia a dia, nos campeonatos, mas esperamos o melhor. Espero que possamos formar um grande time, vai depender dos reforços, quem vai chegar, quem vai sair. Sou bem otimista, espero que a gente possa brigar por Europa League, quem sabe Champions”.

Relação com torcida e ídolos

Não é absurdo afirmar que, apesar do curto tempo, Bruno Guimarães já se tornou um dos ídolos da torcida em Newcastle. A música cantada nas arquibancadas do St. James' Park fiz que Bruno é mágico, poderia ter assinado pelo Arsenal, quis jogar para o Eddie e vestir preto e branco.

“Poucas equipes na Inglaterra têm uma torcida como o Newcastle, jogar contra nós em casa é muito difícil. Sinceramente não esperava tanto e tão rápido. Onde eu vou é uma loucura, uma doideira, em restaurante, no estádio... Sofro uma falta a torcida fica 'Bruno, Bruno', então é algo que eu não tinha vivenciado ainda. Fui muito ídolo no Athletico, creio que seja o mesmo nível aqui. Estou nas nuvens”. É impressionante como, a cada jogo, essa 'doideira' relatada pelo meio-campista é perceptível nas arquibancadas, nas estações de metrô e nos bares ao redor do estádio.

A relação se tornou muito forte nas redes sociais também, onde torcedores publicam mais versões de música para o brasileiro, mostram camisas com o número 39, celebram nos pubs da cidade e pulam nas águas geladas para comemorar os ótimos resultados.

“Algumas coisas eu consigo ver. Não dá para ver tudo, porque é muita coisa. Então quando vejo algo interessante, uma criança cantando a música ou vestindo a minha camisa, eu curto, deixo um comentário”.

Foi justamente pela internet que o meio-campista brasileiro teve uma de suas interações mais importantes desde quando chegou na Inglaterra. Alan Shearer defendeu o Newcastle de 1996 a 2006 e se tornou o maior artilheiro na história do clube com 206 gols.

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No caminho de Liverpool e City, Bruno Guimarães responde se Newcastle pode 'atrapalhar' briga pelo título da Premier League

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“Quando assinei com o Newcastle, no primeiro dia ele já me seguiu e mandou mensagem de boa sorte. Ele é uma lenda, maior artilheiro do Newcastle, sem dúvida o maior jogador, então pra mim é gratificante. Ele me seguiu no Twitter, eu segui de volta, às vezes trocamos mensagens. Ter o apoio do principal nome do clube te dá confiança a mais, com certeza”.

Por falar em lendas do futebol inglês, há outra com a qual Bruno mantém contato, mas nesse caso há bem mais tempo. Assim como o jogador do Newcastle, Fernandinho é volante e começou no Athletico Paranaense, além de ter vestido a camisa da seleção. Considerado por muitos o maior brasileiro na história da Premier League, quatro vezes campeão com o Manchester City, o veterano jogador anunciou recentemente que esta deve ser sua última temporada na Inglaterra.

“Desde quando eu surgi no Athletico Paranaense ele fez questão de me mandar mensagem, trocar ideia comigo. Eu o admiro, ele é uma lenda aqui para a torcida do City, para o futebol inglês. É um cara que admiro bastante pela carreira que fez, por ter começado no Athletico, assim como eu. Espero que ele possa voltar para casa, voltar para o Furacão”.

Estrutura e vida familiar

Neste sábado (30), às 8h30 (de Brasília), com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+, Bruno Guimarães tem compromisso marcado com o Newcastle. Aliás, um dos compromissos mais complicados do futebol mundial na atualidade: Liverpool. Nada, porém, que o deixe ansioso como o que está por vir no domingo, quando descobrirá o sexo do bebê que espera com a esposa Ana Lídia. Bruno finalmente achou uma casa para alugar, após algumas semanas vivendo em um hotel e nos últimos dias na casa de seu empresário, Alexis Malavolta, em Newcastle, o que mexeu com sua rotina de trabalho extracampo.

Os pais do jogador também estão na cidade, assim como um fisioterapeuta particular e seu personal trainer, levados por Bruno Guimarães para a Inglaterra.

“O Newcastle tem um fisioterapeuta que nos passa todas as informações, nível de GPS, o que foi o treino, o que fizemos na academia, o que tratei no clube para o meu fisioterapeuta e assim organizamos a planilha. Tem dia que eu tenho que ir para a academia, outros só massagem, é algo que caminha muito bem e o Newcastle dá essa liberdade. No nível de intensidade que tem a Premier League, você precisa de algo a mais. Estudar os adversários, se recuperar bem, alimentar melhor, é algo que estou dando valor agora na minha carreira. Sou um cara que entende bem as propostas de cada coisa, e sei que isso vai me fazer bem”, explica.

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Bruno Guimarães conta como foi chamar atenção de lenda do Newcastle e brinca sobre relação com a torcida: 'Uma doideira'

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Bruno realmente possui um perfil muito familiar, caseiro, além de ser um profissional muito dedicado. Como ele mesmo admitiu, agora entende melhor a exigência da profissão que escolheu no mais alto nível possível. Mesmo assim, ele ainda consegue tempo para brincar com seus cachorros, Ragnar (um Golden Retriever) e Mel (uma Labradora), além de estudar idiomas.

O desembarque na França aconteceu no final de janeiro de 2020, após o Lyon pagar 20 milhões de euros ao Athletico. Poucas semanas antes do início da pandemia em todo mundo. Isso fez com que tivesse muito tempo livre nos primeiros meses de França, e que foram muito bem aproveitados por ele para aprender francês. Larissa Rosa, hoje com 22 anos, foi a professora nas aulas on-line, e a responsável pela surpresa que Bruno causou quando, na retomada dos treinos e jogos da Ligue 1, apareceu dando entrevistas fluentemente em francês.

De inglês ele tinha apenas o básico, nada além do que alunos brasileiros aprendem nas escolas. Larissa foi chamada mais uma vez, agora com a missão britânica.

“Para ser bem sincero, tive mais facilidade no francês do que estou tendo no inglês, porque no meio da pandemia fiquei em casa e era série, videogame ou estudo. Agora tenho que conciliar as aulas de inglês, meus trabalhos fora de campo, treinar, jogar, está sendo um pouco mais difícil, mas gosto de aprender idiomas”.

Naquelas duas primeiras semanas já citadas, de difícil adaptação, Bruno entrava no vestiário e não conseguia conversar. Agora já consegue entender praticamente tudo que o treinador fala e recebe tratamento muito compreensível dos companheiros, que o procuram e falam mais devagar para ele compreender bem.

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Paquetá no Newcastle? 'Seria meu sonho, mas esse trabalho eu não posso fazer', brinca Bruno Guimarães

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É muito comum jogadores estrangeiros buscarem seus pares nos vestiários mundo afora. Falar o mesmo idioma transmite segurança, passa tranquilidade para qualquer pessoa. Não ser compreendido é uma das piores sensações possíveis. Joelinton foi fundamental no início e é tratado como um irmão mais velho por Bruno Guimarães. Atualmente ele ainda conversa muito com Allan Saint-Maximin, em francês, e com os jogadores que falam espanhol, como Miguel Almirón (Paraguai), Javier Manquillo (Espanha) e Federico Fernández (Argentina).

É curioso que, com o sucesso rápido do meio-campista brasileiro, o agora mal-acostumado torcedor do Newcastle já projeta próximas grandes contratações e o nome de um compatriota ganha força: Lucas Paquetá, ex-companheiro de Lyon.

“Seria meu sonho. O Paquetá é meu melhor amigo, fizemos uma relação, não só dentro de campo, mas vivíamos juntos o tempo todo fora. Nossas esposas juntas também. Foi uma relação de irmão mesmo, conversamos ainda todos os dias. Seria muito legal se ele pudesse vir para cá, mas esse trabalho eu não posso fazer”.

Nível de jogo na Premier League, na Ligue 1 e no Brasileirão

Com o Star+, o fã de esporte passou a ter uma oferta enorme de jogos dos melhores campeonatos europeus. A cada final de semana, torcedores de Corinthians, Internacional, Atlético Mineiro, Fortaleza e todos os outros clubes brasileiros assistem as partidas da sua equipe de coração e também de grandes clubes estrangeiros. Ao menos nas redes sociais, as comparações sobre o nível de jogo são bastante recorrentes. 'Não parece o mesmo esporte', é o que muitos dizem.

“Às vezes eu também tenho a mesma impressão. Tem muito jogo no Brasil, muita viagem, ainda há muitos campos ruins, infelizmente, aí não tem como manter a mesma intensidade jogando um jogo no Rio, outro na Bahia, depois vai para o Recife, para Brasília... Aqui toda viagem é 30, 40 minutos. Agora, nessa parte da Premier League, vamos jogar um jogo por semana, e no Brasil os caras vão jogar três. Aqui acontece às vezes, mas não é sempre assim. Acho que a questão física pesa bastante para o Brasil, nível de campo, calor, muitos jogos seguidos. São muitos fatores, mas creio que o futebol no Brasil tem melhorado”, explica de maneira detalhada Bruno Guimarães.

O jogador do Newcastle lembra também de quando conversou no vestiário com companheiros ingleses, questionando sobre o clima. “Falaram para mim que no verão faz calor, perguntei quanto e me disseram 20. Que calor é esse?”, se diverte.

De qualquer modo, o que mais surpreendeu o ex-jogador do Lyon foi a intensidade dos jogos na Premier League.

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Bruno Guimarães compara futebol brasileiro e Premier League: 'Não tem como manter intensidade viajando entre Rio, Bahia, Brasília...'

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“É um jogo muito dinâmico, a bola praticamente não para. É muito intenso. Foi a coisa que mais senti da França para cá. O Campeonato Francês é forte também, duro, físico - aqui também é - mas não se compara o nível de intensidade”.

Sem falar no padrão tático exigido por Eddie Howe. Em todos os treinamentos, há um período dedicado para o posicionamento dos jogadores nas linhas de marcação. “Ele é muito tático, gosta bastante das linhas organizadas. Todo dia, em uma parte do treino, fazemos sempre a mesma coisa, esse trabalho de linha. Ele é muito inteligente, estuda o futebol, porque hoje precisa estudar, conhecer os adversários, senão você está morto”.

A passagem pelo Lyon foi fundamental para tudo que está acontecendo agora pelo Newcastle. No final das contas, não foram tantos jogos assim, somente 71, com três gols marcados (menos do que ele já conseguiu com os Magpies), mas muita experiência para aguentar o jogo mais físico e exigente das grandes ligas europeias.

“As pessoas desvalorizam muito o futebol francês, dizem que é várzea, mas é totalmente diferente. Todos os jogos são difíceis, se você não correr os caras te atropelam na vontade, na força. É um campeonato muito difícil. O Messi, que é o melhor jogador que acompanhei junto com o Ronaldinho Gaúcho, tem dificuldade para jogar lá. Não é fácil. Se você bobear, os caras te atropelam, chegam duro. O juiz muitas vezes não dá falta, às vezes tem um jogo até meio desleal, o Neymar já tomou muitas pancadas. As pessoas desdenham, mas não é fácil jogar na Ligue 1”.

Seleção brasileira

Bruno Guimarães demorou para conquistar a confiança da comissão técnica da seleção brasileira. Já era um nome muito pedido pelos torcedores desde os tempos de Athletico, e com suas atuações na França os pedidos aumentaram. O ponto de mudança foi a participação na seleção olímpica, que conquistou a medalha de ouro no Japão em 2021.

Para disputar os Jogos Olímpicos, o meio-campista precisou brigar com o Lyon para conseguir liberação, e de maneira alguma se arrependeu. A conquista foi tão marcante que rendeu, também, uma tatuagem.

Passou então a ser figura frequente nas convocações do técnico Tite e hoje é um dos principais candidatos a ficar com uma das vagas no meio-campo da seleção. Na prática, ainda é reserva de Fred e disputa com Gerson um posto, mas a mudança de temporada e o crescimento dele podem mudar positivamente essa situação.

Na última partida do Brasil pelas eliminatórias, Bruno marcou um gol e deu uma assistência na histórica goleada sobre a Bolívia por 4 a 0, maior resultado alcançado pela equipe em La Paz na história. Nos dois jogos anteriores, contra Chile e Paraguai, uma assistência em cada.

“Eu me senti bem, em casa. Nas primeiras vezes que fui para a seleção, você ainda é um menino, fica vendo os caras que sempre admirou, fica um pouco espantado. Agora já conhecendo todo mundo, colocando a resenha em dia, se sente mais à vontade. É assim sempre quando você chega em um lugar novo. Até você conhecer, se adaptar leva um tempo. Muita gente pensa que na seleção não é assim, você fala a mesma língua, mas é diferente”.

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Bruno Guimarães admite 'espanto' nas primeiras convocações para a seleção e brinca sobre Tite: 'Não alivia no trote, não!'

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Com Tite a relação ainda é curta, mas que já rende confissões. “Ele tenta deixar o jogador mais à vontade, pede para os outros jogadores falarem com quem está chegando, mas não alivia no trote. Tem que cantar, contar piada... Piada de gaúcho”.

A batalha pela vaga no Catar continuará até novembro. Com a camisa do Newcastle, provavelmente com novos companheiros, e com objetivos bem diferentes na Premier League. Antes disso ainda precisará descansar. Justamente por causa das Olimpíadas, emendou uma temporada na outra e está sem férias há quase dois anos. Pretende relaxar por no máximo 15 dias, porque nos demais seguirá trabalhando forte.

“As coisas estão acontecendo muito rapidamente. Tem sido tudo muito bom pra mim, estou muito feliz com esse momento que estou vivendo. Espero dar continuidade nesse trabalho e alcançar meu objetivo que é estar na Copa do Mundo com a seleção brasileira”.

Se tudo seguir nessa velocidade e com a atual evolução, Bruno Guimarães não apenas estará no Mundial como poderá ser um dos destaques do Brasil.