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NBA: Como o Los Angeles Clippers saiu de 'primo pobre' para dono de Los Angeles

Se algum fã de basquete dormiu na virada do ano de 2013 para 2014 e acordou agora, com certeza não faz ideia de como o LA Clippers, uma das franquias mais disfuncionais da NBA, se organizou para virar um ponto de destino dos principais nomes da liga e um franco favorito ao título, superando inclusive seu grande rival na cidade.

Há cinco anos, era comum ver os Clippers terem um bom time no papel, mas serem atrapalhados pelo clima ruim no vestiário e na diretoria.

Atualmente, a franquia funciona tão bem que o atual MVP das Finais fez questão de ir pra lá, deixando pra trás o atual campeão, o Toronto Raptors, e o super trio com LeBron James e Anthony Davis no Los Angeles Lakers.

Blake Griffin, Chris Paul e a "Lob City"

Para entender como esse processo aconteceu, é preciso entender como (não) funcionava o Los Angeles Clippers até 2014. Em 2009, a equipe tinha a primeira escolha do draft e selecionou Blake Griffin.

Em dezembro de 2011, Chris Paul se envolveu em uma das grandes controvérsias da NBA nos últimos anos ao ter sua troca para o Los Angeles Lakers vetada pelo comissionário David Stern, então dono do New Orleans Pelicans, Hornets à epoca, e time do armador. O camisa 3 acabou indo para o outro lado de Los Angeles e, ao lado de Griffin e DeAndre Jordan, formando o time que ficaria conhecido como "Lob City", ou seja, a "Cidade das Pontes Aéreas".

A equipe, no papel, era sempre candidata ao título, mas nunca funcionou da maneira esperada dentro de quadra. Muitos problemas de química e erros de direção da diretoria não deixaram a equipe atingir seu potencial.

O escândalo de Donald Sterling

Então dono dos Clippers, Donald Sterling era uma das figuras mais controversas da liga e tudo piorou em 25 de abril de 2014, quando o TMZ, site americano de entretenimento, divulgou uma conversa gravada entre o empresário e V. Stiviano, sua namorada na época.

Antes dos vazamentos, Sterling já era acusado de condutas racistas com jogadores negros e latinos. Na conversa, é possível ouvir o ex-dono dos Clippers repreendendo sua mulher por postar uma foto no Instagram com Magic Johnson por "estar se associando publicamente a negros".

Quatro dias depois, Sterling foi banido permanentemente pela NBA depois de uma investigação confirmar a veracidade das conversas. O empresário também recebeu uma multa de U$ 2,5 milhões (cerca de R$ 9 milhões), a maior possível na liga.

Sem nenhum dono, o time ficou a venda e foi comprado por Steve Ballmer. Em 12 de agosto de 2014, o empresário assumiu o controle da franquia e foi ali que tudo começou a mudar.

O fim da "Lob City"

Na primeira temporada sob o comando de Ballmer, os Clippers terminaram a regular com 56 vitórias e 26 derrotas e a terceira colocação na Conferência Oeste. Na primeira rodada dos playoffs, o adversário foi o então campeão San Antonio Spurs.

Numa série épica, os Clippers avançaram ao vencerem o Jogo 7 com um arremesso da vitória de Chris Paul. Na fase seguinte, a equipe chegou a abrir 3 a 1 contra o Houston Rockets, mas permitiu a virada e foi eliminada.

Na temporada seguinte, em 2016/2017, uma eliminação em sete jogos na primeira rodada marcou o fim da "Lob City". Insatisfeito com as diversas eliminações em pós temporada, Chris Paul decidiu não exercer sua opção e rumou ao Houston Rockets, dando fim a uma era.

A chegada de Jerry West

Jerry West é uma lenda da NBA, dentro e fora da quadra. Em quadra, foi campeão da NBA em 1972 e é, até hoje, o único MVP das Finais sendo derrotado, em 1969.

Como dirigente, havia sido responsável direto pela construção do "Showtime Lakers" nos anos 80, pela junção de Kobe e Shaq nos Lakers dos anos 2000 e, mais recentemente, pela construção da dinastia do Golden State Warriors com a chegada de Kevin Durant.

Para se preparar para uma nova etapa, os Clippers trouxeram o duas vezes vencedor do prêmio de Executivo do Ano. E foi a melhor decisão possível.

As saídas de Blake Griffin e DeAndre Jordan

Convivendo com lesões, Blake Griffin já não tinha a mesma utilidade para os Clippers e, no último dia de trocas da temporada 2017/2018, Jerry West fez seu primeiro movimento: mandou o ala-pivô para o Detroit Pistons.

Ao final da temporada, DeAndre Jordan se juntou ao barco de Blake e decidiu não renovar seu contrato, indo para o Dallas Mavericks.

Sangue, suor e lágrimas

Sem nenhuma grande estrela, esperava-se que os Clippers entrassem na temporada 2018/2019 para fazer figuração. Mas foi essa temporada que deu a maior prova da transformação da franquia e serviu para inverter a narrativa da cidade de Los Angeles e atrair Kawhi Leonard e Paul George.

Com 48 vitórias e 34 derrotas, a equipe conquistou a oitava e última vaga nos playoffs da Conferência Oeste. Na primeira rodada, ninguém mais, ninguém menos que os Warriors de Curry, Klay Thompson, Durant e Draymond Green.

A expectativa de toda a liga era uma varrida tranquila, mas os Clippers mostraram do que são feitos na 'Era Ballmer': sangue, suor e lágrimas. A vitória na série não veio, mas a equipe deixou sua marca na liga.

Mesmo enfrentando um Warriors completo, os Clippers venceram dois jogos em plena Oracle Arena, se tornando a primeira equipe a conseguir o feito desde 2016 e forçando seis partidas na série. Em uma das vitórias, a maior virada da história.

Os Clippers perdiam por 31 pontos, em Oakland, e conseguiram a virada, vencendo por 135 a 131. Aquela partida foi a marca que a equipe precisava deixar na liga para mostrar que eram uma coisa séria.

Os novos donos de LA

A cereja do bolo veio nesta pós-temporada, com o grande movimento de Jerry West. Depois de transformar a cultura e fazer a franquia deixar de ser uma das mais disfuncionais para um exemplo, faltava o xeque-mate.

E ele veio durante a madrugada de 6 de julho no Brasil. Enquanto todo mundo discutia se Kawhi Leonard iria renovar com o Toronto Raptors ou jogar com LeBron e Anthony Davis nos Lakers, os Clippers trabalharam quietos.

Jerry West e Steve Ballmer entenderam a posição que estavam e com quem estavam lidando. Kawhi queria que nada vazasse e ambos conseguiram isso. Mantiveram as reuniões em segredo e fizeram os movimentos necessários enquanto os holofotes estavam apontados para outras equipes.

Quando Kawhi deu o ultimato "tragam Paul George e eu vou junto", Jerry West não hesitou. Ofereceu tudo que o Thunder precisava pra aceitar a troca e apostou tudo em Kawhi e George.

Conseguiu trazer os dois. Mudou a história da liga e o panorama da cidade de Los Angeles. Hollywood tem um novo dono. O primo pobre deu a volta por cima.