Não há quem discuta a condição da Inglaterra de favorita ao título no Mundial que se iniciará em 20 de setembro. Afinal, os Roses são sempre fortíssimos, fazem jus à condição de criadores do rugby e têm sempre talentos que se destacam no cenário internacional. O título, em 2003, é devido em grande parte a nomes como Martin Johnson, Lawrence Dall’Aglio (que só não capitaneou aquela equipe em razão de questões particulares havidas no pré-Copa – a autobiografia desse excepcional atleta, “It’s in the blood”, conta essa passagem) e, claro, o incrível Jonny Wilkinson.
Ocorre que os Roses, sempre favoritos, somente conseguiram alcançar o topo naquela edição do Mundial, e isso porque Wilkinson fez chover, não só com a quase irritante precisão nos penais, mas também com um desempenho defensivo impecável.
Neste Mundial, no entanto, apesar da qualidade de seus chutadores, a Inglaterra não terá a precisão de Wilkinson.
Seriam os Roses, então, mais uma vez favoritos, e mais uma vez fortíssimos candidatos a cair nas quartas ou semifinais?
A resposta é não, e a razão para isso é que chama muito a atenção. Explico.
Os inventores do rugby sempre jogaram de forma tradicional. Qualquer fã do esporte sabe que a Inglaterra pratica o jogo de chutes, usa e abusa dos box-kicks e não tem por perfil o chamado “jogo moderno”, em que os centros se tornaram indispensáveis ao modelo de infiltração pela força.
Eddie Jones assumiu a seleção inglesa após o fiasco de 2015 – da estreia contra Fiji, passando pelos duríssimos jogos contra Austrália e Gales, culminando na precoce eliminação, tudo deu errado para a equipe do técnico Stuart Lancaster.
Desde então, o australiano, primeiro técnico estrangeiro a comandar os Roses (que jogaram pela primeira vez em 1871, quando bateram a Escócia por 4 x 1), vem mudando a forma de jogar dos ingleses. O jogo insistentemente fundado nos chutes foi aos poucos sendo substituído pelo modo de jogar praticado pelas grandes seleções – muita velocidade, offloads agudos, centros mais a mais incisivos, e o breakdown transformado em um verdadeiro campo de batalha.
No início, parecia que os ingleses demorariam algum tempo a adaptar-se ao novo modelo. Não seria de se esperar que fosse simples a adaptação a algo novo.
Mas os Deuses do Rugby conspiraram a favor das ideias desse mago – quem não se lembra da memorável vitória do Japão sobre os Springboks no Mundial de 2015, na última bola, gerando a maior zebra de um Mundial? - e deram à seleção inglesa a formação que tem hoje.
Reverenciando o fato de que é da diversidade que se extrai o melhor resultado, a seleção britânica conta hoje com atletas de ascendência estrangeira para adaptar-se ao jogo de contato. Esses atletas, como que formando uma espinha dorsal paralela ao jogo clássico – e belíssimo – praticado pelos Roses, imprimem ao jogo inglês o punch que se vê no Hemisfério Sul, e que as seleções que formam os Pacific Warriors tanto apreciam e praticam.
Esses atletas, nomeadamente Mako Vunipola, Oghenemaro Miles Itoje, ou simplesmente Maro Itoje, Billy Vunipola, Manu Tuilagi e Joe Cokanasiga, mudaram por completo o jogo e a perspectiva tática do comportamento dos Roses em campo.
Uma equipe que pratica desde sempre, com maestria, o jogo de chutes, clássico, com a troca de passes na linha em velocidade, e com um pack de forwards tradicionalmente feroz no embate físico, recebeu como uma diversificação física, tática e mental o modo de jogo desses atletas física e mentalmente privilegiadíssimos, verdadeiros guerreiros que demonstram um apetite voraz pelo jogo de contato e entregam à equipe, a cada choque, a cada mergulho nas linhas adversárias, um ganho de marca de dois, três metros no mínimo.
Quase um experimento antropológico, Eddie Jones extrai de cada atleta o melhor que pode entregar e, respeitando e somando o modo de jogo de cada um e cada grupo, criou uma equipe versátil e capaz de alternar de forma natural, em um jogo, vários modos táticos.
A seleção inglesa de 2015 tinha nomes incríveis como Mike Brown, mas não entregou o resultado que poderia e era esperado. Os ingleses viram-se obrigados a ver o triunfo dos All Blacks, em uma final entre colônias que superaram o colonizador em campo. Agora, em 2019, essa equipe demonstra uma qualidade individual e de conjunto que a credencia a enfrentar de igual para igual todas as outras potências. Arrisco dizer que apenas All Blacks e Springboks estão no mesmo nível – nãos cima.
O único reparo que faço ao plantel inglês para o Mundial é fruto de uma teimosia minha. Por razões que não se explicam, quero sempre ver Danny Cipriani defendendo os Roses. Acredito, e não há qualquer racionalidade para tanto, que esse atleta no mínimo diferente poderia ser o dínamo de criatividade que resolveria as situações duras, os jogos truncados tão comuns nas fases eliminatórias do Mundial. Mas, excetuada essa postura irracional minha, não enxergo nada que desabone a condição de favoritíssima ao título da seleção inglesa. Redimir o fiasco de 2015 pode ser uma boa forma de os britânicos recomporem a fleugma e a postura.
Werner Grau é rugbier desde 1979 e ex-vice-presidente da Confederação Brasileira de Rugby
Programação - Copa do Mundo de rugby
20/9 (sexta-feira)
Japão x Rússia – 7h30 (ESPN e WatchESPN)
21/9 (sábado)
Austrália x Fiji – 1h30 (ESPN e WatchESPN)
França x Argentina – 4h (ESPN e WatchESPN)
Nova Zelândia x África do Sul – 6h30 (ESPN e WatchESPN)
22/9 (domingo)
Itália x Namíbia – 2h (ESPN e WatchESPN)
Irlanda x Escócia – 4h30 (ESPN e WatchESPN)
Irlanda x Tonga – 7h (ESPN e WatchESPN)
