<
>

Favorito ao ouro entre os pesados, brasileiro cria campanha para ir a Mundial de Sumô no Japão

O sumô é o esporte nacional do Japão. E o Brasil, país com a maior população de descendentes e japoneses fora do país nipônico, é o único outro lugar do mundo com um ginásio dedicado exclusivamente à prática do esporte.

Isso, entretanto, não garante aos praticantes locais da arte marcial nenhuma vantagem econômica. Ao contrário. Nem mesmo para os favoritos ao título, como o paranaense Rui de Sá Júnior, 25.

"Aqui, o sumô não dá dinheiro nenhum. Só gastos, mesmo", conta o peso-pesado Júnior, apontado pela imprensa especializada japonesa como um dos mais fortes candidatos à consagração, em Osaka, no campeonato mundial da modalidade, em 12 e 13 de outubro.

O lutador até criou uma "vaquinha" virtual para juntar os R$ 8,5 mil necessários para que ele consiga disputar o torneio, em outubro.

Até 26 de agosto, Rui havia juntando cerca de 27% do valor necessário para a viagem.

Rui tem um currículo invejável na modalidade. São cinco títulos nacionais no peso absoluto e outros dez na categoria peso pesado (a partir de 115 kg).

Embora paranaense, Rui luta pela Federação Paulista. Londrina, sua cidade, bem como o Estado do Paraná, não possuem mais equipes e federações de sumô. Assim, ele via cada 15 dias para o bairro do Bom Retiro, na região central de São Paulo, para poder treinar - o que lhe gera mais gastos.

Rui começou no sumô aos 12 anos, em 2006. Ao ir com o tio Valdecir, dono de uma empresa de tendas, instalar uma cobertura para um campeonato de sumô - todas as lutas precisam ser disputadas sob uma tenda - ele conheceu e se encantou com a modalidade.

"Eu já era bem grande na época", relembra-se ele. No primeiro treino, já ganhou de garotos mais experientes. No segundo mês, disputou pela primeira vez o Campeonato Brasileiro. Um ano depois, em 2007, já era vice-campeão nacional.

TRABALHA TREINANDO

Rui é formado em Educação Física e já estagiou na área, mas ainda dá expediente na empresa de montagem de tendas de seu tio.

"É até bom, porque faço muita força trabalhando, e isso me ajuda nos treinos", afirma. "Também fica mais fácil conseguir uma dispensa para me ausentar e participar de períodos de treinos e disputar campeonatos", explica.

Até por que estar pesado não é um problema para os lutadores da modalidade, Rui não segue qualquer dieta específica. Come o que quer e consegue.

"Eu tenho tentado subir meu peso, mas não tenho conseguido", diz Rui. Na sua categoria, peso-pesado, o peso mínimo é 115 kg, mas o normal, segundo Rui, é pesar mais de 150 kg.

"Em 2015, quando fui terceiro no Mundial (também no Japão), eu estava com 145 kg e era o mais leve entre os lutadores", conta ele que, atualmente, pesa 162 kg.

"Lutei e venci contra um lutador de 260 kg e estava vendo 'estrelinhas' quando a luta acabou", diz, entre risos.

"É bom ser pesado, mas é preciso saber dosar, para não perder velocidade", pondera.

O treinamento dos lutadores de sumo é exigente. Embora não haja trabalho aeróbico, como corrida, há muito exercício em movimento. Os lutadores fazem muito treino de movimentação arrastando os pés, que é como eles se movem nas lutas.

Em média, segundo Rui, uma sessão de treino pode levar até quatro horas, divididas entre combates e exercícios.

"Atletas de outras modalidades costumam não aguentar os nossos treinos", conta ele.

AMADOR x PROFISSIONAL

O sumô tem duas vertentes: a profissional e a amadora.

A profissional, que envolve elementos místico-religiosos da crença xintoísta, é a mais conhecida e, entre outras peculiaridades, apresenta o figurino clássico, no qual o lutador tem grande parte dos glúteos exposta.

Os praticantes do sumô profissional tem status semidivino no Japão e podem ganhar valores que, convertidos, podem chegar a até R$ 100 mil mensais como remuneração.

O maior lutador da modalidade, chamado de Yokozuna, é praticamente uma divindade. Mas não precisa, obrigatoriamente, ser japonês.

Em 1993, pela primeira vez, um não-japonês foi apontado Yokozuna, o havaiano (norte-americano) Akebono. Houve também quatro Yokozunas nascidos na Mongólia, um deles, ainda em atividade.

Já no sumô amador, a vertente praticada por Rui, parte dos elementos religiosos sai de cena, e os lutadores podem usar vestimentas maiores - e os ganhos são muito menores.

Com a Olimpíada de 2020 sendo disputada em Tóquio, houve um certo lobby para que a modalidade entrasse no programa dos Jogos, mas que não progrediu.

Além de Brasil e Japão, o sumô tem um número grande de praticantes na Rússia, Mongólia e Polônia, onde, como no Japão, há até mesmo a prática nas escolas. Mais de 30 países devem mandar representantes para o Mundial.