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Rematch: A realidade do brasileiro afasta negros do cenário de esports

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Fer se desculpa por comentário racista e diz: 'Entendi e percebi o impacto que isso tem' (0:58)

Jogador de CS:GO foi multado ela MIBR após fazer comentário racista em live (0:58)

A comunidade de esportes eletrônicos viveu dias atípicos quando jogadores, organizações, empresas e imprensa dedicaram conteúdos voltados quase que exclusivamente para o combate ao racismo na semana passada.

A #BlackLivesMatters foi assunto no mesmo período em que Fer, jogador de Counter-Strike: Global Offensive da MIBR, se retratou publicamente após ter feito um comentário racista em live. Em paralelo, o streamer Gaules, que vem quebrando recordes na Twitch, iniciou um projeto de divulgação e apoio ao coletivo negro Wakanda Streamers.

O racismo voltou à tona no cenário de esports em função da morte do estadunidense George Floyd, que foi morto após ação do policial branco Derek Chauvin. O oficial pressionou o pescoço de Floyd, um homem negro, com um de seus joelhos durante a abordagem. O policial foi acusado de homicídio culposo, que é quando acontece sem a intenção de matar, além de assassinato em terceiro grau - ou seja, quando se entende que é o responsável pela morte de forma irresponsável ou imprudente.

Em meio às questões raciais, o Brasileirinho se viu obrigado a lidar com racismo nos esports. E esse é o assunto do Rematch desta semana. Evelyn Mackus fez a moderação de um bate-papo que contou com três pessoas negras: BocaJr, jogador de League of Legends da Redemption; Ale Santos, historiador e autor de “Rastros de resistência: Histórias de luta e liberdade do povo negro”; e Luiz Queiroga, repórter do ESPN Esports Brasil - e quem escreveu esta matéria especial também. O podcast pode ser ouvido no Spotify ou então no Soundcloud.

Diante da discussão sobre porque o cenário de esports tem uma exclusão de negros, foi consenso: o racismo estrutural presente na história do Brasil, que está diretamente ligada a desigualdade social - e tem o acesso a tecnologia como um dos principais indícios.

“Isso não é só nos esports, mas tem a ver com a tecnologia segregar no Brasil”, comentou Ale. O pesquisador usou como referência os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - Tecnologia da Informação e Comunicação (Pnad Contínua TIC) de 2018 para ilustrar: são 46 milhões de pessoas sem acesso à internet. Ou seja, um em cada quatro dos brasileiros está excluído.

“Isso já quebra o mito de que tá todo mundo ali em pé de igualdade. “Estamos falando só de acesso a internet. Então imagina o acesso às melhores tecnologias, que seja um melhor celular ou então um PC gamer. Isso já começa a dividir mais ainda as pessoas. Isso faz com que, na internet brasileira, só 39% dos usuários sejam negros.”

Ale Santos reforçou que essa realidade como a realidade do brasileiro afasta gente preta do cenário de esports. “O mercado gamer ele é voltado para o imaginário branco, pro dinheiro branco e para as pessoas brancas porque é onde a maior parcela á branca. Por elas terem mais acesso a computadores e, inclusive, conseguirem jogar.”

“Pra quem vem da periferia ou de uma realidade pobre, que seja do interior, a gente precisa trabalhar para ajudar os pais. Trabalhar para pagar as contas, e os nossos pais acham que jogar é só diversão na qual você não terá nenhuma profissão.”

A distribuição de renda no país sustenta ainda mais as falas de Ale. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicou um estudo intitulado "A desigualdade racial da pobreza no país", com base em dados de 2004 a 2014. O levantamento mostra que a chance de um negro ser pobre é o dobro da de um branco.

BocaJR falou da própria vivência para exemplificar o discurso de Ale. O jogador precisou ganhar dinheiro com Elojob - prática de ser pago por alguém para que você aumente o elo da conta daquela pessoa - para sustentar o sonho de se profissionalizar no LoL.

“Eu tinha que ter dinheiro. Se eu quisesse terminar os estudos e jogar mesmo, eu tinha que ter algum tipo de retorno para minha família”, relembrou. “Quando acabou a escola, meu pai falou: 'Mano, você tem que fazer faculdade'. Minha mãe: 'Você tem que estudar'. E se não fizesse esse Elojob, eu tinha que basicamente desistir de jogar LoL.”

"A minoria do Brasil que está na internet é negra. Isso faz com que a tecnologia se molde a branquitude" Ale Santos sobre a exclusão de negros na era digital

A dificuldade de se ter acesso à tecnologia, como argumentou Ale, foi uma realidade vivida por BocaJR. “Na Paraíba, eu não tinha um dos melhores PCs nem tinha a melhor internet. Mas consegui. Felizmente foi algo bom para mim porque consegui me motivar com aquilo, mas para várias outras pessoas não seria desse mesmo jeito.”

A conscientização racial do jogador da Redemption faz com que ele entendesse as dificuldades de pessoas pretas de tentarem entrar no competitivo de qualquer esports. “Isso não acontece com muitas pessoas brancas, mas sim bastante com o negro - por causa da nossa desigualdade social.”

BocaJR fez a comparação com a própria rotina. O primeiro obstáculo era dentro de casa, onde ele precisava dividir o computador com os dois irmãos. “Eu jogava quatro horas por dia. E pra você ser profissional, quatro horas por dia é impossível.”

Para conseguir dar conta do recado, BocaJR então fazia trabalhos informais para ficar em dia com os compromissos de Elojob. Desde a vender sucata ou então realizar favores na lan house que frequentava - como comprar comes e bebes - que eram revertidos em minutos a mais de sessão no estabelecimento.

"Isso não acontece com muitas pessoas brancas, mas sim bastante com o negro - por causa da nossa desigualdade social" avalia BocaJR sobre dificuldades da entrada de negros nos esports

“Eu jogava, sei lá, algumas horas que conseguia dinheiro. Jogava duas horas assim. E nessas duas horas eu baixava vários VODs pra assistir em casa na televisão. Eu tinha conseguido um pendrive. Aí todo dia ficava vendo esses VODs. Era muito complicado ser bom ou ter o mesmo nível de setup que um cara normal tem é muito difícil.”

Para Ale, não tem como deixar de olhar para o cenário de esports e ignorar a realidade. “Esse é o racismo estrutural. Essa é a estrutura do Brasil que divide e separa as pessoas. Não adianta você querer dar internet, dar um computador bom e formar times de esports bons em estados onde você ainda não tem esgoto.”

Escute o Rematch sobre racismo nos esports para também ficar por dentro dos debates sobre negritude no cenário e como o mercado gamer pode efetivamente combater o racismo.