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'Parecia que eu estava em casa', exalta BocaJR ao ver grande presença de negros no Free Fire

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Na terceira edição do Rematch, gravado no último mês de junho, o podcast do ESPN Esports Brasil debateu sobre como a realidade do brasileiro afasta os negros dos esportes eletrônicos.

Para a discussão, foram convidados BocaJR, jogador de League of Legends da Redemption, e o pesquisador Ale Santos.

É possível ouvir a conversa via Spotify ou SoundCloud.

Dentre os vários assuntos debatidos no podcast, Free Fire ganhou destaque por ser um jogo acessível. Dentre a hegemonia presente no cenário de esports, a cena do battle royale de celular da Garena é o que mais se distancia da elitização predominante na bolha gamer.

BocaJR, inclusive, contrastou os cenários de LoL e Free Fire por meio dos seus torneios nacionais. Até antes da pandemia do novo coronavírus (COVID-19), tanto o Campeonato Brasileiro de League of Legends como a Liga Brasileira de Free Fire eram disputados na On e-Stadium, que fica no centro da cidade de São Paulo.

O jogador da Redemption percebeu algo de diferente quando conferiu o local onde era disputado o nacional de Free Fire. “Quando eu estava entrando assim, eu fiquei: 'O que está acontecendo aqui?' Porque tinham vários negros. Só depois fiquei sabendo que era campeonato de Free Fire. Parecia que eu estava em casa, tá ligado?”

“Eu simplesmente me senti bem porque vi tanta gente daquele jeito, tá ligado”, comentou. “Na Paraíba, as pessoas que eu convivi a minha vida inteira são todas daquele jeito. Os negros, os cordões de prata. Fiquei: 'Que sonho...' E no Free Fire é exatamente assim.”

Diante da discussão sobre porque o cenário de esports tem uma exclusão de negros, foi consenso: o racismo estrutural presente na história do Brasil, que está diretamente ligada a desigualdade social - e tem o acesso a tecnologia como um dos principais indícios.

“Isso não é só nos esports, mas tem a ver com a tecnologia segregar no Brasil”, comentou Ale. O pesquisador usou como referência os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - Tecnologia da Informação e Comunicação (Pnad Contínua TIC) de 2018 para ilustrar: são 46 milhões de pessoas sem acesso à internet. Ou seja, um em cada quatro dos brasileiros está excluído.

“Você tá criando um padrão”, analisou Ale Santos. “Um padrão de jogo, de uma comunidade que se reproduz com a maioria branca nos times profissionais de esports, a maioria branca de streamers e até mesmo as pessoas que acessam, que dão audiência, são brancos se identificando com outros brancos.”

O pesquisador trouxe esse recorte racial para explicar o sentimento de BocaJR ao se deparar com os jogadores da LBFF. “É por isso que você tem uma minoria de negros que vai acabar se identificando com alguns negros que estão ali naquele meio.”

“Esse é o racismo estrutural, essa é a estrutura do Brasil que divide e separa as pessoas. Não adianta você querer dar internet, dar um computador bom e formar times de esports bons em estados onde você ainda não tem esgoto”, ponderou.

O discurso reflete nos dados apresentados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por meio do estudo "A desigualdade racial da pobreza no país", com base em dados de 2004 a 2014. O levantamento mostra que a chance de um negro ser pobre é o dobro da de um branco.

Ainda segundo apontado pelo IBGE, em 2004, 73% dos mais pobres eram negros. O índice aumentou em dez anos, já que em 2014 o número pulou para 76%. Ou seja: três em cada quatro pessoas são negras entre os 10% mais pobres do país.

Realidade que BocaJR teve que lidar assim que saiu da Paraíba e se mudou para São Paulo por causa do LoL há quatro anos. Ele acabou indo comer em um restaurante “chique” na Vila Mariana e notou “que era tudo estranho”.

“Só tinha branco em tudo que era lugar”, revelou. “E apenas os empregados eram pretos. E eu fiquei: 'Ué, como assim? O que está acontecendo aqui? Isso não faz sentido isso pra mim’.”

“Eu sei que Free Fire faz muito sucesso na periferia porque a galera joga no celular”, falou Ale, que mora no Vale da Paraíba e trouxe a realidade do interior para exemplificar. “E aqui, no interior, também tem o hábito da garotada de buscar wifi grátis, seja da prefeitura ou da casa de algum amigo, e eles vão com o celular pra ficar na calçada pra jogar junto. Então a galera não está jogando dentro de casa. Isso mostra o quanto esse acesso é muito desigual.”

“Essa garotada que se junta pra jogar Free Fire não tem o seu computador em casa pra jogar League of Legends. Nem conhece. Eu conheço muita gente da periferia do interior que não nunca ouviu falar de League of Legends, de StarCraft, dos maiores jogos, porque eles não têm acesso”, esclareceu.

Dessa forma, Free Fire se consolida nos esportes eletrônicos como um jogo que permite mais diversidade dentro da bolha. “Essa acessibilidade tem que rolar no futuro porque o preço de um computador gamer ou de um celular que algumas pessoas têm é grotesco. Esse é o futuro.”