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Seres humanos por trás dos ídolos: O que Jordan e outras estrelas nos mostram sobre expectativas irreais impostas a atletas

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Kobe Bryant, Kevin Durant, Dwyane Wade e mais: os lances de Michael Jordan que inspiraram a NBA (3:18)

Movimentos da lenda do basquete seguem sendo reproduzidos pelos jogadores ainda hoje (3:18)

Nos anos 90, muito antes da febre das redes sociais no mundo inteiro, saber quem eram as pessoas por trás dos jogadores era uma missão complexa para os fãs. Acompanhar seus posicionamentos, hobbies e gostos só era possível até certo ponto, via imprensa, em doses limitadas.

Ainda assim, os atletas já sofriam com a pressão social a fim de serem exemplos para quem os acompanhava. Ser esportista não bastava, era imprescindível conquistar o título de “boa pessoa” para além das quadras.

Isso fica evidente no badalado documentário “The Last Dance”, onde Michael Jordan é colocado sob um microscópio e todas as suas atitudes são destrinchadas. Em um dos episódios, a produção do programa pergunta ao seu ex-colega do Chicago Bulls, BJ Armstrong, se Jordan era “um cara legal”. A resposta foi que ele não poderia ter sido.

A trama mostra ainda como existia uma expectativa irreal até quanto a suas atitudes extra-quadra, levando-o à exaustão. Prova disso são as especulações sobre o suposto vício em apostas, ilações de que o assassinato do pai estaria ligado a isso e até a criação de uma teoria mirabolante sobre a primeira aposentadoria em 1993 ter sido, na verdade, uma punição secreta imposta ao jogador mais popular do mundo pela NBA.

“Pode perguntar para meus companheiros de equipe e eles vão dizer: a questão com Michael Jordan era que ele nunca cobrava algo que ele mesmo não fizesse. Quando as pessoas virem isso, elas vão falar: ‘Bom, ele não era um cara muito legal. Talvez ele tenha sido um tirano.’ Não, essa é a sua opinião, porque você nunca venceu nada”, declarou Jordan no documentário produzido pela ESPN.

A conturbada história do carismático Dennis Rodman também serve como exemplo. Embora fosse tão popular quanto Jordan no fim dos aos 90, o jogador tinha uma relação complicada com o álcool, a família e a fama que o engolia. Quando ganhou o prêmio de melhor defensor do ano em 1990, ainda com o Detroit Pistons, sobraram lágrimas de felicidade em seu discurso. Três anos depois, foi encontrado dormindo em sua caminhonete no estacionamento do Auburn Hills com uma arma carregada no colo. Enquanto liderava a NBA em rebotes nas sete temporadas seguintes, mudava o cabelo, adicionava piercings e tatuagens ao visual, casava-se consigo mesmo, consumia álcool noite após noite em festas – em uma tentativa frustrada de esconder seus próprios demônios.

Não é uma questão meramente geracional. O icônico Pete Maravich, famoso nas décadas de 1970 e 1980 especialmente por seus passes acrobáticos, amargou anos viciado em álcool, tentando preencher o vazio existencial vindo da necessidade de ser o melhor no que fazia.

Se acelerarmos para a NBA atual, as redes sociais revolucionaram a forma como vemos nossos ídolos. Através da tela de um celular sabemos que LeBron James adora comer tacos com a família às terças-feiras, a esposa de Giannis Antetokounmpo é torcedora do Los Angeles Lakers e Jimmy Butler adora jogar futebol. É como se os conhecêssemos. O que não mudou foi a expectativa colocada junto ao pedestal.

Uma das grandes jogadoras de basquete da atualidade, a australiana Liz Cambage, do Las Vegas Aces (WNBA), desabafou sobre a pressão absurda que sentia em um texto escrito para o site americano The Player’s Tribune, plataforma para esportistas escreverem sobre assuntos pessoais:

“Eu tinha acabado de jogar as Olimpíadas de 2012 com a seleção da Austrália. Nós ganhamos o bronze, mas para nossos padrões, falhamos; eu falhei, eu decepcionei meu país e todos que estavam contando comigo”.

Falar sobre pressão e problemas psicológicos ainda é um tabu, especialmente em um ambiente construído para vender imagens de sucesso.

Há poucos dias, Dion Waiters, jogador do Los Angeles Lakers, escreveu um artigo para o mesmo site intitulado “Para mim, depressão é fingir estar feliz”. No texto ele diz que o mundo precisa se lembrar de que jogadores de basquete não são super-heróis:

“Não importa o quanto você é durão, isso não tem nada a ver. Você não pode revidar porque é só você do outro lado”.

Antes de assinar com o Lakers, Waiters foi dispensado na trade deadline pelo Miami Heat após uma série de comportamentos inapropriados, como ingerir comprimidos a base de cannabis em um avião do time, originando um ataque de pânico. Ele foi multado e suspenso por dez partidas.

Em outro relato emocionante, o ex-jogador Ben Gordon, atleta da liga entre 2004 e 2017, abriu o jogo sobre os problemas mentais que enfrentou depois de se aposentar das quadras, chegando próximo ao suicídio. Ele contou que parecia tranquilo com seus companheiros de equipe, mas na verdade possuía comportamentos obsessivos, como imaginar cada segundo de uma partida de basquete no dia anterior. Gordon escreve que, no basquete, a obsessão não é vista como fraqueza, mas é recompensada.

“Especialmente para atletas, esse papo pode parecer bobagem. Nós somos treinados para pensar desse jeito. É quase como uma lavagem cerebral. Mas a razão de eu estar contando minha história é porque eu sei que há jogadores que precisam de ajuda.”

Não há fórmulas prontas. Títulos, seleções para o All Star Game, medalhas olímpicas, salários astronômicos. Nada disso é garantia.

Kevin Love, campeão com o Cleveland Cavaliers, e DeMar DeRozan, do San Antonio Spurs, deram visibilidade à discussão revelando ataques de pânico, depressão, ansiedade e a pressão de ser um atleta de alto rendimento diante de tamanha visibilidade.

Em 2018, DeRozan escreveu no Twitter que a depressão estava tirando o melhor dele. Enquanto, meses depois, Love usou esse tweet como inspiração para se abrir sobre a crise que teve após um jogo e a dificuldade de aceitar que algo estava errado, especialmente por medo de ser visto como um companheiro de equipe frágil.

Em um artigo para o The Player’s Tribune intitulado “Todo mundo está passando por algo”, escreveu:

“Eu me lembro de pensar: qual é meu problema? Eu sou saudável, jogo basquete como profissão. O que há para me preocupar? Eu nunca vi nenhum atleta profissional falar sobre saúde mental e não queria ser o único... mas isso não é coisa de atleta. O que você faz para viver não precisa te definir. Saúde mental é uma coisa de todos.”

Pouco antes da temporada 2019/2020 começar, a liga anunciou a implantação de um programa focado na assistência psicológica de seus jogadores. Pela nova regra, os times foram obrigados a contratar uma equipe de profissionais especializados para acompanhar os atletas.

Em um mundo pautado pelas redes sociais, é fácil encontrar comentários maldosos sobre jogadores, seja falando da qualidade em quadra ou até mesmo da vida pessoal. A exposição parece ser inerente à fama.

Michael Jordan foi precursor de um movimento que normatizamos – depositar expectativas irreais em pessoas reais. O documentário sobre sua trajetória com o Chicago Bulls mostra as muitas facetas de um dos maiores competidores da história, ora taxado como herói, ora como vilão. E deixa um alerta importante sobre a forma como a sociedade está projetando a imagem de seus ídolos.