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Como o draft da NFL pode guiar Joe Burrow a mudar o Cincinnati Bengals?

O Cincinnati Bengals saiu da disputa por uma vaga de playoffs em 2018, para o pior recorde da NFL em 2019 (2-14), ficando com a primeira escolha do Draft de 2020. A média de público no estádio foi a menor desde 1993. Entrar e sair dos jogos requer um pouco mais de esforço. Quem precisa reservar uma vaga de estacionamento quando não existe ninguém na primeira fileira do estádio?

Nada disse deixa Anthony Munhoz (o único ex-jogador dos Bengals a atingir o Hall da Fama da NFL) feliz. Ele gostaria de rever a atmosfera presente quando ainda era jogador.

Então entra o ex-quarterback de LSU e vencedor do Heisman: Joe Burrow.

“Esse quarterback pode vir para cá, crescer com a cidade, crescer com esse time e realmente colocar a sua marca”, afirmou Munhoz.

É pedir muito de um jogador de 23 anos, que era totalmente desconhecido nos Estados Unidos até a sua última temporada, em que conquistou o título universitário e quebrou diversos recordes. Fãs e especialistas elogiaram ao máximo de Burrow, que nasceu em Athens, no sudoeste de Ohio, uma região com pequena tradição no futebol americano.

Nos Estados Unidos, os Bengals se encontram na mesma situação. E, Burrow, que foi desvalorizado, mas chegou ao sucesso em outra região de Ohio, pode ser o cara que mudará tudo.

“Não me surpreenderá se ele for para Cincinnati e eles se tornarem muito bons”, afirmou Nathan White, antigo coordenador ofensivo de Burrow na Athens High School. “É só emocionante pensar nisso.”

"Odeio falar isso e parecer arrogante. É só que vi ele fazer isso. É muito estranho quão parecido é, de Athens até LSU e, quem sabe, Cincinnati”, completou.

Caso os Bengals escolham Joe Burrow no dia 23 de Abril e o chamem de “criança da cidade”, parecerá um pouco forçado, mesmo que ele tenha passado a maior parte de sua infância em Ohio.

Com uma população estimada em menos de 25 mil habitantes em 2018, Athens é considerada uma terra de ninguém no sudeste do estado - 117 km de Columbus, 251 km a leste de Cincinnati e 326 km ao sudoeste do Estádio do Pittsburgh - o Heinz Field.

“Existe uma falta de respeito em relação ao futebol americano do sudeste de Ohio. Não temos a população para competir, tipicamente, com as escolas que ficam nas regiões metropolitanas do estado, muito menos com as escolas particulares”, afirmou Ryan Adams, antigo técnico de Joe Burrow durante o Ensino Médio.

A pequena população limita a seleção de talento na escola de Athens. Mas para obter sucesso, foi necessário que a Universidade de Ohio contratasse uma pessoa, que mudaria totalmente a história da escola.

Por um tempo, parecia que Jimmy Burrow, pai de Joe, estava cansado de treinar no nível universitário. Ele tinha uma carreira de 14 anos, como assistente de Washington State e Iowa State - que acabou em 1994.

Sete anos depois, Frank Solich, técnico de Nebraska perguntou a Jimmy Burrow para ser seu assistente. O arranjo permitiu que ele voltasse a ter uma carreira no futebol universitário e, ainda, o deixou próximo de seus dois filhos - Jamie e Dan - que jogavam no setor defensivo da universidade.

Um ano depois, Solich acabou sendo demitido de Nebraska e foi comandar a Universidade de Ohio. O treinador acabou levando Jimmy Burrow para ser o coordenador defensivo. O filho mais novo de Burrow, Joe, estava na segunda série, e não demorou para todos perceberem que o filho do treinador era muito bom em esportes e, acima de tudo, odiava perder.

“Não há dúvida de que ele sempre foi desse jeito”, disse Ryan Luehrman, companheiro de Joe durante seu tempo no ensino médio. “Em tudo que ele jogava, ele nunca era preguiçoso ou casual.”

Quando Burrow chegou ao ensino fundamental ele começou a jogar um basquete 3x3 na aula de Educação Física. Adams não deixava ele marcar cesta e colocava os dois piores jogadores no seu time. Burrow ganhava mesmo assim.

Adams quase perdeu seu futuro quarterback. Quando Burrow estava na sétima série, em 2010, seu pai foi um dos candidatos para o cargo de técnico de Iowa State. Mas a proposta nunca veio.

“Joe, vamos ficar em Athens”, Jimmy relembra o que disse para o seu filho.

A partir daquele momento, a família decidiu que não iria para nenhum lugar até Joe Burrow terminar o Ensino Médio. Os treinadores de Athens ficariam eternamente agradecidos dois anos depois.

Athens perdeu seu quarterback titular, Michael Germano, antes da temporada de 2012 porque seu pai, Pete Germano, estava deixando Ohio para treinar Fresno State. Burrow, que estava sendo cotado para jogar como wide receiver ou safety, assumiu a posição de quarterback.

“A decisão foi muito fácil naquele ponto”, disse White. “Joe era o próximo na fila”.


Athens nunca havia ganhado um jogo de pós-temporada desde a instauração do modelo de playoffs em 1972. Isso mudou com Burrow.

Os Bulldogs chegaram aos playoffs no segundo ano de Joe, em 2012. Com ele de quarterback, as décadas de futebol fútil em Athens parecia uma memória distante. Até os treinadores olhavam para os adversários e viam uma diferença.

“Eu realmente acredito que nossos jovens acreditaram que poderiam ganhar porque nunca duvidaram de Joe”, afirmou White. “Ele era nosso líder. Acredito que de alguma forma, ele estava na sua zona de conforto e ajudou os treinadores a acreditarem também.”

Burrow ainda era desvalorizado. Ofertas de bolsa de estudo chegavam, mas Nebraska, onde seu pai e irmãos jogaram, não tinha feito uma oferta. Finalmente, Ohio State foi atrás de Burrow, e o então assistente Tom Herman viajou até Athens para ver ele pessoalmente.

Herman ligou para o treinador Urban Meyer e disse que havia encontrado o próximo Alex Smith. Burrow se comprometeu com os Buckeyes antes de seu último ano, em 2014.

“É bom que finalmente tenham dado valor a região sudeste de Ohio”, afirmou Burrow em uma clínica de futebol americano, em 2014. “Não são muitas pessoas que chegam até Ohio State vindo da região sudeste do estado."

Todos da região falaram de Burrow e de Athens durante a temporada de 2014. Muitos moradores da proximidade viajavam até a cidade para vê-lo comandar o ataque.

Os Bulldogs lideraram o estado de Ohio em pontos, marcando 861 em 2014 - uma média de 57,4 por jogo.

Rusty Richards, treinador da escola rival Nelsonville-York High, falou que as pessoas queriam saber se Burrow e seu time realmente eram tão bons. Quando deixavam o estádio, eles sabiam.

“Eles batiam no meu ombro e diziam, ‘esse jovem é de verdade, assim como o ataque”, Richards completou.

Burrow e os Buldogs estavam invictos entrando na disputa do título da terceira divisão do estado contra Toledo Central Catholic, programa que formou o atual quarterback do Las Vegas Raiders, Deshone Kizer.

Greg Dempsey, técnico da escola, disse que os times diminuiam a pressão contra Burrow e tentavam marcar em zona, mas o quarterback tomava conta do jogo. Na final, Dempsey decidiu aumentar a pressão.

“Mandamos tudo para cima dele e chegamos a acertá-lo”, relembrou. “E ele nunca era afetado. Ele olhava por cima da pressão.”

Burrow completou 26 dos 45 passes para 446 jardas. Os seis touchdowns empataram o recorde da final do estado. Parecia o suficiente para Athens vencer, mas faltando 15 segundos Central Catholic marcou um TD vitorioso. O jogo acabou, 56 a 52.

“Esse é o pior dia da minha vida”, Burrow disse aos repórteres depois do jogo.

Duas placas de metal foram colocadas na academia de Athens depois daquela temporada. Na direita, uma comemorava o recorde de pontos do Estado. Na esquerda, uma placa mostrando que eram finalistas de 2014, uma lembrança da fomra como o time de Burrow quase ganhou tudo.


Sam Hubbard, atual defensive end dos Bengals, era um ano mais velho que Burrow, quando o quarterback chegou em Ohio State em 2015. Eles se conheceram quando Burrow ficou no dormitório de Hubbard durante uma visita ao campus. A primeira coisa que ele percebeu de Joe era a sua ética de trabalho.

“Mesmo sendo o terceiro reserva como um primeiranista, ele sempre foi um cara que trabalhou muito duro, genuinamente trabalhou muito duro”, Hubbard diz. “(Ele) fazia porque queria o respeito dos seus companheiros de time.”

Antes da temporada de 2017, o jogador sofreu uma lesão na mão durante e precisou fazer cirurgia, o que acabou impedindo que ele se tornasse o titular. Ele decidiu se transferir para LSU após perder a vaga para Dwayne Haskins, atual QB do Washington Redskins. Em três anos pelos Buckeyes, Burrow tentou apenas 39 passes.

As pessoas de Athens começaram a ver os jogos de LSU assim que Burrow venceu a briga pela titularidade em 2018. Em 2019, os jogos do QB se tornaram eventos locais.

Austin Downs, diretor de esporte de Trimble High School em Glouster (Ohio), disse que as reuniões familiares para assistir jogos de Ohio State nos sábados foram trocadas. Eles passaram a ver LSU jogar.

Em dezembro, Burrow se tornou o primeiro jogador de LSU nos últimos 60 anos a vencer o Heisman. Um mês depois, ele passou para 463 jardas na vitória sobre Clemson por 42 a 25, que deu o título universitário aos Tigers. Completou uma temporada perfeita, na qual ele acertou 76,3% dos seus passes, que viajaram 5,761 jardas e resultaram em 60 TDs.

Adams, o treinador do Ensino Médio de Burrow, viu o jogo sozinho em sua casa. Na sua cabeça, a vitória do jogador repôs o título perdido quando ele estava em Athens.

“Demorou muito para todos nós”, Adams diz. “Queríamos uma validação completa dos sacrifícios que foram feitos naquele ano.”

Começando de seu segundo ano no Ensino Médio, Burrow trabalhou ano após ano sem ver seu time atingir o objetivo final. Agora, ele tinha o troféu em mãos. Depois da partida, ele ficou sem palavras.

“Eu não sei o que mais dizer”, Burrow conversou com repórteres na coletiva. “Quero dizer, teve tantas pessoas envolvidas com tudo isso aqui. Pessoas que me ajudaram na minha jornada em Ohio, Louisiana, em qualquer lugar.”


Muitos esperam que Burrow volte a jogar em Ohio de novo. Os Bengals estão em busca do novo quarterback da franquia para repor Andy Dalton, que esteve nesta função nas últimas nove temporadas.

Burrow pode ajudar de forma imediata a franquia, que não chega aos Playoffs a quatro temporada e teve seu pior ano em 2020. Mais importante, no entanto, Burrow pode trazer emoção para uma cidade que precisa desesperadamente.

Munoz lembra do estádio lotado para ver os Bengals vencerem o título da AFC em 1981, mesmo que o público tivesse que enfrentar temperatura negativa. Era uma demonstração de como as pessoas se importavam pelos Bengals.

“Você queria voltar para a cidade”, afirmou Munoz. “Você quer emocionar os fãs. Você quer que os jogadores experienciem tudo isso.”

As qualidades que Burrow demonstrou durante sua infância em Athens foram consistentes durante seu período em LSU, especialmente sua habilidade de trabalhar com a pressão da defesa.

Em 2019, Burrow liderou todos os QBs com um QBR de 82,6 quando esteve pressionado, de acordo com ESPN Stats & Information. Ele também foi o melhor no mundo universitário contra a blitz, com um QBR de 91,5.

A mesma confiança que tinha antes dos jogos do Ensino Médio ficou evidente em LSU. Jonah Williams, offensive lineman dos Bengals que jogou na Universidade de Alabama, diz que lembra da confiança de Burrow quando o enfrentou em 2018.

“Eu respeito aquele sentimento: ‘Eu não tenho medo de ninguém - eu e o meu time vamos ganhar independente do adversário’. Eu gosto disso”, Williams diz.

Essas qualidades são essenciais, especialmente quando estamos falando de um quarterback que pode ser a primeira escolha geral.

Planejando o Draft deste ano, o diretor dos jogadores dos Bengals, Duke Topin, falou sobre a forma como Burrow trabalha em campo. Mas o contexto por trás dos vídeos de Burrow em LSU são mais importantes para o diretor.

“Transferir de faculdade não é fácil”, Tobin falou no em entrevista durante o NFL Combine. “Quando era quarterback também me transferi. Eu sei as armadilhas disso, e sei como é difícil o time se comprometer com você.”

“Então, eu sei de primeira mão. A sua história é um grande conto de perseverança, dedicação e trabalho duro. Acreditar em si mesmo e depois vencer no nível mais alto”, completou.


Semanas depois de LSU vencer o título nacional, uma loja no centro de Athens dedicou uma vitrine para o herói local - um balão prata com o número 9, páginas de jornais pregadas na parede, e camisetas roxas e douradas com um escrito: “Estou aqui no topo por todas aquelas crianças de Athens.” Essa é uma frase do discurso de Burrow ao receber o Heisman, que inspirou uma doação de 500 mil dólares para um estoque de comida da cidade.

Mesmo que ele não pretendesse, esta foi a forma de Burrow dar algo em troca para a comunidade que o formou. Quando Burrow e Athens chegaram no final dos playoffs, eles enfrentaram as grandes escolas privadas, incluindo a que se tornou conhecida por formar LeBron James, St. Vincent-St. Mary.

“Olha, lá vem os pequeninos de Athens”, Jimmy Burrow relembra. “Joe usou isso como motivação durante a sua carreira.”

Em 2010, quando Burrow estava na oitava série, um tornado passou por Athens e destruiu uma parte significativa do estádio da escola. Após o último ano de Burrow em LSU, a escola de Athens decidiu mudar o nome do lugar. Agora, você consegue ler em letras verdes: “Joe Burrow Field”.

Burrow sabe que se acabar nos Bengals, ele terá um desafio gigante. Como ele disse muitas vezes durante a pré-temporada, o time que tem a primeira escolha do Draft está nessa posição por um motivo.

Adams, seu antigo técnico no Ensino Médio, está mais ansioso do que qualquer pessoa para saber como o atleta jogará na NFL. Adams só precisa olhar para fora da sua sala e para o meio da quadra onde Burrow começou a jogar basquete, para lembrar como o jogador pode ter sucesso no futebol americano profissional.

“Eu honestamente acredito que Joe vai estar completamente consumido por tentar ser o melhor quarterback que ele consegue ser”, Adams diz. “Dizendo isso, ele vai tentar elevar o nível de muitas pessoas ao seu redor, pois sabemos que ali ele terá sucesso.”