Kawhi Leonard empurrando Paul George para fora do Oklahoma City Thunder, com dois anos restantes no contrato de George, entrará para a história como um divisor de águas na NBA - para as equipes que construíram e destruíram; pela recompensa que o Thunder recebeu; mas principalmente por ter deixado claro que grandes astros controlam a reformulação dos times, não os donos.
Kawhi fez com que George saísse de Oklahoma City, e esse é o novo topo do empoderamento dos jogadores. Kareem Abdul-Jabbar exigiu uma troca em 1974. LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh "sincronizaram" seus períodos de free agency para construir seu próprio time na cidade que quisessem.
Nove anos depois, LeBron James cobiçou, publicamente, Anthony Davis - que tinha contrato com os Pelicans, mas acabou pedindo para ser trocado. Rich Paul, o agente de LeBron e AD, esfriou o mercado de tal maneira que favoreceu os Lakers de LeBron. A estratégia de Kawhi com George para unir forças no LA Clippers é como uma versão acelerada do que aconteceu com LeBron e AD - mesmo que George ainda tivesse mais dois anos de contrato com OKC.
De acordo com os termos de um contrato da NBA, uma equipe concorda em pagar um jogador em troca dos seus serviços - com o entendimento de que a equipe pode trocar o jogador sempre que quiser. Quando os melhores jogadores acabam "se negociando", essa dinâmica é invertida. Um grande jogador pedir para ser trocado não deixa a liga desigual. Ele iguala.
Os melhores jogadores têm poucas maneiras de aumentar seu tamanho na liga. Quando são draftados, já assinam contratos de quatro anos. Ao fim do contrato, eles viram agentes livres restritos; sua equipe tem o direito de cobrir qualquer oferta. Leva pelo menos sete anos até que os melhores jogadores do mundo tenham total liberdade para escolher onde vão jogar.
O tempo todo, o contrato máximo da NBA limita seu salário a algo abaixo do que ganhariam em um mercado aberto. Jogadores têm poucas alavancas. Pedir para ser trocado é a mais poderosa delas.
Em teoria, os pedidos de troca se tornam mais eficazes à medida que um jogador se aproxima da free agency: eu posso sair em breve, então é melhor você me negociar agora. A NBA e o sindicato dos jogadores aceleraram esse processo concordando em reduzir a duração dos contratos. Os jogadores são mais ousados em fazer contratos de dois ou três anos se isso significar voltar para a free agency após a 10ª temporada - quando a maioria se torna elegível para o maior contrato da liga.
A NBA sabia que os contratos mais curtos fariam com que jogadores trocassem de time com maior frequência. Não tenho certeza se esperavam algo parecido com o que aconteceu com Kawhi e Paul George.
O Thunder poderia ter dito não para Paul George. Seu contrato era válido até a temporada de 2020-21. Paul George é um dos 10 melhores jogadores da liga, e perder um jogador no seu auge sempre vai doer para as pretensões do time.
Agentes defendem que jogadores peçam para ser trocados porque é melhor para o time que recebe a solicitação do que ver seu astro saindo pela porta da frente sem nada em troca. E eles estão, indiscutivelmente, corretos. O Thunder e os Pelicans - após a troca de Anthony Davis para os Lakers - têm futuros que estavam fechados para eles.
Mas estamos falando de um esporte, não de uma bolsa de ações.
Eu me pergunto se estamos perdendo algo - das perspectivas de formação de equipes, estilo de basquete e engajamento dos torcedores.Deve ser mais difícil, nos dias atuais, construir um time que dure, digamos, seis, oito, 10 temporadas. O ápice do basquete acontece quando grandes jogadores permanecem juntos por um longo tempo - quando eles estão tão entrosados que parecem apenas um. Eles se comunicam com os olhos. Antecipam onde cada companheiro de equipe estará antes dele chegar lá. É quase como se lessem o pensamento um do outro.
Estamos perdendo algo? Alguns executivos especulam há anos que os técnicos devem simplificar os esquemas táticos como uma forma de se adaptar à rotatividade do elenco. Outros veem ingenuidade nisso. O GM de um time com um ataque peculiar disse que não teve problemas em encontrar agentes livres que encaixem no sistema.
Mas esse mesmo executivo - e vários outros - citaram o "belo jogo" dos San Antonio Spurs de 2013 e 2014 como um tipo de conquista. Os treinadores e executivos de San Antonio estavam certos de que precisavam de anos para dominar o estilo que destruiu a última equipe do Miami Heat de LeBron James e cia. Mesmo os jogadores de San Antonio - Patty Mills, Tiago Splitter, Boris Diaw, Danny Green, Cory Joseph - estavam no time há três temporadas antes de alcançarem esse feito.
O contraponto, claro, é o Golden State Warriors. Eles redefiniram o estilo de basquete. Seus principais jogadores permaneceram juntos por meia década, e seus três grandes astros pioneiros seguem lá. Já chegaram em cinco finais de NBA. Eles poderiam até nem ter conseguido chegar em todas se não fosse a contratação de Kevin Durant, mas vamos lembrar que venceram mais de 70 jogos em uma temporada sem ele.
Os Warriors draftaram essas três estrelas, incluindo o melhor arremessador da história da liga, Stephen Curry. Eles renovaram os contratos de Curry e Draymond Green com valores abaixo do que poderiam receber - bem abaixo no caso de Curry. Equipes que reformulam elencos inteiros para contratar mais de um veterano com contrato máximo não podem replicar esse modelo.
Os Clippers fizeram uma troca sem precedentes - cinco escolhas, duas trocas de escolha, Danilo Gallinari e Shai Gilgeous-Alexander (que pode acabar sendo mais valioso que todo o resto) - para adquirir Kawhi e George. No fim das contas, Leonard assinou por apenas duas temporadas, e isso significa que ele e George testarão a free agency de novo em dois anos.
Dois anos é muito pouco. Se uma estrela lesiona o joelho no começo da primeira temporada, já era, você tem apenas um ano restante no contrato. Talvez George e Leonard tenham indicado vontade de renovar com os Clippers em 2021, mas as coisas mudam rapidamente nessa liga. Se o primeiro ano não for bom, o barulho em volta de Leonard e George vai apenas se intensificar.
Quanto aos detalhes de tudo isso, há alguns ajustes em discussão, incluindo o retorno a contratos mais longos. Não muito tempo atrás, muitas equipes queriam distância dos negócios mais longos; contratos ruins de seis e sete anos os deixavam presos no cap salarial da liga.
Mas existe uma variável chave que mudou: o cap salarial está crescendo a cada temporada. De 2005 até 2014 - quase uma década - o cap cresceu de 49,5 milhões de dólares para 58,5 milhões de dólares. E ficou assim por seis temporadas Nas últimas cinco temporadas, ele já saltou para US$ 109 milhões, então um contrato mais longo não teria tanto impacto hoje em dia.
A liga poderia ampliar o acesso a extensões de contrato. Boston teria oferecido uma extensão para Kyrie Irving no ano passado, disseram fontes, mas as regras limitaram o salário de primeiro ano de Irving em "apenas" m120% do salário de 2018-19 - bem menos do que ele ganharia se entrasse para a free agency.
No momento, os jogadores que assinarem novos contratos em de free agency não poderão ser negociados até 15 de dezembro da próxima temporada, no mínimo. Alguns executivos da equipe propuseram estender esse "período sem troca" para dois anos completos depois que um jogador assina um contrato de quatro ou cinco anos. Acho que muitos jogadores seriam contrários a isso.
É muito cedo para algo tão drástico. Leonard persuadindo George rumo aos Clippers não é indicativo de nenhum problema generalizado. Mas foi um momento marcante na história da NBA e um que tem pessoas de todos os tipos - jogadores, agentes, executivos, o escritório da liga - imaginando o que vem a seguir.
