Aaron Baynes, pivô da Austrália, contou sua história à ESPN e revelou momentos de extremo desespero em um hospital em Tóquio
Era o início do quarto período e os Boomers, o time masculino da Austrália no basquete olímpico, estava em um jogo apertado contra a Itália, em uma rodada importante da fase de grupos. Os Aussies estavam pouco na frente e a vitória garantiria o avanço para o mata-mata. O técnico Brian Goorjian olhou para o banco, querendo colocar seu pivô brigador na quadra.
O australiano estava jogando bem, ele tinha 14 pontos em 14 minutos e 2 bolas de 3, o que virou a especialidade dos grandões. Agora, ele era necessário para batalhar contra seus colegas de NBA Nicolo Melli e Danilo Gallinari. Mas ele havia sumido.
Onde estava Aron Baynes?
Era um longo caminho até o banheiro na Saitama Super Arena e Baynes havia ido usá-lo entre o terceiro e quarto períodos. Ele tinha que atravessar a quadra na diagonal, andar um corredor e descer um lance de escadas. Ainda assim, não fazia sentido. Baynes foi correndo para não perder o começo do último quarto.
Preocupado, um dos membros da comissão técnica foi procurar por ele, refazendo os passos de Baynes. Enquanto o fazia, o funcionário achou o pivô. No vestiário, perto da porta do banheiro, Baynes, de 2,08m, estava estatelado no chão, com sangue em seu uniforme e no chão, proveniente de dois inexplicáveis e profundos furos em seu bíceps.
O médico do time foi convocado. Então paramédicos. Ainda no chão, Baynes estava grogue e não conseguia se levantar. Ele lembrava de ter feito uma curva para ir ao banheiro.
Então, mais nada.
Uma investigação foi lançada. Haviam dois ganchos na parede para pendurar toalhas que pareciam que podiam ter causado os cortes. Talvez Baynes tivesse batido a cabeça no chão. Enquanto os médicos o colocavam em uma maca, Baynes estava enviando fotos de seus ferimentos para seu agente em Nova York e se mantendo atualizado do jogo, que os Boomers venceram por 3 pontos.
Ele ainda não havia ido ao banheiro e estava necessitado, então levantou da maca.
Imediatamente, caiu no chão.
Na confusão do momento, ninguém havia percebido que Baynes havia perdido sua capacidade de andar. Ou que ele estava se encaminhando para um pesadelo que poderia destruir sua carreira e o deixaria isolado em um hospital japonês, chorando de dor dia após dia, com a possibilidade de estar paralizado.
"O tempo mais solitário da minha vida foi estar deitado naquele hospital, entrando e saindo da minha consciência, pensando nos meus planos de vida e chorando", diz Baynes, falando do momento pela primeira vez.
"Meu tio Don teve um acidente há 10 anos. Ele é paraplégico", diz o pivô. "Minha família tem experiência própria com isso. Eu estava com muito medo".
Depois de jogar pela faculdade de Washington State, Baynes jogou 9 temporadas na NBA em 5 times diferentes. Em 2014, venceu o título com o San Antonio Spurs. Ele fez quase U$ 40 milhões. Teve a melhor temporada da carreira com o Phoenix Suns em 2019/2020, com médias de 11.5 pontos e 5.6 rebotes que lhe renderam um contrato de 2 anos e U$ 14,3 milhões com o Toronto Raptors.
E um dos momentos mais importantes de sua carreira estava em curso no Japão. A melhor geração de jogadores australianos - incluindo jogadores da NBA como Patty Mills, Joe Ingles, Matisse Thybulle, Dante Exum, Matthew Dellavedova e Jock Landale - estavam com Baynes enquanto seu país conquistava a primeira medalha olímpica. Eles haviam vencido os EUA nos dois confrontos anteriores e existia a esperança de uma nova vitória e a medalha de ouro.
Após o intervalo da partida de estreia, três dias antes do jogo contra a Itália, Baynes voltou para aquecer para o segundo tempo contra a Nigéria. Com as mãos ainda molhadas pelo álcool em gel passado minutos antes, ele subiu para a mais básica das enterradas.
Suas mãos escorregaram do aro. Na queda, ele perdeu o balanço e caiu de costas na quadra, com o impacto todo em seu pescoço e cabeça. Ele ficou de fora do 2º tempo por precaução.
"A gente realmente não sabe o que aconteceu. Os neurologistas não podem ter certeza da causa. Mas eu estava com muita dor após aquela queda", comenta Baynes. "Eu estava bastante inchado e precisei de anti-inflamatórios para jogar".
Três dias depois, quando Baynes escorregou e caiu novamente no banheiro - e não estava claro se eram os efeitos da primeira queda ou apenas água no chão - sua saúde decaiu rapidamente.
Quando ele foi encontrado pela primeira vez no vestiário e voltou à consciência, os médicos acharam que ele tinha sofrido uma concussão. Conforme o tempo passou, porém, suas pernas começaram a tremer. Então ele percebeu que não conseguia mexer sua mão esquerda e nem o braço. Ainda precisando ir ao banheiro, alguém lhe trouxe uma garrafa de água vazia. Ele não conseguiu se aliviar.
"Depois de mais ou menos meia hora eu realmente comecei a deteriorar", conta Baynes.
Com a vitória na mão, os colegas voltaram ao vestiário para checar o pivô. Focados no jogo, eles não tinham ideia do que tinha acontecido. Baynes sempre foi do tipo de jogar mesmo lesionado. No começo, a dúvida era "ele vai jogar no restante do torneio?". De repente, virou "ele vai ficar bem?".
Baynes foi levado de ambulância para o hospital e imeditamente passou por diversos exames. Uma ressonância magnética mostrou que ele tinha sangramento interno que estava pressionando sua medula.
Baynes não conseguia se comunicar direito com os médicos e enfermeiros japoneses. Por conta da pandemia da COVID-19, Tóqui estava em estado de emergência, então Baynes não poderia ter ninguém do time com ele.
"Ele me mandou uma foto dos buracos no braço e disse que os médicos estavam checando como ele estava, de repente ele estava em uma cama de hospital e suas mensagens eram cheias de pânico", diz Daniel Moldovan, agente de Baynes há muito tempo. "Ninguém conseguia nenhuma resposta. Estávamos lutando por informações e tentando manter Rachel (a esposa) atualizada na Austrália. Eu queria pegar o próximo voo, mas sequer conseguia chegar ao Japão".
Enquanto ele esperava que os médicos analisassem seus exames, Baynes foi colocado em uma sala tão pequena que ele podia tocar as duas paredes com suas mãos ao mesmo tempo, caso tivesse movimento delas. Não havia uma cama do tamanho dele, então as enfermeiras colocaram outra cama na vertical para ele colocar os pés.
Baynes teve dificuldade para usar o app de tradução em seu celular. O que ele entendeu foi que os médicos achavam que ele precisava de cirurgia para aliviar a pressão na medula. Ele ligou para sua esposa e filhos na Austrália e tentou achar uma solução.
"Eu ainda esperava jogar no próximo jogo", diz Baynes, chorando ao lembrar da ligação conversando com sua esposa. "Os [médicos] japoneses acharam que eu estava louco. Olhando para trás, não consigo acreditar no que estava acontecendo."
Ele acabou no telefone com um neurocirurgião australiano às 2 da manhã. O médico já havia visto a condição antes e tinha um plano de tratamento de medicação e fisioterapia para reduzir o inchaço para que ele pudesse voltar para casa.
"Os médicos australianos nos deixaram à vontade", diz Moldovan. "Eles sabiam o que fazer. Assim que entendemos, tínhamos um mapa."
Por quase duas semanas, Baynes se concentrou em fazer o que tinha que fazer para ficar de pé. Se ele pudesse ficar de pé, disseram-lhe, poderia pegar o voo de Tóquio para Brisbane. Tornou-se sua obsessão, embora muitas vezes ele não fosse forte o suficiente, contando com terapeutas para mover seus membros para ele. A dor do nervo queimou por todo o seu corpo.
"Eu não conseguia lidar. Eu era como uma combinação de queimadura, fogo, facas", diz Baynes. "Eu precisava dos remédios para dor, mas eles me nocautearam imediatamente, então tive que fazer entre os jogos. As enfermeiras me mostraram muita compaixão."
Dez dias após o acidente, os Boomers acabaram conquistando a medalha de bronze com uma atuação brilhante contra a Eslovênia. Quando chegou a hora da cerimônia, Baynes, sozinho e assistindo de sua cama improvisada de hospital entre as doses de analgésicos de alto nível, chorou ao ver seus companheiros de equipe receberem as medalhas, especialmente quando seu nome foi anunciado.
As enfermeiras não entendiam as cerimônias pós-jogo, então vieram dar-lhe os remédios por via intravenosa assim que o jogo acabou. Baynes configurou uma série de alarmes em seu iPhone, para que ele ficasse acordado para vê-lo.
No dia seguinte, os companheiros de equipe Dellavedova e Nathan Sobey foram ao hospital para trazer a medalha de Baynes. Ele estava melhor. O inchaço em sua coluna havia diminuído e ele estava ficando mais forte com a terapia. O hospital permitiu que ele visse o médico da equipe e o treinador esportivo por 15 minutos por dia. Dellavedova e Sobey se passaram por médicos para passar pela segurança.
"Foi uma visita muito emocionante, sabe?" diz Dellavedova. "Foi uma longa jornada para chegarmos lá e ele foi uma grande parte da conquista. Houve algumas lágrimas. Não quero ter problemas com os oficiais japoneses, mas estou feliz que conseguimos entrar”.
Baynes brinca: "Delly conseguiu um diploma online".
Em seu 11º dia no hospital, Baynes finalmente conseguiu ficar de pé. Então, em um exercício para trabalhar suas habilidades motoras, ele conseguiu empilhar uma xícara em cima da outra, uma conquista pela qual estava trabalhando. Ele estava tão animado que fez FaceTime com sua esposa. Quando ela atendeu, ele viu sua caçula de três filhos, sua filha de 6 meses, aprendendo a fazer o mesmo. Ele começou a chorar.
Chegar em casa foi brutal. Um avião médico especial foi fretado para o voo de 4.000 milhas. Para mantê-lo seguro, os médicos determinaram que ele precisaria ser amarrado nas costas e anestesiado durante todo o voo de oito horas. Quando ele finalmente chegou em casa em Brisbane, ele teve que ser levado para uma ambulância porque ele ainda não conseguia andar. Por causa dos rigorosos protocolos contra a COVID-19 da Austrália, ele teve que entrar em uma quarentena obrigatória de duas semanas em um hospital local e ainda não conseguia ver sua família.
Iniciou fisioterapia intensiva, que era a melhor hora do dia porque o quarto tinha janelas e sua família podia vê-lo. Seu objetivo era simples: ser forte o suficiente para abraçar sua esposa e filhos quando ele saísse da quarentena.
Ele ficou no hospital em Brisbane por quase um mês. Ele progrediu a cada dia, de cadeira de rodas para andador, para andar sozinho, principalmente lidando com a fraqueza na perna esquerda, literalmente ensinando seu corpo a se mover passo a passo, trabalhando suas pernas e pés em sincronia.
Depois de mais alguns meses, ele finalmente conseguiu correr.
Após um grande avanço na quarta-feira, ele se recompensou. Fazia uma semana sem cair. Ele pegou uma bola de basquete pela primeira vez desde agosto e deu alguns arremessos como parte de sua terapia diária.
Embora ele tenha se mantido em silêncio sobre sua condição, Baynes foi inundado com mensagens de texto, e-mails e ligações de ex-companheiros de equipe e treinadores. Ele assiste aos jogos da NBA na maioria dos dias.
Ele tem ido à praia com a família. É verão na Austrália, e ele não volta para casa no verão há anos.
Esta semana, ele assistiu a um jogo entre Brisbane Bullets e Melbourne United e viu Dellavedova marcar 16 pontos para levar o United à vitória. Dezenas de crianças vieram para posar com ele para fotos. Ele estava feliz.
"Se você me visse agora, não saberia que algo aconteceu", diz Baynes. "Houve muito progresso nos últimos seis meses."
Baynes completou 35 anos durante essa provação e seu objetivo é voltar à NBA na próxima temporada. Ele está se reabilitando agressivamente todos os dias. "Ele não tem interruptor, não desliga, ele quer fazer isso oito horas por dia. Tentamos afastá-lo, mas não é da natureza dele", diz Moldovan.
Parte de sua vontade de voltar à liga é por causa do quanto ele está gostando da maneira como os árbitros da NBA estão apitando os jogos deste ano. Mais jogo físico está sendo permitido, o que favorece seu estilo.
"Parece muito mais divertido agora. Foi assim que cresci jogando e realmente quero voltar a isso", diz Baynes. "Tenho vontade de chegar lá e todos os dias espero muito de todos ao meu redor.
"Não sei como será o caminho, mas vou dar tudo por isso."
