<
>

Brasileiro levou 'puxão de orelha' de Kobe nos Lakers e exalta 'Mamba Mentality' do astro: 'Foi quem mais se aproximou de Jordan'

play
Kobe Bryant era igual a Michael Jordan? Magic Johnson expõe pontos da semelhança entre astros dos Lakers e Bulls (2:19)

Ex-jogador foi entrevistado no First Take, programa da ESPN norte-americana (2:19)

Poucos brasileiros conheceram Kobe Bryant tão de perto no dia a dia na NBA. O ex-ala Jefferson Sobral foi um deles.

Sobral foi membro do elenco do Los Angeles Lakers na pré-temporada de 2002, logo após o tricampeonato de Kobe e Shaquille O'Neal, sendo dispensado pelo time antes do início da fase regular. Mas aqueles dias renderam memórias eternas ao brasileiro natural de Santo André.

Hoje técnico de basquete da faculdade de Medicina da Uninove de Mauá, em São Paulo, pastor e líder de um projeto social com crianças no esporte no ABC paulista, Sobral relembrou seus tempos de Lakers e falou sobre características que fizeram de Bryant um atleta tão único.

"É o cara mais parecido com o Michael Jordan que eu já vi, era completo", disse Sobral, de 40 anos, ao ESPN.com.br.

"O primeiro jogo de pré-temporada é para valer, com ginásio lotado e ninguém quer perder. Quando estava no banco, o Phil Jackson falou: 'Você vai entrar'. Eu perguntei: 'No lugar de quem?'. Ele respondeu: 'Kobe'. Quase que falei que não ia entrar por que não tem como substituir o Kobe (risos). Eu ia entrar no lugar do astro! Foi uma pressão enorme, um sonho realizado", relembrou o brasileiro.

Sobral destacou também o trabalho de Phil Jackson, técnico com mais títulos na história da NBA (11 no total, 6 com o Chicago Bulls e 5 com os Lakers).

"O Phil Jackson fazia você se sentir parte da equipe mesmo. Eu não tinha contrato garantido ou era o mais talentoso, mas não me sentia excluído."

Assim como Michael Jordan, Kobe se notabilizou ao longo da carreira por cobrar excelência dos que jogavam ao seu lado e ser ultracompetitivo, algo que gera debate e muitos podem entender como arrogância.

Mas, para Sobral, Kobe não tinha nada de arrogante.

"Claro que o Kobe tinha mais privilégios, mas, na hora do jogo, você se sentia capaz de fazer parte da equipe e merecer estar ali. O pessoal confunde isso com ser arrogante ou mala. Não é isso. A Mamba Mentality o obrigava a fazer os outros jogadores a crescer. Ele, sozinho, não conseguia vencer os campeonatos e queria fazer os outros jogadores chegarem ao nível dele ao máximo, fazer os outros colegas evoluírem também. Por isso essa briga constante", explicou.

"Se ele era capaz de chegar 3h mais cedo, treinar com intensidade e ainda ficar depois dos treinos, ele não aceitava que os outros companheiros que tinham menos condições físicas e técnicas fizessem menos do que ele. Ele puxava mesmo, era um líder nato. Foi o cara que mais se aproximou do Jordan mesmo. O Kobe queria o quarto titulo seguido e sabia que precisava puxar forte desde o começo para manter o nível. Ele chegava muito cedo, fazia as cobranças com cada jogador e dava auxilio. Era bem acessível, não era um cara que se isolava. Ao contrário", completou.

Sobral destacou seu empenho entre testes e treinos entre os times da NBA por qual passou (Milwaukee Bucks, Seattle Supersonics, Cleveland Cavaliers e Denver Nuggets, além dos Lakers). E o brasileiro revelou que até levava algumas broncas de Kobe.

"No começo, eu tinha dificuldades para entender o triângulo do Phil Jackson na hora de atacar. Eu não falava inglês tão bem e me comunicava pouco, além disso, eu só escutava por que não tinha o que falar no meio deles (risos). Eles já executavam isso com perfeição, e vira e mexe eu ficava fora de posição. Eu errava o timing das coisas, muitas vezes eu corria na hora errada ou ia para o lugar errado. Devido aos erros técnicos, eu tomava bastante puxão de orelhas do Kobe", relembrou.

"Ele orientava por que era uma extensão do Phil Jackson na quadra. Depois que o técnico orientava, na hora de executar no meio de um jogo, eu ia para o lugar errado. Ele falava vai para lá, dava broncas, não tinha como. Era o momento certo."

O brasileiro também recordou alguns momentos que mostravam a genialidade do ex-camisa 8 - e 24 - dos Lakers, mesmo nos treinos.

"No primeiro treino eu estava com o coração na boca. O que vou fazer no meio desses caras? Aí, eles se alinharam no fundo e pensei que o primeiro exercício seria mirabolante. E fizeram um de coordenação. Depois, foram para o 1 contra 1. O Devean George foi jogar contra o Kobe. Ele era muito forte, atlético e um pouco mais alto do que o Kobe. Aí, eles foram do fundo da quadra até o outro lado. O Devean fez uma marcação sensacional. Eu pensei: 'Se o cara que marca o Kobe é assim, eu não vou conseguir fazer nada'. Ai eles chegaram perto da cabeça do garrafão, na linha do lance livre, e o Devean parou. O Kobe ficou sem ação. Eu pensei: 'Que defesa!'. Nisso, o Kobe, não sei como, jogou a bola na tabela, pegou o rebote no ar e enterrou! Nem uma defesa dessa conseguiu parar o cara!".

Sobral revelou até que chegou a ir no 'mano a mano' contra Bryant nos treinos.

"Em um treino, eu achava que estava marcando o Kobe muito bem. Eu fechei o fundo, mas ele mudou de direção, passou a bola por trás das costas e deu uma enterrada de costas na minha cabeça. Ele era fantástico! Não tinha um quesito que ele não queria ser bom", disse.

"Eu tive duas conversas legais com ele. Em um treino ele estava sentado atrás da tabela e falei que gostaria de um dia jogar 1 contra 1 contra ele uma vez. Ele balançou a cabeça positivamente", contou o brasileiro.

O duelo aconteceu no dia mais triste da passagem do ex-jogador pelos Lakers.

"Quando fui dispensado, ele estava batendo bola na quadra sozinho e eu estava recolhendo as coisas no vestiário. Fui me despedir e disse que estava indo embora, mas que antes gostaria de fazer uma partida contra ele. Ele falou: 'Vamos'. Claro que eu perdi, mas consegui fazer duas cestas, tomei uma enterrada na cabeça e consegui dar um toco nele (risos). Assim que terminou, ele me desejou sorte e falou para eu seguir firme no meu propósito que eu era jogador de NBA e iria conseguir. Recebi esse incentivo de despedida."