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O rugby brasileiro está de luto: Adeus, 'Dom Diego'!

'Dom Diego'... Pense em um jogador brilhante, forte, inteligente, fullback ou centro com tackle demolidor, com visão de jogo, liderança, arrogante e folgado dentro de campo.

Mas que quando acaba o jogo, é o primeiro atleta adversário a vir te abraçar, dar risada, contar vantagem ou desvantagem, beijar teus filhos, lembrar o nome da tua mulher, fumar charuto fedido e ficar do teu lado só para te azucrinar com o cheiro.

O cara que te tirou tudo que podia dentro de campo, te amassou, judiou e, fora dele, foi teu melhor amigo. E após um dia de rugby, você vai feliz para casa porque viveu o esporte em sua plenitude.

Assim era Diego Padilla. Ele era este cara.

Foi embora nesta segunda-feira, aos 59 anos (completados no último 20 de setembro), vítima de complicações pós-cirúrgicas na válvula mitral, evoluindo para falência múltipla de órgãos. Estava no HCor, na região central de São Paulo

Somos da mesma geração, jogamos muito um contra o outro na base e em 1979, no Chile (foto abaixo, tirada na cidade de Sausalito), jogamos lado a lado pela seleção brasileira. Naquela época, ficamos, se bem me lembro, 17 dias em Santiago, éramos a geração do futuro do rugby brasileiro, dividimos as dúvidas da idade, jogamos como se não houvesse amanhã.

O Diego era mais articulado que eu naquele tempo e me ajudava bastante porque eu sequer entendia o que os jogadores das outras seleções falavam.

Ele me chamava de burro porque não entendia castelhano, e eu falava que burro era ele, que morava no Brasil e não falava português (nunca conseguiu, dou risada sozinho lembrando disto).

Era mais que amizade, na verdade, a gente, sem saber, se admirava muito. O Diego era melhor jogador que eu naquela época, vinha de uma família tradicional no rugby, conhecia o jogo profundamente.

Depois, nos enfrentamos muitas vezes nos clássicos paulista e brasileiro dos anos 1980 entre o supercampeão Alphaville, dele, e o meu Bandeirantes, que por causa do Alpha tornou-se um time grande e também supercampeão.

No primeiro título que conquistamos, jogando exatamente contra eles, lembro que no terceiro tempo o Diego veio, me beijou, abraçou, tudo ao mesmo tempo, porque ele era intenso, e com seu charuto chato me disse: “Demoraram, em Tó? Parabéns pelo time que construíram, nunca imaginei que iríamos perder de vocês, mas cá entre nós, tô feliz, o rugby vai ter mais uma equipe pra gente brigar.”

Conclusão da história: comemorou com a gente o nosso título. Estou rindo de novo. Que tamanho de coração pode ter um cara desses!

Em 1991, jogamos já como consagrados na seleção brasileira, uma geração de muitos jogadores talentosos começava a nascer, éramos os mais experientes. Acredito que foi um dos melhores times que joguei, nem tivemos tanto resultado, quase não treinamos, não havia grana nem infra-estrutura mínimas naquela época, mas quase ganhamos do Chile, tomamos um pau do Paraguai e viramos ganhando um jogo em Montevidéu contra o Uruguai (algo inimaginável).

No nosso último jogo lado a lado, contra os Pumas no Belgrano, em Buenos Aires, na Argentina, ficamos juntos no terceiro tempo, conversamos bastante e concluímos que tinha valido a pena. Tudo, sempre!

Em 1995, fui convidado para dirigir a seleção brasileira na tentativa de participar das eliminatórias para a Copa do Mundo de 1999. Seria em 1996, contra Guiana e Trinidad e Tobago.

Como ainda era jogador em meu clube, eu estava em dúvida até o Diego me ligar dizendo que se eu não fosse, ele também não iria, sim, os dois como treinadores. Eu não queria, mas como ia falar não para o Diego?

Fomos, fizemos um trabalho legal, passamos mais dois anos juntos e essa foi a última vez que dividimos o rugby, porque ele me disse que eu era um ótimo treinador, e ele não gostava tanto de treinar times. Acreditei e não concordei com ele, como sempre.

Quando comecei como comentarista na ESPN, em 2003, na Copa do Mundo, tinha muita insegurança, não para falar do jogo, mas de honrar o rugby com comentários corretos.

Após a final entre Inglaterra e Austrália, vencida pelos europeus por 20 a 17, encontrei com o Diego em algum pub onde a comunidade do rugby assistiu à partida.

Ele me abraçou e beijou ao mesmo tempo (era uma mania dele) e, com seu charuto fedido, me disse: “Tó, que orgulho o que você fez na TV, tenta continuar lá, faz muito bem ao rugby do Brasil, finalmente temos alguém dentro da mídia.” Falou isto com lagrimas nos olhos, e eu mais ainda, porque se o Diego tivesse me falado que tinha sido ruim, não voltaria para a TV, não era um amigo, era um irmão sincero quando falávamos sobre rugby. Sempre colocávamos nossas verdades, quando se fala com amor, deve-se ouvir sempre.

Bem, o Diego partiu nesta segunda-feira, não vai mais me beijar e abraçar ao mesmo tempo, muito menos vir dar baforadas com seu charuto fedido para me irritar, mas o rugby brasileiro não tem como agradecer o quanto ele representa.

Mais que um craque como jogador, era alguém diferente! O Diego representou sempre o que é o rugby em sua essência: combativo, dedicado, com superação, amor, respeito e, fora dele, o melhor dos seres-humanos.

Porque o rugby extrai de você o que você tem de melhor para oferecer, e o Diego era 100% rugby.

No Brasil, o rugby existe há muito tempo, gerações e gerações vieram e foram deixando sua marca e construindo a história, hoje em dia, as coisas estão melhores em termos de estrutura, mas uma perda como esta do Diego empobrece o nosso rugby.

Que todos tenhamos a dignidade de tentar ser um pouco do que ele foi, como representante do rugby e ser-humano, para o bem do nosso amado esporte.

Um beijo no coração de toda a familia Padilla, que tanto fez e faz pelo rugby do Brasil. Em especial, a Mônica, esposa, e aos filhos Aramis, Matias, Agustin e Ícaro.

Nota de falecimento da Confederação Brasileira de Rugby

Lamentamos o falecimento do ex-jogador da Seleção Brasileira Diego Hernán Padilla Victorica. Ele faleceu nesta segunda (4), aos 59 anos, em São Paulo (SP).

Essa é uma perda enorme para o rugby brasileiro. Nossos sentimentos aos familiares e amigos.

‘Dom Diego’ foi um dos grandes jogadores que o rugby brasileiro já viu. Além da Seleção Brasileira, ele também defendeu a Seleção da América do Sul e o Alphaville. Foi treinador de equipes também como a Poli e o Spac.

Descanse em paz, Dom Diego!