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NBA: Por que Tacko Fall, gigante de 2,29m do Boston Celtics, é sensação da liga mesmo sem jogar

Quando Tacko Fall teve seu nome gritado pela torcida do Boston Celtics, ele sabia que não era apenas pelo seu basquete. Era por sua altura. Com 2,29m, o gigante é o mais alto da NBA atualmente.

Mas sua chegada na principal liga de basquete do planeta não foi fácil. Teve dificuldades no Senegal, onde nasceu, na ida para os Estados Unidos, no tempo de basquete universitário e na evolução do seu jogo.

Mesmo não tendo tempo de quadra pelos Celtics e com um contrato que o permite fazer no máximo 45 jogos pela franquia, Tacko é uma sensação da NBA.

Por que ele cativa tantas pessoas e tem o carinho dos fãs ao redor da Liga?

História de vida

Quando todas as crianças zombavam de Tacko Fall por ser tão alto, ele não dava a mínima, não respondia, não chorava e não ia para o colo da mãe. Sabia que era difícil, ainda mais com 8 anos de idade.

“Não podia contar para minha mãe. Ela ‘mataria’ as crianças”, fala Tacko.

O jovem de 2,29m do Boston Celtics não se intimida facilmente. Nascido em Dakar, no Senegal, se desenvolveu numa casa muçulmana, com poucos recursos e que quase foi devastada pelo surto de malária recorrente na África.

“As ‘redes’ para pegar mosquitos custavam apenas $ 3 (cerca de R$ 12), mas não tínhamos condições. Ainda bem que não fomos afetados. Tive malária quando criança e foi horrível”, comenta.

Foi na 9ª série que Tacko se mudou para os Estados Unidos. Buscava alguém para confiar. Passou por diversas escolas até conhecer Donnie Jones, seu técnico na Universidade de Central Florida.

“Seu passado no Senegal era bem difícil”, fala o técnico que comandou o gigante durante quatro anos na NCAA.

Mas os deboches sofridos no passado continuavam no presente. Donnie Jones revela frases que ouviu certa vez, no aeroporto. Desde um “simples” “como é a temperatura aí em cima?” até falas mais perturbadoras como “você poderia trabalhar no circo”.

A solução foi ficar sentado para que as pessoas não vissem sua real altura. “Elas veem seu corpo, não sua mente brilhante”, adiciona Jones.

Tacko teve que superar dúvidas e deboches no começo de carreira. Perguntava-se como um cara tão teria a agilidade e o controle corporal para conseguir chegar tão longe. Ele já chegou.


Inteligência que vai muito além do basquete

Tacko é muito mais do que “apenas” um jogador de 2,29m. Ele teve nota máxima no SAT (espécie de Enem norte-americano) e recebeu propostas de universidades da Ivy League (a conhecida liga dos nerds, onde as principais faculdades acadêmicas estão, como Harvard, Princeton e Yale).

“Ser um líder global, ele quer isso, sempre falamos sobre”, fala Donnie Jones.

Ele estudou ciência da computação na Universidade e pretendia seguir carreira, caso não conseguisse uma vaga entre os profissionais no esporte.


Carisma

No Boston Celtics, o gigante tira fotos com todo mundo. Sabe que a maioria tem interesse somente na curiosidade de ficar ao lado de um cara muito alto, muito mais do que nas suas qualidades no basquete.

No jogo do Boston Red Sox, da MLB, liga de baseball norte-americana, quando ele e Grant Williams, companheiro de Celtics, saíam do Fenway Center, estádio da franquia de Boston, até os donos da equipe desceram para tirar fotos com Tacko. Foi quase uma hora e meia para conseguir “vencer” todas as câmeras. Ele não tem onde se esconder, com Tacko não existe essa possibilidade.

“Ele estava exausto, mas nunca diz não. Para, sorri e assina quando lhe pedem”, diz Williams.

Tacko não foi draftado, mas assinou um contrato com os Celtics logo depois do recrutamento. Foi aclamado na Summer League e teve o nome gritado no TD Garden, no Madison Square Garden e em qualquer ginásio que atuou na pré-temporada.

“Foi uma coisa descontrolada, ele gosta de como as pessoas amam ele, e é a chance de mostrar a todos a pessoa especial que é”, comenta Brad Stevens, técnico dos Celtics.

“Não quero tirar o foco dos meus companheiros e sei como é difícil para o Brad ouvir a galera gritando meu nome, ele também quer se manter focado. Quero jogar, claro, mas é trabalho dele saber quando vai precisar de mim”, analisa o senegalês.

Não falta carisma no jovem de 23 anos de sorriso fácil.


Exemplos históricos

Tacko não é o único gigante a atuar na NBA. Antes dele, Mamadou N’Diaye, também de 2,29m, ex-jogador de UC Irvine, ficou pouco tempo na NBA após assinar com o Detroit Pistons. O senegalês não quer seguir esse exemplo, quer ir mais longe.

Algo como Manute Bol fez. O atleta de 2,31m brilhou pelo Golden State Warriors, e jogando na NBA de 1985 a 1995, somando 2.687 rebotes e 2.086 tocos. Seu filho, Bol Bol, hoje atua pelo Denver Nuggets.

Gheorghe Muresan, romeno também de 2,31m, ao se aposentar criou sua própria escola de basquete, chamada Giant Basketball Academy.

Mais recentemente e que ainda está na NBA, Boban Marjanovic, pivô sérvio de 2,24m, que atua no Dallas Mavericks, virou um dos símbolos de carisma da Liga com o “Boban Mania”. Gregg Popovich, técnico do San Antonio Spurs, seu primeiro comandante, inclusive chegou a citar que o jogador é “atleta de basquete e não qualquer outra coisa”.


Trabalho pesado

Tacko sabe que tem que melhorar bastante para ser efetivo na NBA. O pivô já recebe elogios, mas não deve ter minutos importantes nesta temporada.

“Um dia ele vai estar conosco direto. É talentoso e trabalha duro. Acho que as pessoas não entendem o que ele consegue fazer com sua altura”, analisa Kemba Walker, companheiro de time.

“Ele faz um bom trabalho no pick and roll, alguns duelos são complicados para ele e estamos tentando colocá-lo na velocidade do jogo”, adiciona Brad Stevens.

O senegalês nunca arremessou fora do garrafão. Com uma mecânica “horrível ou a pior de todas” como diz o companheiro Grant Williams, ele trabalho para melhorá-la. E deu certo.

Junto com o assistente técnico Jay Larranaga, passou horas no ginásio treinando. “Já arrumei. Pergunte ao técnico Jay. Melhorei com repetição, repetição e mais repetição”, afirma Tacko.

“Ele é tão bom, com uma energia tão positiva, as pessoas até esquecem que ele tem sentimentos. Fica triste, bravo, cansado, frustrado. Ele vai aprender a dizer não algumas vezes”, comenta Enes Kanter, companheiro e amigo do jogador.

Tacko sonha em ter seu nome gritado por uma bola vencedora ou um toco para não deixar o outro time ganhar. Enquanto isso ele continua focado em melhorar seu basquete.