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Chicago Bulls campeão em 1998: as seis palavras que Pippen disse a Malone que mudaram o rumo do campeonato

MICHAEL JORDAN ERROU. Com 35,8 segundos restantes no Jogo 1 das Finais da NBA de 1997 entre o Chicago Bulls e o Utah Jazz o maior jogador da história da NBA na verdade errou aquele que deveria ter sido o lance livre vencedor. E agora, por aproximadamente 26 segundos, o mundo do basquete está em caos: Jordan falhou e quem votou em Karl Malone em vez dele para o prêmio de MVP da liga (986-957) parece ter razão. Enquanto isso, o Utah Jazz está pronto para roubar o Jogo 1, assim como a vantagem de jogar em casa. O quinto título dos Bulls – e o segundo three-peat – está em apuros.

E então, Scottie Pippen vai ao resgate. Um futuro membro do Hall da Fama, neste momento Pippen continua sendo introvertido, o cara saiu da nesse exato tipo de momento nos playoffs de 1990 e 1994. Mas com 9,2 segundos restantes e Malone na linha de lance livre com a chance de selar a vitória, Pippen oferece a maior provocação da história do esporte.

É uma fala carregada de contexto cultural, estatístico e histórico. Uma fala tão inteligente que resgata um legado, reescreve outro e destrói um terceiro. Uma fala que torna possível o sucesso dos Bulls em 1997-98, tal como "The Last Dance", o documentário sobre a última temporada dos Bulls.

Seis palavras mágicas, tão importantes e controversas que inspiraram sua própria história.

"Deve ser Karl Malone aqui. É a hora do MVP", diz o analista da NBC, Bill Walton, após a falta de Jordan, enquanto o Jazz entra na quadra com o placar empatado em 82-82. Mas com o cronômetro marcando apenas dois segundos restantes na posse do Jazz e com a defesa do Bulls se mantendo forte, John Stockton força uma bola de três que não chega nem perto de entrar. (Steve Kerr, armador dos Bulls, disse que o aro estava solto devido ao excesso de enterradas do mascote de Chicago, Benny the Bull.) Enquanto Malone se apressa para pegar o rebote, Dennis Rodman comete falta.

Nos primeiros 47 minutos e 50,8 segundos das Finais, Malone jogou muito bem: 23 pontos, 15 rebotes, 3-de-4 da linha de lance livre. E com 9,2 segundos restantes, o recém-coroado MVP da NBA caminha para a linha com a chance de reescrever a história do esporte.

Brad Rock, colunista do Deseret News, 1994-2019: Eu costumava dizer que 19.911 pessoas não podiam fazer mais barulho do que os torcedores do Jazz, e era assim também em Chicago. Quando Karl caminhou até a linha, a arena ficou ensurdecedora. Meus ouvidos doeram por dias.

Dave Allred, vice-presidente de relações públicas e comunicações do Utah Jazz, 1981-2003: Entramos nesta série com a seguinte expectativa: "Espero que possamos ser competitivos. Espero poder levá-los a sete jogos". E então você chega lá e entra nesse ambiente, a intensidade é tão grande e você realmente tem a oportunidade de ganhar o jogo. Quero dizer, havia um verdadeiro senso de esperança. Estamos sentados, pensando: "Ok, quando vencermos, a NBC vai querer esse cara logo após o jogo e então temos que chamar o treinador [Jerry] Sloan e correr de volta para o vestiário". Já estávamos no modo de trabalho pós-vitória.

Jason Caffey, jogador dos Bulls: Quando Karl se aproxima da linha, era como a música “All Eyez on Me” de Tupac: o mundo inteiro está olhando para você neste momento. Você está sozinho em uma ilha.

Rock: Era o jogo do Karl. Um lance livre feito e a história da NBA seria muito diferente.

Com os torcedores dos Bulls atrás da cesta agitando balões brancos, Malone começa seu ritual pré-lance livre. É uma sequência elaborada que começa com batidas de bola, giros no ar bem na frente de seu rosto, alguns agachamentos e um leve sussurro - "Isso é pela Kay e o bebê". Depois de ter dificuldades na linha de lance livre no início de sua carreira na NBA, Malone desenvolveu o ritual com a ajuda de um consultor psicológico.

Jogando no estilo físico de meia quadra do Jazz de muitos corta-luzes e incansáveis pick-and-rolls, Malone confiou muito na sua técnica de lance livre. Após os jogos, sua parte superior do corpo costumava estar marcada com arranhões profundos. (Mas ele sabia se cuidar... nocauteando David Robinson e abrindo a sobrancelha de Isiah Thomas.) Malone liderou a NBA em lances livres feitos oito vezes e, em 1996-97, liderou a NBA em lances livres feitos (521) e lances livres tentados (690).

Mas o seu lance livre nem sempre foi uma força.

Frank Layden, treinador, GM e presidente do Jazz, 1979-99: no ano de estreia de Karl, ele era tão ruim que faziam falta de propósito. Era como Hack-a-Shaq. Eu disse: "Olha, você pode ser apenas mais um cara nessa liga. Você é um cara grande e durão que pode bater de frente com todo mundo. Mas se você quer ser bom mesmo, você precisa trabalhar nos seus arremessos." E ele se tornou um excelente arremessador de lances livres através de muito trabalho duro.

Sam Smith, Chicago Tribune, autor do best-seller "The Jordan Rules": ele era mais parecido com Shaq nesse sentido: nos treinos, ele acertava 80%. Na hora do jogo, com todo mundo olhando para ele, ele ficava muito tenso. Ele conseguiu ser um grande arremessador de lances livres treinando bastante, mas se houvesse uma oportunidade para colocar isso em cheque, era essa.

Karen McDermott, autora do estudo "Os efeitos dos insultos verbais na motivação e no desempenho em um ambiente competitivo": As melhores frases de trash talk são muito brutais, muito descaradas ou muito inteligentes. Você tem essa imagem ideal de si mesmo e, quando isso é prejudicado pela fala de alguém, você começa a questionar a si mesmo e qual é a sua identidade, provocando uma reação muito forte de raiva e vergonha. Se você é suscetível a esse tipo de coisa, agora está no fundo da sua mente. E, sim, a pressão realmente começa a atrapalhar.

Greg Ostertag, pivô do Jazz: Você sabe o que ninguém fala? Karl ainda tinha uma grande queimadura na mão dominante desde as finais da conferência contra Houston, e toda vez que ia à linha em Chicago, ele olhava para ela.

Mike Shimensky, treinador do Jazz, em 1997: Estava tudo bem até ele tentar uma enterrada [no terceiro quarto do jogo 1]. Ele piorou o problema.

Smith: Ninguém em um time de Jerry Sloan gostaria de ouvir isso, sobre uma lesão como desculpa. As últimas pessoas que se desculpariam com uma lesão eram Jerry e Karl.

Layden: Nós estávamos jogando um amistoso no México uma vez e Karl teve o seu dedo dobrado até o punho. Quero dizer, foi horrível. Ele foi para o vestiário, e estávamos conversando com o médico sobre levá-lo para casa naquela noite, se precisaria de cirurgia, e enquanto conversamos, ouvimos Karl dizer "AHHHHH". Ele puxou o dedo de volta para o seu lugar e disse ao treinador: “Coloque alguma fita aqui”. Estou falando de um amistoso.

Caffey: Karl foi outro nível forte. Uma certa vez em Miami, eu estava na Gold's Gym e eles disseram: "Você acabou de perder o Jazz". É claro que perguntei: "O que Karl estava fazendo?" Eles disseram que ele pegou cerca de 180kg e estava treinando com facilidade.

Malone em 1997: Quando coloco o uniforme, estou pronto para jogar e não tenho desculpas. Você joga com muitas coisas. Além disso, são as Finais da NBA – o que eu deveria fazer?

A mão de Malone foi apenas uma das várias tramas das Finais da NBA de 1997 que colidiram naquele momento dentro do United Center. De pé ao lado, logo acima do ombro direito de Malone, estava Jordan. Do lado de seu nome transcendente, a maioria dos Bulls já era de jogadores conhecidos. Até esse momento, Pippen, e não Malone, era o jogador famoso por não consegui entregar em duas situações cruciais no fim das partidas de playoffs. Em 1990, Pippen fez 1-de-10 em uma derrota no jogo 7 para o Detroit Pistons enquanto lutava com uma enxaqueca e, em 1994, ganhou o apelido de "Sitting Bull" quando se recusou a entrar no jogo pelos 1,8 segundos finais de uma partida contra o New York Knicks apenas porque a jogada final fora desenhada para Toni Kukoc e não para ele.

Enquanto isso, em 1997, jogando em sua primeira final, Utah era visto como um time de mercado pequeno. O Jazz liderou a NBA naquela temporada em lances livres feitos (1.858) e lances livres permitidos (1.796). Criado na zona rural da Louisiana, ele adorava caçar, pescar, dirigir caminhões e, de acordo com Rock, reclamar dos impostos durante o mandato de Bill Clinton. Malone pode ter trabalhado duro para promover uma imagem de colarinho azul, mas os estereótipos rapidamente saíram do controle. Jim Rome chegou ao ponto de chamar Malone "o único caipira afro-americano do mundo". E os Bulls levaram isso para outro nível. O técnico Phil Jackson se referiu a Stockton e Malone como jogadores sujos e classificou o mormonismo, comum de Salt Lake City, como um "culto". Bison Dele disse que Salt Lake City cheirava a camarão. Dennis Rodman explicou sua noite ruim da seguinte maneira: "É difícil entrar em sincronia por causa de todos os malditos mórmons por aqui".

Os contrastes se estenderam para a quadra e até para o hotel da equipe.

Ostertag: As pessoas odiavam jogar contra nós porque estávamos prontos para bater em você. Muito do crédito vai para Jerry Sloan. Era assim que ele jogava e era assim que ele treinava. Jerry era o tipo de jogador que entrava lá, sangrava o nariz, saía, limpava tudo e voltava de novo. Foi assim que ele construiu a mentalidade de seus times.

Rock: As equipes de Jerry Sloan não eram muito amigáveis. Mas acho que os adversários não gostavam de Malone por causa dos cotovelos, não porque ele era um cara do campo.

Smith: Não era como se Karl fosse um alvo qualquer. Scottie era do interior do Arkansas; ambos eram garotos do Sul com o mesmo tipo de formação, pequenas faculdades, caça e pesca. E é provavelmente por isso que ele fez isso. Na verdade, ele se sentia mais à vontade e tinha mais similaridades com Malone do que com outros jogadores. Talvez Scottie tenha achado que ele poderia se divertir um pouco com Karl, coisas que ele talvez não pudesse fazer com os outros.

Rock: O Jazz tinha John Stockton, que não disse uma palavra, e o Mailman também não era de provocar muito, e nas Finais eles se depararam com um time que afiou suas provocações enquanto enfrentava o Detroit Pistons ao longo dos anos. Phil Jackson era muito bom no lado psicológico da coisa e, mesmo que não fosse, ele certamente acreditava que era.

Caffey: Michael foi implacável com as provocações. Quero dizer, ele falaria sobre tudo.

Antoine Carr, jogador do Jazz: A parte mais difícil de jogar contra os Bulls era sempre tentar descobrir como fazer isso e lidar com os árbitros ao mesmo tempo. Porque você sabia que se tocasse em Jordan, uma falta seria marcada.

Ostertag: Eu via provocações afetando o Karl de outra maneira, geralmente. Mikki Moore estava [com Detroit] no final dos anos 90. Estávamos jogando uma vez, e ele marcou duas vezes seguidas em cima do Karl, suficiente para ele voltar pela quadra gritando: "Me dê a bola! Esse filho da p*** não consegue me marcar!" Grant Hill, que estava com os Pistons na época, corre para cima de ele e diz: "Cale a p*** da sua boca! Não se fala esse tipo de coisa para caras como aquele". Mas era tarde demais. Eu acho que Karl fez uns 30, talvez 40 pontos naquela partida. Ainda me faz rir pensando em Grant Hill correndo para cima de Moore dizendo aquilo.

Caffey: Eu tenho muito respeito pelo Mailman. Havia apenas um crocodilo naquele lago mais durão que ele, e era Michael Jordan. Toda a nossa arrogância vinha de Mike. Scottie era descontraído. Ele me ajudou muito. Ron Harper? Eu odeio esse cara, ele era tão inseguro. Dennis nunca disse duas palavras. Steve Kerr, Jud Buechler e eu, Phil Jackson nos disse que era nossa responsabilidade sair com Dennis e tomar conta dele para que ele não entrasse em confusões.

Carr: Uma coisa que eu gostei de jogar no Bulls que era diferente foi a cidade de Chicago sempre tentando fazer algo também. Você estava no seu quarto de hotel na noite anterior a um jogo das Finais em Chicago e, de repente, uma modelo da Playboy aparecia à sua porta com um bolo. Isso aconteceu comigo mais de uma vez. Elas aparecem em um casaco e, quando chegam para lhe apresentar seu bolo, o casaco sai e... "Bem-vindo a Chicago!" Mas se você é um jovem e tudo o que você consegue pensar na noite anterior às Finais é uma garota bonita, isso vai te atrapalhar. Não funcionou comigo. Mas era um delicioso bolo.

Smith: Scottie teve tantos momentos de altos e baixos nos playoffs. Era uma rara oportunidade para todo mundo escrever sobre ele e citá-lo em algo positivo que não fosse “Não vou jogar os instantes finais de uma partida”. Essas coisas sempre estavam presentes quando o assunto era o Scottie. Então, ele ter feito o que fez para dar ao Michael a chance de vencer o jogo foi quase o exemplo perfeito de como eles eram a melhor dupla, o modo como se encaixavam: Scottie, com uma excelente frase. Michael, com o último arremesso.

Smith: Foi um final poético.

Antes de tomar sua posição para o primeiro lance livre de Malone, Pippen passou por ele e disse a frase mais importante da história do trash talk.

Pippen: Eu sussurrei no ouvido dele: “The Mailman doesn’t deliver on Sundays”. (Tradução: O Carteiro não entrega aos domingos).

McDermott: Sempre que uma provocação nos faz confrontar a realidade de quem somos e as limitações de nossas habilidades, isso tende a provocar raiva e vergonha. Fazer um lance livre requer controle e concentração, não força bruta. Raiva e vergonha dificultam o controle das funções motoras necessárias para executar algo como um lance livre.

Pippen: Eu pensei na hora. Freestyle total.

McDermott: Isso torna tudo mais impressionante. Não teria como ele premeditar isso e esperar faltar 10 segundos para provocar Malone na linha do lance livre. Ele teria falado antes. Isso dá credibilidade à ideia de que realmente surgiu na cabeça dele.

Smith: É uma das maiores provocações da história, e a grande ironia disso é que não veio de um cara que provocava muito.

Pippen: Na verdade, não era nada pessoal. Karl era meu amigo. Ele até veio me buscar no aeroporto algumas vezes quando estávamos em Utah. Meu relacionamento com ele é muito mais do que basquete. Foi uma piada, porque ele era o Mailman (o Carteiro).

McDermott: Quando você está acostumado a alguém te provocando o tempo todo, pode aprender a filtrar. Mas se vier de uma fonte inesperada... se ele esperava algo de Jordan ou de Rodman e veio de outro lugar, o fato de ele não estar preparado potencializou tudo.

Mark Giangreco, âncora esportiva da WLS-TV em Chicago: As pessoas esqueciam o quão engraçado, inteligente e legal era o Scottie, mas quando você é sempre o Robin e nunca o Batman, ele se perdia um pouco atrás de Michael Jordan, mas ele sempre teve algo especial. Lembra quando Scottie enterrou em cima de Pat Ewing e depois ficou de pé sobre ele e foi provocar Spike Lee? As pessoas sempre pensam em Reggie Miller falando provocando Spike Lee. Mas confie em mim, ninguém nunca foi para cima de Spike como o Scottie o fez.

Pippen: Spike não era meu herói na época. Quando ele chegou na minha casa e estava falando besteiras, eu apenas me virei e disse: “Sente-se”.

McDermott: Nesse caso em particular, talvez acidentalmente, Scottie Pippen realmente se interessou pelo fato de Karl Malone ter trabalhado muito para construir essa imagem - o Mailman, o cara que sempre entrega - e ele acabou com isso.

Smith: Essa frase dita para Michael Jordan não teria nenhum efeito. Também não teria funcionado com John Stockton. Ele teria ficado alheio.

Ostertag: É difícil dizer se isso o afetou. Você chega à linha com o jogo a ser decidido, não dá para ter certeza. Ele errou os lances livres, Steph Curry erra lances livres. Acontece.

Caffey: Qualquer pequena palavra sussurrada, seja negativa ou positiva, aumenta a tensão. Eu não me importo se você é um mestre zen, o que você ouvir vai entrar na sua cabeça.

A rotina de Malone continua sem problemas. Batida. Giro. Pegada. Giro. Pegada. Batida. "Isso é pela Kay e o bebê." Até agora nos playoffs de 1997, Malone tinha acertado 78% de seus lances livres. E na sua carreira, domingo era o dia que ele tinha aproveitamento melhor de lance livre em relação a qualquer outro. Mas, depois de digerir a falta de Pippen, toda a suavidade dos movimentos de Malone havia sido sugada. Com um cotovelo tenso, ele solta a bola e erra o primeiro arremesso. Pippen imediatamente se move para frente de Malone no garrafão, aparentemente para lembrá-lo do que acabara de acontecer. O Mailman zomba de volta, "Sim, sim", antes de se afastar com as mãos nos quadris, em direção à meia-quadra, para se recompor.

McDermott: Uma vez que Malone perdeu o primeiro, era quase inevitável que ele fosse perder o segundo também. Porque agora a ideia plantada por Pippen havia realmente se concretizado.

Smith: Se existe um ranking para essas coisas, e não tenho dúvida de que provavelmente alguém criou algo assim – essa frase tem que estar lá. O que tornou isso perfeito foi a esperteza de Pippen: era domingo, era o carteiro. Funciona. Foi como uma grande oportunidade para uma matéria perfeita: o tom perfeito no momento perfeito, que você simplesmente não vê com tanta frequência.

Pippen: Foi um grande jogo. Nós precisávamos desse jogo. [Eu não sabia que tinha conseguido] até depois que ele errou os dois.

Batida. Giro. Pegada. Giro. Pegada. Batida. Uma vez que o segundo lance livre está no ar, Malone está tão certo de que vai entrar que ele começa a voltar para a defesa. A bola bate na frente do aro, no entanto, e acaba caindo nas mãos de Jordan. Malone não podia acreditar. Ele se afasta, fecha os olhos e coloca o queixo no peito. Durante o tempo dos Bulls, Malone pode ser visto se xingando.

A vergonha e a raiva que McDermott diz que ele provavelmente está enfrentando são merecidas: nos últimos 40 anos, Malone é um dos únicos três jogadores a perder mais de dois lances livres com a chance de assumir a frente no placar de uma partida de Finais.

Malone em 1997: eu sou de Summerfield, Louisiana, e não temos desculpas. Não tenho desculpas e não vou usar nenhuma. Eu não acertei os lances livres. Eu apenas não os fiz. E eram importantes.

Caffey: Esses dois arremessos poderiam ter decidido toda essa série para Utah, e Karl nunca viverá isso. Ele vai ter isso na cabeça pelo resto da vida.

Allred: Talvez seja minha culpa. No momento em que Karl está prestes a arremessar, eu me viro para Kim Turner, um de nossos outros caras de relações públicas, e digo: "Nós vamos vencer este jogo!" Você simplesmente passa da euforia total para "Ah, meu Deus, não" e, como se não pudesse piorar, Jordan está com a bola.

Pippen faz o passe para Kukoc e faz um corta-luz para Jordan, que está vindo da esquerda. Com 1,7 segundos para o fim, Bryon Russell, de Utah, tenta desviar a bola com sua mão direita, ficando desequilibrado, agora totalmente à mercê de Jordan. Jordan desliza para a esquerda no topo do logo dos Bulls e sobe para o arremesso. Foi tão perfeito que a rede quase não balançou. Jordan assume sua pose clássica - lábio superior dobrado, soco de mão direita no ar - quando Pippen, aquele que tornou tudo possível, chega e o envolve em seus braços.

Jordan em 1997: No final, poderia ter ido para qualquer time. Eu também perdi um lance livre. Karl vai e perde dois. Então, quero dizer, os MVPs não fizeram muita coisa até que eu consegui acertar o arremesso. Quem fizesse as melhores jogadas naquele fim de jogo venceria.

Ostertag: Aparentemente, ficou na cabeça de Karl. Ele diria que não, e pode ser verdade. Isso faz parte de ser um dos melhores de todos os tempos. Kobe, Shaq, LeBron, Jordan - no nosso esporte, você não pode pensar no passado. Pippen falou o que falou. Você perdeu esses lances livres. ESTÁ TUDO BEM. Esses lances livres não são a razão pela qual perdemos esse jogo. Você precisa voltar, jogar na defesa e tentar impedi-los de marcar na próxima posse. Não conseguimos.

Giangreco: Malone estava chateado. Alguém repetiu a frase para ele após o jogo e perguntou sobre isso, e ele ficou furioso.

Smith: Ele estava na defensiva e tentou evitar, mas você poderia dizer que ele também estava envergonhado.

Malone em 1997: Isso não me incomodou. Scottie e eu somos adversários e considero-o um amigo. Posso dizer isso porque não tenho muitos amigos na liga.

Pippen: Eu odeio que essa frase tenha se tornado pública porque ninguém realmente entendeu. Foi mais uma piada entre nós.

Giangreco: Não ouvimos o que ele estava dizendo na quadra durante o jogo. Na coletiva de imprensa, alguém pergunta: "O que você disse lá?" Um sorriso aparece em seu rosto. Ele olhou para a câmera e dava para perceber que ele estava ansioso para repetir. Ele estava tão empolgado. Então, ele diz: "O Mailman não entrega aos domingos", e ele começa a rir sozinho, e a sala inteira também ri. Todo mundo ficou louco. E Scottie aproveitou cada segundo disso.

Smith: Todos na sala de imprensa estavam brigando por essa frase. Vou usá-la na minha matéria. Não, estou usando na minha coluna. Especialmente porque era Pippen. Scottie não era exatamente o tipo de cara alegre. Ele não era alguém rápido com piadas. Isso era algo que Jordan teria dito. Teria sido a frase ideal para Jordan, tanto que sempre nos perguntamos se Jordan havia dito isso para ele.

Rock: Eu escrevi algo como "Claro que seria Jordan, de que outra forma você esperava que isso acontecesse?" E isso ncomodou Malone. Não sei se ele estava assustado. O jogo mental foi duro para ele. É um estudo de caso fascinante. Isso o afetou naquele momento, ele perdeu dois lances livres e foi praticamente decisivo para a série.

Smith: Jordan riu depois, tenho certeza. Ele foi questionado sobre isso e elogiou Scottie. Acho que Jordan reconheceu que, sim, Scottie o salvou com essa linha do Mailman.

Carr: Eu não acho que tenha algo a ver com Pippen. Eu apenas acho que os Bulls tiveram sorte. Eles tiveram as chamadas de falta nos momentos certos, ou então o Utah Jazz teria sido campeão. Uma ou duas chamadas muda tudo, e então teríamos um documentário sobre o primeiro título do Jazz. Mas continuamos com a história do grande Michael Jordan.

Allred: Ainda fico impressionado com como estivemos perto de roubar um jogo que ninguém esperava que vencêssemos. Mas sentimos isso várias vezes nas Finais subsequentes.

McDermott: Se você está pensando em apenas frases pontuais, essa certamente está no topo. Porque foi tão inteligente e tão crucial em termos de resultado.

Pippen: Até hoje, acho que essa é a melhor frase da história do basquete.

Três dias depois, Malone, ainda incomodado, chutou 6-de-20 e terminou com 20 pontos em uma derrota por 97 a 85 no jogo 2. Depois, o técnico do Jazz Sloan disse: "Eu achei que ficamos intimidados desde o início do jogo. "

Mas depois de retornar a Salt Lake City, Malone deu sua resposta, marcando 37 na vitória no jogo 3. Quando perguntado por que Rodman tinha dificuldades para marcar o Mailman, Jordan respondeu: "Ele está enfrentando um dos 50 maiores da história - Karl Malone não é qualquer um". No jogo 4, no domingo, 8 de junho, Malone se encontrou em uma posição familiar: na linha de lance livre com Utah vencendo por um ponto com 18 segundos no relógio. Dessa vez, quando Pippen tentou novamente, Malone e o Jazz estavam prontos. O ala de Utah, Jeff Hornacek, bloqueou o caminho de Pippen para Malone, que fez dois lances livres.

Malone em 1997: Eu sabia o que ele estava fazendo ao tentar vir falar comigo. Ele ainda falou comigo enquanto eu arremessava.

Hornacek em 1997: Karl disse que Scottie o chamou mais cedo e disse algo sobre o Mailman não entregar aos domingos. E Karl respondeu: "Sim, mas a Federal Express o fará". Scottie estava avançando na direção de Karl, e eu pensei que ele iria dizer mais algumas coisas, e eu só queria ficar entre eles e não deixá-lo chegar perto.

Malone em 1997: Na vida, às vezes você nunca tem uma segunda oportunidade. Como jogador, você deseja que às vezes tenha outra oportunidade. Eu tive e fiz.

Pippen em 1997: Eu acho que ele entrega aos domingos aqui.

A entrega do Mailman permaneceu irregular, na melhor das hipóteses, durante as Finais. O Jazz perdeu os Jogos 5 e 6 e os Bulls estavam agora com dois terços do caminho para o segundo three-peat. No total, Utah perdeu três jogos nas Finais de 1997 por oito pontos combinados e, nesses jogos, depois que Pippen deu sua icônica frase, Malone fez 12-de-26 em lances livres. Sua atuação nas Finais fez com que todos, inclusive o próprio Malone, questionassem se quem votou nele para MVP havia cometido um erro.

Malone em 1997: [O melhor] é Michael Jordan, como todo mundo pensa. Nos momentos decisivos, Michael queria a bola. Ele a conseguiu e fez o arremesso. É difícil discutir com isso.

Smith: Essa acabou sendo a série com o "Flu Game" (tradução: Jogo da Gripe), com um Jordan doente caindo nos braços de Pippen. E uma vez que isso aconteceu, tudo foi ofuscado. Até então, ninguém se lembra do que aconteceu no jogo 1 ou do que Pippen disse a Malone. O Flu Game definiu a série, e todas as outras coisas que aconteceram foram esquecidas.

Malone terminaria sua carreira de 19 anos com o maior número de pontos (36.928, segundo de todos os tempos), o maior número de rebotes (14.968, sétimo de todos os tempos) e mais aparições em playoffs (19) na história da NBA entre os jogadores que nunca foram campeões. Ele chegou às Finais pela terceira e última vez com os Lakers de 2003-04.

Rock: Em 1996, o Jazz perdeu um jogo 7 em Seattle e perdeu sua primeira chance de chegar às Finais. Depois, havia dois ônibus na pista do aeroporto. Olho para o ônibus da equipe e os jogadores estão distribuindo almoços, e vejo Karl relaxado, rindo. Ninguém era mais guerreiro durante os jogos, mas quando acabou, Malone pôde seguir em frente. Ele parecia bem. Então a porta do ônibus da equipe se abre. Stockton sai e tem esse olhar sombrio. A derrota está o comendo vivo. Trinta segundos depois, a porta do ônibus se abre novamente e aí vem o Jerry. E ainda tenho a imagem na cabeça daqueles dois com as mãos nos bolsos, olhando para longe e, de volta ao ônibus, o Mailman seguiu em frente.

Malone em 2004: [Em Utah] eu comecei a dizer: "Ah, eu tenho que melhorar", em vez de apenas ficar relaxado. Era inacreditável, não apenas porque eu era a pessoa mais bem paga do estado na época, mas com as expectativas, e tentei abordar da mesma maneira. Eu realmente nunca consegui aproveitar isso.

Rock: A última vez que ouvi, ele e Stockton ainda usavam telefones antigos. Alguns anos atrás, tentei mandar uma mensagem para ele porque ele nunca atende o telefone. Então, escrevi algumas vezes e, finalmente, um texto voltou: "É o Brad?" Eu disse: "Sim, eu queria falar com você sobre algumas coisas". E depois de alguns minutos, ele respondeu: "FALA SÉRIO!". E eu não tenho notícias dele desde então. Então, acho que ele não vai assistir ao documentário.

Layden: Nós nunca conversamos sobre as Finais. Ele nunca deu desculpas. Se perdeu, perdeu. Isso é tudo. Siga em frente que amanhã tem mais.

Rock: Jordan e os Bulls ofuscaram tudo. Mas com o tempo, quando você olha para trás, muitas pessoas dizem: “Espere um segundo, o Jazz ficou a um lance livre do MVP de tudo ser diferente”. As coisas estavam próximas o suficiente nessa série que pensemos até hoje: e se Malone tivesse feito esses lances livres? E se o Jazz tivesse vencido o jogo 1 em Chicago? Algumas coisas mudam, começando com os lances livres, e a história seria completamente diferente.

Pippen: Até hoje, Karl é um dos meus melhores amigos. Ele nunca me disse nada sobre a frase.