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Como Jerry Jeudy superou a tragédia para se tornar uma joia no Draft da NFL

A FESTA ESTAVA PLANEJADA para o sul da Flórida no dia 23 de abril, o primeiro dia do Draft da NFL e algumas horas antes de Jerry Jeudy fazer 21 anos. A ideia de estar em Las Vegas para o Draft nunca foi apelativo para Jeudy. Não havia uma mesa tão grande, ou local no hotel para as pessoas que ele queria convidar.

A sua mãe, Marie, iria fazer a comida, com um toque caribenho para honrar as suas raízes do Haiti. Era a noite dela também. Ela havia ralado para garantir dinheiro para a sua família, vendendo bolsas e cremes no seu carro para agregar ao que ganhava com seu emprego. “Quando eu ficar mais velho”, Jeudy contava para a sua mãe, “Eu vou comprar uma casa para você”. Eles ainda não sabiam que o futebol americano mudaria as suas vidas.

Sua irmã mais velha, Diane Constant, ficou responsável por organizar a festa, porque vamos ser sinceros, Jeudy fica desconfortável por fazer um grande negócio de si mesmo - algo incomum para um wide receiver.

Mas Jeudy tem motivo para se vangloriar. Mais de 60 wide receivers estão inscritos no Draft deste ano, um seleção sem precedente de talento. Jeudy é possivelmente o melhor de todos. Mel Kiper Jr., comentarista da ESPN, projeta que sete recebedores podem ser selecionados na primeira rodada, o que empataria um recorde da NFL. Alguns analistas projetam que 20 dos 100 jogadores selecionados - sim, 20% - serão wide receivers.

“Esses caras são um bando de Randy Mosses”, afirmou um scout da NFL que preferiu manter o anonimato. “Atletas fenomenais que irão mudar o jogo, tendo em vista quantos existem”. Jeudy, seu companheiro da Universidade de Alabama, Henry Ruggs III e o recebedor de Oklahoma, CeeDee Lamb, devem ser os primeiros escolhidos.

Para a família Jeudy havia muito a se fazer. A sua irmã estava procurando um lugar para a festa no dia 1 de abril quando viu a notícia: o governador da Flórida, Ron DeSantis, estava enviando uma ordem para ficar em casa diante da pandemia do coronavírus. Não haveria festa. Nem tapete vermelho nas águas do Bellagio, já que a NFL havia anunciado uma mudança para um Draft virtual.

“É uma chatice que não poderá ser tão grande quanto havíamos planejado”, Constant diz enquanto navega uma conversa da família para buscar um plano B. “Mas, honestamente, se Jerry está fazendo o que ama e as pessoas significativas estão ao redor dele, isso é o importante”.

Independente de quais nomes serão chamados, o Draft da NFL de 2020 oferece esperança para uma família que lutou e sobreviveu com uma realidade persistente: Não importa quantos pessoas os circulem, eles sempre sentirão a ausência de alguém.


NA PRIMEIRA METADE da sua vida, Jerry era o bebê da família, o que levou a seus irmãos o chamarem de “filhinho da mamãe”. Jeudy nunca se importou com isso. “Eu sou o filhinho da mamãe”, afirmou.

Os pais divorciaram quando Jeudy era jovem, e ele se tornou o pequeno braço direito de sua mãe. Marie chegou aos Estados Unidos quando tinha 14 anos, e todo o verão, ela iria levar seus filhos de volta, no que Constant diz ser “uma experiência de humildade”.

“Lá em casa, eles não tem muito, mas eles tiram o melhor da situação”, ela afirmou. “Seus valores são tudo sobre a família, a igreja, casa e escola.” Esses valores fizeram com que Marie fosse extremamente protetora de Jeudy. Ela não queria ele brincando na rua e, especialmente, não queria que seu bebê apanhasse em um jogo de futebol americano. Então Jeudy esperava e eventualmente saia de fininho quando sua mãe estava trabalhando.

As crianças brincavam numa rua estreita no meio das casas que era chamada de “Rua de Trás”. Espaço era limitado, então tinham que aprender a improvisar. Um dos jogadores mais ágeis era um jovem chamado Lamar Jackson. O futuro quarterback do Baltimore Ravens ensinaria alguns movimentos a Jeudy. Ele insinou algumas fintas.

“As mesmas coisas que ele está fazendo agora, ele fazia quando era pequeno”, Jeudy afirma.

Marie eventualmente descobriu das “escapadas” do seu filho. Mas quando ela viu o quanto ele amava jogar futebol americano, acabou cedendo. Neste momento, Jeudy não era mais o bebê da família. Ele tinha uma pequena irmã chamada Aaliyah.

Ela nasceu prematura e teve que permanecer no hospital nos meses seguintes. A primeira vez que Constant foi ao hospital ver a pequena Aaliyah, ela estava cercada de aparelhos. Constant perguntou se sua irmã ficaria bem, mas o doutor ficou incrédulo. Sua mãe não te contou?

Aaliyah havia sido diagnosticada com Síndrome de Edwards, uma rara doença que provoca atrasos graves no desenvolvimento por conta de um cromossomo 18 extra. Bebês com este problema tem uma chance de 10% de chegarem no primeiro aniversário. "

Não tínhamos um computador em casa”, Constant disse. “Então eu fui na livraria da escola, procurei a doença e descobri o que era, que a maioria das crianças não vivem até um ano de idade. Fiquei chorando de forma histérica”, relembrou.

Marie se recusava a acreditar no diagnóstico dos médicos. Na língua criola haitina, Ou se yon doktè men ou pa dye. Você é um médico, mas não um Deus.

Aaliyah eventualmente foi para casa e superou as probabilidades. Ela possuia tubos para ajudar na respiração e na alimentação, e enfermeiras que ajudam ela a viver. Mas Aaliyah era feliz e chorava apenas quando estava com dor. Jeudy chamava sua irmã pequena de “Lulu”. Ele a admirava. Quando estava em casa e as enfermeiras não estavam próximas, ele aspirava usando um tubo o muco preso na garganta dela.

“Ela mudou muito a minha vida”, Jeudy afirma. “Ela me ensinou como lutar na adversidade”.

Futebol americano era uma boa distração para Jeudy, e a Flórida do Sul estava cheia de competição. No seu primeiro ano, ele defendeu a Monarch High School. Seus companheiros de time eram Calvin e Riley Ridley, dois recebedores da NFL. O time era recheado de talento. Uma mudança de técnico fez Jeudy se transferir para Deerfield Beach - agora era a sua chance de mostrar o que podia fazer.

Jeudy que possui 1,85 metros e 87 quilos, mas ainda não era uma grande presença, parecia mais um emaranhado de braços e pernas finas. Mas seu novo treinador, Jevon Glenn, sabia quem ele era. E, sabia que ele podia ser excepcional.

Ele observava Jeudy começar e parar as suas rotas sem esforço, prendendo o seu pé na grama e acelerando sem perder seu movimento. “Isso é uma habilidade presenteada por Deus. Você não consegue ensinar”, Glenn afirmou. Ele viu Jeudy balançar os defensores, com fintas que quebravam o tornozelo. Mas o recebedor também era jovem, e tinha um comportamento despreocupado.

“Ele foi sortudo por ter jogado com Calvin Ridley e Riley Ridley e sempre teve essa mentalidade de pequeno Jerry”, disse Glenn. “A grande coisa era deixar ele saber que tinha chance de ser um atleta de elite, que em breve seria o grande Jerry.”

Antes da sua última temporada, ele disse a Glenn: “Treinador, eu quero ser o melhor recebedor do país”. Jeudy trocou sua alimentação e sono, e estudou o filme de outros wide receivers. Ele praticava fintas no intervalo das aulas, desviando dos alunos que andavam na outra direção. “Ele provavelmente assustou a maioria”, brincou Glenn.

Naquele ano, Jeudy esteve no Under Armour Future 50 Experience. Deion Sanders, Hall da Fama da NFL, estava treinado os defensive backs. E, de acordo com Glenn, Jeudy estava “destruíndo eles”.

“Nós somos um programa obstinado”, afirmou o antigo treinador de Jerry. “A gente não enche nossos atletas de fumaça. Liguei para um dos meus assistentes e disse: ‘Jerry é real. Ele é o melhor jogador aqui”.

Chad Johnson, recebedor que foi nomeado para o All-Pro durante a NFL, dirigiu 30 milhas para Deerfield Beach em uma sexta-feira a noite para ver Jeudy jogar. Para Johnson, era como se estivesse olhando para uma versão mais jovem de si mesmo, desde da forma que corria rotas até o jogo de pernas de elite e as mãos firmes.

“Existe um fator chave que alguns jogadores têm que separam eles do resto e você consegue dizer que ele será especial”, afirma Johnson. “Ele tinha isso quando era novo. Era gelo”.

Jeudy pegou 76 passes para 1,054 jardas e 15 touchdowns no seu último ano, o transformando em um recruta de 4 estrelas. Então, logo depois do Dia de Ações de Graça, Deerfield Beach bateu Atlantic para chegar às semifinais estaduais. Terry, o seu irmão mais velho, que era muito próximo, achou Jerry no campo depois do jogo.

Terry tinha notícias devastadoras: a irmã de sete anos, Aaliyah, que havia superado por muito tempo as probabilidades, havia falecido. Jeudy quebrou em lágrimas.

Nos dias seguintes, o treinador de Jerry disse que era OK se ele não quisesse jogar nos próximos jogos. Família primeiro, afirmou Glenn. “Treinador, essa é a minha família”, Jeudy afirmou. Ele disse que futebol americano era única coisa que podia fazer a sua mente escapar da realidade.

Jeudy postou uma foto com Aaliyah no Twitter. Ela estava usando um aparelho de oxigênio na foto. “Eu juro que irei conseguir para você e para a mãe”, tweetou.

“Não foi fácil”, Jeudy afirma. “Mas, ao mesmo tempo, ela estava sofrendo de todas as coisas com as quais estava passando, como coisas que não podia fazer. Não conseguia andar, não conseguia falar. Mas agora eu sinto que ela tem um lugar melhor, onde consegue fazer o que quer.”

“Consegue andar, consegue falar, consegue fazer o que quer. Agora não está mais sufocado na terra.”


QUANDO CHEGOU a hora de escolher a universidade, Jeudy tinha as suas escolhas de programa, mas estava motivado por uma coisa. “Eu queria ser campeão”, ele conta. A maioria dos treinadores estava prometendo uma titularidade logo no primeiro ano; Jeudy gostou que Nick Saban era o único que não estava. O treinador de Alabama disse que ele teria a oportunidade de jogar como um primeiranista.

Sair não seria fácil. Ele estava acostumado a se apoiar na família, especialmente depois da morte de Aaliyah, mas ele havia terminado o colegial uma semana antes. Estava indo para Tuscaloosa, 11 horas e meia da sua casa. Jeudy ficaria bem. Ele colocou uma foto de Aaliyah em um pingente da Estrela de David. Quando ele olha para aquilo, ele diz: “Ela está aqui”.

Marie iria viajar por longas horas para assistir o seu filho jogar. Só que Jeudy não estava jogando o que ela esperava. O elenco estava rodeado de talento, mas a pessoa recebendo mais a bola era seu antigo amigo Calvin Ridley, que era um terceiranista e um dos recebedores mais explosivos do College. Jeudy passou boa parte da sua infância assistindo e aprendendo com Ridley, agora, tinha que fazer de novo.

Ocasionalmente, ele ligaria para o técnico do colegial para desabafar sobre suas frustrações. Mas Jeudy estava mais interessado em provar o seu valor. Não era fácil. Em adição a Jeudy, Alabama também assinou com Henry Ruggs III e DeVonta Smith na classe de 2017 - todos devem ser futuros recebedores da NFL.

“Eu digo que a minha química com os meus recebedores se desenvolveu porque todos chegamos juntos”, o antigo quarterback de Alabama Tua Tagovailoa falou para os repórteres no Combine. “Havia momentos em que nós três - Ruggs, DeVonta Smith, Jerry - iríamos para o campo e correr rotas e eu lançava na esperança de que teríamos alguma chance de jogar no nosso primeiro ano. Fizemos e desenvolveu a partir daí”, completou.

No terceiro jogo do seu segundo ano, Jeudy tinha três recepções para 136 jardas contra Ole Miss. A sua espera tinha acabado. Ele marcou 14 touchdowns, liderou SEC no quesito e venceu o Biletnikoff Award - dado ao melhor recebedor universitário.

Ano passado, ele não venceu o prêmio Biletnikoff; suas 1,163 jardas e 10 touchdowns foram reduzidos por conta de um excesso de talento de Alabama na posição. Mas os 26 touchdowns de Jeudy o colocaram como segundo na história da Universidade, atrás apenas de Amari Cooper.

Assim como Cooper e Riley, Jeudy sabia que ele estava preparado para o próximo passo.

Três dias depois de pegar seis passes para 204 jardas na vitória sobre Michigan no Citrus Bowl, Jeudy anunciou que estava se declarando para o Draft. Ruggs fez o mesmo alguns dias depois.

Jeudy trabalhou recentemente em Fort Lauderdale com Chad Johnson, o recebedor dos Ravens Marquise “Hollywood” Brown e Antonio Brown. Jeudy também pegou passes do seu antigo amigo, Lamar Jackson.

Um número de jogadores da NFL residem na Flórida do Sul, e com os treinos de verão suspensos indefinitivamente, muitos estão procurando um lugar para treinar. Miami é conhecido por ser o lugar dos recebedores e existe uma camaradagem entre eles.

Johnson deixa claro que ele não está treinando Jeudy. “Só estamos trabalhando”, ele diz. Ainda que sejam comparados um com o outro, as suas personalidades são obviamente diferentes.

Johnson era conhecido por seu trash-talk. Jeudy diz muito “sir” e “ma’am”, e o mais próximo que chega a fazer um trash-talk é durante os treinos, quando ele pode falar para um companheiro de time, durante a competição: “Você não consegue me marcar.” Jeudy não sabe porque é dessa maneira, falar só não é parte do jogo dele.

Johnson diz que é OK: “Isso vem de dentro. Se não é você, então não faz”. Ainda assim, o ex-All-Pro da NFL tem outras previsões para Jeudy, incluíndo que ele será o primeiro recebedor escolhido no Draft.

“Ele vai ser eleito o Novato do Ano. Ele é diferente. Quero dizer, especial”, completou.


JEUDY NÃO VAI ter uma festa no dia 23 de abril. Ele vai passar o dia do Draft com o seu círculo pequeno de família. Em algum momento, o futebol americano vai voltar, e ele pretende comprar para a sua mãe aquela casa e um Range Rover branco.

“Ela é minha mãe”, ele diz. “Ela fez tudo por mim. Agora é o momento que farei tudo para ela.”

Ele tem muito para ocupar seu tempo, por enquanto. Sua filha nasceu no dia 27 de Março. Ele compartilhou uma foto recente no instagram. Ela está dormindo usando uma blusa rosa. Na direita da foto está o seu nome.

Journee Aaliyah Jeudy.