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Andrew Luck finalmente revelou por que se aposentou da NFL

ESPN conversou com o ex-quarterback dos Colts


Um dia depois de ter se aposentado, Andrew Luck chegou ao chuveiro, próximo ao seu quarto, na casa que tinha em Indianápolis e abriu a torneira. Deu um passo para trás e esperou que a água ficasse quente. Foi em uma tarde de agosto, no dia 25, em 2019, e ele estava nebuloso com o que tinha feito. Quando Luck contou aos administradores do Indianapolis Colts que iria se aposentar do futebol americano, não acreditaram nele. Não acreditavam no que ouviam.

“Quando ele vai mudar de ideia?”

Perguntaram duas semanas que a temporada começou.

“Eu não vou”, comentou Luck.

Quando ele comentou aos seus companheiros de time que não estava vivendo a vida que queria, eles disseram que entendiam. Não confrontaram ou sequer argumentaram. Disseram serem testemunhas da sua dor e agora entendem o alívio. Mas os olhos não enganam e sempre se mostraram assustados com o que Luck havia dito. Ele sabia que queriam ele para uma última tentativa de vencer o Super Bowl e o quarterback sabia que não conseguiria. Ele também sabia, não importa o quão culpado ele se sentia, mas não mudaria sua decisão.

Quando chegou a hora de contar ao resto do mundo, Luck escreveu sobre isso. Ele sentou em sua cozinha e começou a compor um discurso de aposentadoria. Ele escreveu em um caderno e depois teclava algumas coisas em seu notebook, polindo, selecionando e rearranjando o que queria, chegando no: ALUCK – PRIMEIRO RASCUNHO. Foi estranho escrever isso. Normalmente aposentadorias são momentos de celebração, no final de carreiras com muita história. Ninguém, nem mesmo Luck, estava celebrando esta. Ele usava frases como: “Eu tenho muita clareza disso” e “que era a decisão certa para mim”. O ciclo de ficar machucado, se recuperar, machucar de novo e seguir sem fim trouxe a este lugar, segundo Luck. Um lugar em que era a hora de “se retirar do mundo do futebol americano”.

O mundo dos esporte estava surpreso. Ele era um quarterback de talento geracional. Um quarterback no caminho para o Hall da Fama. Um quarterback que tinha acabado de ganhar o prêmio de Comeback Player of the Year da NFL. Um quarterback extremamente raro, que parecia ter nascido para fazer o que estava fazendo. Este era Andrew Luck.

Como ele poderia ir assim? Simplesmente parar de fazer o que parece natural a ele?

Ele então fez o seu discurso, com uma convicção um tanto quanto trêmula. No dia seguinte, em sua casa, ele não conseguia segurar a emoção. Havia um emaranhado todo embolado, um alívio junto a um luto, uma culpa misturada com um profundo fardo, vários pensamentos e sentimentos que não poderíamos nomear e até escrever sobre o que sentia. Ele não tinha ideia do que vinha depois ou o quão difícil seria encontrar o próximo passo. Tudo que ele sabia era que não precisava mais fingir. Ele entrou no chuveiro e ficou em baixo d’água. Quando então o vapor começou a subir, ele começou a chorar.


Três anos depois, numa manhã de maio, em Indianápolis, Andrew Luck estava segurando sua linha de pesca e andando com seu macacão de pesca enquanto chega no estacionamento, próximo da sua casa. Ele tem 33 anos agora. Se despediu da sua esposa, Nicole Pechanec, e deixou sua filha de três anos, Lucy, no berçário. A outra filha, Penelope, tem apenas dois meses. Depois de Luck se aposentar dos Colts, ele tentou encontrar alguma maneira de aliviar suas obsessões. Ele faz o cappuccino perfeito, com todos os grãos comprados na loja perto de sua casa, onde dá gorjetas generosas. Esquiar preenche sua necessidade para uma atividade física que requer total concentração, com velocidade e perigo. Andar de bicicleta ajuda na corrida, mas em um tempo bom para isso e é mais fácil para suas juntas. Remo é algo que Nicole anda o encorajando. E ele adora pescar por várias razões normais: é quieto, sem um objetivo ali ansioso, ao mesmo tempo que tem a esperança e adrenalina, e o fato de poder ir sozinho ou com os amigos.

Ele está próximo do seu Audi preto, com os seus equipamentos e tentando alinhar a linha de pesca. Um grupo de crianças o assiste de longe. Luck está mais magro e mais definido do que era quando jogava. Seus olhos fundos estão presentes com uma sobrancelha grossa, que os deixa pequenos e absorve todo o olhar um tanto quanto escondido. Ele ainda é famoso na cidade, por toda a esperança que ele proveu uma vez e por toda a esperança de que poderia fazer isso de novo algum dia. Ele passa pelas árvores e vai em direção à curva de rio. Existem algumas rochas grandes próximas ao banco d’água, onde Lucy estava há uns dias quando veio com seu papai. Isso o faz sorrir. Ele pisa na água, que está fria e muito clara, perfeita para a pescaria, e começa a fazer seus movimentos.

O tempo dilatou em sua frente e tem se esticado para Luck desde que lançou uma bola de futebol americano melhor do que qualquer um no planeta. Estranho e confuso, livre e empolgante, enquanto ele tenta entender como o jogo se tornou uma obrigação e uma força que consumiu sua energia.

“Como você se apaixona por algo que você ama?”, Luck questionou.

Ele carrega sua linha e lança novamente, olhando fixamente a superfície cintilante da água.

“Ainda estou processando o porquê de algumas decisões que tomei, com base em alguns elementos”, ele comenta.

“Acho que...”

Luck sente então a corda mexer.

“Isso, p***!”

A linha estica e fica reta.

“Haha!”

Ele então consegue fisgar o peixe.

“Cara! Hahaha. Cara!! É um sentimento tão bom. Sim! Caramba, é um sentimento muito bom.”

Este era o problema em que se encontrava segundos antes de retirar a truta da água. Ele coloca então em suas mãos, que são enormes e extremamente fortes, suficientemente grandes para agarrar alguém que o ataca ou um peixe. “Oh, meu querido”, ele fala enquanto tira o anzol da boca do peixe e o solta no rio.

Imediatamente o animal desaparece da superfície d’água. Ele então tenta de novo, esperando outro animal fisgar sua linha, e de novo e de novo, linha após linha, peixe após peixe, é sua melhor parte da manhã, enquanto Lucy não volta da escola, que então é hora de voltar para casa.


“Você sabe por que está aqui, certo?”, perguntou Luck para mim na cozinha de sua casa, ao norte de Indianápolis, em uma manhã quieta na primavera passada. É o primeiro dia de uma série de momentos juntos que, depois de cinco meses, a primeira vez que conversa com uma figura pública desde que se aposentou.

“Não”, eu respondi.

“Porque você sabe esquiar.”

Ele estava brincando um pouco. Eu escrevi uma carta, em outubro de 2019, meses depois dele se retirar do futebol americano. Ele me respondeu dizendo que gostaria de conversar comigo, mas apenas quando ele estivesse pronto. Talvez sejam dois meses ou dois anos, ele comentou naquele momento. Ele pesquisou sobre mim e soube que eu conseguia esquiar. Então ele fez acontecer: mapeou alguns resorts por perto de sua casa e disse que tem alguns dias que ele realmente pensa em trabalhar como patrulheiro de esqui.

Ele puxou uma dúzia de ovos e alguns bacons enquanto falava no telefone. É muito legal ver ele cozinhar para Lucy, em contraste com o que ele poderia estar fazendo hoje. Se ele quisesse, Luck estaria em sua 11ª temporada na NFL, provavelmente com um contrato valendo o dobro dos U$139 milhões (R$731 milhões na cotação atual) que assinou em 2016. Quem sabe talvez conseguisse um Super Bowl, ou dois. Talvez ele estivesse sozinho e irritado, pensando se tudo aquilo valesse a pena.

Essa é a rotina de quase todos os dias, enquanto Nicole trabalha como produtora televisiva. Ele segura uma fritadeira pequena, focado em quebrar os ovos. Ele olha ela começar a fritar e só tem esse barulho na cozinha.

“Tamanho perfeito”, ele diz.

Sua casa é fantástica e espaçosa, perto de um lago ao norte de Indianápolis. Ele a desenhou antes de se aposentar, usando seu diploma de arquitetura de Stanford para criar um lugar “construído para um quarterback”, ele diz. Sua sala de fisioterapia é agora uma sala de visitas. A sala para assistir vídeos e estudar adversários, agora é um escritório. A casa está há cinco minutos do centro de treinamento dos Colts. Ele passa por ele quase todos os dias. Apenas recentemente ele decorou sua casa com algumas coisas de futebol americano e muitas delas de Stanford. O único item que tem de seus tempos de profissional é o prêmio de Comeback Player of the Year em 2018. Nele, ele está com seu uniforme completo, em um barco que está no mar, sem expressão na sua face, com uma bóia ao lado, caso quisesse pular.


Na maioria dos dias no nascer do sol, com a vida acordando e o café ainda quente, Luck senta em uma das duas mesas de estudo que tem e escreve seus pensamentos, sempre em seus blocos de notas com papéis grandes e amarelos. Ele lê um livro de auto-ajuda que sai em defesa da escrita antes do dia começar a efetivamente acontecer, tratados em que a consciência produz em si mesma, e ele diz “que se sente bem por fazer algo para si mesmo”. Às vezes ele escreve sobre suas tarefas diárias e às vezes é realmente profundo. O subtítulo é, muitas vezes, sobre futebol e como uma vida com um roteiro não necessariamente toda história se preenche. Ele raramente volta atrás e lê o que escreve. Ele diz que não considera si mesmo um grande escritor. Ele escreve sobre os próprios escritos, não só para ajudá-lo a compreender os próprios pensamentos e limpar sua mente, mas para se sentir perto da claridade de sua compreensão interna. “Que história que eu estou contando para mim mesmo?”, ele comentou.

Em uma manhã de primavera, enquanto sentávamos perto do jardim e tomávamos cappuccinos, ele queria chegar à história que ele deixou de viver. Conversas sobre seu futuro normalmente passam a ser um reexame do próprio passado, do porquê ele foi inicialmente atraído para um jogo que quase o arruinou.

“Bem, chegou a hora. Acho que não tenho uma escolha. Haha”, ele diz.

Luck não estava se referindo ao caminho que sua família levou ao futebol, mesmo que seu pai, Oliver, tenha sido um quarterback da NFL por cinco anos e era o herói de Andrew. Quando esperam que você não apenas seja um grande quarterback, mas uma figura transcendente e que vai marcar época no jogo, quando você passa a amar o êxtase que a adrenalina te dá em acertar lançamentos aos companheiros de time em janelas pequenas, ajudando a vida dos seus amigos e promovendo sucesso a eles, quando você é, por consenso geral, dois anos antes de seu Draft e aguardado na liga há 3 anos, a primeira escolha geral, quando você tem influência em todo lugar em que você está, você, como Andrew Luck, acaba se sentindo na obrigação de compreender de onde isso foi tirado dele. A vida mudou em uma velocidade muito rápida, desde o colegial em Houston, no Texas, até a universidade de Stanford, até o Draft da NFL, sem tempo para considerar ou até processar tudo isso.

“O que eu não me deixei explorar o bastante foi como eu amo o futebol americano”, ele comentou.

Ele ama futebol americano? Ele diz que sim. Mas, toda a atenção volta a ele o fez se contorcer nisso, fazendo com que Luck queira sair da “história que sentia já estar escrita”, ele comenta. Existiu uma narrativa feita pela mídia de que ele levava uma vida sem limites, onde o ex-quarterback dos Colts poderia ter sido arquiteto, engenheiro, ou cientista, caso quisesse, enquanto sua vida era, na verdade, ferozmente limitada.

O quanto de sua própria identidade estava atrelada a ser um quarterback? Eu perguntei.

“Muito. Muito. MUITO mesmo. E eu não entendia isso até depois do fato”, Luck respondeu.

Luck disse a si mesmo várias histórias durante os anos, tentando medir (talvez até descobrir) a distância entre sua própria narrativa e sua realidade. Ele chegou à NFL em 2012, com uma pequena ideia de que os maiores quarterbacks geralmente são egoístas e frágeis, controladores e esquentados, e que havia uma expectativa de que Luck fizesse as mesmas coisas. Ele tinha 22 anos. Não tinha ideia de como fazer um time de futebol americano profissional funcionar. Cedo em sua carreira, Luck conversou com seu left tackle, Anthony Castonzo, sobre os requisitos de ser um grande quarterback.

“Você precisa acreditar que é um presente de Deus para o mundo, senão a dúvida vai começar a passar pela sua cabeça”, comenta Castonzo.

A versão mais natural de Luck para si mesmo era ser um destes jogadores, ele comentou. Mas o que funcionou em Stanford não funciona na NFL. Ele sentiu muita pressão e tinha que se convencer que ele tinha “algum nível de controle” de qualquer coisa que tivesse. Então ele se tornou uma pessoa que não queria ser, ou especificamente, tocou em uma parte de sua personalidade que não é tão fã. Ele fazia as reuniões ofensivas. Ele estava tão envolvido com as técnicas de bloqueios e rotas para recepção que os jogadores o apelidaram de assistente do treinador de tight ends. Quando as pessoas visitavam sua casa e já chegava às 21h52, seu horário de ir dormir na temporada, Luck desaparecia em direção ao banheiro, escovava os dentes, colocava seu pijama, dava boa noite ao grupo que o visitou e desligava as luzes. Ele simplificava sua vida aos extremos, como usar um celular de flip. Ele e seu agente/tio, Will Wilson, recusaram vários comerciais e propagandas enquanto ele sentia que precisava conseguir alcançar algo na liga. Tentando controlar toda variável, desde os jantares com seus companheiros de time, onde ele pedia comida para todos sem necessariamente perguntá-los o que iriam comer.

“Estar na posição de quarterback exige que você faça o que tem ao seu alcance, sem se preocupar com outras coisas”, comentou Luck. “E isso chega a outras áreas de sua vida. Não é a maneira mais saudável de se viver.”

Nicole testemunhou tudo isso, sua namorada de longo tempo juntos, que às vezes foi reduzida a uma figura ao lado de Luck. Eles se conheceram em Stanford, depois de Luck pedir seu número ao fingir que tinha perdido seu telefone, para que ela pudesse ligar para ele. Ela era independente e buscava suas próprias aspirações. Primeiro conseguindo um MBA na universidade de Indiana e depois trabalhando como produtora de televisão. Mas Andrew simplesmente decidiu sua função e decidiu que ela precisava estar fora dos holofotes.

“Eu não tinha lugar”, ela comentou.

Nicole se acostumou com as pessoas conhecendo ela apenas perguntando por uma foto do namorado. “Eu não queria ser uma figura pública, mas era mais uma parte do trabalho”, comentou Luck. “Então por que eu a faria passar por isso? Mas nós nunca tivemos esta conversa. Eu fiz a decisão por ela.”

Estas decisões, os mecanismos de sobrevivência, seu “design”, como ele mesmo pontuou, funcionaram, profissionalmente e culturalmente. Ele se tornou um dos melhores quarterbacks no futebol americano. Ele era um jogador que aparecia em momentos decisivos, ajudando os Colts a fazerem 38 pontos, contra apenas 10 do Kansas City Chiefs, para virar uma partida de playoffs, no último quarto, no seu segundo ano de carreira. Na terceira temporada, os Colts chegaram na final da AFC. O Super Bowl parecia inevitável.

“Estávamos progredindo”, disse Luck.

Então, em um terceiro down, no segundo quarto do terceiro jogo de 2015, o defensive end do Tennesse Titans, Brian Orakpo, acertou Luck pelas costas, o levando ao chão. Luck logo se levantou, mas inclinou sua cabeça para trás e mostrou uma faceta de frustração, além de dor. Algo estava errado.

“Isso dói”, Luck contou ao seu tio naquela noite. “Mas acho que tudo vai ficar bem.”


Luck não tinha nenhuma escolha prática a não ser estar tudo bem. Ele tinha uma torção na do músculo dentro do ombro, que conecta com o bíceps, mas ele tinha o que chamamos de um “profundo, profundo, MUITO profundo” código dentro dele em nunca ceder para qualquer tipo de dor e, especialmente, não discutir sobre isso.

“Se você estiver jogando com medo, em qualquer jeito, forma física ou não, não vai dar certo”, ele comentou.

Luck levou este ethos ao extremo com seus hábitos. Durante a pós-temporada de 2016, depois de perder nove jogos em 2015, com sua torção no ombro, uma ruptura parcial abdominal e um corte no rim, devido a um tackle, seu ombro simplesmente não estava funcionado. Ele recusou a levar isso para alguém, levando o time a acreditar que ele estava completamente recuperado. Ele tinha separado sua articulação acromioclavicular, que junta a clavícula e o acrômio, na escápula, ligando dois componentes no ombro, em uma aula de snowboarding. Voou de volta para Indianápolis para alguns testes com a equipe. Isso não afetou o problema que já tinha no ombro, mas realmente aprofundou toda a desestabilização em toda esta região do seu corpo. Seus U$139 milhões (R$724 milhões) afirmados em um novo contrato o fizeram o atleta mais bem pago na liga, na tentativa de promover segurança, mas colocando pressão nele.

Quando o treinamento começou, o ombro de Luck estava ‘parecendo’ machucado, mais do que ‘obviamente’ contundido, segundo Wilson. As juntas, movimentos e músculos que uma vez funcionavam fluidamente, agora já não estavam desta maneira. A mente de Luck começou a antecipar a tormenta que era enquanto lançava e ele pensava se era seu cérebro que desligava seu corpo antes daqueles segundos separados naquele caminho entre a recepção de um jogador sem marcação e o lançamento de uma espiral perfeita. Assistir a outros quarterbacks lançarem a bola, às vezes, fazia Luck ficar com vergonha. O jogo de abertura da pré-temporada em agosto, contra os Packers, foi cancelado por causa da baixa qualidade do campo e, secretamente, Luck estava aliviado de não ter que lançar bola alguma no aquecimento. Quando a temporada regular chegou, ele estava em uma contagem regressiva durante a semana. Praticando dia sim, dia não, o envergonhando tanto que disse aos seus companheiros de time: “Eu não estou lançando tão bem hoje.”

Um treinador chamado Willem Kramer passou a visitar Luck. Eles se encontraram alguns anos antes. A mulher de Kramer, Jill, foi treinadora de vôlei na universidade de West Virginia quando Oliver Luck foi o diretor atlético. Kramer vê a prática e o corpo humano de forma holística e tem um centro de operação e recuperação nos Países Baixos, chamado Veel Beter, onde os jogadores de futebol se recuperam e só voltam para o campo quando estão prontos. Ele iria massagear o ombro de Luck, tentando deixá-lo pronto para o dia do jogo. Funcionou, brevemente. Passes que Luck estava acostumado a fazer agora eram acompanhados por uma sensação de pontadas na região.

Ele, então, se retraiu ainda mais. Depois que a temporada acabou, em janeiro de 2017, Luck teve uma cirurgia em Stanford. Ela foi um sucesso, mas seu ombro ainda estava fraco, ainda causando dor e deixando Luck com a preocupação sobre sua recuperação, se o tempo não estava além. O dono dos Colts, Jim Irsay, contou aos repórteres em agosto que “a evolução de Luck não poderia estar melhor”, mas quando a temporada começou, ele ainda não podia jogar.

“Seus músculos não estão prontos para isso”, comentou Kramer.

Luck se culpou por isso, sentindo que “falhou pela primeira vez em sua vida.” Todo ato de sua vida, desde a postura em que senta, até a maneira com que fica posturado em pé, foram medidos pelo ponto se ajudaria ou não o seu ombro.

“A relação entre a dor e o pensamento racional começaram a se cruzar”, comenta o ex-quarterback dos Colts.

Todas estas neuroses e hábitos que o ajudaram a ser um grande quarterback, ou o que ele acreditou que naquele momento ajudou, conspiraram contra ele.

“Ele não conseguia se desligar disso”, comentou Jack Doyle, antigo TE dos Colts e um dos seus melhores amigos.

Em um certo momento da temporada de 2017, Luck, ao lado do gerente geral dos Colts, Chris Ballard e o médico do time foram procurar ajuda de vários cirurgiões. Em um momento, Luck lançou um passe bem leve na parte de cima da garagem do estacionamento e seu ombro fez um movimento não regular, até que os treinadores e doutores tentaram entender o que estava errado. Todos eles disseram algo diferente e todos queriam operá-lo. Mas Luck também visitou o médico Marc Safran, que disse a ele que o ombro precisava do que ele mais tinha medo e não queria ouvir: tempo. Luck não fez um snap na temporada inteira. Ele não tinha ideia do que fazer, assustado enquanto vários companheiros de time acreditavam que ele estava em total controle.

“Ele era Andrew Luck”, Doyle disse. “Ele tinha sempre tudo certo. Ele era o cara. Isso foi o que todo mundo dizia para ele e era o que ele acreditava.”

Luck pediu que Kramer visitasse Indianápolis de novo para sua recuperação. Mas, desta vez, Kramer disse: “Eu não vou fazer isso. É perda de tempo para você e perda de tempo para mim.”

Isso deixou Luck surpreso. Ele não era de ouvir muitos “nãos” em sua vida. Kramer disse que ele estava em um ambiente de muita pressão em Indianápolis e que precisava de um novo ambiente. “Apenas você, Nicole e o seu ombro.”

Ele queria que Luck fosse para Veel Beter. Ou, especificamente, queria que o então quarterback quisesse ir a Veel Beter, para que Luck se sentisse agenciado por suas próprias decisões, algo do que, estranhamente, ele se sentia longe, mesmo com a cultura que criou para si e dentro dos Colts. Era um sentimento diferente, não tão lógico quanto antes, mas muitas decisões em sua vida pareciam falsas, sendo mais obrigações do que realmente decisões. Sua vida como quarterback era de várias entidades, de times às cidades.

“Ele apenas teve muita dificuldade para dizer o que sentia e o que queria”, comentou Kramer.

Kramer deixou claro para Luck que ele iria para os Países Baixos com um objetivo. Não era para Luck lançar novamente. Era para ele ter a chance de ter um ombro sem dores, para “encontrar suas razões para os próximos passos”, como Luck pontuou. Ele tinha que convencer o time dos seus planos. Os médicos do time eram educados, mas tinham suspeitas de Kramer e toleravam ele simplesmente por respeito ao quarterback da franquia. Irsay decidiu emprestar seu avião para Luck, indo a Amsterdam. Luck chegou ao ginásio no outro dia, dois de novembro, às oito da manhã, sem ideia do que esperar.


O primeiro treinamento se chamava Snow Angels (Anjos da Neve). De costas, Luck tinha que levantar 1,13kg de pesos, um centímetro acima do chão e mover seus braços acima da cabeça. Luck tentou e só conseguia com o seu braço esquerdo. Luck olhou para Kramer, muito nervoso e desesperançoso que não conseguia processar o que estava acontecendo.

“Eu não consigo fazer isso”, Luck disse naquele dia.

“Você consegue”, disse Kramer.

“É muito difícil.”

“Bem, é para ser difícil. Foi dolorido?”

“Não.”

Isso é progresso, disse Kramer.

Naquela noite, Nicole perguntou a Luck como ele se sentiu naquele dia e com tudo que estava acontecendo.

“Eu não sei”, ele disse.

Mas Luck sabia. Ele estava em um silêncio mortuário, assustado e em pânico. E Nicole estava perdendo a paciência, cansada dos anos que Andrew colocava limites emocionais ao redor dela.

“Eu não tinha um lugar para contribuir com ele, porque Andrew não se comunicava”, ela disse.

Nicole se sentia pronta com tudo de necessário e único para ajudar. Ela foi uma ginasta na República Tcheca, onde nasceu, e sua infância foi entre vários centros de treinamento nos Estados Unidos, às vezes, por anos. Ela ficou tão boa em Stanford que inventou seu próprio movimento nas barras paralelas, chamado Pechancova. Depois que ela fez 21 anos, ela quebrou sua canela, seu tornozelo, suas costas, torceu seu joelho e foi forçada a considerar sua vida além da ginástica.

“Eu tenho me machucado durante toda a vida”, contou Nicole.

Em um primeiro momento, Luck não estava no clima para ouvir. Ele não poderia ouvir. Ele não estava dormindo bem, estava com muita dor, estava brigando com Nicole, o time estava há um oceano de distância sem ele e se ele parasse de reexaminar sua vida, o mundo inteiro que ele tinha construído talvez começaria a descarrilhar, ou se mostraria fatalmente falho desde o começo.

“Eu me entendia melhor como quarterback”, comentou Luck. “Eu não tinha compreensão de outras partes de mim, não mesmo.”

Nicole estava preparada para deixar Andrew se nada mudasse. Então, em uma noite, ele desabou. Ele chorou, ele xingou, hiperventilava, se confessou e, mais importante do que qualquer outra coisa, ele chegou a um estado com Nicole em que nem ela achava que era capaz de ter.

“Tem algumas coisas que quando eu olho no espelho, eu não gosto muito em mim”, Luck comentou. “Eu estava me consumindo por dentro, desistindo, em dor e me sentindo pressionado.”

Depois de algumas semanas na Holanda, Luck começou a ver um terapeuta profissional. Kramer foi além dos treinamentos e começou a ser um terapeuta para o casal, tentando ensinar Andrew e Nicole sobre comunicação e identidade, tanto para cada um dos indivíduos quanto para o vínculo que tinham.

Um dia Kramer perguntou a Luck: “Você não é mais do que um quarterback?”

“Huh?”, questionou Luck.

“Quero dizer, está tudo bem, eu acho. O que você faz no campo é incrível. Mas você não é mais do que isso?”

Luck pensou sobre, mas talvez não. Demorou semanas, mas Luck deu os primeiros passos para construir o seu Eu, seu Eu-quarterback, como um favor para a pessoa que ele ainda não conhecia. Uma noite nos Países Baixos, antes de voltar para os Estados Unidos, Luck levou algumas pessoas para comer pizza. Ele começou a pedir para toda a mesa.

“A Marguerita é para você”, disse a Kramer.

“Não”, comentou Kramer.

“Aqui, é para você”, Luck continuou.

“Não, não é.” Kramer indagou. “Por que você deveria pedir para as pessoas?”

Todos riram, mas Luck entendeu o ponto.


Luck se refere àquelas seis semanas como “Holanda”, uma experiência mais do que um lugar, uma transformação tão profunda que, olhando para trás, talvez marcasse o começo do fim de sua carreira na NFL. Ele retornou ao centro de treinamento dos Colts no final de 2017, com a promessa de que colocaria seu corpo, mente e esposa em primeiro lugar. Mas, naquele momento, Luck também tinha um objetivo de retornar a jogar. Quando ele entrou nos centros de treinamento dos Colts, alguns gritos familiares começaram a surgir. O time e a mídia gostariam de saber qual era o tempo de reabilitação que faltava. Luck disse a eles que tentaria lançar quando estivesse pronto, mas Ballard disse que Luck “se importa tanto com os outros e não deixaria o time na mão” que o quarterback começou a entrar em pânico.

“Eu preciso voltar a lançar uma bola”, Luck contou a Kramer.

“Se você não está pronto, você não está pronto.”

“Eu preciso voltar a lançar.”

“Por quê?”

“Eu preciso.”

“Você importa”, comentou Kramer: “E mesmo quando você não lança, você ainda importa.”


No final daquela primavera, no dia 18 de abril, Luck foi para Nova York, treinando em uma quadra de basquete, segurando uma pequena bola vermelha. Ele ainda não tinha lançado nada desde o inverno. Tom House, um renomado especialista no ato de lançar, que treinou com Tom Brady e Drew Brees, foi trazido por Will Wilson para ajudar Luck a reconstruir seus fundamentos. House viu um jovem em um “modo de sobrevivência”. House tem Ph.D. em psicologia do esporte e a primeira tarefa aos clientes de sua empresa é preencher um questionário para acessar seu estado físico e mental. Antes do primeiro encontro de House com Luck, o quarterback tinha feito apenas a parte física. Quando House chegou na casa de Luck para o encontro inicial, Nicole disse a ele que Luck estava no quarto terminando o questionário psicológico, sem certezas de como responder e sem a certeza de que ele sabia o bastante sobre si mesmo para responder.

Durante os meses seguintes, House via Luck como o atleta mais inteligente com quem já trabalhou, mas sentia que Luck tinha um bloqueio emocional.

“Tudo que eu precisava fazer era endireitar a mecânica de Andrew Luck”, comentou House. “E então entender o que acontecia mental e emocionalmente.”

Era difícil chegar ao íntimo de Luck, mesmo depois do progresso com Kramer e seu terapeuta. Se Luck não gostasse dos exercícios de House, ele não iria contar. Algo sobre o treinador fazia o quarterback ficar receoso. Luck diria a Kramer para dizer a House. Luck começou a retornar a sua mecânica devagar, não lançando nada. Ele segurava uma toalha de mão e começava a fazer o movimento em frente ao espelho e a toalha caía em seu antebraço.

Depois de meses, Kramer e House finalmente permitiram que Luck lançasse algo. Em Nova York, Luck ficou a cinco jardas de distância de uma mira na parede. Ele então inicia seu movimento: abriu sua postura lateral, movimentou um pouco seu corpo verticalmente e trouxe os braços para o peito, com uma pequena bola vermelha nas mãos. Kramer ficou atrás, filmando em seu celular. Então Luck continuou o movimento que encantou os torcedores dos Colts: abaixa o quadril, coloca os pés no chão, endireitando o direito como apoio e o esquerdo apontando, abrindo as pernas e lentamente equilibrando seu corpo, seu braço começou a se movimentar para trás, circulando para cima e lançando a frente. Pela primeira vez desde 2015, Luck não estremeceu.

“Meu Deus”, ele disse.


Quase cinco meses depois, no começo da temporada 2018, na abertura contra o Cincinnati Bengals, Frank Reich chamou uma jogada para Luck lançar um passe curto. Foi o primeiro jogo de Reich como treinador dos Colts e ele achou que tinha acertado na “loteria dos treinadores” com Luck. Mas, na primeira vez em que se encontraram, Luck começou a dar sinais da preocupação, dor e desespero dos anos anteriores. Reich passou 14 temporadas na NFL, mais como um quarterback reserva de estrelas, e sabia que Luck precisava de um melhor amigo mais do que um novo playbook.

“Foi natural para eu cair naquela função, como um cara que sempre foi quaterback reserva e estava ali para dar suporte ao cara da franquia”, comentou Reich.

Contra os Bengals, Luck ignorou o passe curto e decidiu lançar longe para o tight end Eric Ebron, na lateral do campo. Reich estava nervoso enquanto assistia. Luck tinha esperado por aquele momento depois de todo a pré-temporada. Na arquibancada, Nicole sentiu que o tempo ficava mais lento enquanto a bola saía da mão de Luck e girava no ar, na trajetória perfeita, que antes era rotina e agora uma incerteza. Mas a bola, macia, chega nos braços de Ebron pelo toque de Luck, como seu primeiro passe para touchdown desde 2016 e, depois do jogo, Reich deu ao quarterback a bola do jogo, como uma celebração de seu retorno.

Os Colts tiveram um recorde de 10-6 naquela temporada, em 2018, vencendo um jogo de playoff. Andrew e Nicole sorriraram um para outro na saída do vestiário, depois de ficarem fora dos playoffs, ao perderem para os Chiefs, com extrema satisfação de ter conquistado seu objetivo: ele voltou ao futebol americano, sem sua dor no ombro, jogou em um alto nível e se sentia muito forte.

Nesta temporada, Luck lançou 42 passes para touchdown em toda a temporada, enquanto sua perna esquerda e tornozelo o incomodavam. Isso começou no meio da temporada. Semanas depois da derrota, no Pro Bowl, Luck estirou seu tornozelo. Olhando para trás, Luck pensa que deveria falar para o time.

“Eu dei tudo que podia naquele ano, mas isso não é mais para mim.”

Mas, ao invés disso, ele disse que tudo ficaria bem.

Começou tudo de novo: a raiva, a indiferença fingida, a instabilidade, as respostas vazias para Nicole, a confusão dos médicos sem saber explicar o que estava de errado, mesmo com vários exames de imagem. Quando a temporada de 2019 estava chegando, Luck estava, de novo, longe do time, fora do centro de treinamento. “Todas as cicatrizes do passado retornaram”, comentou Ballard.

Luck se sentiu de novo em uma “roda de hamster” neste ciclo de se machucar e frequentar a reabilitação, junto aos seus piores impulsos. Ele era uma “criança mimada”, comentou Kramer, emburrado e assustado, não só por causa da dor crônica, mas pela maneira que ele age por causa da dor crônica: uma espécie de ressentimento diante do seu corpo, por falhar em manter sua saúde e mais ainda sobre si mesmo por estar neste estado. Não era mais algo relacionado sobre seu pé cooperar com a situação, era que ele sabia o que estava por vir.

“Senti algo muuuuuuuito familiar”, comentou Luck.

Tinha que dar em algo. Um dia, durante o treinamento, Luck confessou ao seu companheiro de time Castonzo que ele estava se questionando.

“Quem sou eu?”

Desta vez, a resposta de Luck era diferente. Ele não era apenas um quarterback. Na intertemporada, ele e Nicole tinham se casado e ela estava grávida de Lucy. Ele tinha responsabilidades e promessas além dele mesmo e dos Colts. Ele estava à beira de dizer alto para que todos, além de Nicole e poucos outros, pudessem ouvir: ele não tinha certeza se queria fazer mais isso. Não que “não poderia”, mas que não queria. Ele provou que poderia jogar no melhor nível existente. Ele tinha recebido várias celebrações e críticas, o bastante para entender que nada disso importava.

“Era admirável que ele conseguia ver o que mais importava naquele momento”, comentou Castonzo. “Para ele continuar com a sua vida como um quarterback, ele teria essencialmente que esperar que isso seria o mundo de Andrew e todas as relações de sua vida seriam nutridas por este cenário, que não fazia mais parte do querer dele.”

Um dia, durante um treino, Luck ligou para Nicole, que estava viajando com o pessoal da televisão que trabalhava.

“Acho que eu vou me aposentar”, ele comentou.

“OK, então isso é real agora”, Nicole pensou. Mas ela não podia falar. “Estávamos no ar! Precisava ir.”

Nicole estava ciente que teria que ter um cuidado com Andrew, em fazer tudo que pudesse para que conseguisse seus objetivos como quarterback. Mas isso teve fim. Luck disse para sua família e amigos próximos. Wilson o avisou para tomar um tempo nisso e digerir um pouco mais. Quando conversaram, dois dias depois, Luck estava irredutível. Ballard tentou apelar para a parte competitiva de Luck, mas isso também se foi. Reich implorou para que não tomasse uma grande decisão tão rápido, mas Luck não achava que tinha sido uma escolha rápida assim. Quando Wilson encontrou com Ballard para finalizar a papelada, ambos choraram. Luck saboreou seus últimos dias no futebol americano profissional. Ele brincava de lançar para Doyle no campo antes do seu próximo último jogo de pré-temporada, colocando seus braços ao redor dele e entrando junto com ele no campo. Naquele final de semana, Luck deu uma festa de aniversário para Nicole em um restaurante em Indianápolis. Ele ficou bastante falante e disse a quase todos presentes sobre isso, esperando que eles pudessem manter em segredo por alguns dias.

Uma semana depois, em uma noite de sábado, em um jogo contra o Chicago Bears, no Lucas Oil Stadium, Luck estava no banco com a equipe, em roupas comuns. O plano secreto era anunciar sua aposentadoria no dia seguinte. No último quarto, Luck sentiu que toda a aura do estádio mudou. A torcida ainda estava em dúvida e tinha um fervor estranho. As câmeras começaram a focar no jogador. O responsável pelas relações públicas dos Colts, Matt Conti, ouviu de uma ligação que Adam Schefter, da ESPN, tinha dado a notícia.

“Bem, todos sabem agora”, Luck contou a Doyle e Castonzo.

Alguns na multidão vaiaram Luck. Na única cidade em que ele foi profissional, onde ele vivia, onde era parte das pessoas, onde havia começado um clube do livro para aumentar a taxa de literatura, onde às vezes jogava perguntas e respostas às quartas nos restaurantes obscuros que existiam. Enquanto Luck chegava no túnel, os gritos ficavam maiores e muito mais pessoais. No vestiário os jogadores estavam lendo textos com a notícia assustadora do homem que estava a frente deles. Luck explicou-se a eles e lutou para que não chorasse. Conti estava por perto e tentou pegar uma cópia do discurso de Luck, esperando que a impressora, que nunca funciona, desse conta deste momento tão especial. Ele andou com Luck até o palco com os papéis.

“Ainda bem que eu não deixei para me aposentar amanhã”, pensou Luck.

As notícias da aposentadoria acertaram o mundo do futebol americano e muito mais. Mas, dentro do condomínio onde morava, estava tudo sinistro e quieto. Ele parecia brilhar, livre de angústia e das preocupações. Ele decidiu começar a construir um lugar para Lucy. Correu abrindo várias gavetas, olhando todo lugar que conseguia até que finalmente perguntou a Nicole onde ela guardava.

Depois ele pegou seu celular flip pela primeira vez naquele dia: centenas de mensagens apareceram. Ele queria responder cada uma delas, mas só conseguia ver algumas mensagens naquela pequena e desatualizada tela. Então ele escreveu à mão todos os números. Alguns ele já sabia. Em outros casos, precisou de ajuda. Responder demorou meses, enquanto ele viajava pela Europa, aprendia surfe, deixou seu cabelo crescer e ficar longo, trocou para uma dieta cetogênica e começou a ser reconhecido pelo “não-quarterback”, ele disse, enquanto finalmente tomou coragem e comprou um celular atual.

Ele se tornou pai quando Lucy nasceu em novembro, no Hospital de Crianças Peyton Manning. Ele tentou não assistir futebol americano durante a temporada 2019, mas ele mandava algumas mensagens para os jogadores dos Colts antes e depois dos jogos, às vezes durante também. A temporada acabou e, meses depois, o mundo estava tomado por um vírus mortal. Andrew, Nicole e Lucy estavam em um espaço que antes era das visitas, acima da garagem, enquanto a construção da casa estava nos estágios finais, sem lugar para ir.

“O céu é o limite agora”, comentou Nicole.

Eles conversariam na cozinha, ou nas escadas, ou nos pátios. Luck faria perguntas super filosóficas e tentaria encontrar teorias, escolhendo palavras para cortar, mas mantendo a essência. Quarterback foi uma delas. Por que ele teve que ser um quarterback e por que deixou sua liberdade de lado e foi constrangido por todos os processos que teve e por que deixou de lado todo seu valor para si, entregando aos companheiros, e estar pronto para o time? Disponibilidade foi outra coisa, porque as pessoas disponíveis são aquelas que ele queria jogar e considerava um deles, mas talvez não era e, então, por quê? Por que tem todo este orgulho e foi por causa de não ser, simplesmente, tão forte o suficiente? Ser rígido e forte. O que significa ser forte? Sua aposentadoria foi um exemplo de falta disso ou, na verdade, uma coragem que ninguém poderia imaginar?

Muitas palavras o levaram a algumas conclusões. Um dia, enquanto Luck processava tudo isso alto de novo, Nicole pensava o quão mais fácil era cuidar de um recém-nascido.

“Andrew”, ela comentou: “Como alguém pode falar tanto de si mesmo assim?”

Os dois deram risada.


Luck começou a contar para si mesmo uma série de histórias: de ser um quarterback; de ser um marido e pai; do ciclo de contusões que deram a ele o presente que é a consciência; de construir decisões a se tomar. Ele contou a si mesmo história de jogadores de futebol em que faziam sentido: “enterrando o que você sabe melhor”, ele comentou. Geralmente até as histórias fazerem sentido. Mas nenhuma delas chegaram a uma resolução ou próximo a ajudá-lo a acabar com o sentimento que ele tinha. E não havia o que fazer, além de tirar este “conflito insano”, de deixar a vida como um dos melhores do mundo no que faz e pensar no que teria pela frente.

Terapia ajudou Luck a chegar na “claridade de que ele não precisa de mais claridade”, segundo ele, linguagem que se sentia o bastante suficiente e inadequado, porque falha em produzir o que nós mais queremos saber: quais escolhas são as certas? Elas estão certas para sempre? Se não forem, ou se tem brechas, estamos errados mesmo que sintamos que é o certo?

“Eu duvido que acharei as respostas”, ele comentou. “Todas elas ou qualquer uma delas”

Um dia, enquanto andava com Lucy pela vizinhança, Luck viu crianças jogando uma bola de futebol americano para o outro. Eles sabiam quem ele era e o ex-quarterback sabia disso. Então pediram para ele lançar. Luck lançou uma bola pequena aos pequenos alvos. Tudo voltou para ele: os movimentos, os ritmos, mas, mais que tudo, a pureza de prover momentos, de fazer o dia das pessoas, simplesmente por lançar algo às mãos dos outros.

“Eu sempre achei graça em lançar”, comentou Luck. E então ele ficou lançando bola para aquelas crianças até começar a chover, e Lucy começou a ficar encharcada, então era hora de ir para casa.

Dois anos depois da aposentadoria, Luck estava feliz em ser um pai que fica em casa. Mas ele também queria uma carreira, algo que preenche o vazio do futebol americano, algo que o definisse mais do que ser um quarterback que desistiu de jogar. Ele considerou voltar para a faculdade ou comprar uma parte de um time da MLS, ou até começar uma assessoria de risco na Bay Area, onde o Golden State Warriors fica, ou se juntar aos patrulheiros de esqui. Ele pode ser exigente, com a benção financeira de entender que ele não teve aquilo sem motivo e sabe o que passou para tudo aquilo, mas ele sabia que tudo que ele fosse fazer tinha que significar algo para ele. Uma vez que você é quarterback, os Estados Unidos nunca veem você como algo diferente, quase sempre como um presidente.

Luck passou o inverno de 2021 em Colorado, onde sua família tinha uma casa. Ele esquiou quase todos os dias, conversando com estranhos e anônimos atrás de capacetes e óculos de proteção no teleférico. Luck conheceu alguns patrulheiros de esqui, um deles também era treinador assistente de futebol americano no condado que estava e perguntou se ele gostaria de falar com os jogadores em algum momento.

Luck, obviamente, disse que iria. No final de agosto, ele apareceu.


O sentimento o acertou em cheio primeiro pelo olfato. Do vestiário, do suor e metal velho. Dos equipamentos, das camisas, do plástico, das espumas e da mistura com o gramado amassado. Um tanto quanto ruim, mas familiar, trazendo memórias do quão impressionado ele estaria como adolescente. Ele lançou aos recebedores, com os primeiros passes não tão cadenciados ao nível dos jogadores de colegial. Ele conversou com o time por cinco minutos, ou quase, e então permitiu que fizessem questões.

“Qual o seu grande arrependimento da carreira na NFL?”, uma criança comentou. Em sua mente, Luck se arrependeu e esperava por algo mais leve.

“Boa questão!”, ele disse, e então decidiu dizer ao grupo o que nunca disse em público.

“Eu me arrependo do momento em que me aposentei.”

Ele sentia que tinha deixado as pessoas tristes, o que o fez aprender a se perdoar. O que importava mais para ele sobre futebol, o que ele queria que as crianças aprendessem era essa “super responsabilidade”. Ele sabia que suas próprias ideias de responsabilidade e que o futebol era muito mais complicado que sua versão romântica ao qual ele deveria compartilhar.

Mesmo assim, no caminho para casa, Luck não conseguia parar de sorrir ao pensar nestas noções românticas. Em sentar nas reuniões e ficar em cima de uma jogada por 45 minutos. Dos difíceis momentos, quando ele estava machucado ou tinha ousadia com a bola. Das coisas bestas, como os técnicos que batiam nele com boias de macarrão de piscinas nos treinamentos para reduzir os fumbles. No outono de 2021, ele assistiu futebol americano com mais frequência e às vezes ligava para David Shaw, técnico de Stanford naquele momento, para discutir proteção nos passes. Luck disse entender o que o “futebol me deu. O que ele necessita. O que faz sentido em alguns momentos. O que eu estava disposto a ter.”

Em um sábado de manhã em Indianápolis, no último outono, ele estava no treinamento de futebol da sua filha Lucy, no campo próximo ao centro de treinamento dos Colts. Atrás de uma cerca azul, o time de Indianápolis estava em alguns aquecimentos. Luck conseguia ouvir e sentir algumas coisas de seu antigo trabalho, além do que sente de verdade das histórias que conta para si mesmo e que não sente como apenas uma história. Ele ainda era um quarterback.

“Eu não acho que deixarei isso de lado nunca”, ele comentou.

Ele gostaria de voltar ao jogo. Desta vez para ser técnico.

Luck se preocupava e ponderava, fazia uma reavaliação e reconsiderava, pensando se era realmente o que ele queria e se isso o faria se sentir vivo, como jogar o fazia, ou se era apenas algo corriqueiro que poderia ser o melhor para ele. Ele gostaria de ter um bacharel se fosse treinador e talvez ensinaria história na escola e a ideia de voltar para a graduação parecia uma grande oportunidade. Seria um posicionamento de carreira. Seria o primeiro grande passo de Andrew Luck desde a aposentadoria, trazendo atenção ao que ele tanto lutou contra.

Em dezembro do ano passado, Luck decidiu que se ele voltasse a estudar, seria no outono de 2022, literalmente este momento do ano. Nicole estava grávida de Penelope. O primeiro dia em Stanford estava a alguns meses depois que sua segunda filha nascesse, o deixando com pouco tempo entre a chegada do bebê e de suas aulas. Luck decidiu tentar. Era muito diferente de 2008. Ele era Andrew Luck, uma lenda da universidade, que foi nomeado ao Hall da Fama do futebol americano universitário na classe de 2022, mas desta vez ninguém estava em sua casa, prometendo que seus sonhos se tornariam realidade. Ele tinha que procurar cartas de recomendação. Ele escreveu um ensaio sobre a experiência que teve no colégio em Colorado. E então mandou sua aplicação.

Um e-mail chegou em fevereiro deste ano. Ele olhou fixamente na sua caixa de entrada, nervoso de uma forma que não sentia desde o futebol americano. Ele sabia que poderia conseguir, mas não conseguia se mover para ler a carta. O absurdo deste momento o fez rir. Finalmente ele abriu o e-mail:

“Parabéns! Dos seus colegas da Faculdade de Educação de Stanford...”

Uma manhã depois do fato, Luck estava com T. Y. Hilton, um dos seus recebedores favoritos no Colts. O ex-quarterback contou ao seu antigo recebedor o quanto ele amava e sente falta do esporte e que ele estava pensando em ser treinador e ensinar em escolas.

“Eu vou voltar a estudar.”

O pensamento de Hilton foi que fazia todo o sentido. Luck queria aquela audiência de novo, as jogadas, queria compartilhar as experiências exemplares de novo, queria as pessoas por perto, gostaria de ser Andrew Luck de novo, que amava futebol americano, sim, mas também gostava de outras coisas que o esporte provia e outros aspectos que trazia para sua vida.


Mas não como um quarterback, não nos Colts e nem em nenhum lugar na NFL, não importa o quanto as equipes esperassem que sua opinião mudasse desde 2019, pois sabiam do potencial salvador que ele tem para uma organização, cidade e até a si mesmo.

Depois de se aposentar, Luck às vezes passava pelo centro de treinamento da equipe de Indianapolis, ensinando o filho de Ballard, Cole, quarterback em sua escola, e às vezes ia ver Reich. Por um tempo, Luck e Reich trocavam sobre futebol americano. Até que, de repente, Luck não parava de discutir jogadas principais dos jogos dos Colts e ainda dava conselhos. Reich pensou que talvez ele estivesse dizendo subliminarmente, que ele gostaria de jogar de novo?

Em um momento, Reich estava dirigindo quando “Message in a Bottle” tocou no rádio.

“É um sinal!”, pensou Reich.

Ele parou e mandou um longo texto para Luck, começando com: “Eu estou mandando um sinal!”

“Eu aprecio a mensagem na garrafa (em alusão à música) que você mandou”, Luck respondeu. Mas a resposta ainda era não. “Tem coisas que eu sinto falta”, ele continuou. “Mas, primeiro, tem coisas, como esta, que eu não estou disposto a abrir mão na minha vida hoje e, em segundo lugar, eu não quero me colocar nesse lugar de novo.”

O dia depois que Luck se aposentou, Ballard mandou uma mensagem à organização. Depois de quase duas décadas de Manning e Luck, ele disse que “Nós agora vamos entender como o resto da liga vive.”

Foi uma dura realidade. Reich foi demitido no meio desta temporada, depois de um ciclo que teve cinco quarterbacks desde que Luck se aposentou, ganhando a maioria dos jogos, mas faltando uma coisa que só um quarterback grande faz, como orquestrar uma virada de 17 pontos no último quarto, contra Jacksonville, como foi em 2016, ou 13 pontos contra os Titans, em 2015, ou 18 pontos contra os Texans. Quem uma vez que enviou Peyton Manning para casa no meio dos playoffs, em 2014. Quem também virou o jogo, com um passe no estouro do cronômetro, contra Detroit em 2012. Quem fez uma virada épica contra os Chiefs, em 2014, dizendo a Hilton, no banco de reservas, que mudasse sua posição no jogo com autonomia e “corresse como nunca nessa p***” fazendo a rota post que o consagrou. Quem ainda é ídolo e imitado pelas crianças. Quem às vezes precisa se recuperar, se rever, tomar seu tempo, mas sempre dá uma sensação de que os Colts têm uma chance nesta temporada.

No começo deste ano, Reich estava olhando um antigo vídeo, procurando por algumas jogadas de Luck, para mostrar ao time como executar. Ele achou o momento que queria e então continuou assistindo, maravilhado pelo seu antigo quarterback, pelo quão fluido, preciso, passe a passe, como tantas vidas seriam diferentes pela virtude de seus poderes e possibilidades que este jovem tem com a bola de futebol americano em suas mãos, em seus comandos.

Reich pensou que era uma pena que não conseguiríamos ver o que tudo isso poderia ter sido.


Paira no ar uma certa incerteza, às 18h45, no começo de setembro, no último dia de Luck em Indianápolis. Ele está no jardim, olhando o lago. As coisas de família estão quase todas empacotadas, em direção a Palo Alto, onde fica Stanford. Está quieto e calmo. O céu é laranja, com pinceladas de rosa, espelhados na água cristalina. Luck senta, vestindo um agasalho e uma bermuda, com alguns grisalhos em sua famosa barba, segurando um café expresso duplo. “A vida tem sido vivida aqui”, ele comentou, olhando o lado. “Não uma vida perfeita. Mas uma vida.”

Uma nova vida chega com rapidez e Luck se encontra ansioso e pronto. As expectativas são altas. Ele está movendo toda a família para uma casa menor, uma nova pré-escola para as crianças, novas rotinas, com algo diferente: tudo por uma carreira que ele espera ser a certa. Ele está menos falante sobre isso que no começo do ano. “Eu quero treinar e/ou ensinar de algum jeito em minha vida”, ele disse, deixando o cômodo que estava. Os remanescentes de sua antiga vida, como todo o hype que teve, as câmeras, as pessoas assumindo o que ele precisa seguir, as expectativas sobre si mesmo e o público que parece ver ele como alguém que desistiu das coisas depois de passar vários momentos da sua vida procurando por aquilo, fazem Luck se sentir nervoso e claustrofóbico.

Ele sabe que não consegue separar seu treinamento e o nome que tem. Ele quer enxergar outras coisas, investigar mais coisas e discutir como fazer isso com os treinadores das escolas. Ele quer estar em um estado mental mais saudável possível em sua vida, que não o faça jogar toda sua bagagem nos jogadores, como os treinadores fizeram com ele. Ele quer saber como ele dará conta do momento inevitável quando seu quarterback levantar de uma forte pancada no ombro e pensará sobre tudo que este atleta passará. Os amigos de Luck disseram que ele será um grande técnico, mas ele sabe que não é garantido.

“Se eu fosse um técnico, o que eu traria? Bem, certamente a experiência é quase única em uma escala de experiências que já tive no futebol americano.” Ele ainda se revê em um trabalho de compreensão íntima, com rapidez. “Eu não diria quase única. É completamente única.”


O estresse existencial se torna um estresse real depois de algumas semanas em Stanford, enquanto Luck sai de sua aula de filosofia na educação, exausto e cansado. É a segunda semana da escola. Nós entramos em um café. Ele fica em frente a máquina de café e pergunta sobre seu dia.

“É, realmente... Aliás, você quer alguma coisa?”

Ele pega para si um expresso, seu segundo na manhã. Ele parece um estudante de faculdade: camiseta flanelada, mochila, um chapéu de Stanford, que parece ser de seus dias em 2008. E ele parece um dos desesperados, preocupados com todas as aulas e que tudo isso é mais complicado com uma família jovem. Ele já desistiu de uma disciplina depois de sentir que estava próximo de perder o contato com Nicole e as crianças, um limite que depois dos seus momentos na Holanda, ele prometeu a si mesmo e a família que nunca cruzaria esta linha, uma lembrança do seu Eu-quarterback, o cara que poderia facilmente e rudemente excluir tudo da sua vida, com exceção às tarefas necessárias, que ainda estarão lá. A foto da sua identidade em Stanford ainda é aquela que tirou aos 18 anos, durante seus primeiros dias na universidade. Um pouco da experiência é familiar, menos quando ele tem que ir ao escritório de futebol americano. Como um calouro e agora, Luck voltou ao campus querendo ser algo. Naquele tempo, a escolha era clara e sentia menos como uma escolha do que agora.

“Eu estou escolhendo estar aqui 100%”, comentou o ex-quarterback e agora estudante de Stanford. “E tira o máximo de mim, tanto quanto eu quero fazer.”

Porém, agora ele não tem clareza absoluta do que gostaria de ser, o que é assustador e engraçado, dependendo do dia. Ele sabe que está analisando novamente os passos que deu quando era mais jovem, esperando que neste momento ele escolha um caminho diferente ao longo da jornada que percorrerá, mesmo que ele jure que não está tentando voltar no tempo.

Ele senta em uma mesa num café do lado de fora, mas dentro do campus, enquanto os estudantes se apressam para a sala de aula. Ele toma horas para entender tudo isso, começando baixo e filosoficamente, como ele faz em seus escritos pessoais.

“Por que eu gostaria de ir para a universidade?”, ele questionou.

Ele falou sobre crescimento e sabedoria. Ele confessou se sentir como um “velho miserável de merda”, tentando entender como se matricular nas disciplinas online. Ele me disse sobre um grupo de outros 17 estudantes no programa, que ele está se encontrando com eles. Todos no fim dos 20 anos e no começo dos 30. Todos tentando uma mudança de carreira e chegara naquele lugar. Alguns sabem quem Luck é, alguns não.

“Tem sido muito legal”, ele comenta.

Eles não perguntam sobre futebol americano ou ser treinador. Eles não parecem pensar que ele têm tudo certo e não estão desapontados com ele, por sair da vida que tinha. Para eles, não é sobre o que ele era.

“Eu preciso viver isso antes da história ser escrita”, ele comenta.

Ele olha no seu celular. Hora de pegar Lucy na escola. Ele anda até sua bicicleta, a única com uma cadeira para criança e com o cadeado. Luck coloca seu capacete, sobe nela e começa a andar pelo campus da universidade, ao redor de estudantes que vão para a sala de aula, ganhando velocidade a cada curva e, mais uma vez, Andrew Luck se vai.