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NFL: Por dentro da ascensão de Justin Jefferson que desafia a física e quebra recordes com o Minnesota Vikings

Justin Jefferson, estrela dos Vikings, é a Cover Story da ESPN ESPN

Estrela dos Vikings é capa da revista da ESPN nos EUA


Justin Jefferson corre até o fim do campo como se fosse fácil. Ele alcança sua máxima velocidade em duas passadas, tocando seus pés como se fosse correr por um lago, de uma maneira ágil e suave, e ainda consegue cortar para outro lado sem trair seus próprios movimentos. O recebedor dos Vikings parece uma tempestade, que subitamente chega em cima de você num piscar de olhos. Os defensores devem pensar que estão marcando um fenômeno da natureza.

Existe uma palavra que define os movimentos de Jefferson no campo e é uma que normalmente não está associada com um esporte que revela o lado mais brutal do ser humano. Mas ao assistir a esse jogador por tempo o bastante, cheio de paradas no último segundo enganando o marcador, mudanças de direção que ninguém é capaz de telegrafar, a cabeça que não dá pista nenhuma e não indica para onde ele vai durante a rota, faz apenas uma palavra fazer sentido a quem consegue capturar toda a beleza da natureza e fazer em si uma síntese contemplativa: elegância.

Ver ele correndo é como um flipbook, em que você passa as páginas e o desenho vai se movendo muito rápido. Os Vikings estão muito acima na NFC Norte, e Jefferson está ‘no caminho de quebrar ou chegar perto de algumas marcas da NFL. Ele já é o jogador com maior número de jardas nas três primeiras temporadas de um jogador na NFL. Em 2022, pode pensar em ser o primeiro recebedor a alcançar a marca de 2 mil jardas aéreas. Ele foi o primeiro a acumular 3.000 jardas em suas duas primeiras temporadas. Além disso, Jefferson e Michael Thomas compartilham o recorde de mais recepções (196) por um jogador em suas duas primeiras temporadas na NFL. Mas as estatísticas são apenas ladainhas mundanas. Elas ignoram os momentos monumentais, onde os olhos desenham a paisagem, como uma tela de um artista que traduz seu talento com o toque de suas mãos.

“Justin, cara... Ele é simplesmente diferente”, comentou seu irmão mais velho Rickey, um dos três irmãos de Jefferson, que jogou em LSU. “Ele mesmo desafia as leis da física.”

Qualquer tentativa de pedir para Justin explicar ou dizer como faz o que faz vai trazer apenas risadas ou algumas gargalhadas. Ele fala sobre seu fazer, seus muitos treinamentos e em como sempre esteve em cheque ou deslocado como irmão mais novo da família. Ele tem 23 anos e, de várias maneiras, uma alma antiga, mas, em alguma delas, ainda uma criança. Às vezes ele perde uma coletiva de imprensa na quinta-feira porque precisou sair correndo do treinamento para ir em casa e cuidar dos cachorros. Essa desculpa é tão encantadora que ninguém se incomoda em reclamar sobre isso. Quando ele ri, e acontece algumas vezes, ele acaba inclinando a cabeça para frente, um hábito que parece que seu corpo quer ficar mais perto ainda da piada que o fez rir.

“Ele certamente tem algo de genuíno nele”, comentou o técnico Kevin O’Connell, em sua primeira temporada com os Vikings. “Quando você o acompanha, é sempre tudo muito recíproco. Ele tem aquele grande sorriso e é de uma personalidade muito carismática que todos os companheiros de time amam e respeitam. Mas, tal como todo grande jogador, quando ele entra em campo tem algo dentro dele que o transforma.”

É impossível identificar quem é o melhor recebedor da NFL por suas características físicas. Todos eles são rápidos, fortes e ágeis. O melhor opera em uma frequência diferente, que apenas ele consegue entrar em consonância. Jefferson disse categoricamente que acredita ser o melhor recebedor na liga, dizendo que o que o separa são suas habilidades de jogar em qualquer lugar, seja na posição de slot, wide, nos dois lados do campo, com dupla marcação ou marcação tripla.

Para definir melhor esta habilidade, perguntamos ao lendário treinador de recebedores Jerry Sullivan, de 78 anos, que se tornou o mentor de Jefferson e técnico pessoal depois de trabalhar como consultor e analista ofensivo durante as primeiras duas temporadas de Jefferson com o LSU Tigers, no futebol americano universitário. Sullivan passou mais de 25 anos na NFL treinando alguns dos melhores, incluindo Isaac Bruce, ex-wide receiver dos Rams nos anos 90 e 2000, e Larry Fitzgerald, ex-WR do Arizona Cardinals nos anos 2000 e 2010.

“Bem, eu tenho uma palavra para você”, comentou Sullivan.

Alguns segundos se passaram. Eu tinha medo que estávamos desconectados.

“Súbito”, ele disse bem alto: “A palavra para Justin é súbito.”

É um conceito muito nebuloso, mas você viu aquela recepção, né? Todos nós vimos aquela recepção. Toda hora alguém clica para ver de novo, ou dá um retweet, ou fica examinando várias e várias vezes até queimar as próprias retinas. É dia 13 de novembro, contra os Bills, quarta descida para 18 jardas, os Vikings estão quatro pontos atrás, com dois minutos faltando e Kirk Cousins faz a única coisa responsável naquele momento: ele lança a bola para seu principal recebedor, direto para Jefferson.

“O mais maluco disso tudo é que temos falado sobre isso, irmão”, Rickey Jefferson comentou. “Nós falávamos dele ter uma recepção que iria definir um momento para ele. Toda vez antes da temporada começar falamos sobre isso. Ele falava: ‘Eu consigo fazer uma recepção com uma mão’. E eu dizia: ‘É, você pode fazer essa recepção que vai te marcar. Não tem horizonte que isso deixará de acontecer.”

O passe de Cousins foi forte demais e desesperadamente seguia em direção ao jogador defensivo do Buffalo Bills, Cam Lewis. Mas Jefferson estava perto o bastante para tentar, então ele pulou de costas, com seu corpo quase ficando em horizontal, esticou todo seu corpo pairado no ar. Seu braço esticado fez sua mão direita encontrar a bola lá no alto e tirou a bola das mãos de Lewis. Quando a jogada se desenrolou, Jefferson rolou do chão com a bola, sendo o único humano vivo que não parecia surpreso pelo feito.

“É como poesia”, comentou Rickey. “Quarta para 18, todo o significado, por ser seu número. Contra um time de Super Bowl, em um momento crucial da partida. Naquele momento, ele se garantiu como o melhor recebedor da NFL. Eu posso dizer isso e eu gostaria que ele fosse o mais humilde possível, mas você precisa saber quem é.”

A recepção foi súbita, literalmente. Uma altura que parecia impossível segundos antes de ser alcançada e nós simplesmente estávamos presentes em algo que parecia inimaginável. Tem algo muito profundo em ver a arte florescer em meio ao caos. É a razão pela qual assistimos, para estes momentos de clarificação, sublimação, beleza do corpo humano fazer algo que supostamente era impossível de ser feito até aquele momento.


Um dos primeiros conselhos que O’Connell deu a si mesmo quando se tornou técnico dos Vikings foi se apresentar a Jefferson. Na preparação para sua entrevista, ele assistiu a várias horas de vídeos de Jefferson e cresceu mais e mais a vontade de ser técnico dele. Em sua primeira coletiva de imprensa, ele e Jefferson se encontraram por uma chamada em vídeo e Jefferson chegou com uma questão que fez sua alma ficar em chamas:

“Então, como Cooper Kupp sempre está tão livre?”

O’Connell, que treinou Kupp por duas temporadas, como coordenador ofensivo dos Rams, mal podia conter sua alegria. Técnicos amam este tipo de questão, principalmente por ser conveniente com vários atributos: como dirige o time, sua competitividade e até bom-senso. Não vamos esquecer também que é papel do treinador fazer grandes jogadores serem maiores que parecem.

“Você quer a resposta sincera?” O’Connell perguntou. Quando Jefferson respondeu que sim, o técnico voltou a dizer: “Ele consegue alinhar em qualquer posição no campo. Ele sabe exatamente o que fazer em qualquer situação chamada e entende o conceito dela: entende não só o que fazer, mas como colocar pressão na defesa.”

“Eu quero isso também”, disse Jefferson.

“Vai precisar de muito trabalho e muito tempo”, comentou O’Connell. “Vai precisar de muito comprometimento em entender algumas coisas, muito diferentes do que a maioria dos recebedores faz.”

O’Connell terminou contando esta história e antecipou outra questão antes de ser perguntado.

“Como isso vai funcionar?”, ele perguntou. “Ele abraçou tudo isso. Ele é um jogador único e sabe que não há fronteiras que limitam suas possibilidades. Eu treino Justin talvez mais do que qualquer um no time, por causa da maneira como ele é engajado e a expectativa que ele tem para si mesmo. Mas ele é diferente e você precisa treiná-lo diferentemente por causa disso. Você precisa ter cuidado em não pressioná-lo demais, porque ele pode ficar rígido demais ou tenso demais nessa situação. Você precisa querer ele livre, para fazer as coisas únicas que consegue fazer.”

Jefferson colocou uma pitada de referências de O’Connell em nossa conversa, como “isso ele faz assim, e aquilo faz de outra maneira”. O’Connell se inclina para baixo, envergonhado, e diz: “Eu sou o mesmo. Eu amo genuinamente ele. Ele é um dos meus favoritos de todos que já tive por perto.” Jefferson jogou suas duas primeiras temporadas por Mike Zimmer, um homem que admira, mas disse que: “Zim era um técnico mais velho, então ele não acreditava que poderia ter essa conectividade com seus jogadores ou que poderiam construir relações. KO (O’Connell) é diferente. Ele é mais jovem, foi jogador e entende como as coisas precisam acontecer.”

A maneira com que O’Connell se portou com sua equipe foi diferente ao que Zimmer propunha, de imediato. Durante o treinamento, O’Connell convidou Jefferson para seu escritório, para uma conversa em que aprendeu como Justin Jefferson, um dos melhores recebedores da NFL, duas vezes no Pro Bowl e o mais popular dos Vikings, nunca esteve ali naquele cômodo e mal fazia ideia de onde era.

Com essa, O’Connell soltou uma risada, depois de um sorriso: “A primeira vez que eu o chamei, eu tive que dar as direções para ele”, contou o técnico. Jefferson disse: “É, eu não sabia onde o escritório era. É loucura.”

As instalações dos Vikings são, para ser um pouco justo com Zimmer, um emaranhado de vidro e aço sem fluxo discernível. Mesmo o caminho mais simples envolve caminhadas por corredores de vidro altos e escadarias enormes, através de pelo menos duas portas de segurança. Parece não haver rota direta para nada e navegá-lo sem um guia experiente parece uma caminhada de descobrir uma mina de extração. Talvez, para Zimmer, Jefferson fosse considerado muito valioso para arriscar uma viagem dessa.

Mas Zimmer é um grande defensor e adversário da frivolidade, em todas as suas formas insidiosas: música de vestiário, jogos de vestiário, praticamente tudo o que acontecia fora dos parâmetros do futebol e da preparação para o futebol. Em outras palavras: não era muito fã disso. O’Connell, com 37 anos, decididamente de uma ‘Nova Escola’, não liga em colocar outras coisas para eliminar a tensão nos 17 jogos da temporada. Tem música no centro de treinamento e no vestiário e ele descreve sua filosofia assim: “Nós tentamos enfatizar os aspectos positivos de chegar ao trabalho todo dia e nós queremos que todos saibam que eu estou ali com eles.”

Jefferson é, para ser sincero, um pouco chato, mas de um jeito em que os técnicos e companheiros de time amam: “Ele gosta da bola e ele gosta de estar ao redor da sua família”, comentou Sullivan. “Eu digo às pessoas que você pode ligar para Justin às 11h da noite e dizer: ‘Nós vamos fazer um jogo de contato’ e ele vai dizer: ‘eu estou indo para onde você está’”, comentou Rickey, com expressividade. “Essa é a nossa vida: jogar. Sempre foi isso na nossa vida. Nós falamos sobre o jogo. Nós vivemos pelo jogo. Estes somos nós.”

Durante a semana de bye, no final de outubro, Justin e seu irmão mais velho, Jordan, e eu sentamos no Soho, em Hollywood, com uma série de propagandas ao redor de nós, um calor que vinha das janelas e tudo mais lá fora, de um dos espaços com mais pessoas no mundo e aquela paisagem de Los Angeles, com o Oceano Pacífico ao fundo e todo o mundo atrás. Parecia uma metáfora pelo que vinha pela frente de Justin.

Ele usava suéter, Jordans e um colar de diamantes com um gigantesco pingente de avião. Seu apelido é Jets. Ele sorri muito e comeu duas entradas que vieram na mesa e estava rindo da ideia de abrir um Soho House em sua cidade natal, St. Rose, Louisiana. Quando foi perguntado sobre sua agenda em Los Angeles, pensando que deveria ter algumas reuniões de negócios, outros encontros com representantes sobre suas propagandas, ele respondeu: “Não... Nada disso. Só quero pegar um solzinho.”

Este é o Justin, o cara que vive com seus irmãos e vai para casa almoçar para curtir com seus cachorros. E tem o Jets ali, que usa um colar, é um entretenimento ambulante por natureza e que se utiliza de uma cultura, com a ingenuidade de uma criança que só quer se divertir a cada momento da sua vida, levado aos melhores lugares por sua imaginação encantadora. Há duas entidades, a pública e a privada. Me acerta como a diferente persona que aparece na tela e um indivíduo que está no mundo real.


Justin Jefferson ficou na cama e chorou na manhã em que iria escolher a universidade que iria: “Um dos dias mais difícil da minha vida”, ele comentou. Ele pode ser achado nas duas outras fotos deste dia dos irmãos Jordan e Rickey, atrás, extremamente radiante por eles. Mas, na sua vez, ficou em casa.

Justin não era um prospecto cobiçado. Em um momento, a ESPN deu zero estrelas a ele e um site o colocou como 308º melhor recebedor de sua classe. Mas, como muito deste mundo de recrutamento, as estrelas e classificações são, extremamente, falhas. Elas são baseadas em várias ofertas de universidades e os problemas acadêmicos, decorrentes de um ano de calouro perdido, o tornaram inelegível até que melhorasse suas questões acadêmicas, ou como ele colocou: “Precisava me endireitar nos livros.”

Ele tinha ofertas de Nicholls State, Universidade de Louisiana e Tulane, além de uma promessa feita por Ed Orgeron, em LSU: “O ‘Coach O’ [Orgeron] tinha uma ideia de quem ele era”, comentou Jordan Jefferson. “Você tem dois irmãos que jogaram no programa, nós sabemos que você pode jogar e nós estamos apenas lhe esperando.” Orgeron segurou uma oferta, e Justin passou suas férias tentando melhorar suas notas: “Eu tive que fazer francês”, comentou Justin, que disse que sua mãe ainda vigiava tudo isso. “Estressante”, comentou a mãe Elaine sobre aquele momento: “Muito estressante.”

Justin vê isso, com o seu pensamento naquele momento, como algo kármico: “Quem poderia saber que eu iria para LSU se eu tivesse minhas notas boas?”, ele perguntou. “Eu não tinha isso na cabeça de ‘Ah, meus irmãos foram para LSU, então eu irei para LSU’. Eu queria ir para a universidade que fosse melhor para mim. Se eu tivesse uma nota melhor e todas aquelas ofertas, quem sabe se eu iria mesmo para LSU? É esse o porque de sentir que Deus tem tudo planejado em me fazer quem eu sou hoje.”

Ele chegou ao centro de treinamento de Baton Rouge a três dias para o treinamento, oito semanas depois dos outros calouros, sem ideia de onde estava, mas tinha um desejo feroz de estar ali o mais rápido possível.

“Correndo por aí e tentando fazer a coisa certa”, Sullivan disse. “Mas não tendo ideia de onde precisava ir.”

Ele usou a camiseta número 32 e pesava algo perto de 79kgs. Vários de seus companheiros e alguns treinadores de LSU acreditavam que ele era apenas um estudante que queria jogar futebol americano. Alguma coisa em Sullivan o chamou atenção, pensou e virou a outro técnico, dizendo: “Está vendo aquele garoto ali? Ele tem algo. Ele realmente pode ser bom.”

Surpreso, o outro técnico perguntou a Sullivan como ele sabia.

“Ele tem o que você procura em alguém”, comentou Sullivan. “Ele corta com a mesma fluidez que corre, nada abrupto ou sem harmonia. As passadas dele não ficam encurtadas no final da rota, sempre parece o mesmo movimento.”

A intuição do técnico parece um tanto não-convencional, Sullivan disse. “E quando você está há 25 anos na mesma, você simplesmente sabe.”

Depois do primeiro treino, Sullivan chegou em Jefferson, colocou seu braço atrás da cabeça do recebedor e o trouxe para perto, dizendo: “Você não sabe quem eu sou, mas se você trabalhar dessa maneira, você tem chance de ser muito bom.”

John e Elaine, pais de Justin, o deixaram no campus naquela manhã e, depois do primeiro treino, John ligou para Justin para saber como ele foi. Ele sentiu uma animação muito boa na voz do seu filho, logo ao falar.

“Pai, um cara velho, de cabelo branco, chegou para mim e disse que eu tenho o que é preciso”, disse Justin. “Ele disse que se eu treinar bastante e me manter focado nisso, eu vou para NFL em três anos.”

Jefferson não conseguiu fazer uma recepção em seu primeiro ano, mas conseguiu 165 nas outras duas temporadas e foi campeão do futebol americano estadunidense em 2019. A profecia de Sullivan se tornou real.

“Nós nunca sonhamos que ele iria explodir do jeito que ele fez”, comentou Greg Boyne, que treinou os três Jeffersons, como coordenador ofensivo no ensino médio. “Quando ele foi para LSU, esperávamos apenas que ele entrasse em campo e depois disso que entendemos: ‘caramba, o pequeno Justin é muito bom’”.


O verão se foi, com ele, chegando um outono forte, fazendo as temperaturas caírem, ao ponto de congelar quanto mais o sol passa a se esconder de Minneapolis. As câmeras acompanham enquanto Justin e Jordan jogam no estacionamento, depois da sessão de fotos, jogando a bola um para o outro gentilmente, mas longe o bastante para ter alguma emoção. O momento, realmente, parece sentir falta de uma naturalidade, mas os dois conseguem fazer alguns momentos, em lugares não tão comuns, serem um ritual entre eles, no simples ato de passar a bola e fazer uma recepção entre a dupla.

Afinal, esse é o vínculo deles, a linguagem que criaram entre si, algo que Justin vem fazendo desde que se lembra como indivíduo. Ele, Jordan e Rickey faziam isso perto de casa, com seu pai John participando ou ficando em uma cadeira por perto, assistindo com a mãe dos garotos, Elaine, enquanto os filhos jogavam a bola, riam e aproveitavam o momento.

“Todas as vezes que jogavamos e ele perdia, cara, chorava muito”, comentou Rickey. “Não é que ele é um bebê-chorão, mas ele gosta muito de ganhar.”

Eles lembraram que Justin, com apenas dois anos, tentava, por toda a casa, jogar uma bola de tênis para todo mundo. Nessa idade, Justin ainda tentou jogar a bolinha na cesta e fazia algumas bandejas nos jogos de Jordan, pelo colegial. Aos quatro anos, começou a ir no terreno perto de casa sozinho com sua bola de futebol americano, correndo rotas, jogando passes para si mesmo e essa é a sua memória que define sua própria infância. Eventualmente, Jordan foi o quarterback titular na LSU, Rickey foi uma estrela no colegial e estava no caminho para estar na posição de safety titular de LSU, e Justin estava no fundamental encantando as pessoas por sua velocidade, no início de sua jornada para ser algo muito maior que todos eles.

“Eu lembro que minhas mãos normalmente doíam demais por ficar pegando a bola”, comentou Justin. “Eu costumava ficar 15 ou 20 jardas longe e aquela bola chegando, doía demais.”

“Mas você costumava conseguir a recepção”, comentou Jordan. “Tinha uma coordenação nos seus olhos, tinha um toque muito bom na bola e, como costumávamos dizer: ‘se você conseguir pegar a bola...”

Justin se uniu a ele, sincronizou sua voz para mimetizar com seu irmão mais velho e terminou o mantra que tinham: “... você vai conseguir pegar qualquer bola no país.”

Ambos riram, Justin muito mais do que Jordan.

“Quantos anos você tinha?”, questionou Justin.

“18... 19, 20”, comentou Jordan e não deixou vazio. E era quarterback titular na LSU.

“Eu tinha 8, 9 ou 10”, comentou Justin, rindo como se fosse a primeira vez que isso acontecia com ele.

“Tinha uma grande diferença”, comentou Jordan. “Mas, como a mãe dizia: ‘vocês precisam cuidar um do outro.’”

Eu perguntei a Jordan se ele e Rickey pegavam leve com Justin e ele olhou para mim, imediatamente, como se quisesse que eu retirasse essa pergunta.

“Jamais”, ele mandou diretamente para mim. “Ele nunca iria melhorar se tivéssemos pegado leve com ele.”

Eles compreenderam a preciosidade do presente que foi dado a Justin e que precisavam cuidar disso. Jordan vive com Justin, em Minneapolis. Rickey fica mais com o lado dos negócios. John e Elaine tentam ir em todas as partidas. Os irmãos não estão sempre onde Justin está, mas eles sempre estão por perto para ver e sonhar com ele, o que os faz continuar protegendo seu irmão.

“Nós todos estivemos em uma função significante no desenvolvimento de cada um”, comentou Rickey. “Jordan foi muito bom e então começaram os rumores: ‘Sabe, o Rickey vai ser bom também’, até que com Justin as pessoas diziam: ‘Ele talvez seja o melhor deles’. Como família, acredito que somos mais como um império do que uma comitiva e ninguém tem inveja de alguém aqui. Eu sinto muito em ter que dizer isso, mas eu fico apaixonado por isso. O vínculo que a gente tem? Você não consegue quebrar. Os outros brilharem não diminui nossa luz.”

Tanto Jordan quanto Rickey sabem o quão mordaz estar nos holofotes pode ser. Em seu último ano em LSU, onde começou 32 jogos como quarterback, Jordan foi preso três vezes, em 14 meses, por agressão e posse de maconha. Durante seu último ano no colegial, dias antes de assinar com LSU, Rickey foi preso por agressão ao resistir contra um policial, no meio do carnaval que existe no estado de Louisiana (Mardi Gras).

“Eu tenho certeza que você deu um Google sobre nós”, comentou Rickey. “Você viu pelo que passamos, mas pelo que você passou não define o que você é no momento. Nós tivemos momentos difíceis como família. Nós passamos por uma percepção pública e tivemos que nos manter unidos como família. Resistimos aos testes, e Justin também aprendeu com esses tempos tensos.”


Rickey Jefferson estava em uma loja ao lado de sua casa, em Las Vegas, há algumas semanas, com um carrinho de mercado, com seu filho Isaiah no banquinho. Ele foi a uma geladeira de comidas congeladas e parou. Mais à frente estava a mãe e os outros dois filhos. O mais velho, provavelmente com oito ou nove anos, estava fazendo a dança que Justin Jefferson faz, o Griddy, ou algo parecido, mas que poderia ser reconhecido como o Griddy.

“Quero dizer, ele estava tentando e eu respeito muito isso”, comentou Rickey. “Eu diria que o Griddy parecido com uma mistura do Kirk Cousins com um linha ofensiva.”

Justin fez o Griddy se tornar famoso em seu último ano em LSU, quando sua mãe deu a sugestão de que ele deveria dar aos torcedores um pequeno entretenimento depois de pontuar. Ele adotou a dança inventada por Allen Davis, um amigo do companheiro de LSU, Ja’Marr Chase, como sua marca de celebração de touchdown e agora é seu próprio logo, compartilhando os direitos da dança. Mas o movimento está em todo lugar e em diversas formas.

“Eu sabia, desde o começo, que era algo único e algo que ninguém tinha feito”, comentou Justin. “Mas eu não esperava que todas as crianças do mundo estariam fazendo o Griddy.”

E então aqui está Rickey, o irmão do homem que fez uma dancinha se tornar um fenômeno, andando até seu filho com um sorriso sincero e dizendo: “Ei, meu parceiro, é assim que você tem que fazer.”

Na visão entre a lasanha congelada e a pizza semi-pronta, Rickey começou a bater os calcanhares no chão e movimentar os braços para cima e para baixo, lançando o passinho que Justin fez famoso. Ele resistiu a tentação de dizer que seu irmão teve um papel crucial em transformar este momento tão especial.

“Eu não ando por aí ajudando isso a ficar famoso”, Rickey comentou rindo. “Não é apenas sobre mim. Eu só queria ajudar.”


O terreno do lado da casa dos Jeffersons tem 51 metros de profundidade e 21 metros de largura e era um dos únicos lugares quietos, sem construções pela vizinhança. Foi palco de várias competições necessárias entre os irmãos, que tinham idades diferentes, mas sabiam como manter a chama acesa entre eles. Jordan é quatro anos mais velho que Rickey e este é maior que Justin por cinco anos. A família era tão competitiva que Rickey falou: “Nunca venceu o pai no basquete até completar 19 anos e estamos falando de um cara que tem uma prótese no quadril. Ele era ultra-competitivo e talvez tenha chamado algumas faltas no final do jogo, só para eu não fazer isso antes dele.”

John é um vendedor de fornecimento industrial, enquanto Elaine faz parte do administrativo de uma delegacia. Eles vão se manter trabalhando porque querem suas aposentadorias. John me disse que é “porque nós conquistamos elas.” Existe um sentimento de gratidão em todas as experiências que esta família enfrenta, parte do império, não comitiva, que Rickey já definiu. Sullivan diz que “muitas famílias se comportam como se finalmente chegou a hora de aproveitar. Mas John e Elaine apenas se deleitam com o fato de que ele dá conta e faz por si. Justin comprou um carro para a mãe e ela chorou. Ela não pediu por ele.”

Depois de todos os filhos terem se mudado da casa, John, que é um ex-jogador de basquete universitário e se comporta como um, cuidando de si mesmo, perguntou ao dono do terreno perto da casa se ele poderia comprar. Não como um investimento ou um lugar para construir, mas como um templo aos filhos e uma gratificação aos anos que este solo deu a sua família.

“Tem muita história neste terreno”, John comentou. “Eu perguntei a ele, você quer vendê-lo? Nós passamos muito tempo neste terreno.”

Este é o lugar onde Jordan começou a por rotação na bola de futebol americano, em um jeito que poucas crianças conseguem. É neste lugar onde as mãos de Justin começaram a ser estas tão encantadas que conhecemos, onde Rickey competiu e lutou com os seus irmãos. É o lugar onde achariam Justin sempre quando não conseguissem achá-lo e onde John sempre deu suas palavras mais famosas entre a família: “Cara, você precisa treinar um pouco mais”. A primeira vez que levou Justin no terreno, para correr algumas rotas quando os treinadores do colégio em que estudava o trocaram de quarterback para recebedor.

O dono do terreno precisou de alguns meses para pensar, antes de dizer a John que ele decidiu construir algo nele. Agora a casa vizinha está quase pronta. John e Elaine passam por ela explicando como era. John aponta onde Jordan estaria com a bola, direcionando seus outros dois irmãos pelo campo. Mais para frente é onde Justin ficava lançando a bola para si mesmo, enquanto os outros irmãos olhavam pela janela e gostariam de estar com ele.

Muito da vida deles aconteceu ali, abaixo dos pés deles. Isso nunca passou pela cabeça deles. Eles lembram do caos que eram os três jogos em um final de semana: os jogos de Justin; Rickey no colegial; Jordan em LSU. Foi há vários anos, mas eles ainda conseguem ver isso, lá perto naquele terreno, do lado de casa.

“São várias boas memórias”, Elaine disse rápido. Ficaram em silêncio. Finalmente, John disse: “Eu estou feliz que tivemos o tempo que tivemos juntos”. Se recolheu e voltou para casa. Ele estaria no avião amanhã. Seu filho tem jogo.