Todo mundo gosta de uma história de azarão. Para muitos, é difícil imaginar Stephen Curry nessa posição, uma vez que o armador liderou um dos maiores times da história da NBA durante os últimos anos. Mas nem sempre foi assim, e em 2008, o 'brinquedinho assassino' fez história pela modesta Universidade de Davidson.
No March Madness, o insano torneio eliminatório do basquete universitário dos EUA, os azarões são chamados de 'Cinderellas' - já que sempre vemos uma ou mais histórias dignas de conto de fadas. A faculdade pequena eliminando a gigante, um ninguém fazendo 40 pontos e passando pelo time de um craque e por aí vai.
Em 2006, Stephen Curry saiu do Ensino Médio e foi para a nada renomada Universidade de Davidson, na Carolina do Norte. Sem nunca chamar atenção por seu porte físico, na época o garoto ainda não tinha nem 1,90 m e era muito magro. Mas seu arremesso longo sempre foi o diferencial, e em pouco tempo ele estaria pronto para mostrar do que era capaz.
Em sua segunda temporada, Davidson começou a jogar muito bem, mesmo tendo uma das tabelas mais difíceis do país, enfrentando times como Duke e North Carolina durante o ano. Depois de uma derrota para a gigante faculdade que começou a carreira de Michael Jordan, restavam 22 jogos até o anúncio dos times que iam ao March Madness, e Davidson venceu absolutamente todos, com Curry fazendo 26 pontos por partida.
Carisma nunca foi um problema para Steph, que pouco a pouco foi conquistando a simpatia de quem via seus jogos, mas na hora da loucura começar, muita gente ainda não o conhecia.
“Em 2008, pensando bem, o Facebook tinha acabado de começar. Não existia Twitter, não existia Instagram, não existia Snapchat. A mídia social não era grande coisa. Então, o fato de Steph ter tomado o país de assalto, por meio de artigos de jornal, pessoas enviando mensagens de texto, ligando e deixando mensagens de voz, enviando e-mails umas para as outras. Parece antigo, mas as pessoas começaram a ser notadas porque estávamos em toda parte. Estávamos na TV, estávamos no jornal. Eu só posso imaginar como seria se tivéssemos as redes sociais naquela época.”, conta Jason Richards, companheiro de time de Curry naquela campanha.
O histórico March Madness
Na primeira rodada do mata-mata, o adversário foi Gonzaga, 7º cabeça de chave do torneio. No segundo tempo do jogo, Davidson perdia por 10 pontos, mas Curry 'pegou fogo' no fim, fez 30 pontos na segunda metade da partida, fechou o jogo com 40 e comandou a virada, garantindo a classificação com um 82 a 76.
Na segunda, a história foi parecida. Georgetown, de Roy Hibbert, vencia o time de Curry por 46 a 29 no começo do segundo período, mas a segunda virada absurda veio em sequência. Curry fechou o jogo com 30, e a vitória veio por 74 a 70.
No 'Sweet 16', as oitavas de final do mata-mata, o rival foi Winsconsin, 3º cabeça de chave e melhor defesa do país, que permitia apenas 53 pontos por jogo. Após um primeiro tempo equilibrado, Davidson fez 37 a 20 depois do intervalo e venceu por 73 a 56, com 33 de Curry. Essa noite ficou marcada não só pela vaga histórica, mas também por uma presença ilustre na arquibancada: LeBron James. A relação entre os dois craques ganhava um capítulo importante. Nascidos no mesmo hospital, em Akron, Ohio, os dois viriam a rivalizar quatro finais da NBA em sequência anos depois.
“É muito legal dar a ele algo para ser feliz e torcer... Apenas entretê-lo”, disse Steph depois do jogo.
Toda história chega a um fim, e a de Davidson foi no 'Elite 8', as quartas de final. Por muito pouco, o time não chegou no Final Four, mas fez Kansas, time de Mario Chalmers que viria a ser campeão, suar muito para passar.
Curry acertou 9 de 25 arremessos tentados, marcando 25 pontos. Mas, perdendo o jogo por dois pontos e tendo a bola decisiva em mãos, o craque foi marcado por dois rivais e sequer teve como chutar, passando para Richards, que errou. Kansas venceu por 59 a 57 e logo alcançou o topo do país. Mas os EUA tinham um novo queridinho.
“Essa foi a festa de debutante de Steph Curry”, disse Jason Richards uma década depois. “Pessoas em todo o mundo do basquete sabiam o quão bom Steph era, mas isso o colocou no mapa, porque todo mundo assiste ao Torneio da NCAA. Nós nos tornamos os queridinhos daquele ano, com Steph sendo nosso cara, nosso líder. Ele conquistou a nação e fugiu com ela.”
Antes de 2008, Davidson não vencia um jogo de March Madness desde 1969, e quando chegaram às oitavas de final, a Universidade disponibilizou ônibus de graça para todos os estudantes irem até Detroit assistir o show de Curry. Segundo dados da época, 1.200 dos 1.700 alunos totais foram assistir a história ser escrita.
Para Davidson, esse foi o maior momento de sua história. Para Stephen Curry, apenas o primeiro.
