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Fuga de concentração e quatro dias perdido em ilha: os irmãos que desertaram Cuba e brilharam na MLB

POUCOS IRMÃOS foram tão vitoriosos quanto Orlando “El Duque” e Liván Hernández na história do esporte. Os dois arremessadores brilharam na MLB, venceram a World Series e encantaram seus torcedores. O maior triunfo da dupla, porém, não foi nos montinhos dos estádios de beisebol, e sim na improvável fuga bem sucedida de seu país natal, Cuba, para poder jogar nos Estados Unidos.

O caminho de ambos na busca por esta liberdade foi bem diferente. Era a década de 90, e uma grave crise econômica afetava a ilha após o fim da União Soviética. Os jogadores de beisebol só tinham permissão para deixar o país da América Central enquanto estivessem defendendo a seleção nacional no exterior.

Em uma dessas viagens, Liván, com a ajuda de um empresário, conseguiu fugir e acertar um contrato com o Florida Marlins (atual Miami Marlins). Orlando ficou para trás - não tinha a intenção de deixar o país. Mas pagou o preço: acusado de ajudar o meio-irmão, foi detido, interrogado e banido do beisebol. Acontecimentos que o incentivaram a fugir de Cuba anos depois, no Natal de 1997. Não sem risco: ele chegou a ficar preso em uma ilha deserta antes de brilhar na MLB pelo New York Yankees.

O documentário “Brothers in Exile”, da série 30 for 30, está disponível no ESPN App e conta detalhadamente como aconteceram as fugas dos dois irmãos, além de relembrar como foi a perseguição a “El Duque” após a deserção de Liván.

Você pode ver todas estas produções e muitas outras quando e onde quiser no ESPN App.

OS IRMÃOS HERNÁNDEZ

MESMO PEQUENA, Cuba sempre formou grandes atletas, principalmente no beisebol. O esporte número um do país sempre foi carregado de paixão e fanatismo pelos habitantes. Entre o final da década de 80 e o começo de 90 não era diferente.

Orlando “El Duque” Hernández era o grande arremessador nacional. Jogando pelo Industriales de Havana, ele era famoso na capital e reconhecido por todos na rua. Filho do mesmo pai de Orlando, Liván era mais novo, tinha muito talento e também era arremessador. Seu grande ídolo era seu irmão mais velho e seu objetivo sempre foi chegar ao mesmo nível.

Ambos atuaram e foram campeões pela seleção cubana na Copa do Mundo de 1994, na Nicarágua. O que poderia ser o início de uma longa história de conquistas da dupla terminou como o único título deles juntos.

Isso porque Cuba, no início dos anos 90, passava por uma grande crise econômica. Com o fim da União Soviética, a ilha latina tinha grandes dificuldades de fornecer o básico à população. Sem seu grande investidor, viu sua sociedade balançar diante da situação.

Os jogadores - que ganhavam à época apenas três pesos cubanos por partida disputada - também sofriam. Em melhor situação estavam aqueles que eram membros da seleção nacional: poderiam viajar para o exterior em turnês e campeonatos com o país. Então, em toda viagem, eles tentavam trazer sabonetes, xampus e outros artigos de hotéis para suas respectivas famílias em Cuba.

A FUGA DE LIVÁN

FRUSTRADO COM SUA situação econômica e querendo provar todo seu talento para o mundo, Liván decidiu que iria fugir de Cuba para tentar a sorte nos Estados Unidos. Para isso, ele precisava da ajuda de Joe Cubas, um agente esportivo que viu que poderia fazer muito dinheiro se conseguisse fazer os bons jogadores cubanos a assinarem com times da MLB.

Após um primeiro encontro entre os dois na Venezuela, eles decidiram agir durante uma excursão da seleção de Cuba no México. Liván conseguiu fugir do hotel onde a equipe estava concentrada sem ser vistos pelos seguranças.

Antes de rumar para os Estados Unidos, Joe Cubas levou o prodígio de 20 anos para República Dominicana, onde ele fez alguns treinamentos para os olheiros dos times da MLB. A disputa pelo arremessador foi grande entre Toronto Blue Jays, New York Yankees, Florida Marlins e outras franquias. Por ter muitos latinos e pela facilidade de comunicação, a equipe de Miami ficou com o atleta.

Liván assinou um contrato de mais de seis milhões de dólares, além de ganhar um bônus de 250 mil dólares na hora. Uma realidade completamente diferente para quem tinha que levar sabonete clandestinamente para casa.

SUCESSO NA MLB

TODO DINHEIRO E FAMA, de imediato, não fizeram bem para Liván. Ele torrou dinheiro em carros, se alimentava mal e seu peso subiu. O desempenho nos treinos, como consequência do estilo de vida, caiu. Os Marlins o rebaixaram para as divisões menores. Foi o suficiente para ele se recuperar

Após um ano de aprendizado, em 1997, os Marlins colocaram Liván no time principal. E não se arrependeram.

Ele teve um começo mágico, com muitas vitórias e foi um dos principais motivos para a franquia conseguir chegar aos playoffs. Após passar pelo San Francisco Giants, a equipe da Florida enfrentou o favorito Atlanta Braves na decisão da Liga Nacional. Em um duelo bem equilibrado, foi o cubano quem fez a diferença no jogo cinco da série, que encaminhou a vitória do seu time por 4 a 2. Liván conseguiu anotar 15 strike outs na partida, não dando chances ao adversário e quebrando o recorde da época.

Na World Series, contra o experiente time do Cleveland Indians, o jovem mais uma vez chamou a responsabilidade. O arremessador venceu seus dois jogos e ajudou o Marlins na conquista inédita do campeonato, sendo ainda eleito o MVP das finais.

EL DUQUE PERSEGUIDO

ENQUANTO LIVÁN VIVIA seu sonho e conhecia a fortuna e fama, seu grande ídolo sofria em seu país natal. Desde a fuga do jovem arremessador em 1995, Orlando passou a ser vigiado pelas autoridades cubanas. Eles acreditavam que, por não ter impedido o irmão, El Duque apoiava e seguiria seus passos.

O que sempre foi um engano. Por ter duas filhas pequenas e se preocupar com seus pais, Orlando nunca desejou sair do país. Ele não era contra nem a favor da atitude do irmão - apenas respeitava sua decisão.

Entretanto, em 1996, um agente tentou convencer El Duque a desertar e ir jogar na MLB. O jogador negou a proposta mais uma vez, mas a polícia o capturou. Após ser interrogado por quase 12 horas, ele foi liberado pelas autoridades, mas banido do beisebol profissional em Cuba.

Feliz com o sucesso do irmão, mas frustrado com sua própria vida, El Duque sentia saudades de fazer o que amava. Ele até participava de alguns jogos de beisebol de várzea, mas estava longe de ser o nível que ele estava acostumado. Assim, decidiu que estava na hora de tentar realmente desertar de seu país.

Com um grupo de amigos e sua namorada, Orlando entrou em um barco no Natal de 1997 – era o primeiro comemorado em Cuba desde 1960. Eles conseguiram fugir sem serem notados e chegaram a uma pequena ilha nas Bahamas, onde deveriam esperar um transporte para os Estados Unidos. Porém, foram esquecidos. Após quatro dias abandonados, a situação já era crítica quando a guarda costeira dos Estados Unidos apareceu para salvar o grupo.

Deixados em Nassau, Orlando e seus amigos precisavam regularizar sua documentação, senão seriam deportados para Cuba. El Duque pediu ajuda a Joe Cubas - o mesmo que ajudara Liván anos antes. O empresário conseguiu os passaportes e levou os oito para a Costa Rica.

COMEMORAÇÃO EM DOSE DUPLA

ALIVIADO POR TER conseguido fugir de Cuba, Orlando agora precisava provar que ainda poderia jogar na MLB mesmo já com 32 anos. Em seus treinos, ele não empolgou muitas franquias, mas conseguiu a vaga no New York Yankees como um voto de confiança. O arremessador assinou um contrato de quatro temporadas no valor de 6,6 milhões de dólares.

Após ficar praticamente um ano e meio sem atuar, El Duque mostrou todo seu valor logo na estreia. Ele fez uma grande partida, encantou a torcida e foi peça importante da equipe que venceria 114 jogos na temporada regular de 1998.

Apesar do sucesso em campo e de estar nos playoffs, o atleta sentia falta de sua família, principalmente de suas filhas pequenas. Então, diversos profissionais passaram a ajudá-lo. Inclusive, o próprio cardeal de igreja católica de Nova York escreveu uma carta para Fidel Castro pedindo a liberação dos familiares de Orlando.

Enquanto rolava todo esse processo, os Yankees desfilavam na pós-temporada, chegando à World Series contra o San Diego Padres como favoritos. E não deu outra: a equipe venceu por 4 a 0, conquistando o título da liga mais uma vez. E esta não foi a única alegria de El Duque naquele dia.

Após levantar o troféu de campeão, o arremessador teve a notícia que toda sua família foi liberada de Cuba e que já estava a caminho dos Estados Unidos.

Uma noite ainda mais especial para coroar a trajetória dos Hernández.