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Como legado de Kobe Bryant obrigou os Lakers a aposentarem dois números de camisa na NBA

(Texto publicado originalmente em 17 de dezembro de 2017)

Ele olhava para cima enquanto saía do túnel do Staples Center para se aquecer, e olhava de novo quando o hino tocava, e de novo, e de novo durante o jogo.

“O tempo todo”, diz Kobe Bryant.

Durante lavadas e jogos de tirar o fôlego, entre as pausas e ação, se chateado ou buscando uma faísca.

“O tempo todo”, diz Kobe Bryant de novo.

Escondido nesses momentos de silêncio, o ícone dos Lakers encarava o céu, em direção ao canto sudoeste da casa dos Lakers no centro de Los Angeles, e escaneava as camisas aposentadas da franquia.

“O. Tempo. Todo”, diz Bryant uma vez mais.

E o tempo todo, toda vez, encarando os santificados números usados por nomes da casa como West, Wilt, Elgin, Magic e Jabbar, Bryant se transportava à sua infância na Itália, onde seu pai jogava profissionalmente, onde Bryant devorava as fitas de vídeo com os lances desses mesmos jogadores de cujos uniformes aposentados ele viria a jogar embaixo.

“Eu estudei esses jogadores”, ele dizia a si mesmo, “e ali eles estão.”

Na noite de segunda-feira (dia 18/12/2017), os dois uniformes de Bryant – o número 8 que ele usou na primeira metade de sua carreira de duas décadas na NBA e o número 24 que ele usou na segunda metade – vão se juntar àqueles que ele admirou por tanto tempo, pois eles serão aposentados numa cerimônia no intervalo quando os Lakers receberem o Golden State Warriors.

Bryant se tornará só o 10º jogador dos Lakers a ter seu número aposentado pela ilustre franquia e o primeiro jogador na história da NBA a ter dois números aposentados pelo mesmo time. Os Lakers decidiram que, dado o sucesso de Bryant com os dois uniformes, seria impossível aposentar um número e não o outro, explicou um porta-voz do time.

“É um padrão impossível”, ele diz.

Bryant começou sua carreira na NBA em 1996 ao usar o número 8, o qual ele usou na Itália e também uma lembrança ao número que ele usou no Adidas ABDC Camp, 143, cujos números somados dão 8. Ele não pretendia trocar de número quando começou sua carreira, mas diz que o fez porque os Lakers mudaram de direção ao trocar Shaquille O’Neal para o Heat em 2004. Um ano antes, Bryant foi preso e acusado de assédio sexual, mas em 2004 as acusações criminais foram retiradas e Bryant chegou a um acordo no processo.

“É como um prato limpo”, ele diz. “Eu comecei de novo. Só um começo completamente fresco, focado no número que significava muito para mim”.

Ele queria trocar seu número imediatamente, mas o prazo havia passado, então não foi até a temporada 2006/07 que Bryant vestiu o número 24, o qual usou no começo de sua carreira na Lower Merion High School, em Ardmore, na Pennsylvania.

Os dois números dividem bem a carreira de Bryant em dois capítulos e, assustadoramente, ele marcou quase o mesmo número de pontos em cada um: 16.777 como número 8, 16.866 como número 24.

Ao considerar seus dois ‘eu’ diferentes na NBA, Bryant foca em uma palavra: crescimento.

“Quando eu cheguei com o número 8, estava tentando ‘plantar minha bandeira’”, diz Bryant. “Tenho que provar que mereço estar nessa liga. Tenho que provar que sou um dos melhores dessa liga. Vou atrás deles. É uma energia incansável, agressividade e tal.”

“O 24 foi um crescimento dali. Os atributos físicos não estão lá da maneira que costumavam estar, mas o nível de maturidade é maior. Casamento, filhos. Começando a ter uma perspectiva mais abrangente de ser um dos caras mais velhos do time, em vez de ser um dos mais jovens. As coisas evoluem. Não é dizer que um é melhor que o outro, ou que um é a forma melhor de ser. É só crescimento.”

Ele continua: “É um novo livro, o 24 – 24 significa todo dia. Porque quando você fica mais velho, seus músculos começam a ficar doloridos. O corpo começa a doer. Você vai para o treino naquele dia, você precisa se lembrar, ‘esse é o dia mais importante’. ‘Preciso forçar apesar dessa dor. Meus tornozelos estão bem presos, não vão se soltar. Preciso passar por isso, porque esse é o dia mais importante.’ Então, o 24 também me ajudou de um ponto de vista motivacional.”

Três dos cinco títulos de Bryant vieram como número 8, mas seu único prêmio de MVP da NBA veio como número 24 – munição para os fãs que preferem um ou outro. Qual Kobe o próprio Kobe prefere?

Ele toma uma longa pausa, coçando o queixo.

“É a temporada na qual eu rompi meu tendão de Aquiles, na verdade”, ele diz. “Porque eu senti que estava jogando o melhor basquete que já joguei em minha carreira inteira”.

Isso foi na campanha de 2012/13, quando os Lakers trouxeram Steve Nash e Dwight Howard e pareciam no caminho para outro título antes de serem sabotados por lesões, turbulência e brigas internas. No fim da temporada, Bryant se esforçou como nunca antes para ajudar o time a chegar nos playoffs por pouco, mas pelo caminho, ele se jogou para baixo, apesar de seus próprios companheiros, técnicos e membros da comissão técnica tentarem o proteger de si mesmo, como a ESPN detalhou em abril de 2016.

“Eu tive que trabalhar como um maníaco para estar lá, mas consegui estar lá”, se recorda Bryant. “Mentalmente, emocionalmente, conseguia prever cinco, seis lances à frente no jogo, todo tipo de coisa maluca.”

Depois da lesão no tendão de Aquiles, Bryant nunca mais foi o mesmo, sofrendo lesões que acabaram com sua temporada em cada um dos dois anos seguintes.

“Foi um dos meus períodos favoritos, sim”, ele diz, sorrindo. “Quase me matou, mas foi divertido.”

Sentado no CT dos Lakers, que abriu no último verão, Bryant observa durante uma manhã, admirando o espaço supermoderno.

A última vez que esteve aqui, Bryant diz, foi sua primeira visita, no meio de outubro, quando ele produziu seu curta-metragem animado, “Dear Basketball”, em frente a um grupo de cerca de trinta pessoas, incluindo animadores de grandes estúdios.

Com animação de Glen Keane, que ajudou a criar alguns dos personagens mais icônicos da Disney (Aladdin, Ariel, a Fera), e música do premiado compositor John Williams (Star Wars, ET, Tubarão), o filme de cinco minutos é uma versão animada da despedida de Bryant que foi publicada no The Players Tribune na sua temporada final.

O filme é centrado na jornada de Bryant desde seus sonhos de infância no basquete até esses sonhos serem realizados e, de acordo, na noite que seus uniformes irão se juntar aos outros que ele encarava durante sua carreira, Bryant planeja estrear seu curta – seu maior projeto pós-NBA até o momento – no intervalo desta segunda-feira no Staples Center.

Enquanto Bryant discute o projeto e a vida após o basquete, Molly Carter, uma coprodutora executiva do filme, interrompe com a notícia: “Dear Basketball”, ele diz, acaba de ser indicado pelo Oscar para Melhor Curta-Metragem de Animação, se juntando a nove outros filmes nessa categoria.

“Foi mesmo?”, pergunta Bryant.

A lista vai diminuir de 10 filmes para cinco em 23 de janeiro, e cinco desses vão competir pelo Oscar no dia 4 de março. (Nota do editor: o filme ganhou o Oscar naquele ano).

Bryant levanta as mãos, fecha os punhos, balança a cabeça, explodindo com energia, preso entre a descrença e o júbilo. Alguns palavrões de celebração escapam. Mesmo se sua carreira na NBA havia terminado, os mesmos fãs de Bryant viram suas celebrações de título e de arremessos da vitória retornando, mesmo que por um momento.

Bryant se recompõe e respira algumas vezes. Ele ganhou todas as honras que um jogador da NBA poderia imaginar e é o líder de todos os tempos em várias categorias nos Lakers, incluindo pontos e jogos de temporada regular. Então o que um Oscar pode significar para ele?

Ele pausa.

“Significaria mais que todos os outros prêmios”, diz Bryant. “Porque não é algo que eu jamais esperei fazer. Não é algo que eu deveria conseguir fazer. Como criança, eu cresci com sonhos de ganhar campeonatos e MVPs e tudo isso. É algo que eu tenho na minha mente. É um objetivo. A vida te dá essas cartas, lesões acontecem, coisas acontecem, você para e aí escreve algo que vem do coração.”

“É algo como ‘OK, eu tenho paixão por essa coisa de contar histórias. Vamos fazer esse negócio. E aí, você pisca, o Glen faz uma animação. Você pisca de novo, você está no palco no Hollywood Bowl com o John Williams. Você pisca de novo, e ele está sendo especulado no Oscar. Agora o trem está andando. Você só pensa: ‘Que p... está acontecendo?’. Não é algo que… especialmente para nós atletas, você só deveria conseguir fazer uma coisa. Você não deveria fazer nada mais.”

Então a noite de segunda-feira também vai marcar muitas coisas para o Bryant – virar a página da sua carreira na NBA e continuar com tudo o que veio depois.

Mas acima de tudo, ele diz que vai invocar a alegria, que ele poderá dar aos torcedores, amigos e caras familiares como uma despedida de fato, o que ele diz não ter conseguido exatamente fazer no seu jogo final, por causa de grande parte do seu foco naquela noite estar no jogo em si.

Segunda-feira, ele diz, será diferente.

“Alegria, alegria”, diz Bryant. “Essa é minha casa. Então, alegria por estar ao lado de pessoas que literalmente me viram crescer – dizer obrigado a elas uma última vez.”