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NFL: Quem é o 'Sr. Irrelevante' que chocou Brady e tenta levar os 49ers ao Super Bowl

49ers de Brock Purdy encaram os Seahawks nesta quinta-feira; veja pela ESPN no Star+


Para entender por que ninguém está surpreso de que Brock Purdy ascendeu rapidamente da última escolha do Draft da NFL2022 até o posto de titular do San Francisco 49ers, é necessário entender duas histórias: uma sobre mononucleose e outra sobre um cacto.

Os contos são separados, mas vinculados aos momentos mais difíceis no começo da carreira de Purdy no futebol americano. Ele contraiu mononucleose entrando em seu penúltimo ano na escola, em 2016, e estava em uma derradeira condição graças a um cacto, que o machucou durante uma partida de paintball entre seus companheiros e técnicos naquele ano.

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Esses eventos não tiraram as oportunidades de Purdy no futebol americano, mas fizeram tudo ficar mais difícil para ele, em tentar conseguir ofertas de bolsas de estudos para jogar, mesmo com incríveis números. Isso aconteceu por causa de uma janela de recrutamento, que terminava em dezembro. Por isso, criou-se um mercado complicado até fevereiro e os treinadores assinavam com quarterbacks antes, em virtude de manter o planejamento futuro, garantir estabilidade, enquanto que para os prospectos, geravam incertezas.

Purdy era um dos jogadores mais desejados no país entre dezembro de 2017 e fevereiro de 2018, com ofertas de Boise State, Alabama, Illinois e Texas A&M, antes de escolher Iowa State. Foi a primeira vez que ele saiu de algo incerto para uma certeza.

Ele ainda fez um caminho para o que é hoje, se tornando o primeiro “Mr. Irrelevant”, a última escolha do Draft, a começar um jogo na temporada regular como quarterback.

“Eu acho que sempre tenho que chegar no meu limite”, comentou Purdy, o nono quarterback escolhido no Draft de 2022. “Eu sempre acreditei que eu não ligava para meu lugar no time, que rodada seria escolhido, número da escolha ou se eu não fosse selecionado. Meu negócio é que eu só queria ter a chance de provar isso para mim mesmo, que eu posso jogar nesse nível. E então, desde sempre, tem sido minha mentalidade.”

A ascensão de Purdy como quarterback titular é o resultado de várias circunstâncias infelizes, como as contusões dos quarterbacks Trey Lance e Jimmy Garoppolo. Mas seus hábitos e esforços de treinamento sempre o levaram a este momento.

“Ele não teve que mudar muito”, comentou o técnico Kyle Shanahan. “Ele teve que preparar seu tom. É extremamente difícil fazer isso toda semana... Eu não poderia imaginar estudar a semana inteira para um teste e não poder fazê-lo no final. Fazer isso por algumas semanas tem o perigo de fazer não levar a sério com constância e falar: ‘Ah, tudo bem, não vai acontecer’, e então te chamam no primeiro quarto para fazer isso e às vezes não dá certo. Mas Brock estava pronto.”


Como treinador principal do colégio, Preston Jones sabia sobre Purdy em seu primeiro ano com o time, antes de usá-lo como quarterback, em seu segundo ano. Ele também era o retornador reserva do time, e quando Jones tinha que praticar punts, Purdy era quem recebia a bola do outro lado e lançava de volta.

Jones ficava de 35 a 40 jardas de distância, lançando com a mão do lado da orelha e perto do seu quadril, pedindo para Purdy acertar o alvo. Segundo o treinador, quase todos os lançamentos chegavam perfeitamente para Jones.

Purdy era titular absoluto em seu terceiro ano no colegial, até contrair mononucleose duas semanas antes da temporada. Ele perdeu quase 10 kg e não tinha condições de fazer qualquer atividade física por seis semanas. Os passes que eram mísseis diretos, agora planavam no ar e não tinham uma espiral perfeita, como antes.

Quando Purdy retornou quatro semanas depois na temporada, Jones queria colocá-lo na rotação do time. Purdy, do nada, voltou à sua força completa, chegou em uma rodada e não saiu mais, depois de somar 361 jardas, em 25 passes acertados de 28, e ainda cinco touchdowns, enquanto correu para 45 jardas em 10 tentativas.

“Ele estava lançando esses ‘patos mortos’ porque não tinha força alguma”, comentou Jones. “Ele não tinha força, mas era o jogador mais preciso que eu já vi.”

Purdy continuou a acumular mais números, chegando aos playoffs como peça legítima para o título estadual, mas seu recrutamento ainda não era bom por causa dos passes que os olheiros viram, de patos mortos que planavam no ar.

Durante o período de futebol na primavera, em seu último ano, Purdy se juntou aos seus companheiros de time e técnicos para fazer uma partida de paintball. Na batalha entre jogadores e treinadores, Purdy achou um lugar atrás de um cacto, que parecia ser ótimo para se esconder.

Saindo dos tiros e desviando, Purdy colocou sua mão esquerda em uma parte que tinha o espinho do cacto, que entrou diretamente em sua palma. Diretamente para a emergência, teve que tirar o espinho cirurgicamente. O machucado o custou um tempo precioso na pré-temporada, que poderia ter ajudado no recrutamento para o futebol americano universitário.

Em seu último ano, Purdy finalmente voltou ao seu poderio máximo. Seus lançamentos voltaram à velocidade normal e ele voltou a ganhar o peso que tinha antes da mononucleose.

Purdy teve médias de 314,6 jardas lançadas e 72,6 jardas corridas por jogo, com um total de 67 touchdowns, corridos e lançados, fazendo com que seu colégio (Perry High School) ficasse a oito pontos do título estadual.

“Ele parece um cara velho em um corpo de criança”, comentou Jones. “Parece que ele estava jogando na NFL. Ele era extremamente sério em sua preparação.”


Para o técnico de Iowa State, Matt Campbell, onde Purdy jogou, uma ligação normal de recrutamento demora 10 minutos. Quando Campbell ligou para Purdy, na primeira vez, os dois conversaram por uma hora.

Quando desligou a ligação, Campbell não conseguiu acreditar em Purdy, que estava desesperado naquele momento do recrutamento, mas era tão maduro e humilde. Comparando isso com o vídeo do colegial, Campbell lembrou de Baker Mayfield, o que deixou Purdy mais requisitado ainda.

Qualquer dúvida de que Purdy colocaria o Iowa State Cyclones em um novo patamar acabou em seu primeiro jogo, contra Oklahoma State, pouco tempo depois de ser recrutado, como true freshman (calouro saindo do colegial), em 2018, quando Purdy entrou no lugar do quarterback titular. Depois de um touchdown cedo, Purdy leu uma marcação em zona e conseguiu achar o espaço para lançar a bola, além disso, correu para 29 jardas para pontuar, enquanto cruzava a end zone com passos largos.

“Naquele momento eu estava meio: ‘Caramba, cara, é melhor todo mundo estar preparado”, comentou Campbell. “Esse cara tem a chance de ser realmente especial. E daquele ponto em diante ele foi uma figura de grande transformação na história do futebol americano de Iowa State, como um jogador que nunca passou por ali.”

E tal como sua performance depois da mononucleose no colégio, Purdy nunca mais deixaria em dúvida seu posto. Ele começou 46 jogos e quebrou ou empatou 32 recordes da universidade, enquanto ganhava mais jogos do que qualquer outro quarterback que já esteve na mesma posição que ele. Brock Purdy liderou Iowa State ao primeiro Big 12 Championship Game na história, em seu terceiro ano, na temporada em que acabou com campanha 9-3 (maior número de vitórias na história de uma temporada da universidade) e ainda venceu o Oregon Ducks no Fiesta Bowl.

“Acho que seu maior poder é a força mental”, disse Campbell. “Esse time nunca teve um sucesso consistente... Desde o primeiro dia, eu senti que essa comunidade e as pessoas ao redor desta comunidade colocaram Brock em um pedestal. E acho que a maneira que ele lidou consigo mesmo durante esta jornada, cheia de altos e baixos, foi muito poderosa.”


Chegando no Draft da NFL, em abril, Purdy acreditava que poderia ser escolhido no começo da quarta rodada... ou não ser selecionado. Ele tinha tudo que era necessário, mas havia questões sobre seu tamanho (1,83m e quase 100kg) e força no braço.

Esses questionamentos colocaram Purdy na última escolha do draft, uma posição que o coloca como “Mr. Irrelevant” (Senhor Irrelevante). Os 49ers amaram a grande experiência de Purdy e estavam tomados por propagandas sobre sua ética de trabalho e como era destemido. Eles fizeram a escolha, com o gerente geral, John Lynch, dizendo de imediato que Purdy era “relevante para nós”.

A cada ano, o Mr. Irrelevant é bem recibo na Califórnia por uma semana de atividades que ele escolhe. Purdy não era tão familiar com este título que o deram, mas depois de algumas reticências e questionamentos, ele abraçou a oportunidade.

Esta semana inclui um banquete, onde Purdy ganhou o prêmio de “Lowsman Trophy”, que faz alusão ao Heisman, só que não como o melhor jogador do universitário, mas como o ‘menor’ a entrar na NFL. Além disso, teve lições de surfe e vela, uma viagem e comidas feitas para seu conforto. A tradição começou por Paul Salata, um antigo recebedor da NFL, com a ideia de ser algo para celebrar, ao mesmo tempo que fosse engraçado. Mas Purdy foi, mais uma vez, um rápido estudioso, agarrando sua prancha de surfe e pegando ondas, além de vencer sua primeira corrida de barco à vela.

Mais do que nunca, ele ganhou vários novos fãs, como Melaine Fitch, a filha de Salata e CEO da celebração, além de vários voluntários que fizeram a semana acontecer. Existiram outros Mr. Irrelevants, como o kicker dos Bucs Ryan Succop, e Tae Crowder, linebacker dos Giants, que tiveram sucesso em suas carreiras na NFL.

Mas nunca teve um Senhor Irrelevante que, rapidamente, se tornou extremamente relevante como Purdy.

“Essa é a história agora”, comentou Melaine Fitch. “Ele é o último cara a ser escolhido no Draft e ele está jogando. É uma grande caminhada na NFL, porque tem muitos jogadores bons que nunca começaram ou nunca realmente conseguiram jogar. Nós só queremos que ele continue saudável, consiga jogar, manter sua determinação e, bem, ser relevante.”

Depois que os 49ers contrataram o running back Christian McCaffrey, no dia 20 de outubro, McCaffrey passou por um curso intensivo sobre o ataque. Entre seus tutores estavam treinadores assistentes como Anthony Lynn e Bobby Turner. Mas, quem proveu mais em seu pouco tempo em San Francisco foi o improvável Purdy.

Chegando do Carolina Panthers, McCaffrey sabia um pouco sobre Purdy, mas foi o quarterback calouro que deu um passo à frente e ajudou McCaffrey a aprender sobre o ataque. Nas noites de sábado, antes dos primeiros jogos do novo running back, ambos sentavam e recitavam as jogadas que tinham no playbook. Isso deu a McCaffrey a chance de colocar em sua memória e ajudou Purdy a praticar, verbalizando as jogadas que ele teria em um huddle no começo de jogada.

Eles até foram ao estádio, em uma sexta-feira, para fazer um reconhecimento juntos.

“Nos primeiros dias eu aprendi muito sobre ele, sua mentalidade, sua ética de trabalho, seu desejo de ser grande e que gostaria de ajudar os outros”, comentou McCaffrey. “Ele aproveitou a oportunidade e eu realmente aprecio demais isso.”

Histórias similares apareceram no vestiário do San Francisco 49ers nesta semana. O left tackle Trent Williams e o tight end George Kittle compararam Purdy com um veterano de 15 anos na NFL, notando seu controle extremamente inteligente em um huddle e dizendo a um companheiro de time para ficar quieto quando ele está tentando falar a jogada.

O linebacker Fred Warner e outros defensores falaram várias vezes sobre o belo oportunismo e inteligência em conseguir as chances contra a defesa, quando jogava com o time de reserva, com Warner citando a mesma “excelência competitiva” que Campbell viu em Purdy nos vídeos do colegial.

Não espere que Purdy consiga os grandes números que fez no colegial e no universitário. Os 49ers não vão pedir isso a ele. Ele tem muita ajuda, o que significa que seu trabalho é tomar conta da bola e saber colocá-la nos jogadores certos, que farão jogadas.

E Purdy não vai fazer diferente do que o fez chegar aqui. Em viagens, a linha ofensiva e os TEs dos 49ers fazem jogos de poker. Quando Purdy joga, ele não deixa sua falta de experiência no carteado o impedir de ser agressivo. O guard Daniel Brunskill também sabe que é melhor tomar cuidado com as esperanças quando Purdy aumenta a aposta.

“Ele se prepara o tempo inteiro”, Brunskill adicionou. “Brock diz: “Não, eu preciso estudar.”

Na verdade, ao colocar Purdy como titular, as esperanças de chegarem ao Super Bowl, talvez, sejam a maior aposta dos 49ers entre todas nesta temporada.