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Quando Michael Jordan se tornou o GOAT da NBA?

Michael Jordan pode até não ter a intenção, mas não existe a dúvida de que, apesar dos feitos de LeBron James, o ícone do Chicago Bulls, que faz 60 anos neste 17 de fevereiro de 2023, é considerado por muitos como o maior jogador da história da NBA.

E quando Jordan ganhou o título de GOAT? De quem ele tirou?

Voltamos no tempo para homenagear o novo sexagenário e responder como um garoto franzino se transformou em lenda.


Quando começamos a usar o termo GOAT?

Foi muito depois de Jordan receber o título. A frase em inglês "greatest of all time", maior de todos os tempos, foi popularizada pelo lendário boxeador Muhammad Ali... que se chamava desta forma durante a carreira, principalmente nos anos 1960 e 70. Depois, em 1992, a esposa de Ali, Lonnie, deu o nome à empresa ligada ao astro de Greatest of All Time Inc. (G.O.A.T. Inc).

Mesmo assim, como disse o portal USA Today, em 2017, o termo GOAT não se tornou popular até o álbuim "G.O.A.T. (Greatest of All Time)" de LL Cool J, em 2000. Com o tempo, os pontos entre as letras e os parêntesis ficaram pelo caminho, nos deixando com as quatro letras que significam a grandeza - e, de forma conveniente, com a imagem (e os emojis) de uma cabra, chamada, em inglês, de "goat".

Quem era o GOAT antes de Jordan?

O título ainda não tinha um dono consolidado. Nos anos 1980, não havia um consenso sobre quem era o maior jogador de basquete de todos os tempos.

A discussão eventualmente começou com o grande debate da NBA: Wilt Chamberlain ou Bill Russell? Dois rivais com estilos contrastantes. Wilt dominava com estatísticas incomparáveis, e Bill venceu nunca antes (nem depois) vistos 11 títulos em 13 temporadas.

Por conta deste contraste, a escolha entre os dois era um reflexo de valor dado às carreiras de ambos. Tanto que quando a Associação de Cronistas de Basquete resolveu fazer a seleção dos 35 primeiros anos da liga, em 1980, surgiu o nome de Russell. Mas no livro "100 Maiores Jogadores de Basquete", escrito em 1988 por Wayne Patterson e Lisa Fisher, o preferido foi Chamberlain.

Na época, a outra opção era Kareem Abdul-Jabbar, que havia superado Chamberlain como maior cestinha de todos os tempos em 1984 e deixado Russell para trás com seis prêmios de MVP - recorde até hoje. Com Kareem ainda em atividade, um painel de 60 treinadores, ex-treinadores, dirigentes e jogadores aposentados, selecionados pelo jornal Dallas Morning News, escolheu o então pivô dos Lakers como o maior - com Oscar Robertson em segundo, Russell em terceiro, e Chamberlain em quarto.

Durante os anos 1980, Larry Bird e Magic Johnson também ganharam espaço na discussão, com Celtics e Lakers brigando constantemente pelo título nas Finais da NBA. Mas, naquela época, a estrela que os superaria já começava a brilhar.

Quando Jordan começou a concorrer ao posto de GOAT?

Depois de treinador Jordan nas Olimpíadas de 1984, Bob Knight chamou o garoto de 21 anos de "o melhor jogador de basquete que já vi".

Enquanto outros esperavam para ver como Jordan se adaptaria no basquete profissional, ele não demorou para entrar na discussão de maior de todos os tempos. Em 1989, quando tinha apenas um MVP e chegava às finais de conferência pela primeira vez, o Dallas Morning News relatou que dirigentes da liga já falavam sobre o assunto.

De acordo com Bruce Jenkins, do jornal San Francisco Chronicle, um debate parecido começava antes das coletivas de Jordan nos playoffs - quando ele jogava como o armador do time comandado por Doug Collins e tinha médias de 34.8 pontos, 7.6 assistências e 7 rebotes naquela pós-temporada.

Ainda assim, Jordan precisava responder se poderia fazer seus colegas de time melhorarem - ou seja, se poderia transformar seu sucesso individual em títulos. Algo que até Phil Jackson, treinador de MJ, questionava.

Quando Jackson chegou aos Bulls como auxiliar, em 1987, ele falou para Collins, como relatado no livro "The Jordan Rules", de Sam Smith: "Tínhamos uma regra em Nova York. Uma estrela melhora quem está ao seu redor. Era a nossa crença. Era como medíamos uma estrela. (Walt) Frazier e (Willis) Reed correndo por você, cobrindo espaço na defesa, permitindo que você jogasse mais por estarem intimidando o adversário."

Em 1990, depois de substituir Collins como treinador principal dos Bulls, Jackson notou que cestinhas de uma temporada da NBA raramente terminavam o ano com o título. Na verdade, apenas um havia conseguido na era moderna da liga: Abdul-Jabbar, em 1970-71, quando ainda era chamado de Lew Alcindor.

(Claro, Jordan continuou sendo o cestinha da liga nos seis títulos de Chicago.)

Quando os Bulls dominaram os playoffs de 1991, vencendo 15 de 17 jogos a caminho do primeiro título de Jordan, qualquer dúvida sobre suas habilidades caiu por terra. Em setembro, o então colunista do Washington Post, Tony Kornheiser, se referiu a Jordan como "o maior jogador. De todos os tempos".

Quando Jordan acabou com qualquer dúvida?

No momento que Jordan anunciou sua primeira aposentadoria, em outubro de 1993, a ideia de quem era o melhor jogador já visto havia se tornado um consenso. Jerry Reinsdorf, dono dos Bulls, usou a frase "maior de todos os tempos" na entrevista coletiva. Reinsdorf era suspeito para falar, mas Jack McCallum, da revista Sports Illustrated, concordou. Assim como seu colega Steve Wulf, que ficou famoso por um artigo pedindo para Jordan abandonar a carreira no beisebol.

E quando o narrador e apresentador Bob Costas fez essa pergunta para Magic Johnson nas Finais de 1993, quando o ex-armador já era comentarista da NBC, ele não hesitou em chamar Jordan de melhor da história. "Michael Jordan não é só o melhor jogador de basquete, mas, provavelmente, também seja o mais empolgante que já vimos jogar", disse Magic.

Isso era relevante levando em conta que Jordan havia jogado por apenas nove temporadas na NBA, bem menos que as 13 de Russell, as 14 de Chamberlain, sem falar das 20 de Kareem - o que mostrava a altura que Jordan já tinha alcançado, além de deixar claro que, para os jogadores, a discussão envolvia muito mais o auge de um atleta do que os feitos de uma carreira.

Mas foi só depois do retorno de Jordan que ele se afastou dos outros concorrentes, vencendo mais dois MVPs (igualando os cinco de Russell e superando Wilt) e liderando Chicago a outro tricampeonato - entre eles, um com a histórica campanha de 72 vitórias e 10 derrotas na temporada regular, recorde que só seria superado pelo Golden State Warriors, em 2016.

Essencialmente, Jordan transcendeu o debate de títulos x estatísticas que marcou o duelo de Chamberlain e Russell. Ele tinha vencido mais que Chamberlain e alcançado marcas individuais mais importantes que Russell.

Quando se aposentou pela segunda vez, se despedindo dos Bulls com um dos arremessos mais famosos da história da NBA, a questão não era se Jordan poderia ser considerado o maior da história do basquete, mas, sim, de qualquer esporte. Logo depois, o SportsCentury, da ESPN, colocou MJ à frente de Muhammad Ali e Babe Ruth como o maior atleta norte-americano do século 20 (Chamberlain era o próximo entre jogadores de basquete, em 13º).

Ainda é incerto saber por quanto tempo Jordan seguirá sendo considerado o GOAT. O que funcionou a favor de Jordan contra os mais antigos pode começar a trabalhar contra ele - e a favor de LeBron James. Afinal, jogadores mais jovens só podem ver os melhores momentos de Jordan no YouTube, mas cresceram com LeBron e Kobe Bryant como ídolos.

Mas uma coisa é certa: a grandeza de Jordan fará com que seja mais difícil tirá-lo do posto do que qualquer outro que veio antes dele.