NFL: A perigosa jogada que destruiu a perna do universitário Bill Belichick, do New England Patriots

Neste domingo, às 21h15, New England Patriots e Detroit Lions se enfrentam, com transmissão da ESPN e do WatchESPN, no confronto de dois ex-companheiros. De um lado Matt Patricia, ex-coordenador defensivo dos Patriots e que hoje comanda os Lions. Do outro, Bill Belichick, que é tema de um novo livro com algumas histórias pouco conhecidas.

Confira uma delas, extraída de “BELICHICK: The Making of the Greatest Football Coach of All Time [A Formação do Maior Treinador de Futebol Americano de Todos os Tempos],” de Ian O’Connor, escritor sênior do ESPN.com. - Copyright @ 2018 by Ian O'Connor. Usado com permissão de Houghton Mifflin Harcourt. Todos os direitos reservados.


Bill Belichick colocou as mãos ao redor da bola, baixou a cabeça abaixo dos joelhos e espiou pelo capacete e pelo espaço entre as pernas arqueadas. Ele estava no segundo ano da faculdade na Wesleyan, em Middletown, Connecticut, e estava prestes a fazer o snap em um jogo-treino que acabaria com sua relação amorosa com o jogo.

Tom Tokarz, um veterano, estava em campo com Belichick naquele dia. Ele se lembra de Bill entrando pela porta da frente da fraternidade Chi Psi no ano anterior, vestindo uma camisa da cidade de Andover, Massachusetts, calça de moletom cortada e chuteira sem meias. Belichick segurava um bastão de lacrosse e estava acompanhado por seu grande amigo de Annapolis, Mark Fredland, que já era membro da fraternidade que Bill estava prestes a entrar.

Belichick não se encaixava bem na bagunçada Chi Psi mas, ainda assim, ele exerceu uma espécie de encanto na matrícula da fraternidade. No ano anterior, o ano de calouro de Fredland, apenas quatro jovens entraram na Chi Psi, incluindo um jogador de lacrosse chamado Chris Diamond, que disse: “A vida como membro de fraternidade e as próprias fraternidades acabaram” enquanto muitos estudantes foram consumidos pelos graves protestos sobre o Vietnã. Mas no outono de 1971, Diamond disse que Belichick era uma figura cativante e popular o suficiente para ajudar a recrutar uma classe de cerca de 20 membros para a Chi Psi. “De maneira sutil”, disse Diamond, “Bill era como um macho alfa e atraía amigos”.

Entre muitos outros membros da fraternidade e companheiros de equipe, Bill mais tarde fez contato com Scott Langner, filho de um juiz de Birmingham, Alabama. Langner realizou um sonho de infância jogando como calouro para o Crimson Tide e seu lendário técnico, Paul "Bear" Bryant. O pai de Langner jogou por Alabama, e seu primo David se tornaria uma figura lendária na rivalidade Alabama-Auburn, retornando dois punts bloqueados de Alabama para touchdowns no último quarto para dar a Auburn uma vitória de 17-16 no Iron Bowl de 1972.

“Bear” Bryant preferia que seus jogadores de futebol fossem maiores do que Scott Langner, de 1,73 m, então o linebacker decidiu se transferir para uma pequena escola onde poderia jogar. Alguém recomendou a Wesleyan, então, ele entrou na vida de Belichick.

“O que mais me lembro é que Bill adorava comer. . . Nós sempre ouvíamos música: Grateful Dead, Allman Brothers, Moody Blues e artistas do gênero. Era só música hippie”, disse Langner,

Langner decidiu que Belichick, que também jogava squash na Wesleyan, não se parecia muito com os jogadores de futebol que conheceu em Alabama. “Bill era uma pessoa séria. Ele não fazia o tipo atlético, se me entende. Não havia muitos desses caras [na Wesleyan]”, disse

Langner era um deles, um encrenqueiro grande e loiro dentro e fora do campo. Embora tenha se dado muito bem com Belichick, ele teve um pequeno problema com seu companheiro de equipe dentro de campo.

“Bill era um center e eu jogava linebacker. Eu odiava center”, disse Langner.

Isso se comprovou no treino. “Scotty avançava sobre Bill. Ele pesava 97,5 kg, enquanto Bill tinha em torno de 84 kg”, disse o treinador no ano de calouro de Belichick, John Vino. “Langner avançava sobre ele em snaps longos ou em qualquer snap... Scott Langner era um terror. Quando o snap era feito, você tinha que sair do seu caminho. Ele não se importava se você estivesse no time dele ou no outro time. Ele só queria acertar você”.

Ele só queria que seus companheiros do Cardinals vissem estrelas. A rapidez e a força de Langner mais do que compensaram sua falta de altura. Ele jogava com uma espécie de ferocidade atlética raramente vista em uma pequena escola de artes liberais, considerada uma equivalente acadêmica a alguns membros da Ivy League. Tokarz lembra que Langner “soltava esse grito horripilante toda vez que acertava alguém. Ele meio que aterrorizava alguns dos caras mais jovens”.

Os jogadores da Wesleyan chamavam Langner de “The Wave” [A Onda], uma aparente referência às suas raízes na Crimson Tide. Ao contrário de The Wave, Belichick tinha que trabalhar duro para estar na equipe como estudante de segundo ano. Vino o considerava um calouro no futebol americano e lacrosse. Ele via Bill como um garoto simpático e inteligente, com um humor seco, habilidades médias como jogador de linha e consistência acima da média como long snapper. Bill também se comportava com um estilo que espelhava seus tempos.

“O cabelo dele era muito comprido e o meu também. Todos nos parecíamos com os Beatles naquela época”, disse Vino.

Alguns colegas de equipe descreveram o corte de Belichick como sendo tigelinha na frente e na altura dos ombros atrás, parecido com o corte de cabelo do Príncipe Valente.

Essa descrição vinha com um aviso.

“Ele tinha um corte como o do Príncipe Valente, mas ele não era tão bonito quanto o Príncipe Valente”, disse o companheiro de equipe Frank Levering.

Levering considerava Belichick quieto e reservado, alguém que nunca se oferecia para nada.

“Você podia estar bem ali, a um metro de distância dele e ter a sensação de que ele nem se dava conta de você”, disse Levering.

Levering havia jogado em um time campeão estadual no ensino médio, em uma pequena cidade da Carolina do Norte. Ele achava que muitos de seus companheiros de equipe eram muito mais talentosos do que Belichick.

Em um programa de futebol americano que girava em torno de uma missão singular - tentando (e muitas vezes fracassando) vencer Williams e Amherst, os outros membros dos chamados Três Pequenos poderes acadêmicos - Belichick se destacava na resolução de conflitos.

“Ele era o mais ameno naquela casa (da fraternidade)”, disse Vino. “Ele era a voz da razão mesmo quando não havia razão. E se houvesse uma discussão no campo, ele seria aquele que resolveria”.

Mas nesta jogada, neste treino, no início do segundo ano de Belichick, sua voz da razão não foi ouvida. Ele era o center em uma tentativa de extra point. Os treinadores da Wesleyan pensaram que tinham visto uma fraqueza no meio do time de chute do adversário. Eles queriam que a primeira linha da defesa explorasse essa suposta fraqueza contra seus próprios companheiros de equipe. Belichick, um reserva, foi identificado como o ponto de ataque específico.

Bill Macdermott, o treinador principal, tinha sido um bom jogador no Trinity College e foi era muito querido por sua equipe. Macdermott era incansavelmente entusiasmado e emotivo e quase sempre se acabava em lágrimas com as vitórias e derrotas, grandes e pequenas. Isso até virou brincadeira entre os jogadores: Quanto tempo levará dessa vez para o Mac começar a chorar?

O lado preferido de Macdermott era o ataque. Ele adorava avaliar seus jogadores após cada jogada. Sua equipe incluía Herb Kenny, treinador de basquete da Wesleyan e ex-jogador de futebol americano da St. Bonaventure, e Pete Kostacopoulos, que estava prestes a iniciar uma longa e brilhante carreira como treinador principal de beisebol do Cardinals. Kostacopoulos, ou Kosty, coordenava a defesa para Macdermott. Kosty era conhecido por ser um tipo rude que mastigava muito tabaco. Os outros assistentes sabiam que não deviam ficar a favor do vento perto dele quando estava acima na cabine de imprensa.

Os jogadores tinham opiniões diferentes sobre Macdermott e seus assistentes, seus estilos e competência.

“Mas não havia vilões na equipe técnica”, disse Levering.

Os jogadores respeitavam o conhecimento de Kostacopoulos sobre o jogo e sua capacidade de tirar o máximo proveito deles. O Linebacker Art Conklin, por exemplo, achava que Kosty era um gênio estratégico e alguém que te avisava quando você jogava mal. Belichick sofreu em um lance quando jogava como linebacker, de acordo com Conklin, obrigando Kosty a fazer essa avaliação ridicularizando-o em sua folha pós-jogo: “Bill, a jogada começou às 10 da manhã. Agora são cinco horas e você ainda precisa fazer um tackle”.

Então Kostacopoulos estava agindo como um supervisor para essa jogada dura em especial. “Por acaso, eu estava atrás da defesa”, disse ele - parado ali enquanto seus dois linebackers maiores, Langner e Conklin, se preparavam para avançar com tudo sobre Bill Belichick.

Como em Andover, Belichick se manteve como um long snapper que permanecia depois do treino para trabalhar em seu ofício, e como um aprendiz de treinador, que via coisas que companheiros de equipe menos perspicazes não viam. Tokarz jogou na secundária quando era veterano e se lembra de Belichick gritando qual era a jogada de passe do oponente da linha lateral antes do snap. Belichick notava que um recebedor havia se alinhado perto da linha lateral, sinalizando que correria uma rota. Com certeza, Belichick acertou a chamada e Tokarz estava na marcação do recebedor pretendido para forçar um passe incompleto. De muitas maneiras, Tokarz pensava, seu companheiro de time mais jovem possuía uma mente de futebol mais avançada que alguns dos treinadores da Wesleyan.

Kenny disse que Belichick “fez tudo que ninguém mais queria fazer”, e nunca cometeu um erro mental, não importava a posição que lhe pedissem para ficar. Se Kenny tivesse algum problema com Bill, ele estava relacionado com seu treinamento em Andover.

“Nós tratávamos os alunos vindos da escola preparatória um pouco diferente dos garotos da escola pública. Pensávamos que os garotos da escola pública eram muito mais duros do que os das escolas preparatórias”, disse.

Kenny lembra que Belichick passava mais tempo com ele depois do treino. Às vezes, pela manhã, Bill passava no escritório do assistente técnico para passar por um relatório de observação.

“Isso é incomum para um garoto que não joga muito, especialmente na Wesleyan”, disse Kenny. “Eles não tinham tempo livre para fazer o que o Billy fazia”.

Mas mesmo no mundo do futebol americano universitário de pequeno porte, um reserva é muitas vezes considerado dispensável e colocado em perigo. Neste dia, várias testemunhas disseram que a Wesleyan estava trabalhando em uma técnica perigosa que exigia vários jogadores defensivos para atacar o center. Não ficou claro quantas repetições foram executadas às custas de Belichick, mas ficou claro para quase todas as testemunhas que o exercício foi uma péssima ideia.

“É uma jogada dura para executar contra o seu próprio time”, disse Tokarz. “Eu pensei que poderíamos ter feito um treino com bonecos para praticar isso. O treinador decidiu fazer com os próprios jogadores e, sim, foi uma infelicidade. Todos pensamos (que foi um erro). Eu não conheço ninguém que pense diferente”.

Lenny Femino, um calouro de 1,65 m e 75 kg, de Salem, Massachusetts, que conseguia levantar 147 kg no supino, deixou o campo, observando apenas a três metros de distância, quando pensou consigo mesmo: “Cace..., isso é um treino. Em um jogo, você tem que encontrar o ponto fraco do seu oponente, acertar o espaço e avançar, mas isso é apenas um treino... Eu não gostaria de ser Bill agora”.

Conklin, o linebacker de 1,78 m e 95,3 kg, vindo de Newtown, Connecticut, disse que Kenny tinha inventado um novo esquema para bloquear chutes, que envolvia colocar dois tackles na frente do center, com um terceiro jogador de defesa posicionado atrás desses tackles.

“Isso absolutamente era coisa do Herb e [Macdermott] tinha acabado de soar o apito”, disse Conklin.

O linebacker disse que Langner ficou como um dos tackles ao lado de um companheiro de equipe chamado Bill Wilson, e que, conforme o desenho da jogada, os dois ficaram de olho em Belichick.

Com o capacete abaixado e os olhos voltados para o holder e o kicker, Belichick ficou vulnerável devido à natureza da tarefa. Ele fez o snap e depois se preparou para ser atingido.

“Assim que snap aconteceu”, disse Conklin, “eles deveriam colocar os braços ao redor das pernas [de Belichick], [levantar e] entrar em suas ombreiras e derrubá-lo. Eu deveria atropelá-lo e ir diretamente até o kicker e bloquear o chute de extra point. Não foi só uma vez - nós devemos ter feito isso dez, doze vezes. ... Foi estúpido e acho que era ilegal. Nós fizemos isso de novo e de novo e de novo. Eu atropelei Bill, como eu disse, dezenas de vezes. ... No dia seguinte, Bill estava engessado”.

Kostacopoulos se lembra da sequência assim: “Nós estávamos trabalhando para bloquear chutes de extra point. Um dos nossos jogadores fez o tackle baixo e acertou o joelho [de Belichick], o que o machucou. Eu me lembro da jogada... Eu sei que as pessoas falaram sobre dois caras convergindo para ele. Não foi um exercício. Foi uma técnica que essa pessoa na defesa, eu não lembro quem era, mas ele ia avançar até lá e acertar o center com força”.

Kenny trabalhou em equipes especiais. Décadas depois ele disse que não se lembrava de executar essa jogada repetidas vezes como Conklin descreveu. Embora ele tenha dito que a técnica em questão não era nova nos círculos do futebol americano universitário, ele admitiu: “Provavelmente era novo para nós”. Kenny lembra que outro jogador da Wesleyan estava fazendo os snaps inicialmente durante o treino de chute de extra point antes de substituir o jogador por Belichick.

“Eu disse: ‘Vamos lá, Billy, você precisa vir fazer snaps’”, disse Kenny. “Ele estava um pouco relutante. Ele se machucou e sempre me culpou”.

Conklin disse que os treinadores repetiram a tentativa de bloqueio do chute de extra point tantas vezes naquele dia que ele não conseguia se lembrar da jogada específica que lesionou Belichick. Qualquer que fosse a jogada, um jogador disse que o som do contato e da dor se ergueu instantaneamente sobre as colisões que aconteciam na linha de scrimmage e fez com que tudo se paralisasse.

“Você ouvia o som”, Lenny Femino disse, “e você ouvia Bill. Eu lembro dele gritando. O grito foi horrível. Ele se revirava no chão. Não parecia bom. ... Você não via a perna quebrada. Apenas ouvi e sabia que ele estava lesionado. Sabia que era ruim e tudo parou”.

Os outros que estavam lá descreveram a lesão de Belichick como uma séria lesão no joelho. Tokarz confirmou a conta de Conklin de que três jogadores de defesa, não dois, haviam colidido com Belichick e que um deles foi por cima e dois por baixo, o que retiraria Bill dos campos pelo resto do ano.

“Bill era um snapper excelente. Ele era o cara certo para fazer isso”, disse Tokarz. “E você tem três caras esmagando-o no treino tentando bloquear o chute. ... Os caras que o acertaram se sentiram terríveis. Eles se sentiram horríveis, todos os três caras”.

Segundo todos os relatos, Belichick estava furioso com essa lesão desnecessária causada por uma técnica perigosa. Jackson, seu treinador de lacrosse, disse que Bill tinha um temperamento que a maioria das pessoas nunca viu, e que o próprio Jackson viu apenas uma ou duas vezes. Uma delas foi a reação de Belichick a esta jogada e a esta lesão que terminou com sua temporada. Bill estava tão zangado que não voltou para a equipe em seu terceiro ano. (Ele retornou no quarto ano como um tight end/defensive end reserva).

“O joelho de Bill foi destruído enquanto o usavam como cobaia", disse Jackson. “Destruiu o joelho dele e obrigou-o a desistir do futebol. Ele estava furioso. Ele estava queimando por dentro. Ele nunca perdoou esses treinadores. ... Ele nunca mais falou com os treinadores de futebol. Ele me explicou o que tinha acontecido e não posso dizer que o culpei.

Kenny contestou esse relato. Ele disse que Belichick ficou bravo com ele por “talvez cerca de uma semana” e que ele não sentiu que devia se desculpar com seu jogador.

“Isso é apenas futebol”, disse ele. “É isso que acontece. Nunca me desculpei e nos demos bem depois disso”.

De qualquer forma, Conklin disse que Belichick nunca reclamou com os funcionários da escola sobre os eventos que causaram sua lesão, nem envolveu seu pai no assunto. Don Russell, ex-treinador de futebol americano da Wesleyan, que então era o diretor de esportes, confirmou que Belichick nunca levou o incidente a ele e nunca o mencionou em qualquer conversa décadas mais tarde.

“Eles poderiam ter causado confusão para a universidade, mas Bill engoliu a seco e aceitou uma temporada perdida.Ele apenas aceitou o fato e nunca disse outra palavra”, disse Conklin sobre Belichick e seu pai.