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Ex-chefe de LeBron, técnico lendário da NBA diz porque não acha o astro o maior de todos e escolhe o seu 'GOAT'

Pat Riley ganhou quatro títutlos da NBA com os Lakers e mais um com o Heat


Em 1985, no auge da rivalidade entre Los Angeles Lakers e Boston Celtics, duas questões circulavam pela NBA:

Algum outro time consegue chegar nas Finais além dos Lakers e Celtics?

Será que Kareem Abdul-Jabbar vai se aposentar depois que seu contrato acabar, no final da temporada?

O lendário pivô dos Lakers estava em sua 17ª temporada da NBA. Até aquele momento, ninguém havia jogado tanto tempo quanto o atleta.

Kareem já tinha passado o grande Wil Chamberlain, em 1984, em pontos na NBA. Era o atleta com mais pontos na história e estava em seu melhor momento: foi nomeado MVP das Finais, dando o título para sua equipe, em 1985.

E o mais importante: Abdul-Jabbar continuava com vontade de jogar.

Mas, como seu técnico naquele momento, Pat Riley contou para a ESPN, em uma entrevista sobre o recorde de Kareem, o mesmo que LeBron está prestes a quebrar:

"Você precisa ter uma motivação."

"Quando Magic Johnson chegou na temporada 1979/1980, Kareem já estava com 32 anos", comentou Riley: "Mas ele viu o desenvolvimento dos Lakers vencendo em 1980, contratando Bob McAdoo em 82, Mychal Thompson, A. C. Green, Byron Scott e todos esses outros jogadores... Ele viu que o time poderia vencer um campeonato todo ano. Então ele estava inspirado por isso. Se ele tivesse que carregar o Milwaukee Bucks naquele momento, sem todas estas chances, talvez ele não teria jogado 20 anos."

No começo de um treinamento de pré-temporada, em 1985, o gerente geral da equipe e antigo jogador Jerry West ofereceu um contrato de extensão, por dois anos, para Kareem, o que permitiria que jogasse até os seus 40 anos, caso fosse do seu desejo.

"Existem alguns rumores de que ele iria parar e eu contei a ele. Então Kareem me disse: 'Isso é loucura! Por que eu iria me aposentar?'", comentou West em uma recente entrevista para a ESPN: "Sua presença ali já era o bastante. Seu tamanho, sua habilidade no passe e até como fator de intimidação. Eu falei para ele: 'Você não precisa fazer o mesmo de antes... Olha esses caras ao seu redor. O único momento em que você realmente precisará jogar não será antes dos playoffs.'"

E funcionou. Kareem jogaria mais quatro temporadas e ganharia dois títulos da NBA. Ele também anotou 5.125 pontos nestas últimas temporadas, chegando na marca de 38.387 pontos na carreira, sozinho como maior pontuador na história da NBA, que LeBron James tenta quebrar 34 anos depois.

Tal como a maioria que está na NBA, Riley, presidente do Miami Heat, está presenciando o final da carreira de LeBron e em alto nível. Está com médias de 35,1 pontos por jogo desde que fez 38 anos, no dia 30 de dezembro, com um misto de admiração e reverência.

Mas, diferentemente da maioria das pessoas que estão na liga, Pat Riley já viu este domínio em fim de carreira antes: do próprio Kareem Abdul-Jabbar.

"Eu sempre disse que Kareem foi o melhor jogador da história por conta da sua longevidade", comentou Riley: "Kareem foi único, desde o começo, quando podia jogar em alto nível, participando de 80 partidas em um ano... Conseguia ainda bater marcação dupla, às vezes tripla, e caras que continuavam em cima deles. Ele desenvolveu sua força mental aliada a um grande corpo físico, que durou por muito tempo."

Há vários paralelos que estão fazendo sobre Kareem e LeBron, afinal, compartilharam de uma singularidade que é ser um jogador com bastante longevidade na liga e em um alto nível, tomando cuidado com seus corpos e as circunstâncias de extensão de contrato que se submeteram com os Lakers, na temporada em que atingiram 38 anos.

Mas, o mais impressionante de ambos os jogadores, é que, mesmo com idade avançada, continuaram ótimos jogadores, mesmo que vários jogadores contemporâneos tenham se aposentado.

"Eu colocaria Michael [Jordan] aqui também", comentou Riley: "mas Kareem é o maior da história por conta da sua longevidade e o fato de que continuou mantendo um desempenho sensacional no final dos 30 e aos 40 anos."

LeBron, que está em sua 20ª temporada, ainda é considerado um dos melhores jogadores da NBA. Foi nomeado como Jogador da Conferência Oeste, depois de ter médias de 35.0 pontos, 9.0 rebotes, 7.0 assistências e 1.3 tocos em quatro jogos. Os Lakers venceram três deles, contra Houston Rockets, Memphis Grizzlies e Portland Trail Blazers. Ele é o sexto maior pontuador na NBA em média, anotando 29,8 pontos por jogo.

Não é a mesma chance de vencer como Abdul-Jabbar tinha nos Lakers de 1985/1986, mesmo assim é uma grande chance com estes jogadores saudáveis.

Para Riley, essa esperança e poder pensar em título, é tudo para o jogador que está neste momento da carreira.

"É exatamente onde LeBron está. Eu não estou falando das coisas que ele diz na mídia, mas digo que é a única razão para continuar jogando", comentou o antigo treinador dos Lakers: "Quebrar o recorde de pontuações seria grandioso para ele e vai acontecer. Mas LBJ quer ganhar títulos. É isso que move ele. Para que LeBron continue jogando neste nível, com a esperança de que o time vai voltar ao eixo certo com a volta de Anthony Davis. Acho que é possível, com todos saudáveis. Acho realmente. E eu acredito nisso também."

Mesmo que seja difícil para quem está de fora assumir, Riley ainda torce para LeBron, menos quando joga contra o Heat, claro. O presidente do Miami e o ala já compartilharam uma história juntos, por quatro anos (2010-2014), e conseguiram dois títulos. Mais do que isso: Riley aprecia o comprometimento de LeBron com o jogo e com todo sua construção.

"É difícil para mim comparar os jogadores que tive nos anos 70 e 80 com a mentalidade dos atletas de hoje em dia", comentou Riley: "Antes tinha uma questão de honra a cada partida. Eu sempre lembro dos dois números que eram mais respeitados: 906 e 1.192. O primeiro é referente ao tanto de jogos consecutivos que Randy Smith jogou, pelo Buffalo Braves. O outro é de A. C. Green, que perdeu seu primeiro jogo quando se aposentou. Então a mentalidade era diferente. Tinha essa questão de honra. Hoje não. É sobre descanso, cuidar de tudo que puder, ter certeza que você não fará muita coisa ou vai se machucar. Hoje tem várias preocupações e acho que isso é bom, mas é diferente. Então, para LeBron conseguir jogar durante esta era, de 2003 até hoje, durante este período que mencionei, com toda esta troca mental, só mostra o grande jogador que ele é."

James perdeu apenas 165 jogos em seus 20 anos de carreira. 94 deles aconteceram nas últimas cinco temporadas. Na NBA contemporânea, isso demonstra o quão durável tem sido.

"Conforme você envelhece, a NBA vai ficando mais formidável", comentou Riley: "Ele tem seus treinadores pessoais e as pessoas que o ajudam a manter seu corpo da melhor maneira possível, com tudo que há de melhor no mundo."

Kareem tinha o mesmo nível de comprometimento para se manter forte conforme o tempo passava, comentou Riley.

"Eu acho que se você olhar a carreira dele, com a exceção do momento que ele socou um cara [o calouro dos Bucks, Kent Benson] e quebrou seu punho, e naquele outro momento que teve um problema no tornozelo [nas Finais de 1980], eu não lembro de Abdul-Jabbar se machucar", continuou Riley ao falar de permanência: "Ele era um grande atleta."

Se algo ajuda, Kareem estava além de seu tempo na maneira de tomar conta do seu corpo.

"Sua longevidade vem de algumas coisas que a maioria dos jogadores não sabem que existem ou sequer tiram um tempo para aprender", comentou Riley: "Kareem fazia yoga. Ele realmente fazia yoga a profundidade necessária na meditação. Naquele tempo, quando alongamento era colocar 15 jogadores em volta e ficar 15 minutos conversando, dando tapa um nas costas dos outros."

Kareem era diferente.

"Ele terminaria naquelas posições difíceis e outros jogadores iriam rir dele, até que Kareem diria: 'Você vai entender um dia. Você ainda vai entender.' Ele era bem serio com isso de acordar cedo e meditar, rezar, comer de maneira saudável e fazer yoga por horas."

Antes dos jogos, quando outros jogadores estavam malhando e ouvindo música, algumas vezes Riley achava Abdul-Jabbar lendo em seu vestiário, às vezes fazendo alongamento ou até meditando.

"Tudo isso acalmava sua mente e seu corpo", comentou Riley: "para chegar a um estado em que ele dava conta de tudo, seja o oponente que for, qualquer defesa que colocassem em jogo, qualquer ameaça individual ou qualquer coisa extra-quadra. Ele passou por muita coisa, mas continuou em alto nível."

Em setembro, Riley e Johnson organizaram férias no Hawaii, para todos os jogadores do Lakers que estavam naqueles times campeões da era "Showtime" de Los Angeles. O encontro havia sido adiado por conta da pandemia da Covid-19.

A organização colocou tudo que você espera de férias em locais paradisíacos: golfe, natação, alguns discursos, música da época. Riley até preparou um treino para eles.

"Eu me senti anos mais jovem. Eu não conseguia dormir, pensei em um plano de treinamento e ali, três da manhã, eu terminei, depois de escrevê-lo cinco vezes" comentou o antigo técnico da equipe, sem qualquer brincadeira: "E, é claro, nós não conseguimos colocar nada em prática porque os jogadores não estavam tão comprometidos com a situação e ficavam questionando, do tipo: 'O que? Nós vamos fazer alongamentos? Sério?'"

Mas isso foi melhor do que se esperava, principalmente porque todo mundo estava empenhado de fazer. Até Kareem, que não gosta muito dos holofotes, estava presente.

"Ele estava um dia atrasado porque teve que lidar com alguns problemas", comentou Riley: "mas, no momento em que chegou, tudo ficou do jeito que sempre foi, com ele no comando, como patriarca daquele time. Ele foi incrível: se apresentou novamente, fez discursos com significados do próprio time, esteve presente de corpo e alma."

A história sempre traz detalhes engraçados do seu começo. Riley é um deles: jogou contra Kareem no colegial; foi companheiro de time do pivô; e, mais tarde, seu técnico. Ele viu perto o que Abdul-Jabbar se tornou e tem um carinho grande pelo parceiro de jornada.

"Antes as coisas não eram tão fanáticas quanto hoje, porque não existia mídias sociais, mas Kareem era atacado também. As pessoas ficavam importunando ele, queriam autógrafos e exigiam isso dele, coisas desta natureza.", comentou Riley: "As coisas que eram ditas sobre seu tamanho e tudo isso, fizeram com que ele ficasse quieto. Ele era introvertido e sempre protegia sua privacidade. Neste esporte, é difícil não se proteger, principalmente porque sempre tem aquele tipo de pessoa que espera seu vacilo. Então as questões que a mídia foi trazendo não o agradavam e mal respeitavam isso, por isso preferiu ficar só. Mas, conosco, como companheiro de time e treinador, quando estava no vestiário ou na quadra, ele sempre esteve bem."

Riley continuou seu testamento sobre a grandeza de Kareem: "Nós não vencemos campeonatos sem grandes jogadores na história do esporte, que tinham a melhor artilharia do jogo. Seu chute no gancho (Sky Hook) era imparável e se disseminou no esporte. No último minuto de jogo, ele era o cara certo para este momento.

Kareem era o cara e ele sempre será esse cara."