Victor Wembanyama é cotado para ser a 1ª escolha do Draft de 2023 da NBA
Nicolas Batum estava saindo do treinamento da seleção francesa de basquetebol na região metropolitana de Paris, quatro anos atrás, quando um menino gigantesco chamou sua atenção e o parou quando estava saindo.
Enquanto o garoto de 14 anos de 2,10m de altura corria em quadra, Batum assistia espantado. O jogador tinha um jogo ofensivo completo, enterrava com facilidade e ainda conseguia bloquear chutes. Normalmente são os garotos que se apresentam aos jogadores da NBA, mas o ala dos Clippers fez o movimento contrário e foi em direção ao menino que se chamava Victor Wembanyama.
“Eu vi aquela criança de 14 anos andando e disse: ‘Espera um pouco. Deixa eu ver esse garoto jogar’. Eu vi ele se movimentando, driblando e chamei Tony Parker na hora e disse: ‘Temos que cuidar desse garoto Victor Wembanyama.’ Para quem quisesse ouvir, nos últimos quatro anos, estou falando para as pessoas sobre ele. Eles estão ouvindo agora”, Batum contou ao Andscape.
Hoje toda a NBA está falando que quer o garoto Victor Wembanyama, que agora tem 2,20m, com uma envergadura de 2,40m e chega a quase 3 metros de alcance vertical, fazendo dele um tipo de talento único em sua geração. Por esta razão, ele é projetado para ser a primeira escolha do Draft 2023 da NBA.
É esperado que Wembanyama entre no Draft depois de jogar esta temporada na primeira divisão do Campeonato Francês de basquete, com o Boulogne-Levallois Metropolitans 92.
O jovem de 18 anos jogou seu primeiro jogo em solo americano na terça-feira (04), quando a equipe enfrentou o G League Ignites. Na partida, Wembanyama anotou 37 pontos, acertando 11 chutes de 20 tentados, sendo 7 de três pontos em 11 tentativas. Além disso, acumulou cinco tocos e reuniu mais impressões positivas sobre seu jogo.
“Ele é bom”, comentou Chelsea Gray, campeã da WNBA com o Las Vegas Aces: “Ser tão grande e alto daquele jeito e ainda ter habilidades de armador é incrível”.
O presidente do Oklahoma City Thunder, Sam Presti, e o gerente geral do New Orleans Pelicans, Trajan Langdon, estão entre os profissionais da NBA que estão de olho no jogador desde o treino de segunda-feira nos EUA. No jogo contra o G League Ignites, cerca de 150 olheiros estavam presentes na partida.
Um gerente geral de uma franquia da NBA contou ao Andscape que Wembanyama ainda irá crescer, mesmo com pouco peso agora, e tem a chance de ser um dos jogadores que só vemos uma vez na vida.
“Victor é um espécime raro de se ver, tal como Kareem Abdul-Jabbar e Ralph Sampson”, comentou o gerente geral: “Seu tamanho, sua envergadura e habilidade são diferenciadas. Sua ética de trabalho determinará em que nível ele pode chegar, mas ele tem tudo possível para isso.”
O agente Bouna Ndiaye representa vários jogadores de basquete da França, como Batum e Rudy Gobert, pivô dos Timberwolves, e o armador Evan Fournier, do Knicks. Agora ajuda Wembanyama em sua caminhada rumo à NBA.
O pai de Victor, Felix Wembanyama, descendente de congoleses, foi um antigo atleta de atletismo e tem 1,98m de altura, enquanto a mãe, Elodia de Fauterau, tem 1,87m de altura, segundo o Focus News. Por anos o agente Ndiaye conhece a mãe de Victor, que foi técnica de times juvenis de basquete, ensinou seu filho e do próprio Wembanyama. Por muitos anos, foi dito ao agente que ele precisava ver um jogo de Victor, mas não havia acontecido por causa de sua idade.
Quando Wembanyama tinha 13 anos, Ndiaye ouviu o pedido e imediatamente entendeu do fenômeno que se trava Victor e que todos falavam.
“Meu amigo me disse: ‘O filho de sua amiga [de Fauterau] é incrível. Você precisa ver ele jogando. Ele tem 13 anos. Você precisa ir ver ele jogar. Ele é especial’, o agente Ndiaye contou ao Andscape: “Então finalmente eu fui. Eu liguei para a mãe dele e disse que ia ver ele por diversão. Nada de trabalho. Iria como amigo. Então eu fui assistir. Mas quando eu vi ele, sabia que ele era especial pelo jeito que ele passava a bola, driblava... Eu assisti ele algumas vezes depois disso e com o time sub-16 da França. Ele é impressionante.”
Wembanyama começou a fazer seu nome para o mundo depois de jogar bem contra Chet Holmgren, escolha número 2 do Draft da NBA 2022 e jogador do Oklahoma City Thunder, na equipe estadunidense durante a Copa do Mundo de basquete sub-19, em 2021. Tony Parker, notável jogador do San Antonio Spurs, assinou com Wembanyama para a equipe do ASVEL Villeurbanne, em Lyon, na temporada 2021/2022, depois do atleta ter jogado pelo Nanterre 92.
Wembanyama anotou 25 pontos contra o Le Portel, no dia três de abril, e ganhou seu segundo prêmio de Melhor Jogador Jovem da Liga francesa. Entretanto, sofreu uma contusão muscular nas semifinais da competição e perdeu o resto da temporada, enquanto sua equipe conseguiu ser campeã. Wembanyama teve médias de 9,4 pontos, 5,1 rebotes, 1,8 tocos por jogo em 18,5 minutos de média jogados nos 16 jogos saindo do banco do Villeurbane, na Liga Francesa. Pela Euroliga, anotou 6,5 pontos, 3,8 rebotes e 1,9 tocos nas 13 aparições que fez.
Norris Cole, duas vezes campeão da NBA com o Miami Heat na era Wade-LeBron-Bosh, estava impressionado pelo potencial de Victor quando jogou contra ele na Liga Francesa, na temporada passada. Cole disse que “no mínimo”, Wembanyama teria um jogo na NBA similar ao ala/pivô Kristaps Porzingis, do Washington Wizards.
“Fisicamente, ele é uma benção divina com este tamanho e alcance”, comentou Cole, que jogava pelo JL Bourg: “Ele consegue chutar. Obviamente é necessário fazer algum trabalho para fortalecer seu corpo, mas ele tem alguns dons que você não consegue ensinar. Ele é muito confiante pela idade que tem, jogando contra veteranos...”
“Se ele pode ser ‘o cara’ de alguma franquia? Eu não tenho certeza. Mas, no mínimo, ele pode ser um jogador tipo Porzingis. Dando tocos, convertendo chutes de 3 pontos. Ele pode crescer muito mais ainda.” Parker contou ao Andscape que ofereceu a Victor uma oportunidade de retornar a equipe como titular neste temporada. Mas Wembanyama decidiu, junto com seu agente Ndiaye, optar por deixar o ASVEL. O quatro vezes campeão da NBA com os Spurs e dono do ASVEL Tony Parker disse que estava desapontado pela decisão mas que desejava o melhor dos mundos para o atleta.
Wembanyama reconheceu que foi difícil recusar a proposta de Parker, mas pensou que o melhor naquele momento seria voltar para casa.
“Obviamente não foi um momento feliz para mim e para ele”, comentou Victor: “Mas eu tenho certeza que ele quer o melhor para mim e entendeu minha decisão. É apenas um caminho para minha carreira. Então eu sei que tomei a melhor decisão e sou grato pelo que a equipe do ASVEL fez para mim e por todo o tempo que estive lá. Sou extremamente grato.”
O presidente da G League, Shareef Abdur-Rahim contou ao Andscape que Wembanyama também recusou uma oferta do Ignite. O repórter Jonathan Givony também disse que Victor teve ofertas para jogar na Liga Australiana (NBL), Real Madrid, Barcelona, Paris Basket e outras equipes. Mas Ndiaye acredita o Metropolitans 92 tem equipe o bastante para beneficiar seu jogador, enquanto pode estar em casa uma temporada antes de sua próxima jornada: a NBA.
Ndiaye disse que era importante para Wembanyama manter a cabeça no lugar para se preparar para a NBA, sendo esta a razão para retornar para Paris e não jogar pela equipe da França nesta intertemporada. Ndiaye ainda disse que o necessário é “desenvolver com paciência” o corpo de Victor para uma carreira longa na NBA. Exatamente por isso, Wembanyama tem um treinador para musculação, fisioterapeuta e ortopedista trabalhando com ele diariamente.
“Tudo está sendo feito da maneira mais apropriada”, disse Ndiaye: “O garoto está pronto para jogar em qualquer lugar desse mundo. Seu corpo precisa estar já pronto porque ele é um dos jogadores mais altos a se mover daquela maneira em quadra.”
O Metropolitans 92 também contratou o famoso treinador da Seleção Francesa de Basquete, Vicent Collet para ajudar no desenvolvimento de Wembanyama. Contra o Ignites, o treinador não escondeu seu contentamento com o jogador.
“Simplesmente incrível o que ele consegue fazer com o tamanho que tem, sua agiliade, mobilidade, além do chute de 3 pontos que tem, se movendo muito bem. Ele ainda consegue fazer alguns bons passes. Acho que ele tem um jogo muito bom e vai aprender muito pelo que aconteceu no primeiro tempo. Ele precisa lutar mais porque ele sabe que aquela defesa agressiva cada vez mais será comum contra ele.”
No início, o cinco vezes melhor treinador da Liga Francesa estava ansioso pela oportunidade única. Ele ainda o ajudou a construir um laço com Victor, que espera jogar pela França na Olimpíada de Paris, em 2024. Collet também vê Wembanyama como um talento especial de sua geração, espera que ele aumente sua inteligência em quadra e o motiva a usar mais seu talento para distribuir a bola.
Colett chamou Wembanyama de “melhor prospecto” a sair da Liga Francesa (LNB Pro A), que teve Parker, Gobert, Fournier, Boris Diaw, Joakim Noah e Udonis Haslem como jogadores que fizeram o mesmo caminho.
“Ele é incrível, não só pelo seu tamanho mas também pelas suas habilidades...”, comentou Collet: “Ele ainda precisa aprender sobre o jogo. Ele é muito jovem. Ano passado ele não jogou muito com o ASVEL. Então nós vamos tentar dar a ele mais experiência. Esse é o nosso pacto, dele e meu: nós queremos que ele ganhe experiência antes de ir para a NBA.”
Enquanto Abdur-Rahim não conseguiu trazer Wembanyama para o Ignite, ele acertou em cheio ao trazer o Metropolitans 92 para os Estados Unidos da América, para jogar contra o Ignite. A equipe do Ignite é um time para desenvolvimento de jogadores, está em sua terceira temporada e trouxe outra promessa para a NBA, Scoot Henderson. Henderson é projetado para ser a escolha seguinte (depois de Victor), mas disse ao Andscape que tentará convencer os olheiros de que ele é a melhor escolha. Liderando seu time à vitória contra o Metropolitans 92 de Wembanyama na terça-feira (04), Scoot anotou 28 pontos, 9 assistências e 5 rebotes.
“Você tem uma oportunidade rara com os dois prospectos mais bem classificados que não jogam o universitário estadunidense”, contou Abdur-Rahim: “Os caminhos escolhidos por eles são diferentes do que geralmente vemos. Como podemos então trazê-los? Os trouxemos para dar algo interessante para os fãs de basquete. Neste caso, você tem Victor, que é da França. A comunidade da NBA e os torcedores, na maioria dos casos, não conseguem vê-lo jogar.”
“É um momento especial para trazer estes dois talentos em uma partida. Todos estamos ouvindo coisas interessantes sobre Victor nas competições internacionais que aparece e das pessoas que conhecem o talento que ele é. Se ele estivesse aqui nos EUA, ele provavelmente seria o prospecto mais badalado e esperado dos últimos 15-20 anos.”
Wembanyama está ansioso para passar mais tempo nos EUA depois de ficar em Dallas, com Ndiaye, durante a intertemporada. O jovem prospecto treinou com o pivô dos Pacers, Myles Turner, e Tyrese Maxey, do Philadelphia 76ers.
“Ele é definitivamente habilidoso como disseram”, contou Turner: “Ele terá um impacto defensivo imediato em qualquer equipe que aparecer. Tal como todos os jovens grandes, ele terá que ajustar sua força à força necessária que a NBA pede. Mas eu, pessoalmente, estou olhando para algo maior, que é o quão tentador será quando seu jogo crescer mentalmente e fisicamente.”
Wembanyama esteve no jogo de quarta-feira (05) na pré-temporada, entre Lakers e Suns, em Las Vegas. Estar nos Estados Unidos mostra como os dias na França estão contados antes de chegar o Draft da NBA, em 2023. Victor nasceu em Le Chesnay, na França, no dia quatro de janeiro de 2004 e irá morar em outro país pela primeira vez quando jogar na NBA.
“Isso é algo que eu venho pensando nos últimos meses”, comentou Victor: “Eu quero aproveitar estes poucos meses que me restam. Passar um tempo com os meus amigos. É louco que nos próximos 15, 20 anos eu não viverei na França e na Europa. Eu só, simplesmente, sairei da França... É bem triste, mas ao mesmo tempo fico entusiasmado com isso porque sei que meu destino é lá, aqui nos EUA. Mas, sim, eu venho pensando nisso. Eu tenho certeza que vou sentir falta da França.”
Qual o tamanho do hype de Wembanyama?
Victor Wembanyama pisou em solo estadunidense pela primeira vez na terça-feira, quando sua equipe perdeu para o G League Ignites, por 122 a 115. A equipe perdia por 19 pontos até o intervalo, quando ajudou a equipe a virar o placar em certo momento.
“Em algum momento foi apenas hora de abaixar a cabeça e tomar as rédeas necessárias porque nossa equipe precisava com aquela distância no placar”, comentou Victor, que admitiu estar cansado por jogar quartos tão longos (na Europa cada quarto tem 10 minutos, em solo americano, 12)
“Conseguir a virada é uma tarefa difícil... Tem horas que você precisa fazer o que precisa fazer.”
Wembanyama começou a partida jogando como um armador para sua equipe, iniciando algumas jogadas e ainda demostrando um ótimo trabalho de pernas longe da cesta, coisa que quem tem sua altura normalmente não faz. Suas 7 bolas de 3 convertidas em 11 tentadas, cinco tocos e ainda um aproveitamento de 55% nos chutes por toda a quadra brilharam os olhos de quem estava na partida. Suas conversões de 3 pontos no terceiro quarto fizeram a equipe iniciar o último período na frente, o que deixou todos impressionados com o atleta, inclusive LeBron James.
“Todo mundo vem sendo chamado de ‘unicórnio’ nos últimos anos, mas ele parece mais um alien. Ninguém nunca viu alguém tão alto como ele e que ao mesmo tempo consegue fluir naturalmente e é gracioso em quadra”. Victor estará em mais uma (e última) partida em solo estadunidense contra o Ignite nesta quinta-feira (06), e provavelmente os rivais estarão mais agressivos na defesa contra o francês do que nunca. É provável que tenha mais olheiros e mais torcedores que queiram ver o jogador, já que só se fala da maneira única que ele tem em jogar.
“Nunca vi alguém igual ele”, comentou DeMarcus Cousins: “Esses meninos estão cada vez mais raros. Eles crescem muito rápido. Eles estão muito maiores do que antes... Eu só quero torcer e ver em primeira mão”.
