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De doação falsa a 'Major': Dz7 faz balanço sobre carreira, esports e racismo

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Veja o momento em que streamer se emociona e vai ao choro com doação antes de saber que era golpe (1:26)

Pouco depois, Guilherme Borges recebeu apoio geral e doações de sua 'comunidade' (1:26)

No dia 28 de maio, o streamer Guilherme Borges foi vítima de uma doação falsa milionária de R$ 4 mil e que virou notícia no cenário de esportes eletrônicos.

Conhecido pelo nick de Dz7, ele até havia dito que “não imaginava essa dimensão” por conta da repercussão toda da história, que contou com mobilização da comunidade gamer e até doação milionária de Gaules.

Pouco mais de dois meses depois do ocorrido, realmente, a dimensão que esse episódio acarretou na vida de Dz7 é algo que nem ele pôde mensurar. Da doação falsa, ele chegou até mesmo ao “Major brasileiro” de Counter-Strike: Global Offensive, além de fechar parceria com cinco empresas.

Foram muitas conquistas. O streamer se tornou parceiro da Gamers Club, plataforma brasileira de esportes eletrônicos, fechou parcerias com marcas e, o ponto alto dessa reviravolta: virou caster de VALORANT e Counter-Strike: Global Offensive, tendo como principais conquistas as participações por GC Ultimate e GC Masters - dois grandes campeonatos dessas categorias respectivamente.

“Quem diria que um negro seria caster da Gamers Club?”, exaltou Guilherme em nova entrevista exclusiva ao ESPN Esports Brasil. Na época do acontecido, ele chegou a comentar para a reportagem sobre as dificuldades que sentia na pele por ser um negro no meio de esports.

Isso porque, dentre as equipes de casting dos mais variados campeonatos, o elenco de transmissão é praticamente todo branco. “Ainda existe essa dificuldade de chegar lá…”, lamentou. “Eu dei um passo muito largo pra frente, mas não estou onde quero estar ainda.”

"Ainda existe essa dificuldade de chegar lá" Dz7

E olha que esse lugar no qual Dz7 ocupa não é pouca coisa não. Ele chegou a estrear no ramo pelo Fusion New Rivals e também já comentou no CLUTCH, um dos principais torneios nacionais de CSGO.

Pela GC Ultimate, ele esteve na equipe de casting do primeiro torneio oficial de VALORANT no Brasil - e é um jogo que cada vez mais demonstra que o competitivo veio para ficar. “Ser pioneiro [como caster negro] nesse primeiro evento oficial… Estou escrevendo nossa história!”

“E tem novidade por aí…”, deixou no ar para a reportagem.

Já no caso da GC Masters, conhecida como o “Major brasileiro” de CSGO, o sentimento de orgulho se mistura com o de realização porque o FPS da Valve está presente na vida dele desde a adolescência. "Naquela época, 2003, eu assistia, jogava e treinava CS. Eu trabalhava numa lan house pra não receber salário e pedir para jogar. E eu ainda competia. Joguei o estadual do Rio de Janeiro, ali em 2005. Eu queria ser um dos caras pra jogar. Mas eu não tinha recurso nem informação pra conseguir atingir esse patamar."

Além disso, Dz7 sempre esteve na audiência da GC Masters. “São cinco anos assistindo, de admiração e amor. E aí nesse quinto ano eu estou envolvido. É um sentimento que dinheiro nenhum paga. Foi uma emoção única.”

Guilherme agradece a oportunidade que teve de estar ao lado de pessoas como BiDa, AMD e cAmyy, além de ter analisado como caster partidas de pessoas que admira e até criou laços, como raafa da W7M e Apoka da BOOM.

“Quando você ama, você quer está por dentro daquilo ali, quer conhecer as pessoas que fazem. Algo que eu amava assistir, hoje tô no meio das pessoas”, disse orgulhoso.

Inclusive, Dz7 parafraseou snowzin, jovem jogador de CSGO e que esteve em período de estágio com a BOOM, para ilustrar todo esse sentimento. “Ele falou: 'Ano passado, eu estava tirando uma foto com o felps no ‘Encontro da Lendas’. Hoje estou no time dele'. É o mesmo sentimento. Tudo o que eu passei realmente valeu a pena.”

Engana-se que Dz7 está satisfeito. Ele quer mais. “Espero muito poder fazer outros projetos e grandes feitos como esse. Quero estar no meio. É um meio que sempre amei.” E não é apenas no FPS. Ele também pensa em ser caster de League of Legends.

O streamer, inclusive, é só agradecimentos à Gamers Club por todo o apoio dado desde a história da doação falsa. “Sempre joguei na GC, desde 2017, por aí.. Hoje tenho uma medalha da GC, sou parceiro da GC e comentarista da GC. É tipo você gostar da Ferrari. Aí você trabalha na Ferrari e depois ganha uma Ferrari pra dirigir. É um sonho. É um mérito de esforço meu.”

O COMEÇO DE TUDO

“Não tem nem como esquecer, né...”, refletiu quando questionado pela reportagem sobre a doação falsa. “Grande parte das coisas que aconteceram só aconteceram porque houve aquele episódio. Não vou tirar o meu mérito de que em cinco ou dez anos acontecessem esses benefícios que vieram, mas esse fake donate acelerou bastante o processo das coisas.”

“Infelizmente, a gente só consegue ter visibilidade quando algo de ruim acontece para remeter para algo bom. E não quando o nosso bom tá sendo tão valorizado que as empresas vão reconhecer”, condenou.

E o que aconteceu com o “responsável”, bem entre aspas, por tudo isso? “O cara que fez a doação falsa veio conversar comigo. Passadas umas duas semanas, ele criou uma conta fake e veio falar comigo. 'Me desculpa, fui eu que fiz o fake donate com nome falso, não vou falar meu nome, mas gostaria que você me perdoasse pelo que fiz. Era uma brincadeira e não imaginava que fosse chegar nessa proporção'”, relembrou.

Dz7 só perdoou com uma única condição: que a “brincadeira” não voltasse a se repetir com mais ninguém. “Porque beleza, comigo deu uma repercussão positiva, mas quem garante que com o próximo vai ajudar da mesma forma? Só perdoei com essa condição. Não ficamos de amores também. E, realmente, tem que perdoar mesmo.”

"A gente só consegue ter visibilidade quando algo de ruim acontece para remeter para algo bom" Dz7

LÁGRIMAS, SUOR E SONHOS

A imagem que fica da polêmica que envolveu Dz7 foi o choro dele no momento que aconteceu a suposta doação milionária. Ela aconteceu no mesmo mês em que Guilherme havia tido uma conversa séria com os pais dele.

“Eu fazia dois anos de live. Em maio, eu falei para o meu pai e minha mãe: 'Olha, eu faço stream há algum tempo, vocês sabem. Este ano vou fazer isso virar'. Foi por isso que aquele choro foi tão intenso.”

E, já trazendo para hoje, mesmo com tantas conquistas, Dz7 pensa à longo prazo. “A gente sonha sempre. A gente já começa a sonhar quando começa a fazer.”

E ele até elencou alguns objetivos para o futuro. “Poder narrar um sonho com Gaules, poder narrar um Major... É o famoso zerar a vida.”

Quem sabe, por que não, ser até mesmo jogador profissional? Mas não de CSGO, que é a sua grande paixão. “Na minha época de criança, quando eu tinha 13 anos por aí, meu sonho era ser jogador profissional de CS. Mas vou completar 30 anos em novembro, entende... Sabe que não dá mais pra ser pro player.”

A alternativa: Call of Duty: Warzone. “Talvez eu possa me dedicar a nível profissional ao CoD. Teria que estudar como funciona. O nível profissional como está hoje no Brasil, não tem orgs pra isso. Tem o ninext, o Ale, o ziGueira... Os caras têm um nível elevadíssimo de org, mas não tem eventos. Tem só disputa de streamers. Não é igual lá nos EUA, que tem até uma FaZe. Quem sabe seja uma lacuna que eu possa preencher. Agora que a placa [de vídeo] chegou, dá pra sonhar. Vamos para o futuro.”

"A gente já começa a sonhar quando começa a fazer" Dz7

Mas, com os pés no chão, Dz7 olha para o hoje. “A curto e médio prazo, investir mesmo em casting e streaming, mas claro que abraçaria uma oportunidade como pro player.”

“Hoje posso dizer que sou um aspirante a caster”, avaliou. “Não tô sendo caster para poder quebrar um galho ou algo do tipo. Tô fazendo porque gosto disso. Se as coisas convergirem para que seja, farei com o maior carinho do mundo.”

Ainda assim, Guilherme não largará as lives. “Mesmo que vá convergir para caster, não vou parar de fazer stream. Não faço por dinheiro. Sou streamer por amor.”

E não é só amor que move Dz7 nessa jornada pelos esportes eletrônicos. É inquietação também e incômodo. Muito incômodo. “Algo que me chamou a atenção: todos os prêmios de referência tecnológica, gamer ou afins não tem nenhum negro. Não tem nenhum negro. Isso é um ponto que eu quero mudar.”

Inclusive, ele relembra a conversa que teve com os pais em maio como forma de combustível quando ainda era apenas um streamer tentando conquistar seu espaço na bolha gamer. “‘Não sei em que ponto vai virar [as lives], mas vai virar. Seja de qual forma que for, vou me dedicar. Se precisar dedicar quatro horas por dia além do meu trabalho principal, vou fazer funcionar’”, relembrou o diálogo.

“Não é justo a gente batalhar tanto para não ter a mesma visibilidade que os outros têm. Por que só alguns podem estar no topo?”, questionou.

RACISMO NOS ESPORTS

Durante a conversa com a reportagem, Dz7 refletiu sobre como o racismo ainda impacta negativamente o cenário de esportes eletrônicos. O caso dele repercutiu em meio ao movimento "Black lives matter" ("Vidas negras importam"), que foi originado por conta de George Floyd, um estadunidense morto por um policial branco após abordagem na rua.

Como reflexo disso, o mundo passou a mobilizar campanhas para combate ao racismo - e nos esports não foi diferente, com várias organizações, marcas e jogadores/streamers se posicionando com #VidasPretasImportam. Foi um período no qual muitos streamers negros ganharam visibilidade com divulgações e ganks em suas lives, principalmente do coletivo Wakanda Streamers, voltado para criadores de conteúdo da comunidade negra.

Questionado sobre o que mudou desde então, Dz7 foi bem direto. “Todos os streamers negros tiveram um boom gigantesco, mas, depois que acabou o hype, os negros foram esquecidos de novo. Quem tá no topo permanece, os negros voltaram a onde estavam antes. Não posso mentir.”

Guilherme falou sem rodeios que o caso dele é um ponto fora da curva da dinâmica que se deu em meio ao “hype” que a comunidade preta teve nos últimos tempos. Ele conseguiu alavancar, enfim, o sonho de se profissionalizar como streamer, teve as portas abertas para casting e fechou contrato com marcas.

"Quem tá no topo permanece, os negros voltaram aonde estavam antes. Não posso mentir" Dz7

Mas e os outros streamers pretos? “No caso da Wakanda [Streamers], você via a Wakanda tão citada no Twitter, várias referências etc e 'n' postagens... Aí hoje você abre as redes sociais e acha quantas referências?”

Mesmo tendo tido sucesso no geral, a crítica geral de Dz7 acaba sendo refletido nos números dele mesmo na Twitch. Em termos de consumo de comunidade, essa análise ao longo dos últimos meses fica bem evidente.

Até o dia da doação falsa, ele contava com uma média de 5 espectadores simultâneos nas lives, tendo atingido o pico de 25 viewers em uma só transmissão naquele mês de maio.

Depois, até o fim de junho, já surfando na onda da repercussão do caso todo, ele chegou a ter um público de 4.881 pessoas assistindo à uma mesma transmissão. A média, por sua vez, ficou na faixa de 90 espectadores apenas.

Entre junho e julho, porém, os números caíram drasticamente. Assim, Dz7 chegou a ter um máximo de 480 viewers de uma vez só, enquanto a média de espectadores despencou para 25. Detalhe: esse máximo de audiência em uma única live só foi alcançado por causa de gank; sem o recurso, Guilherme chegou a fazer stream para 65 pessoas, o seu maior público sem ajuda de terceiros dentro da plataforma.

“O gank ajuda a ter visibilidade, mas não engajamento”, explicou. “Parte disso realmente será do streamer. Eu vou ter que articular que essas duas mil pessoas [que chegaram via gank] se interessem pelo meu trabalho. É mostrar o que estou entregando, mas, realmente, eles estão dispostos a assistir um streamer que não é o padrão de streamer que está no topo? Esse é o ponto.”

Outras estatísticas que corroboram com a crítica de Dz7 é com relação ao número de seguidores no canal dele na Twitch. Antes da doação falsa, ele tinha 134 followers e 3 inscritos.

Quando houve a explosão do caso, principalmente com a doação do Gaules, os números alavancaram no registro do mês seguinte: 26.550 seguidores novos, além de 388 subs.

"Eles estão dispostos a assistir um streamer que não é o padrão de streamer que está no topo?" Dz7

Analisando por outro recorte, porém, já se percebe como o discurso de Dz7 está evidenciado: a maior parte desse boom de followers se deu apenas na semana em que o próprio Gaules fez um gank, resultando, assim, em 23.550 follows e 351 subs. As estatísticas são entre 28 de maio e 4 de junho.

Depois, entre junho e julho, os números caíram por completo: foram apenas 1.406 seguidores novos e 44 inscritos.

CONSCIENTIZAÇÃO

Como forma de reverter esse cenário, Dz7 compreende que apenas um trabalho de conscientização pode melhorar o panorama. “A maioria do gank que o pessoal chegou é porque o streamer pediu. Ele [espectador] não está ali porque aceita e entende o que está acontecendo. 'Ah, vamos lá ajudar'. Ele tá ali porque alguém mandou. Não é ajudar o cara porque entende e abraça uma causa.”

“É muito fácil você ter o #VidasPretasImportam e ajudar quando tem algum estopim”, criticou o streamer. “Por que não houve esses ganks antes do caso do George Floyd? Ou até mesmo do meu caso? É algo que é preciso entender. Cabe muito bem num envelope de presente que vidas pretas importam, desde que seja um dia apenas e aí todo mundo esquece depois…”

Dessa forma, Dz7 joga luz para como as causas precisam ser contextualizadas. Não à toa, ele mesmo disse à reportagem que batalha para ocupar um espaço de ainda maior prestígio para que consiga elevar a luta pela inclusão racial - e de qualquer outra forma de diversidade - nos esports.

“A gente sempre luta contra as estatísticas”, reforçou. “A gente batalha três vezes mais para ter três vezes mais de reconhecimento. Isso é fato. Sempre foi assim e não vai mudar de agora.”

Ele até trouxe para a conversa com a reportagem a contratação do streamer Machadinho na DETONA. Machadinho é uma das principais vozes de inclusão de pessoas com deficiência nos esportes eletrônicos. “Quando tem alguma pessoa que sofre com alguma dificuldade para chegar onde tá hoje consegue, tem que ser celebrado sim.”

Dz7 entende a importância de contextualizar a conquista de minorias nos esports, e até citou as streamers Kalera e Haru como exemplos de criadoras de conteúdo que fortalecem a luta nesse sentido.

E ele mesmo procura conscientizar o seu próprio público na stream, nem que seja de forma diluída. “Eu sempre termino a live com alguma mensagem. Não quero algo vazio. Vamos gerar alguma entrega ali como streamer. Essa entrega é um dever que eu tenho que fazer.”

"A gente batalha três vezes mais para ter três vezes mais de reconhecimento" Dz7

“Era algo que eu deveria ter feito antes até. Demorou para cair a ficha”, se cobrou. “Como streamer negro, que está a frente de uma câmera, com um público, deveria ter feito isso antes. Mas depois que ganhei toda essa visibilidade, com certeza virou uma missão. Essa mensagem tem que ser entregue para todas as pessoas - principalmente para as pessoas que têm mais dificuldades de obter.”

RESPONSABILIDADE DAS EMPRESAS

Acontece que a bandeira pela inclusão por mais diversidade nos esportes eletrônicos não é de responsabilidade apenas da comunidade. Dz7 olha para o mercado e consegue visualizar a obrigação que empresas e marcas precisam ter com as causas.

Até mesmo como já foi discutido no artigo de opinião “'Brasileirinho', precisamos falar sobre racismo nos esports”, entende-se que a falta de negros no cenário se dá por conta da realidade do país.

"Como vamos concorrer com essas pessoas para também chegar no topo?" Dz7

No Brasil, a chance de um negro ser pobre é o dobro da de um branco, segundo o levantamento apresentado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por meio do estudo "A desigualdade racial da pobreza no país", com base em dados de 2004 a 2014.

Quem tem maior poder aquisitivo, portanto, são pessoas brancas. Essa exclusão social, e que afasta principalmente pessoas negras, pode ser vista numa conta de matemática simples feita pelo próprio Dz7 durante a entrevista.

“Vamos lá… Um monitor de 240hz, você vai gastar aí uns três mil reais pelo menos. Mais uma máquina de 4 mil reais... Ou seja, 10 mil reais só pra você conseguir treinar pro CS”, colocou na ponta do lápis.

Até mesmo por isso, Dz7 analisa que as empresas precisam equiparar essas injustiças e desigualdades dentro dos esports. Ou seja, políticas afirmativas de inclusão. “Esse ponto é o mais complicado. Creio que deveria sim existir um investimento maior nesse grupo de streamers. Espaço tem, só que é muito mais difícil com outro streamer [que já está inserido no mercado]...”

Guilherme, inclusive, tem até a preocupação de contextualizar a crítica. “O cara não tem culpa por onde está. Não sei qual foi a batalha dele para chegar no topo, não serei eu que irei criticá-lo. Mas vamos colocar duas situações hipotéticas: padrão X e padrão Y. O padrão X é aquela pessoa que trabalha oito, nove ou até 10 horas por dia, ainda tem que ajudar em casa e tem o sonho de ser streamer. O outro pode acordar 10 horas da manhã pra fazer stream até de madrugada e depois descansar porque ele tem respaldo de uma empresa. Quem você acha que vai estar no topo?”

Como ele próprio disse, “é uma corrente”. “Se você tem visibilidade é porque você tem público, ou seja, tem engajamento, o que gera receita e você pode investir na stream pra melhorar. Isso é fato.”

“É muito difícil a vida do cara que tem o sonho de ser streamer, mas precisa trabalhar, concorrer com quem já faz stream 12 horas por dia todo dia. E tem investimentos de empresas etc. Ele ainda vai ter um microfone bom, um equipamento bom. E a entrega será melhor. Falando em qualidade de live, independente da pessoa. Como vamos concorrer com essas pessoas para também chegar no topo?”

O discurso vale para os esports no aspecto competitivo. A falta de negros como jogadores profissionais se passa também por essa questão, como comentou Dz7. “Como que o pro player que não tem um computador que chega a 60fps, ou bate cravado.. Só pode treinar duas horas por dia... Como esse cara vai competir com quem está treinando oito horas por dia? Quando tiver uma seletiva, de quem vai ser essa vaga?”

A conclusão: o ecossistema dos esportes eletrônicos é apenas reflexo da sociedade. “Isso tudo é algo dentro dos esports, mas fora também.” Não por coincidência, foi a mesma crítica feita por BocaJR, jogador de LoL da Redemption, em conversa também com a ESPN Brasil.

"Isso tudo é algo dentro dos esports, mas fora também" Dz7

Até mesmo por isso, Dz7 se localizou dentro dessa discussão toda. “Hoje eu posso dizer que abranjo um público maior por causa das empresas que investiram em mim. Mas e os outros? E a pessoa que não tem visibilidade, que não tem esse investimento? E não falo nem de injeção de grana, mas de equipamentos. O financeiro eu tiro do meu bolso ainda, seja pra investir em um microfone ou em um cenário novo. Mas tem empresas que realmente auxiliam streamers financeiramente. Que faz um acompanhamento.”

Dessa forma, Guilherme tem uma preocupação a mais quando conversa com empresas interessadas em fechar acordos com ele. “Eu converso com as empresas, tanto como profissional e também como pessoa, sabe? Sempre ressalto o seguinte: algumas empresas as quais eu converso acabam tendo um método de trabalho que não é voltado para o 'vou ter lucro'. É um pouco mais humana.”

“Claro, toda empresa vai visar lucro e entrega. A GC entrega eventos, mas por trás disso é uma parada bem humana. A GC não me acolheu só pelo fato de eu ter sofrido uma doação falsa ou ser negro. Ela me acolheu pela responsabilidade que eles têm e por terem gostado do trabalho que eu vinha entregando. A NVIDIA também tem essa proposta.”

DANDO O EXEMPLO

A cobrança de Dz7 é genuína e não fica apenas no discurso. A maior preocupação dele é, de alguma forma, construir pontes com quem também está na luta pelos seus sonhos.

“A gente consegue ajudar por meio de doação ou de palavras”, explicou sobre o caráter das lives dele. Quem acompanha o streamer, vê ele fazendo alguma campanha de arrecadação para causas ou então ajudar vaquinhas.

É algo que, inclusive, vem de longa data. Antes de ser Dz7, ele já tinha essa preocupação quando era apenas Guilherme Borges. Carioca nascido em Barra do Piraí, ele administrava uma gravadora. “A produtora fica numa cidade de interior, então qualquer pessoa que quiser gravar precisa gastar com combustível, alimentação, essas coisas para ir até a capital”, explicou.

"É o que eu digo pra vocês / Um passo de cada vez / Dá pra fazer / Na coletividade, na manha / Onde todo mundo ganha / (...) Muita força de vontade pra romper as barreiras também, certo" Fióti, 'Dá Pra Fazer' (2017)

“O que resolvi fazer junto dos meus amigos: nós pagamos do próprio bolso o valor da gravadora, que é uma casa, e lá promovemos uma sessão de arte. As pessoas que têm esse sonho de entrar na área, a gente só pede um valor simbólico de taxa, e a gente dá o espaço para eles, sabe?”

“A gente dá a base para ajudar as pessoas”, refletiu. O que não é mais do que ele pede para as empresas nos esportes eletrônicos.

Inclusive, a essa altura da entrevista, Dz7 deu boas risadas e brincou como “as coisas estão interligadas”. Isso porque a gravadora “sempre foi ligada com rap e hip hop” e, recentemente, ele esteve jogando Call of Duty: Warzone com o rapper Rashid em live da Lab Fantasma, hub de entretenimento fundada pelos irmãos Emicida e Fióti que conta com gravadora, editora, produtora de eventos e marca de streetwear.

“Depois da citação do Emicida [sobre o artigo opinativo do ESPN Esports Brasil] e tudo mais, eu fui assistir a uma live dos caras. Dei só um salve no chat e, cara, foi a melhor sensação que pude ter. Foi realmente o reconhecimento puro. Porque mandei um salve e o Fióti respondeu com 'Cara, você aqui?’. Quem seria eu perto de um Fióti pra falar isso, velho?”, brincou.

O próprio Fióti colocou Dz7 em contato com a equipe do Rashid, o que possibilitou a jogatina ao lado de um dos seus maiores ídolos. “A gente tem admiração por essas pessoas que gostamos do mundo da música. Sempre. Emicida, Projota, Fióti, Rashid.”

"Dizem que é impossível / mano vai na marra" L7NNON, 'Algumas frases' (2020)

Guilherme Borges fica feliz como o hip hop acabou sendo a cola de todas essas vertentes. É uma relação que fica evidente no nickname dele, já que é uma referência a data de nascimento dele [17 de novembro] misturada com a música Explanation, do XXXtentaction.

“E aí o Fióti me chama pra jogar com o Rashid. Você tem noção disso? É uma parada que a gente sempre brigou pra ajudar... E hoje tô tendo a chance de jogar com esses manos. Dá pra ligar esses dois pontos: eu pude ajudar com a gravadora e agora com a stream. Aí o Rashid liga os dois pontos, ainda mais que é jogar com um cara da música que é referência.”

Dz7 comemorou todas essas conquistas feitas pela comunidade preta e que veio da “quebrada”. “A gente está sempre batendo estatísticas.”

Especialmente para os negros que estão brigando pelos seus sonhos nos esportes eletrônicos, Dz7 encerrou a entrevista com uma citação. “Tenha sempre uma música de fundo tocando, que é a música do L7NNON, ‘Algumas Frases’. E uma das frases é: 'Dizem que é impossível, mano vai na marra’.”

O recado de Dz7 é um só. “Sempre que for possível, vamos estar batalhando e quebrando qualquer estatística.”