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NBA Finals: O segredo que fez Stephen Curry 'se reinventar' e dominar as Finais pelo Golden State Warriors

Stephen Curry vem de uma atuação espetacular ao anotar 43 pontos no Jogo 4 das Finais da NBA contra o Boston Celtics


Em um jogo tedioso contra o Cleveland Cavaliers em janeiro, Stephen Curry fez uma de suas comemorações mais raras no fim do terceiro quarto, onde o Golden State Warriors tinha uma boa vantagem de 22 pontos.

Depois de um erro dos Cavaliers, os Warriors conseguem um contra-ataque, e o armador Gary Payton II vê Otto Porter Jr solto na ala direita para uma cesta de 3 pontos. Curry, passando próximo à cesta, e reconhece o que está acontecendo, então segura para fazer o bloqueio da marcação e tira o armador dos Cavaliers, Darius Garland, da jogada.

Eles não estão sozinhos. Próximos estão alguns dos mais altos jogadores, como Kevin Love de 2,10m e o novato de 2,15m Evan Mobley.

Mas existe Curry, com 1,88m, e sua melhor versão, vendo arremessos entrarem e saírem. Ele faz um salto perfeito, segurando a bola com as duas mãos e dando um grito. Então ele salta mais uma vez, marcando a cesta rapidamente colocando o Golden State com 79 a 55 no placar com 2 minutos sobrando no placar.

Curry deu alguns passos em direção a linha de fundo, encarando a torcida no Chase Center. Os torcedores na linha de fundo levantaram para aplaudi-lo, Curry orgulhoso e - tal qual Gabigol - flexiona os braços.

Aí está. O “flex”.

“É legal assistir quando ele consegue rebotes ofensivos e faz seu flex desse jeito”, disse o pivô dos Warriors Kevon Looney. “É sempre engraçado vê-lo fazendo coisas assim.”

“Não é para tentar provocar ninguém”, disse Curry à ESPN. “É para tentar mostrar que posso proteger o meu espaço”.

Aos 34 anos, o duas vezes MVP está listado com 83 quilos, mas atualmente ele diz pesar exatamente 90. Ele é, quase sem questionamentos, o melhor arremessador da história do basquete. Ele mudou a forma que o esporte é jogado no mundo todo. Mas ele não é exatamente conhecido por seu físico.

Segundo Draymond Green, que faz o mesmo gesto sendo conhecido por sua força, as aparências enganam quando se trata de seu companheiro de equipe.

“Ele é forte. E quando eu digo forte, eu quero dizer forte”, disse Green à ESPN. “Tipo, se você for na nossa academia, e ele estiver levantando halteres, Steph está no clube da centena [de quilos]. Não são todas as pessoas que conseguem levantar tanto peso. Suas pernas são muito fortes. Essa mudança aconteceu no ano passado”.

Boatos sobre as proezas de Curry ao longo dos anos circulam entre os treinadores de força e condicionamento da NBA. E na equipe técnica dos Warriors.

“É incrível o quanto ele mudou ao longo dos sete anos que eu estou aqui”, contou o treinador Steve Kerr. “Eu diria que nos últimos três anos, tem sido muito clara as mudanças em seu corpo”.

O assistente técnico dos Warriors complementou: “Ele nunca levantou tanto peso”.

Treinadores dos Warriors e atletas dizem que seu foco nos treinos para aumentar a força foi crucial para sua evolução defensiva. Mas ao mesmo passo que isso ajudou os Warriors a se consolidar como a segunda melhor defesa, isso também ressurgiu uma longa discussão sobre quem seria o melhor jogador da história da NBA - incluindo Michael Jordan, LeBron James e Kobe Bryant.

A principal característica de Curry e levantamento de peso por muito tempo são consideradas coisas que não combinavam - um equilíbrio delicado de encontrar entre desenvolver força e músculos, enquanto mantém mobilidade, flexibilidade e a sensação de que fortaleceram o melhor arremessador da história da NBA.

Ainda assim, muitos preparadores físicos da NBA dizem que Curry, o maior pontuador de 3 pontos do esporte, é o melhor exemplo que ainda será visto de como treinos de fortalecimento não atrapalham como amplificam sua característica mais valiosa.

“Eu nunca me importei muito com isso, pois existe um plano para conseguir balancear os dois”, explicou Curry à ESPN. “É preciso manter a flexibilidade e tudo mais enquanto ganha cada vez mais força. E eu acho que descobri como fazer isso”.


PERGUNTE A KYLE KORVER e ele vai explicar o que foi adotado como verdade em sua juventude.

“Se você levantar muito peso, você vai arremessar mal”, ele diz.

Com 17 anos na NBA, ele acreditou muito nisso durante seus primeiros anos como profissional. Ele continuou levantando peso - para ajudá-lo a ficar mais rápido, pular mais alto, ou ficar mais forte - mas Korver pensava que arremessar bem estava mais ligado ao ritmo, melhorar o movimento de pulso, resultado de melhorias, uma sequência quase mecânica que começa com a força passando dos pés até a parte de cima do corpo.

“Isso foi um fator determinante para jogadores de basquete não levantarem peso”. explicou o doutor Marcus Elliott, fundador da P3 Applied Science Lab, que avaliou dois terços dos jogadores ativos da NBA. Elliott diz que por tempos foi difícil mudar o pensamento de armadores cuja especialidade era arremessar de longe.

Entretanto, depois de sua quinta temporada, Korver foi para o Utah Jazz, o primeiro time parceiro da P3. O Jazz visitou a sede da P3 em Santa Barbara, Califórnia, onde câmeras para análise de movimento, placas de força e especialistas ajudaram a mostrar para Korver quais músculos impactavam em seu arremesso, e como mantê-los fortalecidos poderia melhorar sua mecânica. Depois de sua visita, Korver começou a visualizar seus movimentos para arremessar e o quanto de força passava por ele. Com o passar do tempo, Korver começou a arremessar como ele gostaria há muito tempo.

“Todos diziam que seu arremesso começa nas pernas” ele contou. “Existe muita verdade nisso. É onde muita força fica. Então para mim, quando eu arremessava, muitas vezes, se eu estivesse arremessando mal, não é que eu de alguma forma esqueci como arremessar ou que eu arremessei de um jeito diferente; muitas vezes era uma parte do meu corpo que não estava forte ou estava fatigada”

Contando os playoffs, Korver fez 2704 cestas de 3 pontos, o quinto maior número em todos os tempos. Ele acredita que foi por conta de sua musculação - “Foi tudo” para sua longevidade.

Korver foi convertido, mas certas questões ainda persistem. Chelsea Lane, que trabalhou com o desempenho atlético em vários times da NBA, lembra do debate dentro dos vestiários: que levantamento de peso faria os jogadores pouco flexíveis, muito pesados, que isso iria prejudicar seus arremessos ou sua habilidade de saltar. Isso deixou ela assustada, e ela teve que convencer os jogadores. “Do que vocês estão falando? Vocês não querem vencer? Não querem encontrar a melhor forma?”, disse Lane: "Às vezes é um medo e não a realidade, e nós podemos mostrar estatísticas que seu arremesso não está ruim.”

Kerr, por sua vez, acha graça nesse conflito: “Eu acho que é verdade por um dia, tipo quando você faz exercícios pela primeira vez”

Tom Grover, que treinou Michael Jordan e Kobe Bryant, entre outros, diz que treinos de fortalecimento frequentemente são um assunto sensível entre os armadores, até entre os melhores. “Eles sempre tiveram medo que isso iria mudar seu arremesso” explicou Grover. “E vai mesmo. Não tem como mudar isso”

Mas Grover sinalizou a mesma coisa que ele disse a Bryant e Jordan na offseason quando eles tentaram novas rotinas de treinos de fortalecimento: por um curto período de tempo, enquanto seus corpos estavam se ajustando, o arremesso deles não estaria na melhor forma. Mas iria melhorar - talvez em uma semana ou duas.

Jordan e Bryant entenderam esse alerta como um desafio, e tentaram arremessar durante o período de ajuste. Ainda assim, Grover falava dos benefícios: que o treino de fortalecimento ajuda os ligamentos e os tendões a continuarem saudáveis, e ajudam na recuperação de lesões. Existia um equilíbrio, ele disse a eles, como ganhar força sem ganhar muito peso. E às vezes, jogadores tinham que achar seu ponto ideal; para Jordan ficou entre 96 e 98 quilos, segundo Grover.

Brandon Payne, treinador pessoal de Curry há muitos anos, diz que cada quilo tem maior importância no jogo atual: “O ataque está muito espalhado, as janelas estão mais complexas, os ângulos são muito difíceis de defender. Se adicionar um pouco de peso, deixando você mais lento, faz uma grande diferença defensivamente.

Curry, para ficar claro, não está tentando quebrar recordes ao levantar peso.

“Não tem que ser um treino superexigente”, disse Curry. “É ter atenção constante aos detalhes de quais resultados eu tenho do treino de força e condicionamento, e ter certeza de que posso me manter nesse nível pelo máximo de tempo que eu conseguir”.

Longevidade é o objetivo, mas as impressões sobre a força incomum de Curry começaram a surgir há muito tempo.


COMEÇOU NO baseball.

Duas décadas depois, Bob McKillop ainda consegue imaginar Curry com 10 anos no diamante, jogando nos times juvenis em Charlotte, Carolina do Norte. Embora leve, McKillop, que mais tarde treinaria Curry em Davidson, notou rapidamente a coordenação mão-olho de Curry, mas também sua força natural: a forma como a bola saia das mãos de Curry quando ele jogou do meio do campo, a força com que ele balançou o bastão.

“Ele tinha uma força impressionante no pulso”, McKillop disse. “Ele tem muita força nos quadris também”.

McKillop, que ainda é o treinador principal do basquete masculino em Davidson, percebeu algumas dessas características quando treinava Curry na quadra também, especialmente a forma que os pulsos de Curry conseguiam rapidamente lançar a bola quando ele estava a distâncias cada vez maiores da cesta. Curry, ele sabia, sempre foi muito mais forte do que aparentava.

Avançando até uma manhã de verão escaldante durante o lockout da NBA 2011, quando aproximadamente uma dúzia de atuais e ex-jogadores da NBA se reuniram no Accelerate Basketball Training Center de Payne em Fort Mills, Carolina do Sul. Entre eles Curry, com 22 anos, que tinha acabado de concluir sua segunda temporada na liga. Em seu primeiro treino juntos um dia antes, o foco era treinar habilidades. E depois de outra sessão de treino que durou quase uma hora, Payne decidiu que um bom exercício para terminar seria recheado de flexões, que teriam um peso de 20 quilos nas costas de cada jogador. Curry fez algumas, e depois pediu por um segundo peso de 20 quilos em suas costas. Ele fez mais algumas, depois pediu um terceiro. Eventualmente, Payne decidiu que Curry havia feito muitas flexões.

“Ele não é a imagem da força”, disse Payne, que treina Curry desde 2011. “Mas ele é incrivelmente forte”.

Dois anos depois na academia dos Warriors, Keke Lyles, que tinha sido recém contratado como diretor de performance, olhou para Curry, pensando no quão forte um armador de 24 anos seria. Como um teste para “sentir” o quão forte ele era, Lyles diz que pediu para Curry fazer um agachamento enquanto segurava um peso de 45 quilos. Curry fez com facilidade, fazendo várias repetições com extrema coordenação e controle.

“Nossa, ele faz parecer fácil”, Lyles se lembra de pensar.

Em uma variedade de exercícios ou Curry ficando em uma posição desafiadora para testar a resistência de seus músculos, Lyles logo descobriu que Curry tinha um reservatório sem fundo de força.

“Eu não lembro de nada ser muito para ele”, disse Lyles. “Ele sempre falava ‘Vamos fazer mais. Qual o próximo [exercício]?’”.

Em 2015, um pouco antes de Lyles ir para o Atlanta Hawks, ele comprou um peso de 90 quilos. E Curry passou a usá-lo para fazer agachamentos - mais uma vez, com facilidade.

“Aquele era o mais pesado que consegui encontrar na época'', lembra Lyles. “Se eu tivesse encontrado um mais pesado eu teria comprado.

Durante quase uma década na NBA, Lyles trabalhou em cinco times, treinando por volta de 150 jogadores e até hoje diz que Curry é “um dos jogadores mais fortes que já trabalhei em termos de peso corporal”.

Lane, diretora de performance e medicina esportiva dos Warriors de 2015 a 2018, diz que ela percebia isso nos lugares mais improváveis - em uma quadra de vôlei de areia, em um parque público em Oakland. Lá, ela pediu para Curry ficar em pé, e mover seu corpo para frente enquanto mantinha seus pés na areia. Esse exercício é feito para ajudar a fortalecer os pés no momento do salto, especialmente para saltar como se estivesse em uma cama elástica. Enquanto ela explicava o movimento, Curry não achou que fosse possível. Mas depois de apenas algumas repetições, ele estava executando com perfeição, disse Lane. Ele executou com perfeição todos os exercícios que ela pediu para ele fazer. “Eu trabalho com medicina esportiva e performance há 25 anos'', disse Lane. “Ele é um dos atletas mais especiais com quem já trabalhei”.

Em 2019, como GM dos Warriors, Bob Myers estava na academia do time em Oakland. Curry fez uma série de agachamentos com diversos tipos de peso. Myers, impressionado, comentou com um dos treinadores da equipe. Ele respondeu dizendo que Curry era o jogador mais forte peso por peso do time.

“Eu acho que isso não é nada óbvio”, contou Myers, “E isso faz sentido. Arremessar de uma distância que exige muita força nas pernas”.

Ao saber da marca peso por peso, Curry disse a ESPN, “É meio engraçado porque eu era um graveto por tanto tempo. Molhado eu pesava 80 quilos. Mas isso é resultado de muito trabalho”.


ASSISTINDO CURRY, OS treinadores dos Warriors dirão para você observar quanto contato ele suporta quando ele corre até a cesta, quando ele enfrenta defesas colapsando em cima dele, quando ele é trombado ao sair de bloqueios. Observe o nível constante de contato dos times que tentam pará-lo.

É mais uma razão, segundo eles, que justifica o treinamento de força de Curry ser essencial.

“Todos esses anos, nós vimos times marcando ele”, disse Green à ESPN. “Steph é um competidor. Ele se move melhor lateralmente - muito melhor do que costumava se movimentar antes".

“Ele é muito melhor defensivamente do que as pessoas acreditam que ele seja”, disse Kerr, “e todo mundo vai tentar marcá-lo porque ele é bom ofensivamente. Então, principalmente nos playoffs, vão tentar atacá-lo vez após vez para pressioná-lo para ele errar os arremessos. [Mas] Ele está em grande forma e forte o suficiente para suportar [essa pressão]”.

Payne, que diz que o treino de fortalecimento de Curry ainda é insignificante em comparação com o quanto ele se dedica aos arremessos, afirma que os dois anos que os Warriors ficaram fora dos playoffs, combinado com a pandemia da COVID-19, deram a Curry a oportunidade de não apenas se recuperar totalmente de cinco Finais de NBA seguidas dos Warriors, mas também fortaleceram seu corpo que já está mais envelhecido.

“A força adicional era uma necessidade”, explicou Payne, “porque você tem que estar forte quando tenta chegar até a cesta, tem que ter força para criar espaços, certamente você precisa ser forte para ter vantagem com a bola”.

“E ter vantagem com a bola é o que permite você criar espaços ao sair do drible como arremessador. Então, não se trata necessariamente apenas do ato de receber a bola e arremessá-la. É todo o trabalho por trás de cada arremesso."

Esse período também deu a Curry e Payne a oportunidade de criar um programa de treinos que Payne acredita que vai ajudar a prolongar a carreira de Curry e mantê-lo em forma até o fim dela.

Segundo Payne, ela foca em eficiência neuromuscular - resumindo, Curry está se capacitando para ler melhor e reagir [aos adversários] para evitar desgaste desnecessário. “Ele não tem diminuído o ritmo, e ele não vai baixar tão cedo”, disse Payne, “mas, caso ele diminua, queremos que sua eficiência ao tomar decisões ajude a suprir onde for preciso. Cada drible, cada passo, cada arremesso na offseason tem que devolver algo positivo”.

E o impacto está sendo percebido na liga como um todo, assim como Looney, brincando, disse que Curry agora possui a "força do homem velho".

“As pessoas se desenvolvem e amadurecem fisicamente de formas diferentes”, explica Payne. “Muitas pessoas desenvolvem essa força aos 27, 28 anos. Steph está chegando nesse momento agora. Isso dará a ele muitos anos extras em quadra”.


HOJE, QUANDO KORVER vê a distância que Curry arremessa, ele sente um pouco satisfação. Pensavam que esses arremessos eram impossíveis, mas eles mudaram a dinâmica de espaço em todo o esporte.

“Hoje estão arremessando a bola de diferentes ângulos e lugares não porque estão arremessando de um jeito diferente”, disse Korver. “Eles estão mostrando mais força porque estão mais fortes”.

Looney, companheiro de Curry há sete temporadas, sabe onde começa essa força.

“Ele está sempre malhando”, disse Looney, “trabalhando mais”.

“E isso define o ritmo para o resto do time”.