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Bolha da NBA permitirá que as histórias de veteranos recém-contratados sigam sendo escritas

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Fogo no parquinho: Joakim Noah, o homem que adora um barraco (0:15)

O jogador de 35 já protagonizou cena hilária da NBA (0:15)

Ainda que acompanhar jogos de basquete seja apaixonante, os fãs da NBA amam e sentem falta, sobretudo, das personalidades que nela atuam e que tornam a competição ainda mais empolgante.

Uma temporada interrompida por uma pandemia viral já é, por si só, uma daquelas que indiscutivelmente entrarão para a história. Não da mesma forma que falamos sobre datas-chave para a National Basketball Association, a exemplo de 1999 e 2011, quando o campeonato foi mais curto em razão do locaute na liga, nem mesmo quando nos lembramos das aposentadorias de Michael Jordan, do anúncio de Magic Johnson sobre ter contraído HIV ou do draft de LeBron James. A dimensão do que está acontecendo atualmente transcende o esporte. E é por isso que o asterisco no torneio de 2019-2020 está sendo rabiscado de forma gigantesca com uma daquelas canetas permanentes.

O jogo propriamente dito deixou de ser protagonista para dar lugar a preocupações com saúde, dúvidas sobre como a quarentena está impactando mentalmente os personagens mais expressivos da liga, sobre se é mesmo possível criar um ambiente livre do coronavírus, e ainda sobre o impacto do ativismo social por parte dos atletas. Como se vê, são histórias multiplicadas em várias outras, quase como a famosa matrioska russa, na qual uma boneca de madeira revela ter muitas mais lá dentro, e por aí vai.

Essa combinação de fatores abriu espaço para novas narrativas de velhos conhecidos.

Com a possibilidade de repor baixas nos elencos com contratações de agentes livres, o experimento do Portland Trail Blazers, de trazer Carmelo Anthony de volta para a NBA depois de um ano parado, será colocado em prática por mais times. No caso de Portland, a tentativa valeu a pena para os dois lados. A franquia estava sofrendo com desfalques por lesões, enquanto Carmelo precisava de uma chance para provar por que ainda merecia espaço na NBA.

Personagens carismáticos estão prontos para voltar às quadras. Listamos alguns deles:

UMA POSSE ETERNIZADA

JR Smith. Eu desafio qualquer fã de basquete a eleger a primeira coisa que vem à mente ao ler esse nome e não citar as finais de 2018.

O momento em que o então jogador do Cleveland Cavaliers consegue um rebote ofensivo nos segundos finais do primeiro jogo da série contra o Golden State Warriors, se confunde com o placar e corre para o lado contrário em vez de tentar fazer a cesta da vitória (para o desespero de um inconformado LeBron James) é uma pérola do basquete.

Mas para o Los Angeles Lakers – e aqui leia-se LeBron James – J.R Smith é mais do que um meme eternizado. Claro, teve aquela vez em que ele desamarrou o tênis do adversário Shawn Marion quando os Knicks enfrentaram os Mavericks; a briga no Madison Square Garden enquanto atuava pelo Denver Nuggets; a suspensão por uso de maconha e até mesmo a agressão, já na pandemia, ao homem que quebrou seu carro durante a onda de protestos antirracismo nos Estados Unidos.

Mas os Lakers, fortes candidatos ao título deste ano, têm um plano para o veterano. Com a saída do armador Avery Bradley, o elenco precisava de um reforço. Smith estava sem time desde novembro de 2018, quando saiu do Cleveland Cavaliers. Longe das quadras, admitiu ter sofrido de depressão, sem nem conseguir jogar NBA 2K. E, agora, tem uma nova chance de ajudar LeBron, o parceiro e amigo, a conquistar mais um anel – como fez em 2016 mas falhou duas vezes na sequência.

Apesar dos roxos e amarelos contarem com duas superestrelas, no rei e em Anthony Davis, nem sempre os demais companheiros têm a constância necessária em um coletivo forte, como, por exemplo, o Milwaukee Bucks ou o Toronto Raptors.

É aí que o experiente atleta de 34 anos pode entrar na equação: como um bom jogador complementar, capaz de arremessar, defender, espaçar a quadra e até mesmo criar suas próprias jogadas quando necessário. Ele é o 13º jogador na história da NBA com mais bolas de 3 pontos convertidas e detentor do prêmio de melhor sexto homem da liga em 2013. Levando em consideração que James é líder de assistências nesta temporada, será bom passar a bola para alguém em quem confia há tempos.

Ao longo de seus 16 anos de carreira, J.R Smith já estragou as coisas várias vezes, nas palavras dele mesmo. E é justamente por isso que acompanhá-lo, brigando por minutos em quadra e por uma nova chance de se provar, será tão interessante.

RAÇA E TRASH TALK NO GARRAFÃO

Falar sobre Joakim Noah desperta memórias afetivas nos torcedores do Chicago Bulls, como esta que vos escreve. Ao longo dos últimos anos em que a franquia se manteve competitiva, chegando até as finais da Conferência Leste em 2011, o pivô foi peça crucial no time, eliminado à época pelo Miami Heat de LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh.

Ele é conhecido como um dos jogadores mais infames e populares da história da equipe. Ou, talvez, você se lembre dele simplesmente por ter um dos arremessos mais esquisitos do basquete.

A questão sobre o francês é a seguinte. Ele deixa absolutamente tudo em quadra, lutando por cada rebote, incomodando no garrafão, vibrando com cada roubo de bola, sendo a personificação do DNA defensivo do esquema montado pelo técnico Tom Thibodeau. Havia ainda as noites de altos e baixos nas quais, se o pivô colapsava, o Bulls ruía junto. Acompanhar as corridas de playoffs de Chicago era sempre emocionante, muito por causa das performances de Noah.

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Fogo no parquinho: Joakim Noah, o homem que adora um barraco

O jogador de 35 já protagonizou cena hilária da NBA

Ele acumula duas seleções para o All-Star Game, o prêmio de melhor jogador defensivo da liga em 2014, um título da NCAA pela Universidade de Flórida, mas nada se compara às muitas, muitas, muitas provocações aos rivais. Desde que seu tempo em Chicago terminou em 2016, jogou pelo New York Knicks e pelo Memphis Grizzlies, onde se lesionou e acabou ficando longe do basquete por mais de um ano.

O Los Angeles Clippers assinou um contrato de dez dias com o atleta de 2,11m na semana em que a pandemia paralisou a NBA. Com a bolha na Disney, a franquia decidiu mantê-lo pelo restante da temporada.

A batalha de Los Angeles é o confronto mais aguardado de todos neste ano. Com Anthony Davis, os Lakers têm o segundo melhor número de pontos no garrafão e são o oitavo em defender a área restrita. Pensando justamente nisso, os Clippers trouxeram Marcus Morris durante a janela de trocas de fevereiro para parear com Ivica Zubac e Montrezl Harrell. Agora adicionaram Noah, um notório defensor do garrafão, para reforçar a rotação.

E, para apimentar as coisas, vale lembrar: Joakim Noah tem uma rivalidade antiga com LeBron James, marcada por jogos acirrados e trash talk. Durante o hiato do coronavírus, veio a público que Noah tentou ligar para James e recrutá-lo ao Chicago Bulls na época da famosa decisão de deixar o Cleveland Cavaliers. Mas o astro sequer chegou a retornar a chamada e assinou com o Miami Heat na sequência.

O pivô pode não ser o jogador mais talentoso em quadra, mas definitivamente funciona como um motor das equipes onde joga.

REPRESENTATIVIDADE AFRICANA

O Houston Rockets oficializou a contratação de um velho conhecido, Luc Mbah a Moute. O camaronês chega para substituir Thabo Sefolosha, que preferiu não jogar na bolha montada na Disney.

Moute desempenhou um papel fundamental no Rockets de 2018, que ficou a uma vitória de distância (contra o Golden State Warrios) da vaga na grande final, porém acabou prejudicado por lesões. O desempenho sólido nos arremessos de 3 pontos e a capacidade de ser um marcador decente podem ajudar o small-ball da equipe liderada por James Harden e Russell Westbrook, com quem o africano jogou na universidade (UCLA). Se saudável, Moute consegue se adaptar à filosofia da franquia texana de priorizar a marcação do perímetro em vez do garrafão.

Embora esta contratação não seja tão impactante em termos atléticos, é interessante destacar o papel do estrangeiro para a NBA que conhecemos hoje no quesito representatividade. Se não fosse por ele, nem conheceríamos os All-Stars compatriotas Joel Embiid, do Philadelphia 76ers, e Pascal Siakam, atual campeão pelo Toronto Raptors.

Moute, um príncipe do vilarejo onde morava em Camarões, descobriu sem querer o basquete. Ainda adolescente, sua paixão era mesmo o futebol. Até o dia em que viu uma quadra na capital Yaoundé, arremessou com as mãos a bola que costumava chutar e, desde então, não parou mais. Em 2003, encontrou no programa de desenvolvimento “Basquete Sem Fronteiras” (programa de desenvolvimento global da NBA e da FIBA) uma porta de entrada para a NBA, destacando-se e indo jogar o torneio universitário por UCLA. Depois disso, tornou-se o segundo jogador na história do país a atuar na liga.

O atleta compreendeu a importância de ajudar a criar oportunidades a outros que, assim como ele, vieram de lugares com pouca infraestrutura e incentivo ao basquete. Daí surgiu a ideia de criar um camp de treinamento para ajudar jovens interessados no esporte.

Embiid participou do programa em 2011. Seu tio acreditava que pelo físico e altura o adolescente poderia se destacar se deixasse e vôlei para trás. Antes disso o contato com o basquete havia sido mínimo, por meros três meses, na quadra de cimento detonada do bairro onde morava em Yaoundé. Ele se destacou e foi selecionado para o Basquete Sem Fronteiras, seguindo o mesmo caminho de Luc Mbah a Moute.

Na edição seguinte, foi a vez de Siakam treinar, aos 17 anos, no acampamento idealizado por Moute. Antes, o atleta dos Raptors sonhava em ser jogador de futebol e passou boa parte de sua juventude estudando em seminários para se tornar padre. Foi durante o recesso escolar que o adolescente decidiu, despretensiosamente, ir com alguns amigos de infância até o camp. Por ser atlético e competitivo, assim como Embiid, Siakam chamou a atenção e acabou sendo escolhido para o programa internacional de desenvolvimento.

É por isso que o retorno de Luc Mbah a Moute ao basquete é tão simbólico para muitos jovens de países emergentes que sonham em se tornar profissionais.

Curiosamente, o esporte em Camarões também tem relação com a família de Joakim Noah. O avô dele, o ex-jogador de futebol Zacharie Noah, era um ídolo e incentivou durante grande parte da vida o desenvolvimento das ligas esportivas no país onde nasceu.

Independentemente do resultado, em poucos dias a NBA estará de volta na bolha da Disney. E, com ela, as histórias fascinantes de seus personagens poderão continuar a ser escritas.