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OPINIÃO - Jokic campeão da NBA é a melhor coisa que poderia ter acontecido

Desde que Nikola Jokic e o Denver Nuggets bateram o Miami Heat por 94 a 89 no Jogo 5 das Finais e conquistaram o título inédito da NBA na última segunda-feira (12), o pivô é o grande alvo das discussões nas redes sociais.

E, não, não é por ele ter vencido o prêmio de MVP (jogador mais valioso) das Finais, muito menos pela pós-temporada histórica que ele teve, sendo o 1º da história a liderar os playoffs em pontos, assistências e rebotes. Mas, sim, por que Jokic "não se emocionou" ao se tornar campeão pela primeira vez.

Para muitos, o sérvio mostrou "descaso" com a conquista e alguns até argumentaram que isso era ruim para a NBA. Mas, sinceramente, penso totalmente o contrário. Nada podia ser melhor do que Nikola Jokic campeão e MVP das Finais.

Nascido no norte da Sérvia, então parte da Iugoslávia, durante a Guerra do Kosovo, Jokic tinha quatro anos quando a Iugoslávia foi bombardeada por 11 semanas seguidas.

"Lembro de coisas como sirenes, abrigos anti bombas, estar sempre com as luzes apagadas. Nós praticamente viviamos na escuridão. Às 9h da manhã já estava tudo apagado", contou Jokic em uma entrevista ao Bleacher Report, em 2017.

Crescendo nessa situação, o pivô aprendeu desde cedo que o basquete não é a coisa mais importante do mundo. E sempre deixou isso claro. Seja quando venceu os dois prêmios de MVP da temporada regular, seja agora que finalmente chegou no mais alto nível e levantou o troféu Larry O'Brien pela primeira vez.

E Jokic não abandonou essa mentalidade por um único dia durante a caminhada que o levou de alguém que foi pegar uma bola de basquete pela 1ª vez aos 13 anos até se tornar, indiscutivelmente, o melhor jogador do mundo na atualidade.

Nikola nunca colocou o basquete como a coisa mais importante da sua vida. Sempre deixou claro que o esporte era seu trabalho e sua vida estava em sua filha, sua esposa, seus irmãos, seus amigos e seus cavalos. O que não significa, porém, que ele não se importa em vencer e não queria ser campeão, ao contrário.

Jokic se importa e sempre se importou em vencer, ou não chegaria no nível que chegou. Não teria, por exemplo, perdido os quilos que perdeu em anos recentes e melhorado sua condição física para aguentar os 48 minutos de uma partida.

O grande diferencial do sérvio é que ele nunca tratou o basquete como uma obsessão. Todo o esforço de Jokic para ser um jogador melhor é feito durante as suas horas de trabalho. Das 8h da manhã quando ele chega ao ginásio dos Nuggets para treinar até o momento em que ele vai embora. Nas outras horas do seu dia, Nikola simplesmente aproveita a vida.

Cuida de seus cavalos, fica com a família, vai na piscina tomar sol enquanto aguarda seu próximo adversários nos playoffs. Subverte a lógica de que é necessário ser obcecado por algo para ser o melhor naquilo.

E isso mexe (muito) com uma geração que cresceu justamente dentro dessa lógica. Desde o começo, fomos ensinados que é preciso ser obstinado e obsessivo para ser o melhor. É necessário acordar às 4h da manhã e ir dormir à 0h, levantando peso ou driblando uma bola de basquete o tempo todo para ser o melhor.

Aprendemos desde cedo que é necessário colocar o basquete (ou o esporte) acima de qualquer coisa e que a sua vida deve girar em torno dele para você ser o melhor.

Ficamos com a sensação de que se você não for workaholic, você não consegue ser o melhor - ou estar entre os melhores.

Nikola Jokic nos mostra justamente o contrário. É possível virar o melhor jogador de basquete do mundo, acabar com os melhores times do planeta e ir cuidar dos seus cavalos logo em seguida.

O título da NBA valida uma mentalidade que já deveria ter sido abraçada desde que ele venceu o seu primeiro prêmio de MVP.

Nikola Jokic é a prova viva de que podemos, sim, estar entre os melhores sem abrir mão do essencial: viver. Não é necessário deixar todo o resto de lado e ser obcecado com o basquete. Existem coisas mais importantes, ainda que o basquete seja importante.

O triunfo do sérvio - e de seus companheiros - é a melhor coisa que poderia acontecer para o basquete. Espero que a gente seja capaz de aprender: viver é essencial.

Joker Mentality.