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Como brasileira foi de fazer gol na seleção para estrelar evento especial do UFC

Lutadora brasileira de MMA Bruna Brasil durante pesagem do UFC em Londres, Inglaterra Chris Unger/Zuffa LLC via Getty Images

Não é sempre que o UFC oferece uma oportunidade de protagonizar um evento especial. Mas foi isso que aconteceu com Bruna Brasil, atleta peso-palha, que viu sua luta contra Shi Ming, sensação chinesa do MMA, no Road to UFC Season 4, que acontece nesta sexta (22), em Xangai, às 7h.

O “Road to UFC” é uma série de lutas voltadas à expansão do mercado asiático na promoção, colocando lutadores da região contra atletas duros de outras regiões. Shi Ming, nesse caso a grande estrela do evento, que inclusive ocorre um dia antes do evento principal no país, viralizou recentemente devido à baixa estatura e por levar uma “vida dupla” como acupunturista e lutadora profissional.

De seu lado, Bruna, representante da badalada equipe brasileira “The Fighting Nerds”, não recebeu essa oportunidade sem motivos, e tampouco pretende servir de “cordeiro sacrificial” para Shi Ming.

Natural de Paranavaí, cidade ao noroeste do Paraná e a mais de 800 quilômetros da capital Florianópolis, Bruna trabalhou muito para chegar onde está. Vinda de uma derrota para a também chinesa Wang Cong, a brasileira não quer perder sua oportunidade de finalmente se aproximar do ranking dos palhas.

Entretanto, se a Bruna Brasil de hoje em dia sonha com o cinturão do UFC e a glória no mundo das lutas, a Bruna Emanuele Brasil, que cresceu rodeada de sua família e, brincando nas ruas, tinha sonhos também muito ambiciosos, mas… de um esporte completamente diferente.

Muito antes de eventos principais, nocautes ou vermelhos no rosto, Bruna queria ser atleta… de futebol. Como boa parte dos brasileiros, país que ela carrega inclusive no sobrenome, sua primeira paixão foi jogar bola. Citando ídolos como Cristiano Ronaldo, Marta e Formiga, o primeiro sonho da vida da brasileira tinha como palco, portanto, os gramados.

Assim como o esporte, a vida é cheia de surpresas, e roteiros inicialmente tão óbvios se mostram cheios de reviravoltas. Mas, muito antes de usar as pernas para o maior nocaute de sua vida, Bruna as colocou em cima de uma bola de futebol e saiu jogando pelas quadras de Paranavaí, com a cabeça cheia de sonhos, mas as pernas já recheadas de habilidade.

Os primeiros chutes (na grama)

Paranavaí é uma cidade de mais de 1 milhão de km² e que, em 2024, ainda não tinha alcançado 100 mil habitantes. E foi lá que Bruna deu seus primeiros passos dentro e fora do esporte. Viveu uma vida tranquila, rodeada dos pais, irmãos e amigos em brincadeiras de rua, sempre recheadas pela comida da mãe.

E foi nessa dinâmica familiar de constantes atividades que Bruna se aventurou nos esportes, em vários, na verdade, atletismo, handebol. Mas a primeira paixão foi a mesma de muitos outros brasileiros: o futebol.

“Meu pai até hoje joga futebol. Eu sempre acompanhei muito ele e essa paixão dele. Então, eu, desde pequena, queria jogar futebol, fazer tudo que o meu pai fazia. Comecei desde novinha brincando na rua e depois em escolinhas, treinando com os meninos, até ficar adolescente e comecei a treinar com as meninas da cidade. Foram anos dedicados a esse esporte”, relembra Bruna ao falar da infância.

E os anos de dedicação começaram a render frutos. Jogando futebol e futsal em sua cidade, Bruna começou a ganhar habilidade e, com ela, destaque. Atacante nata, com faro de gol, viu sua trajetória a deixar frente a frente com um adversário impensável: a seleção brasileira. O resultado foi duro, uma sonora derrota por 21 a 1. Esse último “1”, entretanto, foi assinado por um sobrenome curioso: Brasil.

“Quando eu era adolescente, saiu que a Seleção Brasileira ia fazer amistosos nacionais. E minha cidade, por coincidência, foi escolhida para ser uma das sedes. Então, o pessoal juntou todas as meninas da região e a gente fez um amistoso com a Seleção Brasileira. E foi onde eu fiz o gol, o que também é uma coisa que é bastante marcante na minha vida. Foi muito incrível esse momento.”

E, se dependesse da vontade de Bruna, esse gol seria só o início de uma carreira muito mais longeva. Chegou a dar entrevistas na época, virou estrela regional e realmente se dedicou ao futebol até os 17 anos. Chegou a passar em um teste de um time da região de Foz do Iguaçu em meio a meninas da seleção, mas, ainda muito franzina, foi dispensada seis meses depois.

Então foi hora de voltar para casa e repensar a carreira. Outras oportunidades no futebol até surgiram, mas com a estrutura precária do futebol, Bruna resolveu, em suas próprias palavras, “crescer na vida de outra forma” e saiu de Paranavaí para estudar. O esporte profissional, na época, pareceu ficar no passado, como um sonho frustrado da juventude.

Os próximos chutes (nos oponentes)

Já em Maringá, Bruna traçaria o próximo capítulo de sua vida. Precisando de uma faculdade para encontrar um bom emprego, escolheu ciências contábeis, uma área que “sempre gostou muito”, como ela aponta.

E foi procurando seu caminho em Maringá que, conversando com um amigo, viu o esporte entrar de volta na sua vida. Havia um grupo que treinava K1, uma modalidade similar ao kickboxing, na praça da Avenida Serra Azul, próxima de onde ela morava. Viu sua sede de praticar esportes ser saciada. Logo depois da conversa, ela foi conhecer o projeto e, por cinco anos, não saiu mais.

A transição definitiva de Bruna para o MMA viria graças a uma época de ouro do esporte no Brasil, com grandes nomes como José Aldo e Anderson Silva, e a ascensão da estrela feminina Ronda Rousey foram o suficiente para convencer a paranaense. E logo de cara ela já subiu nos octógonos, sem hesitação, em uma luta que pagaria 150 reais.

“E minha luta já era uma profissional, eu não sabia nem como funcionava, e foi contra a Ariane Sorriso, que também está no UFC hoje, e infelizmente eu perdi, meio que óbvio, até por não entender muito das regras. O árbitro parou a luta num momento ali que eu fiquei sem reação, mais por defesa”

Com a derrota, veio a vontade de se desenvolver. Treinou mais em Maringá, e eventualmente se mudou para o Rio de Janeiro, já aos 26 anos. Buscou deixar seu cartel mais parrudo, recheando-o de vitórias, e conseguiu um agente, Ivan Jatobá. E, após uma luta no LFA, vencendo uma menina invicta, veio o convite para o Dana White’s Contender Series, competição realizada pelo mandatário que serve como “peneira” para a maior organização do mundo.

Então, Bruna iria para São Paulo, conhecer uma equipe indicada por seu empresário para poder se preparar para a grande luta, sem saber o quanto sua vida estava prestes a mudar.

O maior nocaute da história

Ivan Jatobá, na época, já era também empresário de Caio Borralho, atleta e co-fundador da ainda desconhecida Fighting Nerds, atual melhor academia do mundo. Incerta com a mudança, Bruna deu uma chance para a “equipe”, indo apenas conhecê-la para ver se fazia mais sentido que sua estrutura atual.

“Fiquei uma semana no alojamento com os meninos, e fiz os treinos com o Pablo, conheci o Flávio Álvaro mais a fundo, e gostei muito da equipe, da mentalidade, me identifiquei bastante com os meninos, que na época não eram tantos, mas eram muito talentosos, com muita vontade de desenvolver também”, explica.

E, então, com o contrato do Contender Series, Bruna teria mais uma luta pela frente, que seria a divisora de águas entre figurar na maior organização de MMA do mundo ou ficar assistindo das arquibancadas. À sua frente, Marnic Mann, americana até então invicta na carreira. “Uma grappler, sem um jogo de trocação muito afiado”, analisa a brasileira.

Com a pressão da entrevista de emprego mais difícil do mundo nas costas, como ela mesma admite, Bruna, mesmo assim, subiu no octógono e performou. Performou tão bem, inclusive, que a única reação de Dana White após a luta foi dizer que ela havia conquistado “o maior nocaute da história do Contender Series Feminino”.

“Como ela é uma atleta que não se movimenta tanto e joga mais centralizada, com o corpo à mostra, ela abria muito caminho para os chutes. Na hora em que eu senti que isso era possível, eu joguei um cruzado, mais para direcionar o corpo dela, e automaticamente joguei o chute. Como ela estava com a guarda baixa, entrou em cheio no meio da cara dela.”

“Na hora eu não entendi nada do que ele estava falando, eu só ri e sorri, e todo mundo dando o sinal de positivo para mim, na minha frente, deu certo, eu fiquei felizona”, brinca Bruna, lembrando de quando descobriu que foi contratada.

E, em um roteiro de filme, a ex-jogadora frustrada de futebol havia usado um chute para conquistar seu maior sonho. O passado nos campos, admite ela, foi algo que ela teve que superar, com as pernas mais travadas que tiveram que ser soltas nos treinamentos. Mas foram elas que, dessa vez, conseguiram levar Bruna até onde queria chegar.

Dias de luta, dias de glória

De contrato assinado, Bruna havia realizado seu primeiro objetivo, mas agora se encontrava no primeiro degrau rumo a um sonho muito mais longo: o cinturão. Entretanto, ao contrário de sua luta no DWCS, seu caminho até o título não seria tão fácil.

A tão esperada estreia de Bruna, por exemplo, não poderia ser classificada como dos sonhos. Mesmo chegando empolgada para o embate, depois de um “descarrego de adrenalina”, a brasileira foi nocauteada com uma pesadíssima mão direita pela compatriota e ex-colega de equipe Denise Gomes. “Depois que acabou, eu fiquei super chateada, super triste, é difícil”, relembra.

Mas Bruna, que já havia enfrentado inúmeros desafios nas muitas carreiras antes de ser lutadora, não se mostrou disposta a desistir. Casada em luta com a duríssima, e até então invicta, kickboxer irlandesa Shauna Bannon, Brasil reagiu e conquistou seu primeiro triunfo em decisão difícil, na casa da adversária. “Sentimento de dever cumprido”, como ela mesma coloca.

A vitória convincente, entretanto, não se converteria em uma sequência positiva para a brasileira. Prestes a assinar seu contrato para enfrentar a tailandesa Loma Lookboonmee, Bruna se veria traída pela primeira paixão da sua vida e se lesionaria jogando futebol com a família.

“Eu fui a um aniversário de família e fui brincar de bola no gramado ali, faltando três meses para a luta. E, correndo sozinha, meu joelho virou para dentro e eu achei que tinha rompido todos os meus ligamentos”, relembra.

“Aí fui para o hospital, fiz todos os exames, fiquei em choque e tudo mais e fiquei um mês fazendo fisioterapia. Saiu o resultado da ressonância e meu joelho estava intacto. Como deu que não tinha rompido nada, eu falei assim: eu quero lutar e vou me recuperar até a luta.”

“Com toda essa dificuldade que eu passei durante o camp, especialmente emocional, eu tinha certeza de que eu ia vencer, ia matar ela, ia dar certo, sabe?”. Porém, infelizmente, não deu, e Bruna voltaria para o caminho das derrotas.

Admitindo que errou na estratégia da luta, sendo surpreendida pela postura pouco agressiva da adversária, Bruna acredita que: “Na minha opinião, eu venci a luta, assistindo (ela depois). Muitos concordam comigo, outros não, claro. Mas o fato de ter ficado tão nas mãos dos árbitros me chateou muito, porque eu deixei escapar a vitória por ficar muito presa na estratégia e não me soltar, sabe?”, explica.

Mas a chateação não poderia durar muito. Estando com duas derrotas e somente uma vitória, Bruna Brasil chegaria à última luta de seu contrato atual com o UFC. Com sua carreira na linha, a atleta receberia um de seus desafios mais difíceis até então: a britânica Molly McCann, veterana, favorita do público e que ostentava, na época, o invejável cartel de 14 vitórias e seis derrotas, no UFC 304, em Manchester.

“Com toda essa situação de ser a última luta do contrato, você fica com várias nuances de sentimentos, mas isso tudo eu tive que trabalhar durante o camp. Eu falei: 'Eu vou me reconectar comigo, eu preciso curtir estar lá, curtir lutar, me divertir, sentir a emoção de estar lá dentro', descreve Bruna.

Bruna então fez jus ao seu pensamento de entregar a melhor luta possível, chegando a dar um knockdown na lutadora da casa, passando perto de finalizá-la e vencendo por decisão unânime, se sentindo com “superpoderes”, como ela mesma aponta.

Entretanto, de forma irônica, Bruna veria a história de sua carreira se repetir. Após derrotar uma britânica em decisão convincente, Brasil se lesionaria, agora de forma ainda mais grave, antes de enfrentar uma asiática, dessa vez a chinesa Wang Cong, na categoria de cima.

“Quando o UFC me ofereceu a luta, eu havia acabado de romper os ligamentos do ombro. Tomei uma queda de judô, e a pessoa caiu por cima de mim, caí de bico no tatame. Estava na expectativa de uma luta em março, então decidi não operar, porque precisava renovar meu contrato. Eu estava de tipoia e a Vanessa, minha esposa, que estava me dando banho”, disse Bruna.

Mesmo assim, para continuar vivendo seu sonho, Bruna subiria no octógono do UFC 312, na Austrália, e faria uma luta duríssima com Wang Cong. A brasileira enxergaria um duelo parelho, mas reconhece o nível de sua adversária.

Mas, mesmo com a derrota, Bruna não seria dispensada e teria mais uma chance de iniciar sua escalada até o título, dessa vez em um evento especial contra mais uma chinesa, que lutaria em casa. Mas dessa vez, novamente nos pesos-palha.

O cinturão

Agora Bruna se encontra com o cartel de 3 vitórias e 3 derrotas no UFC, contando o Contender Series. E, após ter o contrato renovado mais uma vez, se encontra em um ponto crítico de sua carreira e de sua busca pelo cinturão: a vitória contra Shang Mi na casa da adversária pode determinar sua permanência no UFC, um cenário no qual ela já se encontrou mais de uma vez.

Reconhecendo que a chinesa é uma atleta “explosiva e enérgica”, Bruna se diz preparada para a melhor versão de Shang Mi. Até por isso, não enxerga a luta chegando nas decisões dos juízes. “Estou bastante confiante em finalizar a luta antes do último round”, diz a lutadora.

Com essa vitória, como ela já fez outras vezes, Bruna volta a planejar uma trajetória positiva até o cinturão. O objetivo da brasileira é uma adversária ranqueada, um importante primeiro passo real até o título. Depois disso, talvez chegue a hora em que a brasileira saia do campo dos sonhos.

“Eu sinto que ser campeã da UFC deixou de ser um sonho e começou a se tornar realidade dentro do meu coração. Eu acredito que dentro de três anos eu posso estar no top cinco disputando essa vaga para disputar o cinturão”, explica Bruna.

E Bruna não esconde a confiança e a determinação que sente quanto ao seu objetivo final. Quando questionada sobre a mensagem que deixa para todas as suas futuras oponentes nessa jornada, a brasileira é direta.

“A mensagem que eu quero deixar para minhas adversárias é que estejam bem preparadas porque eu estou chegando para aniquilar todo mundo que estiver na minha frente, porque o meu objetivo é um e eu preciso realizar esse sonho. Eu tenho certeza de que eu vou conseguir, quem estiver na minha frente vou pedir licença e vou passar por cima”, crava Bruna.