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Durant, Draymond, Lillard e Trae: como funcionam as mentes dos provocadores na 'nova NBA'

O estilo das provocações entre os jogadores mudou bastante da década de 90 até hoje, mas o trash talk segue vivo, apenas de uma nova maneira


Jimmy Butler interrompeu seu aquecimento pré-jogo e andou em linha reta até o meio da quadra. Ali, Joe Ingles, ala do Utah Jazz, parou, observou e esperou que o All-Star se aproximasse.

A missão de Butler: paz.

Àquela altura, as línguas afiadas e o espírito competitivo tanto de Butler como Ingles estavam em conflito há anos, uma competição que começou no início da carreira de Joe, quando ele tentou passar por um corta-luz de Jimmy. O resultado foi Ingles agarrado no chão com o então jogador do Chicago Bulls. Para a sorte do ala, o seu companheiro Trevor Booker tirou Butler de cima dele.

"Ele estava me olhando como se ele fosse me f** na porrada", relembra Ingles.

Ele nunca chegaram às vias de fato, mas Butler e Ingles trocaram provocações todas as vezes que seus times se encontraram desde então, resultado em técnicas duplas e multas de 4 dígitos.

"Ok, cara, vamos parar", Butler, agora no Miami Heat, relembra de dizer para Ingles durante a conversa pré-jogo. "Nós estamos na liga por muito tempo agora. Vamos relaxar e diminuir as técnicas. Eu quero meu dinheiro, você quer seu dinheiro. Vamos deixar para trás".

O ala do Utah concordou imediatamente. Butler e Ingles se cumprimentaram, acabaram com a briga e protegeram suas contas bancárias.

"Eu estava tipo 'estou com ele porque também quero economizar dinheiro'. Desde então, a gente se dá muito bem", diz Ingles.

Butler concorda: "Nós estamos bem desde então, ele é um cara legal".

A NBA atualmente é condecorada como uma liga muito mais amigável que nas gerações anteriores, uma mudança que pode ser refletida na natureza das provocações, ou falta delas, entre os jogadores.

Os dias de titãs se provocando gritando um com o outro por 48 minutos podem estar para trás, mas a arte não desapareceu. Ao contrário, ficou mais sutil, mais esporádica e, em alguns casos, nem vai ter a provocação em si. Mas os melhores no jogo ainda acham maneiras de conseguir uma vantagem.

"Você não vê mais uma provocação no estilo Kevin Garnett ou Gary Payton", diz Damian Lillard, estrela do Portland Trail Blazers. "Não é mais uma agressão verbal como costumava ser".

Reggie Miller tinha "The Choke". Dikembe Mutombo tinha o dedo balançando. Lillard rotineiramente faz o "Dame Time" e bate no pulso, mas seu gesto mais memorável foi um tchauzinho.

E falou muito.

As coisas estavam tensas durante a série de primeiro round de 2019 entre os Trail Blazers e o Oklahoma City Thunder, com Lillard e Russell Westbrook sendo os atores principais.

"Acho que foi o máximo de provocação que eu participei na minha vida, tipo no jogo, quando você está só falando m** para o outro", diz Dame. "Todo mundo nos dois times. Os caras estavam sendo separados. Estavam falando um monte na entrevista pós jogo, esse tipo de coisa."

A série não durou muito - Lillard fez questão. Seu 50º ponto no Jogo 5 veio em uma bola no meio da quadra, na cara de Paul George, no último segundo, um dos arremessos mais icônicos dessa geração e que mandou o Thunder para as férias. E quando ele saia de quadra, deu um tchauzinho.

"Existem trash-talkers na liga", diz Dame. "Mas nessa era, são mais gestos do que falas".

Lilard cita como exemplos olhar para o banco após uma bola de 3, Westbrook "embalando o bebê" após fazer uma cesta no poste baixo e Draymond Green se exibindo após um and one.

Estes gestos normalmente são usados para provocar, como foi o caso em outra série de provocações entre Lillard e George. Dame, ao contrário do que lhe é comum, errou dois arremessos livres no final de uma derrota apertada para o Los Angeles Clippers na bolha de 2022, e Patrick Beverley respondeu batendo em seu pulso e, literalmente, rolando de rir na frente do banco de reservas.

Beverley fez sua melhor imitação do tchauzinho ao final do jogo, com George se juntando na diversão enquanto seguiam provocando após o fim da partida.

"Naquele ponto eu estava pensando 'vou me vingar'", comenta Lillard. Ele certamente tem os recibos.

"Digo, eu acertei um game winner nos playoffs de 2014 para mandar Beverley para casa, e depois fiz a mesma coisa com George. Talvez eles ainda estejam sentidos".

Para Trae Young, estrela do Atlanta Hawks, o seu "momento tchauzinho" veio durante os playoffs de 2021 na arena mais famosa do mundo.

Young é um showman natural, e o mundo do basquete viu isso na última pós temporada quando os Hawks venceram o New York Knicks na 1ª rodada. Como Miller na última geração, Trae triunfou na frente da torcida do Madison Square Garden, que costuma ser criativa e expressiva em suas provocações.

Young teve a última palavra - ou gesto - ao reverenciar a torcida após acertar uma bola de 3 que praticamente matou a série. Ao contrário do tchau de Lillard para Thunder, que ele diz que surgiu em sua mente na hora, Trae arquitetou o seu momento no MSG.

"Entrando no jogo, eu sabia que faria", diz o armador, sorrindo. "Se eu tivesse a oportunidade, ia tomar vantagem dela. Já sabia o que iria fazer".

"É diversão, é basquete, é entretenimento."


Butler chama de "zoar". A definição de Lillard é "se mostrar para seu oponente. Para o ala do Heat, P.J Tucker, não é trash talk, é apenas ser real.

Independente de como os jogadores da NBA queiram descrever, Draymond Green é o melhor da liga nisso. Ao menos, de acordo com Draymond Green.

O All-Star do Golden State Warriors certamente tem o dom da provocação. Seu momento mais famoso foi para cima de Paul Pierce, durante a tour de despedida na última temporada do membro do Hall da Fama. "Você não é Kobe (Bryant). Eles não te amam desse jeito", foi o que gritou Draymond para um Pierce no banco.

Green não para de falar, seja se comunicando com companheiros, reclamando com juízes ou provocando. Às vezes, Draymond mistura tudo, dizendo coisas para um juiz ou colega que são, na verdade, para um adversário ouvir.

E o ala se empolgou quando um ouvinte de seu podcast, o Draymond Green Show, perguntou recentemente quem era o melhor provocador da liga.

"Você tem a oportunidade de ouvir ao melhor provocador d aliga semanalmente", disse. "Eu não acho que tenha ninguém melhor que eu e confio nisso... garanto isso".

Além de si mesmo, Draymond também mencionou seu ex-companheiro de Warriors, Kevin Durant, elogiando a estrela do Brooklyn Nets por ter "provocações para todos os gostos".

Alguns dos momentos de Durant podem ser ouvidos durante jogos: "Ele está bêbado", depois de fazer um adversário cambelear com um drible. Alguns são durante as paradas, quando Kevin pergunta "quem é você?" e olha para o nome atrás da camisa enquanto caminha para o banco.

Draymond compara Durant com Larry Bird: provocadores que tem a vantagem de serem jogadores lendários.

"Kevin Durant começa a falar e você vai responder o que? 'Cara, você não consegue driblar... você não consegue arremessar'. Tipo, vai falar o que?", analisa Green.

"Se você não é rápido o suficiente para ter uma resposta inteligente, você não tem chance".

E então existem os momentos em que Durant fica com raiva - e as piadas inteligentes viram confronto. Como quando o clima esquentou entre ele e o então ala do Milwaukee Bucks P.J Tucker nas semifinais da Conferência Leste do ano passado, quando os dois se encararam.

"Ele reclamou que eu fiz falta nele", contou Tucker no começo da temporada atual. Os dois são amigos desde que Tucker jogou por Texas e Durant era um recruta dos Longhorns.

"Eu disse 'sim, eu fiz a falta. E daí? Quem se importa? Farei outra! E outra! Vou continuar fazendo falta em você!' Você pode ver no vídeo eu falando que não vou a lugar nenhum."

Durant teve outro momento de bastante popularidade em 30 de dezembro na derrota dos Nets para o Philadelphia 76ers de Joel Embiid. As duas estrelas receberam técnicas após gritarem um com o outro, e Embiid riu por último ao dar um tchauzinho para Durant após o fim do jogo, repetindo o gesto de Kevin para os 76ers em uma vitória duas semanas antes.

Durant riu quando foi perguntado após o jogo se Embiid, que é conhecido por se orgulhar de ser o "maior troll" da NBA, havia dito algo especialmente provocante.

"Claro que não, ele não falou nada demais. Estávamos empolgados apenas", disse Durant. "Ele não passou do limite. Nós nos respeitamos. Eu respeito todos os jogadores desse time e vice-versa. É a maneira como jogamos, apenas".


Motivos ocultos existem ao redor de todo o planeta de provocações da NBA. Os jogadores não estão só querendo cutucar os adversários, eles querem impactar nos números.

Ingles usa o trash talk como uma estratégia tática, esperando o momento mais oportuno para disparar suas habilidades em um jogador que se distrai fácil. Ele nota que tem a habilidade de provocar enquanto ainda foca em sua função ou no esquema, o que não é o caso de todos os jogadores.

"Acho que alguns jogadores você realmente consegue mexer com eles", diz. "Eles acabam ficando tão preocupados com quem estão trocando provocações que esquecem de ouvir o técnico que deveriam estar ouvindo".

"Eles vão quebrar o ataque para tentar me atacar ou atacar quem está os provocando ao invés de fazer a jogada certa. Muitos acabam envolvidos nessa batalha de 1 contra 1. Tipo, 'eu vou me isolar contra ele'. Bom, eu não vou. Eu não consigo."

Outros, como Trae, veem as provocações como uma maneira de se motivarem.

Young desenvolveu a língua afiada ainda quando criança quando jogava contra adultos na quadra perto de casa porque ele sentia que "não estavam me respeitando do jeito que deveriam me respeitar".

Sempre o menor em quadra, mas normalmente o mais habilidoso, Trae não se cansava de provocar os adversários.

"Se eu estava fazendo algo bom, queria mostrar para todos", comenta. "Eu acho que isso é um sinal de competitividade e de se divertir com o jogo".

Quando Young estava tendo problemas no início de sua temporada de calouro, ele percebeu que estava sendo muito respeitoso com seus adversários. Ele acredita que começar a falar melhorou seu jogo.

"Eu estava olhando todo mundo diferente, meio que sendo mais fã da NBA e dos caras que estava enfrentando", diz. "Acho que depois que eu deixei essa mentalidade de lado e comecei a ser quem eu sou, sendo competitivo e falando besteira, foi quando tudo começou a dar certo".

E, então, temos Westbrook, que vários jogadores dizem ser o trash-talker mais furioso da liga. Os motivos? Motivação pessoal, acreditam os jogadores.

Tucker, que admite que ocasionalmente provoca para tentar se motivar quando se sente letárgico, ri ao lembrar o quanto Westbrook entrava em sua cabeça antes dos dois virarem companheiros por uma temporada no Houston Rockets.

"Eu o vi quando jogamos juntos, ele falava m** para se motivar toda noite", comenta. "Não tem nada a ver com você. Você é só uma pessoa, você é só o cara. Não interessa quem você é e o que você fez. Você é o cara e ele vai falar m** para você. Esse é Russ."

Lillard, que teve uma boa quantidade de batalhas dentro de quadra com Westbrook, define diferente.

"Eu acho que Russ fala com ele mesmo".