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'Não imaginava essa dimensão', desabafa streamer sobre apoio da comunidade após doação falsa

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Veja o momento em que streamer se emociona e vai ao choro com doação antes de saber que era golpe (1:26)

Pouco depois, Guilherme Borges recebeu apoio geral e doações de sua 'comunidade' (1:26)

O que foi uma brincadeira extremamente desrespeitosa se tornou algo grandioso no cenário de esportes eletrônicos. O caso do streamer Guilherme Borges, conhecido pelo nick de Dz7, repercutiu após uma doação falsa a que ele foi submetido.

O carioca de 29 anos estava em live, na noite dessa quarta-feira (27), quando foi notificado por uma suposta doação de R$ 4 mil do usuário “gustavoluques”. De imediato, Dz7 não conteve a emoção e foi às lágrimas com o acontecido.

“O choro ali foi um mix de sentimentos. Felicidade e alívio”, comentou Dz7 em entrevista exclusiva ao ESPN Esports Brasil.

Dentre os motivos do choro, estava a trajetória de Guilherme desde que apostou na vida de streamer em 2018. “Foi realmente muito difícil. Abri mão de algumas outras coisas que eu gostaria para investir no setup.”

Na manhã desta quinta-feira (28), o coletivo Wakanda Streamers trouxe o caso à tona. Foi quando a notícia foi se espalhando por meio da comunidade de esports ao longo do dia.

Nomes relevantes do cenário, como Mands (streamer da FURIA), AMD22k (jogadora de CSGO) e Nyvi Estephan (apresentadora) se posicionaram sobre e começaram uma campanha de arrecadação para levantar fundos. A streamer da FURIA, inclusive, chegou a doar R$ 1 mil. Até mesmo gente de fora colaborou, como Felipe Castanhari, youtuber e dono do canal Nostalgia.

A história, contudo, definitivamente ganhou a atenção da comunidade de esports quando o streamer Gaules ficou ciente do ocorrido. Dessa forma, ele doou R$ 4 mil como resposta ao suposto valor doado anteriormente.

“Não imaginava essa dimensão, ainda mais para um streamer negro”, desabafou Dz7. “Se você olhar nos tops da Twitch, é difícil ver streamers negros. Então essa era a lacuna que eu queria preencher.”

Ele comentou à reportagem sobre as dificuldades de ser streamer exatamente pelo o que representa ser negro no país. “Ainda tem a barreira do acesso. Tanto a informação quanto ao equipamento.”

O discurso reflete nos dados apresentados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por meio do estudo "A desigualdade racial da pobreza no país", com base em dados de 2004 a 2014. O levantamento mostra que a chance de um negro ser pobre é o dobro da de um branco.

Ainda segundo apontado pelo IBGE, em 2004, 73% dos mais pobres eram negros. O índice aumentou em dez anos, já que em 2014 o número pulou para 76%. Ou seja: três em cada quatro pessoas são negras entre os 10% mais pobres do país.

“Tem a parte cultural também”, pontuou Dz7. Na visão dele, a realidade do brasileiro tem “total ligação” com a falta de negros no meio, “pois, se você abrir a Twitch e buscar canais americanos, a quantidade de negros é bem maior do que aqui, dada pela realidade de lá”.

Antes de a história toda explodir, Dz7 tinha apenas 230 follows na Twitch. Durante a conversa com a reportagem do ESPN Esports Brasil, no fim da tarde, o número subiu para 5.316. Já pela noite, com o próprio streamer já abrindo live, ele chegou a quase 12 mil seguidores.

ROTINA

Encarar a jornada como streamer é um desafio diário para Guilherme. Ele trabalha em uma rede hospitalar como administrador de banco de dados.

“A rotina de streaming é algo que tenho que realmente balancear, pois trabalho em horário comercial”, explicou. O período consiste das 8h às 17h, mas só “quando não há nenhum problema no banco de dados”.

Normalmente, Dz7 chega em casa por volta das 18h e abre live das 20h em diante. São pelo menos quatro horas diárias. Ele alterna entre Counter-Strike: Global Offensive, League of Legends, VALORANT e Call Of Duty Warzone. Inclusive, CoD ele jogava a 60 FPS.

“Muita das vezes minha namorada vai deitar pra me esperar e adormece, e isso me parte o coração”, lamentou. “Mas eu sei que isso é meu sonho e tento manter total dedicação. Ela, em contrapartida, me apoia bastante e entende a situação.”

Até mesmo pela realidade do dia a dia, Dz7 só conseguiu se dedicar totalmente à vida de streamer às noites há um ano aproximadamente. Durante o período, ele foi montando o setup gamer - que ainda carece de uma cadeira gamer e uma placa de vídeo boa, mas, até mesmo pela repercussão do caso, a NVIDIA se prontificou a ajudar Dz7 com a placa de vídeo.

Até então, porém, ele era obrigado a dar pausas nessa rotina. Ainda assim, os poucos números em lives sempre davam uma impressão de que ele estava fazendo algo de errado.

“Eu cheguei em um ponto na stream que me achava estagnado, e isso foi há mais ou menos três semanas”, relembrou Guilherme. Inclusive, esse foi o motivo pelo choro de alívio quando a suposta doação aconteceu.

“Eu não sabia se estava errando em algo”, chegou a se questionar. Ainda assim, o streamer se inspirou em palavras do próprio Gaules para não perder o foco.

“Lembro que alguém perguntou pro Gaules na live [sobre virar streamer] e ele respondeu: ‘Seja constante e faça o bem. Se tiver um viewer dê atenção a esse um como se fossem mil’.”

Dz7 até mesmo aproveitou a conversa com a reportagem para somar à voz de seu ídolo. “Eu acrescento: faça com o coração. Se é seu sonho e você buscar de verdade, sem almejar financeiro, sucesso, hype ou algo do tipo, eu tenho certeza que vai dar certo.”

No fim das contas, Guilherme tirou algo de positivo em decorrência do bait. “Esse processo todo me pôs um passo mais próximo do meu sonho.”

O INÍCIO

E falando nesse sonho, Dz7 relembrou os primeiros passos. “Sempre estive envolvido com jogos, tanto que acabei seguindo a carreira de TI.”

Gaules, como já dito, foi uma das principais inspirações. “Eu sempre quis agregar valor para pessoas. Então a forma que eu vi foi agregar valor para uma comunidade assim como o Gaules faz. Decidi me dedicar a stream para atingir esse objetivo.”

Olhando para tudo o que conquistou do dia para a noite, Dz7 é só agradecimentos a quem sempre esteve ao lado dele antes de toda essa história acontecer.

“A stream não é só minha. É de todos. Meus amigos me deram um grande suporte na parte de divulgação e acompanhamento na live. Na parte de fora, minha namorada é o suporte, alimento, atenção e até a paciência.”

Dz7 fez questão de agradecer o apoio que recebeu do Wakanda Streamers. Não só nesse caso, mas a iniciativa foi fundamental para Guilherme encontrar outros streamers negros pelo cenário.

O coletivo tem como objetivo abraçar e integrar toda a comunidade preta. Apesar do “Streamers” no nome, a ideia é receber pessoas de diversas áreas de criação de conteúdo.

“A comunidade da Wakanda sempre me acolheu muito bem”, exaltou Dz7. Quando a situação toda aconteceu, ele já “esperava um amparo e suporte”.

O QUE FARÁ COM O DINHEIRO

No exato momento em que conversava com a reportagem, Dz7 somava R$ 5.425,97. O streamer, por sua vez, demonstrou empatia e consciência com o valor arrecadado - ainda mais em tempos de pandemia do novo coronavírus (COVID-19).

“Esse valor é mais do que eu necessito. Como meu objetivo é ajudar uma comunidade, eu achei justo fazer doação do restante”, projetou.

“Assim que eu chegar em casa vou fazer uma tabela de todos os donates. Pretendo ajudar famílias que precisam de alimentos e incentivar streamers [iniciantes].”

Esse foi o mesmo pensamento quando a doação falsa aconteceu. Na hora, ele projetou comprar as peças que faltavam para “melhorar a stream” e “o restante doar, tanto em forma de cesta básica quanto donate”.