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Como escândalo de racismo transformou Clippers em megapotência na NBA

PRESIDENTE DO GOLDEN STATE WARRIORS, Rick Welts estava em seu antigo escritório em Oakland quando a ligação chegou. O gerente geral dos Warriors, Bob Myers, estava do outro lado da linha, como sempre fazia, após as partidas do time.

"Existe um equilíbrio entre a privacidade das pessoas e o interesse do público. E eu acho que todos concordarão comigo quando eu disser isso: aquela fita tinha que ser ouvida." Mike Walters, ex-repórter da TMZ

Estamos falando da manhã do dia do quinto jogo da série de playoffs entre Clippers e Warriors, em 2014. Quatro dias antes, o TMZ havia publicado gravações de voz do então dono do LA Clippers, Donald Sterling, fazendo declarações racistas à sua amante, V. Stiviano. A NBA entrou em parafuso.

Quando Myers telefonou para seu chefe com um relatório, ele lhe disse em termos inequívocos: "Esses caras vão sair da quadra", lembrou Welts.

"Ele estava com a equipe naquela manhã e disse que a mentalidade dos jogadores era que, se as coisas não acontecessem como os jogadores queriam, eles sairiam da quadra e se recusariam a jogar," disse Welts.

Donald Sterling foi uma praga na NBA por três décadas. Tivemos dezenas de incidentes que poderiam ter sido motivo para expulsá-lo da liga, mas esse caso era diferente.

"Na por** do meu Instagram, eu não preciso andar com negros", disse Sterling a Stiviano. "Me incomoda muito o que você quer promover, divulgar que você está se associando com pessoas negras. Você precisa mesmo fazer isso?"

Em um ponto, Stiviano pergunta a Sterling: "Você sabe que tem uma equipe inteira de jogadores negros que jogam para você, né?"

Ele responde: "Eu sei? Eu dou apoio, comida, carros e casas. Quem dá a eles? Alguém mais dá a eles? Quem faz o jogo? Eu ou eles?"

Os jogadores da NBA ficaram chocados. Eles ameaçaram boicotar os jogos dos playoffs se o novo comissário da NBA, Adam Silver, não se livrasse de Sterling de maneira rápida e definitiva.

"Não há espaço para isso em nosso jogo", disse LeBron James, então do Miami Heat, na manhã seguinte à divulgação das fitas. "Isso não pode acontecer com um jogador, com um técnico, com um dono e com um torcedor. Não importa se você é preto, branco, hispânico ou qualquer que seja o caso. Não podemos ter isso como parte do nosso jogo."

Adam Silver tinha menos de 90 dias de trabalho e teve uma crise completa em suas mãos. Os jogadores estavam prestes a boicotar a liga em processo. E a ameaça era muito mais verdadeira do que se imaginava na época.

"Eu estava decidido em acabar com a temporada", disse Andre Iguodala, então jogador dos Warriors. "Talvez isso fosse muito pesado, mas no que diz respeito àquele jogo naquele dia, você pode reagendar. Algumas coisas têm que ser resolvidas como prioridade."

Os Clippers Os Warriors. A NBA. Era um território desconhecido para todos. Nenhuma equipe jamais se recusou a começar um jogo na NBA antes.

"Teria sido uma mensagem incrível. Se não tivéssemos jogado", disse Jamal Crawford, "Acho que estariam falando sobre isso até hoje. Seria lembrado para sempre. Isso nunca tinha acontecido antes."

E se os Clippers e os Warriors boicotassem o jogo, o que aconteceria com o resto dos playoffs?

"Se não jogássemos o primeiro jogo", disse Crawford, "Acho que não teríamos jogado nenhum jogo, para ser honesto com você. Acho que seria assim até que algo acontecesse".

Cinco anos depois, essa continua sendo uma das maiores questões da história da NBA. Porque algo aconteceu para mudar tudo. Em vez de boicotar a liga, aquele momento tornou a NBA o que é hoje.

HÁ MUITAS RAZÕES pelas quais essa gravação causou a queda de Sterling. O mundo que ele havia governado uma vez, todas as pessoas que ele já tinha tido pode sobre - seus jogadores, sua amante, sua esposa, a NBA - finalmente tiveram uma maneira de reagir.

Stiviano não foi a primeira mulher que quis vingança depois de um relacionamento com Sterling ter dado errado. Mas ela foi a primeira que teve a tecnologia e plataforma para chantageá-lo.

"Acho que a organização sabia, e tenho certeza que a NBA sabia. Era como se tivéssemos uma maçã podre", disse Matt Barnes, então jogador dos Clippers. "E ele finalmente estava acabado. E nós temos provas agora. Quero dizer, temos fita agora."

As fitas foram gravadas no celular de Stiviano. A história foi divulgada em um site de celebridades, o TMZ, que não existia uma década antes, por um repórter que não tinha nenhum histórico com a NBA.

"A primeira coisa que fiz foi dizer: 'Quem é Donald Sterling?'", disse Mike Walters, o repórter que divulgou a história do TMZ e que agora administra seu próprio site, The Blast. "Eu tinha ouvido o nome, sabia que Donald Sterling era importante, mas não fazia ideia de que ele era dono dos Clippers."

Será que um grande meio de comunicação veicularia a história da mesma forma que o TMZ fez?

"Eu não era repórter esportivo - então acho que isso muda a mentalidade de alguém que vai publicar uma história como essa," disse Walters. "Existe um equilíbrio entre a privacidade das pessoas e o interesse do público. E eu acho que todos concordarão comigo quando eu disser isso - aquela fita tinha que ser ouvida pelo público, ponto final."

Uma vez ouvida, não podia ser (des)ouvida. Um acerto de contas estava chegando. Dentro de 48 horas, o presidente Barack Obama estava respondendo a perguntas sobre a fita de Sterling.

"Eu suspeito que a NBA esteja profundamente dedicada a resolver isso", disse Obama. "Os Estados Unidos continuam lutando com um legado de preconceito, escravidão e segregação que ainda existe".

Em quatro dias, todo o curso da história da NBA havia mudado. As fitas se tornaram virais e dominaram o ciclo de notícias. Tudo aconteceu em uma velocidade absurda. Decisões gigantescas, como boicotar jogos de playoffs, tiveram que ser feitas ao mesmo tempo em que os jogadores ainda estavam processando o que Sterling tinha dito naquela gravação.

"Todos nós temos família, amigos, pessoas com as quais não conversávamos há algum tempo que diziam: 'Vocês não podem jogar!", disse Crawford. "Isso é maior que você. É muito maior que você. Vocês podem mandar uma mensagem."

Os jogadores do Clippers estavam genuinamente divididos. Por mais que odiassem o que Sterling havia dito, odiavam a ideia dele influenciando - ainda mais - na sua temporada.

"Estávamos tentando decidir o que fazer, e todo mundo estava dizendo que deveríamos boicotar, que não deveríamos jogar", disse Blake Griffin.

Em vez de boicotar o jogo 4, os jogadores dos Clippers tiraram seus uniformes de aquecimento, os viraram do avesso para que o símbolo do time não pudesse ser visto, e fizeram um montinho com elas no meio da quadra.

Se os Clippers e Warriors não jogassem como uma forma de protesto, ninguém tem certeza do que teria acontecido a seguir.

" Será que outras equipes teriam decidido não jogar?" questionou Welts. "Será que a nossa equipe decidirá não jogar o resto da série? Eu não sei."

Welts havia trabalhado na NBA por décadas e nunca tinha visto nada assim.


NÃO FICOU MUITO CLARO o que Silver poderia fazer para deixar as coisas certas, mas seus instintos lhe diziam que ele deveria trabalhar de perto com os jogadores para encontrar as respostas corretas.

Eles seriam parceiros nisso, não em lados opostos da mesa de negociação coletiva. Mas para trabalhar com os jogadores, Silver precisava que eles confiassem nele. Então ele pediu um pouco de tempo - dias, não semanas - para que o devido processo seguisse seu curso.

Dentro de si, Adam Silver acreditava que Sterling tinha que ser expulso da NBA para sempre.

"Acreditei que ele havia cruzado uma linha que quebrou a essência do contrato da fibra moral desta liga", disse Silver. "E eu não achei que poderia ser consertado."

Mas como exatamente você remove um dono - em quatro dias? O estatuto da NBA deu à Silver autoridade para agir unilateralmente nos "melhores interesses do jogo". Mas não há cláusula de "proibição vitalícia" na constituição da NBA.

"Devemos expulsá-lo? Driblar a constituição?" O dono do Dallas Mavericks, Mark Cuban, disse na época. "Devemos começar a tomar medidas para realmente condenar as pessoas pelo que elas dizem na privacidade de sua própria casa? Aconteceu que tinha alguém gravando. Esse é um caminho escorregadio do qual eu não quero fazer parte.

A maioria acreditava que os poderes de Silver estavam limitados a suspender Sterling e multá-lo em 1 milhão de dólares. E mesmo esse tipo de punição estava repleto de risco. Como todos esperavam que Sterling processasse a liga, como fizera anteriormente, quando transferiu os Clippers de San Diego para Los Angeles sem autorização.

As únicas pessoas que poderiam revogar o título de Sterling eram os outros donos, e seriam necessários três quartos dos outros 29 proprietários da NBA para votarem na expulsão dele. E alguns desses proprietários tinham um problema em estabelecer um precedente de tirar as franquias das pessoas porque elas foram gravadas sem saber.

Adam Silver decidiu fazer isso de qualquer maneira. Ele escreveu seu discurso em um voo de Portland para Nova York e o terminou em sua casa.

"Eu não gastei muito tempo colocando minhas ações em um contexto mais amplo de ligas esportivas ou sociedade porque eu tive um problema imediato que exigiu uma decisão imediata."

Na segunda-feira antes do jogo 5, a cidade de Los Angeles estava ansiosa. Líderes dos direitos civis, como o Reverendo Jesse Jackson, apareceram. Jogadores da NBA, como Steve Nash e Kareem Abdul-Jabbar, planejavam marchar para a prefeitura. Policiais extras foram enviados para o centro da cidade.

Os telefones dos escritórios do Clippers estavam tocando sem parar. E a mensagem era uma: você é um escravo por apoiar um racista como Donald Sterling. Você é tão racista quanto ele. Houve ameaças de morte. Toda a situação foi tão traumática que a NBA teve que chamar um conselheiro de crise.

Ralph Lawler, narrador oficial dos Clippers por muito tempo, desejava ter visto um.

"Eu me lembro do meu colega de transmissão, Brian Sieman, dizendo: 'Você precisa se sentar com essa pessoa e conversar com ela", disse Lawler. "Eu não fiz isso. Talvez eu devesse ter feito, eu poderia ter encurtado meu período de choque.

"Foi uma época terrível para todos nós. Eu posso ter sido o pior a lidar com isso, porque eu estava lá havia 35 anos. Isso me abalou bastante."

O técnico dos Clippers, Doc Rivers, ouviu falar sobre o que os funcionários da equipe estavam cogitando e se sentiu na necessidade de encontrá-los.

"Os funcionários estavam ameaçando sair", disse Rivers. "Eles estavam sendo bombardeados por pessoas chamando-os de racistas - e eles não tinham culpa de nada. Donald tinha.

Adam Silver não podia dizer a Rivers exatamente o que ele planejava dizer em sua coletiva de imprensa no dia seguinte, mas tentou assegurar-lhe que a justiça seria cumprida.

"Ele disse: 'Doc, até amanhã, você nunca terá que lidar com ele novamente'", lembrou Rivers. "Eu preciso de você por mais 24 horas."


ADAM SILVER DEU UMA COLETIVA DE IMPRENSA no final da manhã para anunciar que Sterling havia sido banido da NBA pelo resto de sua vida. A cidade entrou em erupção de alegria. Carros que passavam pelo centro de treinamento dos Clippers buzinavam e os motoristas acenavam para fora da janela.

Em vez de paralisar a liga, o Jogo 5 se transformou em uma comemoração. Os protestos na prefeitura foram cancelados. As arquibancadas estavam cheias de fãs vestindo preto. Todos os anúncios foram cobertos de preto, pois os patrocinadores começaram a se desassociar com qualquer coisa ligada à Sterling.

Na hora do jogo, todos os times da NBA colocaram uma tela preta em seus websites com uma mensagem: We Are One.

Foi um momento decisivo na história da liga. Os jogadores protestaram, e a liga não apenas ouviu, mas ficou do seu lado contra um dono.

Adam Silver validou o crescente poder dos jogadores na liga e sinalizou que o seu estilo de liderança seria muito diferente do seu antecessor, David Stern. A NBA de Silver seria uma parceria, tanto no crescimento dos negócios quanto nas decisões corporativas.

"É uma luta que não começou com Donald Sterling", disse Michele Roberts, que assumiu o cargo de diretora da Associação Nacional de Jogadores de Basquete no final daquele ano. "Tem acontecido historicamente, tanto em nosso jogo quanto em outros esportes, por muitos, muitos, muitos anos.

"Os jogadores para quem trabalho são homens, e os homens não toleram o tipo de ignorância que Donald Sterling tinha. Você não tolera isso no seu espaço."

Cinco anos depois, durante as Finais da NBA de 2019, um investidor minoritário dos Warriors foi banido da NBA por um ano por colocar suas mãos em Kyle Lowry quando o jogador do Toronto Raptors perseguiu uma bola perdida na lateral.

A disposição de Lowry, Stephen Curry, Draymond Green e LeBron James de condenar publicamente as ações dos proprietários mostra o quanto a liga mudou devido ao escândalo de Sterling. Os jogadores nunca foram tão fortes contra aqueles que têm poder sobre eles. Agora isso acontece o tempo todo, em todos os esportes.

Acusações de abuso sexual derrubaram gigantes da indústria. Um tweet racista pode terminar uma carreira. Adam Silver prefere o termo "governador" ao termo "dono". Steve Ballmer pagou 2 bilhões de dólares para comprar o Clippers de Sterling, mas se auto-intitula presidente e não proprietário.

E neste verão, em uma ironia deliciosa, Kawhi Leonard e Paul George exerceram seu poder, essencialmente forçando o seu caminho para assinar, justamente, com os Clippers de Ballmer.

Essa ideia de empoderamento dos jogadores recebeu muita atenção na NBA nos últimos anos. Os proprietários não gostam quando os jogadores têm esse poder sobre os futuros de suas franquias. E agora eles olham para Silver e pensam em restaurar o poder que tiveram outrora.

RIVERS NÃO GOSTA de gastar muito tempo refletindo sobre Donald Sterling e por que levou 30 anos de mau comportamento para finalmente tirá-lo da liga. Ninguém dos Clippers gosta de pensar no assunto. Eles seguiram em frente. Se pudessem, eles esqueceriam dele e de sua era para sempre.

Mas Rivers se lembra exatamente de como isso aconteceu. Todos eles lembram, mesmo que não gostem de reviver o momento.

Cerca de 10 dias antes de o vazamento das fitas, o então presidente dos Clippers, Andy Roeser, disse a Rivers que uma fita "pouco animadora" de Sterling poderia sair. Inicialmente, Rivers não achou que seria algo importante.

"Honestamente, eu pensei que fosse um vídeo de sexo", disse Rivers. "Mas então eu me esqueci disso."

Sterling era um brilhante advogado e adorava uma boa briga. Ele sabia como ganhá-las também. Los Angeles está cheia de pessoas que acabaram perdendo ações legais contra ele.

Ele era um tubarão imobiliário, um mago para avaliar o valor de uma propriedade apenas por saber sua localização e especificações.

Mas seus jogadores nunca foram sua propriedade. E talvez ele tenha aprendido isso quando eles se levantaram e exigiram que ele vendesse o seu time.

"Eu sempre volto para o pensamento de que é preciso uma pessoa muito educada e atenciosa para poder cogitar um pensamento sem ter que aceitá-lo."

Donald Sterling nunca foi capaz de cogitar ou aceitar o pensamento de que ele precisava de seus jogadores, mais do que eles precisavam dele.

Ele diz isso várias e várias vezes na gravação com Stiviano.

"Eu os ajudo, dou comida, roupas, carros e casas," disse Sterling. "Quem dá isso a eles? Alguém mais? Quem faz o jogo acontecer então?"

"Sou eu que faço o jogo acontecer ou eles que fazem?"

Após tudo que aconteceu com Sterling, a resposta está clara: os jogadores fazem o jogo acontecer.

"Nós vamos continuar melhorando," disse Doc Rivers. "Isso foi muito importante. Os caras se posicionaram, a liga se posicionou, o comissário se posicionou, os jogadores, todo mundo. Foi sensacional.

"No fim das contas, foi apenas um lindo momento do nosso esporte."