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Zion Williamson e os Pelicans podem chegar aos playoffs. E a NBA adoraria isso!

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Zion conta como o rapper Drake o transformou em fenômeno midiático ainda nos tempos de escola (2:15)

Calouro contou como soube que Drake estava usando seu uniforme ainda no ensino médio (2:15)

“Força invencível a que se atribuem o rumo e os diversos acontecimentos da vida”. Esta é uma das muitas definições da palavra “sorte” encontradas no dicionário.

Na Louisiana, casa do New Orleans Pelicans, há uma famosa celebração de Mardi Gras, comumente conhecida como o carnaval norte-americano. Diz a lenda que pegar miçangas coloridas lançadas pelos carros alegóricos dá sorte. Roxas trazem justiça, verdes são para a fé e as douradas estão ligadas ao poder.

Um pouco desse misticismo acompanha os Pelicans na retomada da NBA em Orlando. Ou, talvez, sejam só estatísticas e o cruzamento de dados mesmo. O fato é que a equipe tem o calendário de jogos mais fácil dentre todos os 22 times convidados para a bolha na Disney, com chances reais de avançar para os playoffs.

Dos oito jogos da temporada regular restantes, seis são contra times com campanha abaixo dos 50% de aproveitamento: Orlando Magic, Washington Wizards, San Antonio Spurs; duas partidas contra o Sacramento Kings e uma contra o Memphis Grizzlies, oponente direto pela oitava e última vaga da Conferência Leste. Os outros dois jogos serão contra o Utah Jazz e o Los Angeles Clippers.

Essa onda recente de boa sorte do Pelicans, na verdade, tem uma razão com nome e sobrenome.

Zion Williamson. O calouro de 19 anos representa uma vitória não só para os torcedores do time, mas para a National Basketball Association, como explicaremos em breve.

AQUELES 6%

Em outra situação proporcionada pelo acaso, a franquia de New Orleans teve a felicidade de conseguir a primeira posição na loteria do draft do ano passado – mesmo quando a chance de isso acontecer era de apenas 6%.

Com isso, eles puderam fazer uma limonada com os limões que lhes haviam sido dados. Traduzindo: ao perder Anthony Davis para o Los Angeles Lakers, possivelmente o melhor jogador que a franquia já teve, a primeira escolha no draft simbolizou a oportunidade de construir um futuro promissor com um novo ídolo.

Vale lembrar que Zion é simplesmente o novato mais falado desde LeBron James no longínquo ano de 2003. A expectativa sobre ele era tanta que incontáveis celebridades e até o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama foram até a Carolina do Norte para assistir a um jogo de basquete universitário (sim, aquele com o tênis rasgado e ingressos a U$ 3 mil dólares).

Aos cinco anos de idade, Zion já sabia que seria uma estrela. Audacioso, no jardim de infância disse à mãe que se tornaria o melhor jogador do país. O hype é justificado.

O porte físico impressiona. Oficialmente o rookie tem 2,01m distribuídos em 130 kg. Ele é o quinto jogador mais pesado da liga, atrás apenas de gigantes como Boban Marjanovic (Dallas Mavericks) e Tacko Fall (Boston Celtics) que beiram os 2,30m. Para se ter uma noção, LeBron tem cinco centímetros a mais do que o jovem, e 16 kg a menos. E, mesmo com essas medidas corporais, sua impulsão é de mais de um metro de altura, possibilitando enterradas inacreditáveis.

Isso vem com vantagens e desvantagens. Desde os tempos de escola, Zion sofre com lesões no joelho. A mais recente delas, durante a liga de verão da NBA, o fez perder 44 jogos – mais da metade de sua rookie season. O atleta rompeu o menisco e precisou passar por cirurgia.

VOLTA POR CIMA

Antes dos rompantes da tão falada sorte, New Orleans se acostumou com desventuras em série:

Se migrarmos do basquete para o futebol americano, o “irmão” New Orleans Saints, por si só, já tem sua cota de superstição envolvida. Conta-se que o Superdome está parcialmente construído sobre um antigo cemitério. E a isso foi atribuída a seca de 34 anos do time sem vencer um jogo de playoffs sequer – até o dia em que uma sacerdotisa realizou uma cerimônia de vodu para livrar o estádio dos espíritos malignos, em 2000.

Cinco anos depois, a Louisiana e outros estados no litoral sul dos Estados Unidos foram devastados pelo furacão Katrina, em um dos maiores desastres naturais do país. A capital do jazz foi a mais afetada. O então New Orleans Hornets acabou forçado a se acomodar em Oklahoma por dois anos, logo depois de draftar Chris Paul.

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O ceticismo quanto à capacidade da franquia de se reerguer depois da catástrofe reinou. Em um artigo publicado no prestigiado Chicago Tribune, lia-se: “O consenso geral é que a tentativa de retorno fracassará. Parece inevitável, e provavelmente quanto antes melhor para o destino do Hornets”. A previsão estava errada. Na primeira temporada de volta à Louisiana, o time teve a melhor atuação de sua história, com 56 vitórias e recorde de público, em um episódio de sucesso sem precedentes.

Em 2012 o empresário Tom Benson comprou o Hornets e resolveu mudar o nome para Pelicans. Hornet quer dizer “vespa” em inglês, em uma referência à casa original da equipe até 2002, Charlotte, conhecida como “ninho das vespas”. Enquanto pelican significa “pelicano”, animal símbolo da região.

As lesões também brecaram as aspirações da franquia de basquete da cidade: somente na temporada 2015/2016 os jogadores do time perderam, somados, o equivalente a 351 jogos. Onze atletas ficaram no banco por conta de lesões em mais de dez jogos e seis acabaram escanteados por vinte partidas ou mais - o segundo maior total de uma equipe em uma única temporada na última década.

Em abril do ano passado, os Pelicans contrataram David Griffin (ex-Cleveland Cavaliers) como vice-presidente executivo de operações. Meses depois, a franquia mergulharia com tudo em uma reconstrução ao redor de Zion Williamson.

Jovens promissores vieram dos Lakers na troca por Anthony Davis: Josh Hart, Lonzo Ball e o candidato a MIP (jogador que mais evoluiu) Brandon Ingram. Para se juntar ao veterano Jrue Holiday, o especialista em bolas de três pontos, JJ Redick, foi somado à equação, assim como o multicampeão europeu, o italiano Nicolo Melli.

A expectativa era que a franquia fosse competitiva já agora, no presente. Mas, na prática, os Pelicans se mostraram inconsistentes, cometeram muitos erros por inexperiência (segundo com mais turnovers na liga) e no início do torneio detiveram a tenebrosa sequência de 13 derrotas consecutivas.

Não à toa, eles estavam desacreditados como candidatos aos playoffs.

Isso, até a noite do dia 22 de janeiro, quando Zion finalmente estreou na NBA.

De lá para cá o time venceu 55% dos jogos disputados, melhorou números em todos os quesitos estatísticos e conseguiu encurtar muito a distância do Memphis Grizzlies, oitavo colocado da Conferência Oeste.

BOM PARA OS NEGÓCIOS

Misture ovos, farinha, leite e açúcar, e voilà! Se existisse uma receita simples para o sucesso da NBA como existem receitas de bolo, seria mais ou menos assim.

Combine uma superestrela em ascensão com os principais jogadores da liga, crie um torneio mirabolante e proporcione confrontos épicos em quadra. É essa a mentalidade da liga com a possibilidade de ter Zion nos playoffs.

Quase 2 milhões e meio de pessoas assistiram ao jogo de estreia dele contra o San Antonio Spurs somente nos Estados Unidos. Nove das 19 partidas de Williamson foram televisionadas e registraram 30% a mais de audiência do que a média da temporada.

Vale lembrar que essa popularidade se converte em lucro, em um momento em que a National Basketball Association precisa capitalizar como puder para compensar os U$ 300 milhões perdidos com o cancelamento de 2/3 dos jogos restantes na fase regular.

A primeira rodada dos playoffs não costuma proporcionar grandes surpresas. Mas a cereja do bolo seria o confronto inicial de Zion e LeBron James, caso os Pelicans conquistem a última vaga no Oeste e peguem o primeiríssimo Los Angeles Lakers. Embora uma reviravolta no resultado seja improvável, o entretenimento agradece. A NBA agradece.

Alguns atletas tiveram a permissão para continuar usando os complexos das franquias durante o hiato imposto pela pandemia e tratar lesões sob a supervisão de profissionais. Em mais uma boa notícia para os Pelicans, o novato foi um deles, treinando na Ochsner Sports Performance Center nos últimos meses. Ainda não se sabe, entretanto, se o técnico Alvin Gentry (65) poderá estar em quadra, por integrar o grupo de risco do coronavírus.

O New Orleans estará certamente motivado e preparado para perseguir uma vaga na pós-temporada. A depender do calendário de jogos restantes, o caminho está livre. Resta saber se Zion e os Pelicans terão habilidade suficiente para usar a tal sorte, uma vez mais, a seu favor.