Um mês após as mortes de Kobe e Gianna Bryant em trágico acidente de helicóptero, Vanessa, viúva do ex-jogador, emocionou o mundo com suas palavras durante o memorial em homenagem a seu marido e sua filha. Em um discurso de aproximadamente 20 minutos, fez rir e chorar os presentes no Staples Center contando um pouco da rotina da família e manifestando seu amor pelo ídolo do Los Angeles Lakers e pela garota que herdou do pai a paixão pelo basquete e sonhava em seus passos.
Leia o discurso de Vanessa Bryant na íntegra:
Obrigado a todos por estarem aqui. Também amo vocês.
Primeiro, queria agradecer a todos por virem. A enxurrada de apoio e amor que recebemos de todo o mundo foi reconfortante. Agradeço a todas as preces. Quero falar sobre os dois, Kobe e Gigi, mas vou começar com minha bebê.
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Minha bebê,
Gianna Bryant é uma alma incrivelmente doce. Ela sempre me dava beijo de boa noite e de bom dia. Algumas vezes, achava que ela tinha ido para a escola sem me dar tchau. Mandava mensagem perguntando: 'Sem beijo?'. E ela respondia: 'Mamãe, você estava dormindo, eu te beijei. Não queria te acordar'. Ela sabia o quanto estes beijos eram especiais para mim e era tão preocupada comigo que lembrava de me beijar todos os dias.
Gigi era a garota do papai, mas sei que amava sua mãe. Sempre falava e mostrava como me amava. Era minha melhor amiga, adorava cozinhar e colocar um sorriso no rosto de todos. Em agosto, fez um lindo bolo de aniversário para seu pai, parecia profissionalmente decorado. Cozinhou cookies deliciosos. Ela adorava assistir a programas de culinária, e também "Survivor" e jogos da NBA com seu pai. Também adorava assistir a desenhos e filmes da Disney com suas irmãs.
Gigi era muito competitiva, como seu pai, mas tinha uma doçura, um sorriso que era como o brilho do sol. Seu sorriso ocupava o rosto todo, como o meu. Kobe sempre dizia que ela era eu, tinha meu fogo, personalidade e sarcasmo. Mas era carinhosa e cheia de ternura por dentro. Tinha o melhor sorriso, era contagioso, puro e genuíno.
Kobe e Gianna conviviam naturalmente. Ela tinha a paciência do Kobe para ouvir as músicas e decorar as letras. Era ótima com ginástica, futebol, softball, dança e basquete. Adorava dançar, nadar. Era confiante, mas não de uma forma arrogante. Adorava ajudar as pessoas.
Na escola, se ofereceu para ajudar o técnico do time masculino de basquete com algumas dicas, como o 'Triângulo Ofensivo'. Ela era muito como seu pai e adorava ensinar às pessoas coisas novas. Era uma ótima professora. Sempre fazia questão de saber que as pessoas estavam bem. Adorava noites de jogos e de filmes, sempre queria todos juntos. Estava sempre agindo de acordo com seus sentimentos e desejava o melhor para nós.
Gianna era esperta, sabia ler, escrever e falar mandarim, sabia espanhol, era uma jogadora de basquete incrível. Fazia parte do conselho estudantil, era assistente da diretora em sua escola, assim como sua irmã. Estava ansiosa para se formar na oitava série e ir para o colegial, com sua irmã Natalia. Estava muito feliz por ter sido aceita ne mesma escola.
Gianna nos fazia muito orgulhosos e ainda faz. Nunca se conformou, sempre foi ela mesma, uma ótima pessoa, uma professora. Sempre usando blusa branca, calça preta, jaqueta, tênis branco. Ela tinha estilo, ritmo, desde que era bebê. Dava os melhores beijos e abraços. Tinha maravilhosos lábios macios, como seu pai, e me abraçava e me segurava tão forte que sentia que ela me amava. Adorava como ela me olhava quando me abraçava, parecia que estava me sugando.
Nos amávamos muito. Sinto muito sua falta. Ela tinha muita energia, eu não conseguia acompanhar. Guiou a mim e à Natalia em uma trilha uma vez. Tinha apenas seis anos (risos). Sinto falta de seus beijos, sua doçura, seu sarcasmo, seu carinho e seu sorriso de canto de boca, seguido da mais gostosa gargalhada. Gigi era o brilho do sol, iluminava meu dia, todo dia. Sinto falta de olhar para seu rosto lindo. Estava sempre tão bem, sabia que podia contar com ela para fazer a coisa certa. Era a filha mais amorosa, a irmã mais pensativa e boba. Gostava de me ajudar com Bianka e Capri.
Nós não vamos conseguir ver a Gigi ir para o colegial com a Natalia ou perguntar como foi seu dia. Não vamos poder ensiná-la a dirigir. Não poderei falar para ela como ela está linda em seu casamento, nunca vou ver ela entrar na igreja, ter a dança com o pai da noiva com o Kobe, ou dançar comigo na pista. Gianna teria sido uma mãe incrível, sempre foi muito maternal, mesmo quando criança.
Gianna teria sido a melhor jogadora da WNBA, teria feito uma grande diferença para o basquete feminino. Ela era motivada a mudar o jeito que as pessoas viam o esporte feminino. Escreveu trabalhos na escola sobre o pagamento desigual da NBA e WNBA, e como isso não era justo. E realmente sinto que ela teve impacto positivo nas jogadoras da WNBA agora, seu objetivo era ser uma delas.
Ainda estou muito orgulhosa da Gianna. Ela fez a diferença e era bondosa com todos que conheceu nos 13 anos que esteve aqui. Sua classe dividiu conosco muitas boas lembranças com ela, e isso me fez ver o quanto Gianna mostrou para todos que nenhum gesto de bondade é tão pequeno que não possa fazer a diferença na vida de alguém.
Sempre pensava nos outros e em seus sentimentos. Era uma filha e irmã bonita, bondosa, boba, feliz, pensativa e amorosa, cheia de vida e com muito a oferecer ao mundo.
Não posso imaginar a vida sem ela. A mamãe, Natalia, Bianka, Capri e o papai te amam muito, Gigi. Vamos sentir falta dos seus beijos e sorriso lindo. Sinto sua falta todo dia.
Te amo!
*
Kobe era conhecido como um competidor destemido na quadra de basquete. O maior de todos, escritor e vencedor do Oscar, a "Mamba Negra". Mas, para mim, era Koko, meu amor, meu bebê. Eu era sua VB, sua princesa, sua rainha.
Não podia vê-lo como celebridade, ou grande jogador de basquete. Era meu doce marido e o lindo pai de nossas filhas. Era meu tudo. Kobe e eu estávamos juntos desde que eu tinha 17 anos e meio. Fui sua primeira namorada, primeiro amor, esposa e melhor amiga, sua confidente e protetora.
Ele era o mais incrível marido. Kobe me amou mais do que pudesse expressar ou colocar em palavras. Ele era fogo, eu gelo, a gente se balanceava. Fazia tudo por mim. Não fazia ideia do porquê tinha um homem que me amava tanto quanto o Kobe.
Ele era carismático, cavalheiro, amável, adorável e romântico. Realmente, era o romântico da relação. Aguardava ansiosamente o dia dos namorados e nosso aniversário juntos todo ano. Planejava viagens especiais e presentes. Pensava fora da caixa e era cuidadoso, mesmo quando estava treinando para ser o melhor jogador.
Tínhamos planos para envelhecermos juntos, realmente tínhamos uma história de amor incrível. Nos amávamos por inteiro, dois perfeitamente imperfeitos construindo uma família e criando nossas incríveis e doces garotas.
Algumas semanas antes de eles morrerem, Kobe me enviou uma doce mensagem, falando como queria passar mais tempo juntos. Só nós dois, sem as crianças, porque eu era sua melhor amiga antes de tudo. Nunca tivemos a chance de fazê-lo. Estávamos ocupados cuidando de nossas garotas e fazendo as tarefas de todos os dias. Mas sou grata por aquela mensagem, significa muito para mim.
Kobe queria que renovássemos os votos. Queria viajar o mundo juntos. Sempre falamos como seríamos os avós legais para nossos netos. Ele seria o avô mais legal.
Kobe era o MVP dos pais de meninas. Nunca deixou o assento do banheiro levantado, sempre disse para as garotas quão lindas e inteligentes eram. Ensinou como ser corajosa e como sempre tentar quando as coisas fossem difíceis.
Quando Kobe se aposentou da NBA, começou a buscar e levar nossas crianças na escola, já que eu estava em casa grávida da Bianka e cuidando da Capri. Quando ele ainda jogava, eu chegava uma hora antes para pegar a Gianna e a Natalia na escola e disse que ele não podia vacilar. Ele atrasou uma vez e deixamos claro para ele que eu nunca atrasava. Então, ele apareceu 1h20 antes depois disso.
Sempre sabia que havia como aprender e melhorar. Adorava levar as crianças e passar tempo com elas. Era um pai devoto, sempre presente. Cantava músicas bobas no banho e continuava fazendo elas rirem enquanto as colocava na cama. Tinha braços mágicos e fazia a Capri dormir em apenas alguns minutos
Adorava levar a Bianka para brincar. Também adorava assistir a filmes com a Natalia, levá-la para ver Harry Potter ou o último Star Wars. E, então, fazer maratonas de filmes e aproveitar cada minuto delas.
Adorava típicos filmes para chorar também: "Lado a Lado", "Flores de Aço" e "Adoráveis Mulheres". Ele tinha um coração cheio de ternura.
De alguma forma, ele sempre sabia onde a gente estava. Especialmente, quando eu estava atrasada para seus jogos. Se preocupava comigo se eu não estava em meu lugar no começo de cada jogo, e perguntava para o segurança onde eu estava no primeiro pedido de tempo do primeiro quarto. Eu falava que ele não ia marcar 81 pontos nos primeiros 10 minutos de jogo.
O fato de conseguir jogar em um nível profissional tão intenso e ainda se preocupar que chegássemos ao jogo seguras é outro exemplo de como ele era cuidadoso conosco. Ele adorava ser o técnico de basquete da Gianna. Me disse que queria ter convencido Natalia a jogar basquete, para que passassem mais tempo juntos. Mas também queria que ela perseguisse suas paixões. Assistiu à Natalia jogar vôlei em seu aniversário e percebeu o quanto ela era inteligente jogando. Estava convencido de que ela seria uma ótima armadora.
Disse que queria que a Bianka e a Capri ganhassem uma bola de basquete quando mais velhas, para que pudesse passar tanto tempo com elas quanto passava com a Gigi. E Kobe sempre disse para elas que cresceriam, jogariam basquete e ralariam bastante.
Agora, elas não terão o pai e a irmã aqui para ensiná-las. E isso é uma verdadeira perda, eu não consigo entender. Mas sou muito grata por Kobe. Ele não estará aqui para levar a Bianka e a Capri na escola, ou aparecer nas consultas médicas das nossas filhas para me dar apoio moral. Não poderá levar nossas filhas em seus casamentos, ou me rodar na pista de dança enquanto canta para mim. Mas quero que minhas filhas lembrem-se e saibam que pessoa, pai e marido incrível ele foi.
O tipo de pessoa que tenta fazer as futuras gerações serem melhores e ensiná-las a não repetir os mesmos erros que ele. Ele sempre quis fazer projetos e trabalhar para melhorar a vida das crianças. Nos ensinou lições valiosas sobre esporte e vida através de sua carreira na NBA, livros, filme e podcasts.
Somos tão gratas por ter deixado essas histórias para nós. Escreveu as melhores cartas de amor. E Gigi também tinha a habilidade de descrever seus sentimentos e nos fazer sentir seu amor no papel.
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Era muito fácil amá-los. Todos sempre gravitavam ao seu redor. Eles eram engraçados, felizes, bobos e adoravam a vida. Eram cheios de aventura e amor. Deus sabia que eles não poderiam viver um sem o outro. Ele precisou levá-los para casa juntos.
Amor, tome conta de nossa Gigi. Vou cuidar da Natalia, da Bianka e da Capri por aqui. Ainda somos o melhor time. Amamos e sentimos a falta de vocês. Descansem em paz, se divirtam no paraíso até nos encontrarmos de novo.
Para sempre,
Mamãe
