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Pai preso, 'fracasso' em teste e até futebol: conheça C.J. Stroud, novato que fez os Texans voltarem aos playoffs da NFL após 5 anos

C.J. Stroud comemora vitória do Houston Texans na NFL Cooper Neill/Getty Images

A temporada regular da NFL chegou ao fim e agora é a "hora da verdade", com a disputa dos playoffs para conhecermos os dois times que disputarão o Super Bowl, no dia 11 de fevereiro. Muitas equipes que vêm se destacando nos últimos anos seguem perto do topo, enquanto outras surpreenderam ao conseguirem um lugar na pós-temporada. Um deles certamente é o Houston Texans. A franquia, que não disputava os playoffs desde 2019, conseguiu a vaga muito por conta da estrela de um calouro.

C.J. Stroud, em seu primeiro ano na liga, já mostrou que a aposta dos Texans de o selecionarem na segunda posição do último draft foi mais do que acertada. Ele quebrou recordes de jardas passadas (470) e passes para touchdown (cinco) de novatos em uma única partida, além dos recordes de jardas (4.108) e touchdowns (23) de um calouro na história da franquia.

(Conteúdo patrocinado por C6 Bank, Ford e Vivo)

Mas o jogador de 22 anos, apontado como um dos favoritos ao prêmio de rookie ofensivo da temporada, ao lado de Puka Nacua, wide receiver do Los Angeles Rams, não chegou ao estrelato da maneira mais fácil possível. Ainda muito jovem, já se via nele uma aptidão para os esportes, mas não se sabia ao certo qual modalidade.

Um dia, quando ele tinha 3 anos, seus pais, Kimberly e Coleridge, o buscaram na creche e uma mulher que trabalhava lá os alertou: "Acho que seu filho é muito especial".

Eles riram disso, achando que ela provavelmente dizia isso sobre todos os alunos. Mas a mulher foi inflexível: "Não, é sério". Naquele dia, as crianças estavam jogando basquete e C.J. se destacava até mesmo contra meninos dois anos mais velhos que ele. As funcionárias da creche nunca tinham visto nada parecido.

"Ele sempre foi assim", disse Kimberly. "Muito motivado, muito obstinado. Quando ele era pequeno, acreditava muito em si mesmo e em suas habilidades."

O basquete foi a sua primeira paixão, já que se divertia com seus irmãos em uma tabela ao lado de sua casa no Rancho Cucamonga, Califórnia. Mas se aventurou também em outros esportes. Ele jogou beisebol por alguns anos e até arremessou, mas achou chato. Tentou o futebol, mas durou apenas uma temporada. "Marcou tantos gols que as outras crianças ficaram irritadas", recordou sua mãe.

Foi então que chegou ao futebol americano. E seu destaque inicial se deu muito pelo que aprendeu no basquete: "Eu acho que ele joga como um armador. Ele tem uma visão diferente, como se pudesse ver aquela abertura de espaço", disse Mark Vetti, que foi seu treinador no início da carreira.

Segundo sua mãe, o fato dele, o mais novo de quatro filhos, treinar basquete com seus irmãos mais velhos, que nem sempre o deixavam jogar, também pode ter contribuído. "Isso certamente o fortaleceu um pouco".

Stroud começou sua carreira no futebol americano no Alta Loma Warriors, mas na 7ª série ansiava por uma competição mais acirrada. Ele disse à mãe que queria jogar na Snoop Youth Football League, fundada pelo rapper Snoop Dogg.

Sua mãe tinha ressalvas: "Eu pensei, 'De jeito nenhum', porque eles são durões. Ele é o meu bebê... eu apenas orei o tempo todo."

As horas seguintes foram difíceis de assistir: defensores adolescentes famintos avançando rápido como um raio em Stroud, tentando derrubá-lo. Kimberly nunca tinha visto seu filho se mover tão rapidamente.

E Priest Brooks, técnico do Pomona Steelers, nunca tinha visto um quarterback como Stroud. Ele tinha 1,70 m, apenas um centímetro a menos que o treinador, e embora não tivesse muita velocidade, ele tinha algo melhor: um toque suave e a habilidade de colocar a bola onde quisesse. Com moral com o treinador, ele rapidamente ganhou espaço no time.

E o técnico, que antes de virar treinador de futebol americano fez carreira como rapper e produtor musical, colaborando com grandes nomes, como Dr. Dre, Ice Cube e Tupac Shakur, seria importamente não apenas dentro dos campos, mas na vida de C.J. Stroud como um todo.

Em 2016, seu pai, Coleridge, foi condenado à prisão perpétua após se declarar culpado de sequestro, roubo de carro e envolvimento com drogas. De acordo com documentos judiciais, ele bateu o carro da vítima em um poste, recusou ordens da polícia para deitar no chão e tentou escapar pulando no mar em San Diego. Sua sentença levou em consideração condenações anteriores, há mais de 20 anos. Em um recurso de sua sentença em 2018, ele argumentou que "passou quase 20 anos como empresário, pastor, proprietário de casa, marido e pai de sucesso. Quando sua esposa pediu o divórcio em 2012, sua vida ficou fora de controle e ele começou a usar drogas novamente após mais de 20 anos de sobriedade."

"Ele não cometia um crime desde os 20 anos. Então as pressões da vida e todas essas coisas que acontecem fizeram com que ele se perdesse", relatou sua ex-esposa, Kimberly, que explicou que aquilo foi forte demais para seu filho mais novo: "C.J. o via como Superman".

Foi então que o técnico Priest Brooks virou um "pai substituto". Ele tem um filho com a mesma idade de C.J. e eles se tornaram amigos íntimos. Stroud e um punhado de outros meninos dormiam na casa de Brooks, diz ele, comendo "a cada cinco minutos". Ele tentou fazer com que CJ se sentisse confortável, encorajando-o a "ficar no lugar das crianças".

De acordo com sua mãe, viver rodeado de mulheres deu a C.J. uma sensibilidade e uma capacidade de se preocupar mais com os sentimentos das outras pessoas. E sem a presença do pai, ela teve que se preocupar em como alimentaria e cuidaria de seus dois filhos mais novos - C.J. e Ciara.

Ela trabalhou em empregos intensivos em mão-de-obra e acabou se tornando gerente de uma loja, enquanto a família morava em um apartamento de dois quartos e um banheiro acima do local. C.J. não reclamava, nem quando usava roupas de segunda mão, nem quando jogava parte de uma temporada de futebol com chuteiras já bastante velhas. Quando Kimberly viu as bolhas vermelhas em seus pés, ela perguntou por que e ele não disse nada.

"Não quero incomodar você, mãe. Vejo o quanto você trabalha duro", disse ele, que se motivou com a fase difícil. "Mamãe, você não terá que fazer isso para sempre. Só quero que você saiba disso."

E foi com essa força de vontade que ele teve paciência até conseguir brilhar. Stroud entrou para o time de futebol americano da Rancho Cucamonga High School ainda em seu primeiro ano. Se ex-técnico Mark Verti não consegue se lembrar de nenhum calouro que tenha feito isso antes de Stroud.

Depois de competir com sete ou oito atletas para ser titular, Stroud se viu em uma batalha de dois homens pelo cargo com Nick Acosta, mais velho. Acosta ganhou a posição de titular e Stroud ficou no banco de reservas, com uma prancheta, por duas temporadas.

Kimberly ficou com raiva ao ver seu filho segurando cartazes quando ela acreditava que ele era bom o suficiente para estar em campo. "Eu estava tipo, 'Pare de fazer isso'. "Mas ele apenas disse: 'Mãe, este é o meu time. Tudo o que eles precisam que eu faça para ajudá-los a vencer, estou disposto a fazer."

Quando finalmente conseguiu a vaga no time principal, o pior aconteceu. Stroud machucou o tornozelo no primeiro quarto de seu primeiro jogo como titular no ensino médio, perdeu a segunda semana e voltou mancando no terceiro jogo. Portanto, não foi uma surpresa que ele não tenha recebido muita atenção em recrutamento em sua temporada júnior. Tudo isso mudou alguns meses depois. Ele foi convidado para um acampamento de quarterbacks no Texas. Ele foi um dos QBs com classificação mais baixa a chegar ao evento e um dos únicos jogadores cujos pais não contrataram um treinador pessoal. Ao longo do fim de semana, Stroud superou todos e foi nomeado MVP.

Finalmente, os treinadores da faculdade começaram a ligar. O técnico de Ohio State, Ryan Day, ofereceu uma bolsa de estudos, e Stroud terminou o ensino médio mais cedo e chegou ao campus da universidade em janeiro de 2020. Foi nesse momento, longe da família, que ele passou a explorar mais a sua religiosidade e passou a fazer benfeitorias até mesmo para colegas de time.

Anos se passaram e aproximadamente uma semana antes do draft para a NFL, o jornalista Bob McGinn, citando várias fontes anônimas, relatou que Stroud registrou a pontuação mais baixa, 18%, em um teste de cognição, enquanto a pontuação total de Bryce Young, de Alabama, foi de 98%. Young, amigo de infância de Stroud, foi escolhido em primeiro lugar pelo Carolina Panthers no draft.

O teste é usado para avaliar o processo de tomada de decisão de um potencial jogador da NFL e "mede cientificamente as habilidades cognitivas de velocidade de jogo de um atleta até o nível de milissegundos".

O resultado fez com que ele fosse descartado por algumas franquias, e um relatório citou um executivo anônimo da NFL que disse que a pontuação de Stroud era como um alerta vermelho: "Você não pode aceitar um cara assim. É por isso que tenho Stroud como um fracasso."

Isso, porém, não foi suficiente para que os Texans desistissem do atleta. E muito por conta de Jerrod Johnson. Ele, que foi mentor de Stroud no acampamento Elite 11 em 2019, o fim de semana que mudou sua trajetória no futebol, passou a trabalhar como assistente-técnico do time.

O treinador relatou que gostou imediatamente de Stroud por causa de sua humildade, talento e vontade de aprender e se mostrou bastante empolgado com a perspectiva de trabalhar com Stroud novamente.

"Acho que existe um respeito mútuo. Estamos começando de uma boa base. Há uma linha tênue entre conforto e crescimento. Acho que há um nível de conforto entre nós, mas também há um nível de crescimento."

O coordenador ofensivo dos Texans, Bobby Slowik, foi outro que não se importou com o resultado do teste: "Para mim, a interação pessoal com ele tem muito mais peso do que qualquer uma das notas dos testes. Se a pontuação de um teste pudesse lhe dar a resposta no processo de avaliação, seria muito fácil. Mas a realidade é que o processo de avaliação é muito difícil porque você lida com humanos que são imperfeitos. Há realmente muito desconhecido em tudo isso. O que lhe dá convicção em alguém é quando você fala com essa pessoa e sente um impulso, sente uma vantagem, sente vontade, sente coragem. Eu poderia dizer, conversando com C.J., que ele fará o que for preciso para ser bom, para ser ótimo e para garantir que a organização para a qual ele frequenta vencerá."

A confiança de todos do Houston Texans deu certo e C.J. Stroud agora é uma estrela. Mas isso não muda em nada o fato de ainda ser o "bebê da mamãe". Kimberly não consegue assistir aos jogos do filho na TV. Ela tem que estar presente no estádio e passa a maior parte do tempo orando. Ela se preocupa toda vez que ele é atingido, então o quarterback reserva dos Texans, Case Keenum, prometeu recentemente a ela que sempre que Stroud estiver no chão e as coisas parecerem duvidosas, Keenum irá ver como ele está e dar um sinal de positivo na linha lateral para garantir que ele está bem.

Onde assistir Houston Texans x Cleveland Browns?

C.J. Stroud vai para seu primeiro jogo de playoffs na carreira neste sábado (13), quando os Texans recebem os Browns pelo Wild Card e tentam se garantir nas semifinais da AFC. A partida, marcada para 18h30 (de Brasília), terá transmissão pela ESPN no Star+.