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NFL: Como é o 'retiro na escuridão' que Aaron Rodgers foi para se desconectar da realidade?

Aaron Rodgers teve sua pior temporada cuidando da bola desde sua estreia como titular na NFL, em 2008. Aos 39 anos, o quarterback passou por várias contusões no ano passado e não conseguiu reverter o cenário negativo dos Packers. Getty Images

A NFL ainda espera para descobrir se o futuro de Aaron Rodgers será, ou não, no Green Bay Packers.

O quarterback é conhecido por passar a intertemporada utilizando alguns métodos, que ele mesmo descreve, um tanto quanto não-convencionais de autorreflexão. Em 2020, o camisa 12 viajou até o Peru para tentar umas destas experiências com Ayahuasca. Na época, por conta da Covid-19, quase ficou preso na América do Sul e não conseguiu participar de ritual algum.

Rodgers discute abertamente sobre seus métodos, que englobam yoga, meditação e até retiros espirituais silenciosos. Então, quando ele compartilhou a notícia de que iria para um retiro escuro, muito se falou sobre isso.

"Acho que todos se beneficiariam em desligar os celulares um pouco, para que em algum momento se desconectassem da sociedade. Algumas pessoas não querem ficar alguns dias ou noites na escuridão e está tudo bem", disse Rodgers para o The Pat McAfee Show: "Mas, julgá-los, de todos os jeitos possíveis, como se você tivesse uma verdadeira compreensão sobre esse assunto, não é exatamente o jeito que deveríamos nos integrar como sociedade, ou até pensando em nos conectar como pessoas melhores."

Rodgers, que tem 39 anos, completou seu retiro escuro na quarta-feira, 22 de fevereiro, segundo Scott Berman, que é dono do local que o quarterback ficou, no sudeste do Oregon. O jogador, que veste o uniforme dos Packers há 18 anos, não disse ainda se jogará pela equipe em 2023.

Antes de entrar no retiro, Rodgers disse que esperava ter "uma noção melhor de onde está neste ponto da sua vida", mas que não foi buscar apenas uma resposta sobre o futebol americano. Ele ainda tem um contrato de U$59,465 milhões (R$303 milhões na cotação atual) garantido, caso jogue na próxima temporada.

Berman disse que o quarto, em que Rodgers passou seu tempo, é parcialmente abaixo da terra, sem luz, com uma cama de solteiro, um banheiro e um estofado de meditação no chão. É totalmente estruturado e a luz pode ser ligada a qualquer instante, caso alguém dentro dele queira.

O retiro tem três quartos de escuridão e está agendado para os próximos 18 meses, segundo Berman, com uma lista de espera maior que 100 pessoas. Existe um planejamento para construção de outros sete dormitórios com esta característica, em virtude da demanda.

Fazer este retiro na escuridão é uma prática espiritual milenar, que tem origem nas avançadas linhagens do budismo tibetano Dzogchen e Kalachakra, mas que provém também de algumas práticas da Índia antiga.

Alguns benefícios médicos são possíveis, mesmo que não haja comprovação científica. Berman pontuou sobre as origens deste retiro e disse que há práticas parecidas na Grécia antiga, na cultura egípcia, Kogi e em indígenas colombianos. Estes últimos tinham a prática de deixar o filho e a mãe na escuridão por um breve período após o nascimento.

Berman começou a explorar diferentes tipos de terapias há mais de 20 anos, enquanto terminava sua graduação em Skidmore, Nova York. Ele vive com sua mulher e os dois filhos. Normalmente acolhe mais de 300 pessoas no retiro.

Na conversa com Berman, sobre seu propósito e tudo o que faz pelas pessoas, o tema da tristeza normalmente aparece bastante. Ele diz que o "desconforto é a porta de entrada da casa".

"Nós temos uma ideia de que o desconforto é algo negativo e toda uma estrutura social impõe esse pensamento, deixando de compreender a positividade que este processo pode trazer", comentou Berman entre as árvores do retiro em Oregon: "No momento em que alguém se sente desconfortável, normalmente pegam seu celular, vão andar, comem alguma coisa, fazem yoga... Algo diferente. Há milhões de coisas que as pessoas fazem para evitar o desconforto."

E continuou sua aula: "Na nossa cultura, se alguém está triste, na hora aparece uma solução e 'querem te arrumar'. Não tem um acolhimento e até reflexão do 'porquê em estar triste'. Então, no fim, todos colocam a tristeza ao lado de outras tristezas, acumulando elas, sem sequer tentar mudá-las. O que acontece a partir daí? Ter este retiro na escuridão é um aspecto único para prontamente viver essa introspecção."

Na Sky Cave, a experiência inteira é auto-guiada. Não há grandes regras além de: ficar na escuridão. Todos são convidados a andar pelas árvores, caso precisem respirar ar puro. Caso sintam que está escuro demais por muito tempo ou qualquer outra necessidade, podem ligar a luz interna. Ou, em último caso, podem até deixar o local. A porta sempre está destrancada e pronta para ser aberta.

Berman confere todas as pessoas presentes uma vez por dia. Se pedirem, ele aparece com mais frequência e oferece alguns questionamentos contemplativos. Estas visitas acontecem na parte da tarde, quando entrega a comida necessária para o dia. Caso permaneçam na escuridão, por todo este período, o único momento em que se dão conta que o dia está passando, ou que há luz, é no momento em que o dono do retiro abre a porta para entregar os alimentos.

"Eu tenho um certo tempo [ao entregar a comida] para entender o que está acontecendo. Sempre tem alguma conversa. Às vezes dura 10 segundos... Algumas vezes, 20 minutos", disse Berman sobre suas entradas nas salas escuras do retiro: "Simplesmente depende do que parece apropriado e do que a pessoa quer."

Colin O'Brady é um atleta de resistência, que subiu o Monte Everest em duas oportunidades. Atravessou a Antártida e terminou o Grand Slam de Exploradores em tempo recorde. Antes de Rodgers, esteve por sete noites no retiro de escuridão.

O'Brady disse que os pensamentos que Berman compartilhou com ele durante todo este tempo no escuro foram memoráveis. Pontuou que sempre havia um gatilho muito bom levado por ele, para entrar em uma contemplação extremamente profunda.

"Ele é simplesmente sábio", disse O'Brady: "Pequenos pensamentos [dele] iniciavam esta jornada. Depois, Berman sai da sala. É linda essa maneira sutil que ele ajuda a guiar os pensamentos."

Se descrevendo como extrovertido, O'Brady disse que a escuridão era uma chance de descansar e realinhar seu foco.

"As pessoas sempre me perguntam o que é mais importante: a parte física ou mental de tudo isso", continuou o atleta de resistência: "Se você olhar para a primeira vez que eu atravessei a Antártida, eu fiz aquilo carregando mais de 150kgs sozinho. Exige um físico adequado para isso e é claro que eu treino meu corpo para ficar mais forte e sustentar o desafio atlético disso. Mas, sempre digo que a parte física é algo superestimado. Muitas pessoas poderiam puxar esse trenó a uma certa distância, mas isso não é o bastante."

O'Brady diz que gosta de falar que "o músculo mais importante que temos está na nossa cabeça", e continuou: "Eu sempre estou procurando maneiras de tornar minha mente mais forte. Pensei que o exercício, de ficar sozinho na escuridão, seria vantajoso em várias esferas na minha vida, nas emocionais e espirituais também."

O'Brady revelou que talvez entenda o ponto de Rodgers em ficar no escuro por quatro noites. Além da construção mental que isso permite, um tempo isolado é uma maneira de se desconectar de tudo ao redor.

"Nós podemos ligar nossas mídias sociais, o celular, abrir a Netflix... Temos várias maneiras de nos conectarmos, mas acho que os humanos não são necessariamente feitos para este tipo de conexão. Eu preciso de tempo para refletir, calibrar, me encontrar e explorar cada canto assustador da minha própria psiqué, para só depois conseguir entender este desconforto e como lidar com ele."

Hannah Eden, treinadora profissional e influencer, passou cinco dias na escuridão, em novembro de 2022. Ela disse que foi a chance para refletir e, como descreveu, "dar o próximo passo."

"Eu sempre tento fazer as coisas mais difíceis. Eu gosto disso. Eu andei de bicicleta e corri por toda a Islândia, em nove dias, corri por quilômetros e sempre pensei que estava testando minha mente", comentou a treinadora: "Mas entendi no momento em que tentei encontrar alguma quietude na minha vida. Quando a pandemia aconteceu, eu percebi que nunca havia testado efetivamente a minha mente. Eu estava utilizando estes momentos e movimentos para evitar ficar sozinha comigo mesma. O retiro na escuridão foi o mais intenso. É extremamente difícil, mas também foi a experiência mais bonita que já tive."

O'Brady e Eden falaram sobre o retiro na escuridão, utilizando as experiências que tiveram como referência e que possuem similaridades: existe um plano de ação, para que os mantenham ocupados durante os dias no escuro. Entretanto, com o passar do tempo, estes planos de meditação, treinos de respiração, registros e exercícios perdem espaço.

Eles descrevem essa experiência como uma quietude e compreensão de estar realmente vivendo o presente. Os dois falaram sobre novas formas de enxergar algumas memórias, com detalhes que não perceberam, sons e cheiros em experiências anteriores.

Cada um deles saiu da escuridão com suas próprias compreensões e lições pessoais. Eden aprendeu sobre o perdão. O'Brady compreendeu como se preencher internamente, sem a necessidade de exterioridades.

No final de sua estadia na escuridão, O'Brady escreveu no seu diário, em letras garrafais: "Eu gostaria de dizer que toquei os lugares mais calmos da minha alma, no escuro".

Não há um processo rígido para participar desta experiência. Berman disse que consegue determinar rapidamente quem se beneficiou da experiência ou acabou não se encaixando.

Segundo ele, aqueles que têm medo de embarcar nestas experiências acabam colocando um limite em toda a situação. Ao invés de aproveitar tudo o que encontram, como aqueles que profundamente fazem a reflexão, alguns se aproveitam da pureza física da situação. E está tudo bem.

Sarah Meyer Tapia, diretora de saúde na Universidade de Stanford, levantou o questionamento sobre a segurança e suporte em qualquer prática espiritual, especialmente estas solitárias.

"Como eles conseguem dar apoio psicológico quando alguém está na escuridão completa e sozinho? Como eles sentem que estão sendo acolhidos neste processo e não estão embarcando em uma jornada que pode não ser saudável para eles?"

A área de pesquisa de Tapia inclui estudos de alto desempenho e bem-estar. Ela não falou especificamente sobre retiros escuros como este, mas disse que a meditação não funciona para todos.

"Meditação não é solução para todo mundo e muito menos para qualquer situação. Há momentos em que não indicamos. Por exemplo, alguém que está em episódios psicóticos repetitivos, depressivo ou em episódio de ansiedade, e passa a olhar para dentro de si, sem auxílio, vai reforçar algumas tendências e hábitos que não são benéficos."

Mesmo expressando algumas preocupações sobre retiros na escuridão, Tapia disse que o cuidado com a mente, em geral, é importante para todo mundo, mas levantou outro ponto tão importante quanto o direcionamento mental.

"Descansar é onde a integração, a cura e o crescimento acontecem totalmente unidos", continuou Tapia: "Se nós estamos estressados continuamente e sem descanso, nos quebramos mentalmente e fisicamente de uma vez".

A pesquisadora disse que esta é a mais importante lição e que passa para todos: desde seus alunos até atletas de alto desempenho.

"O suporte mental e emocional que as práticas de meditação, retiros, ou a simples reflexão interna dão acontecem através de desempenhos, da capacidade de lidar com pressão, recuperação, cura do seu corpo e resiliência. Tudo isso é muito anterior a estas práticas. Não é possível dissociar tudo que ocorre no dia a dia, mas estas práticas são muito importantes para expandir suas capacidades".

Mas, Tapia deixa claro que meditação e bem-estar não são iguais aos esportes competitivos.

"Eu sempre digo para os meus estudantes: não vamos nos levar tão a sério assim. Ninguém precisa espiar o outro. Essa é uma prática individual. Se te beneficia, ótimo. Mas não dá para dizer que algo é melhor que outro, ou que tudo será solucionado desta maneira."

Uma lição que ecoou em Rodgers, quando falou no podcast de McAfee: "Não há uma hierarquia na minha visão de espiritualidade ou meditação. Todos nós estamos tentando o nosso melhor, na jornada individual de cada um."