Chute Boxe - Diego Lima é uma das principais referências de MMA no Brasil
"Já cansei de ouvir 'mas você trabalha com o quê?' quando falam que você é lutador".
A frase dita por Diego Lima, técnico e manager da filial em São Paulo da academia Chute Boxe, uma das maiores referências na história do MMA brasileiro, representa uma dura realidade não só do mundo das lutas como do esporte em geral em nosso país.
Na maioria dos casos, os atletas abrem mão de estudos e têm que aliar a tentativa do sonho de dar certo no mundo das lutas com outros empregos para tentarem sobreviver financeiramente. Por isso, a Chute Boxe, que já revelou nomes lendários no UFC como Anderson Silva, Wanderlei Silva, Maurício Shogun, Cris Cyborg e Charles Do Bronx, tenta inovar em sua filial paulistana.
"A luta é uma profissão, e muito difícil. É muito difícil viver de esporte no nosso país, ainda mais na luta. Não é que nem no futebol, que se você está num dia ruim tem mais 10 caras para chutar a bola pra você. Minha ideia é que eles tenham todo o respaldo como qualquer outro profissional de qualquer outra área. Nós somos talvez a primeira equipe do mundo onde todos os atletas profissionais têm um convênio médico, todos os nossos atletas têm um plano odontológico. Estou em negociação para que todos tenham um seguro de vida. Não só para caso de uma tragédia, mas sim pra se sofrer um acidente, enquanto não podem treinar ou dar aulas, receber um salário. Se Deus quiser a partir do ano que vem pra eles receberem um salário, não só viver de bolsa de luta. Eu quero chegar nesse ponto. Até 5 lutas, um valor x, de 5 a 10 lutas, um valor y", disse Diego Lima, à ESPN.
Rei do peso leve do Ultimate atualmente, Charles Do Bronx migrou para a Chute Boxe de Diego Lima em 2018, para focar na sua luta em pé. Desde então, foram 11 vitórias seguidas, incluindo as três últimas em disputa de título. Do Bronx tentará recuperar o cinturão que foi tirado dele após não bater o peso nesta semana, no UFC 280, em Abu Dhabi, contra Islam Makhachev.
Charles vem de origem humile e conquistou o mundo. E, segundo Lima, a maioria dos 45 lutadores e lutadoras que fazem parte da sua Chute Boxe atualmente vem da mesma origem e, na maioria dos casos, ao contrário de Do Bronx, ainda buscam um lugar ao sol em cima do cage.
Da periferia a Las Vegas
Por esse motivo, a mensagem que Diego Lima faz questão de passar a todos os seus atletas está estampada na parede da academia.
Em um grafite onde a primeira parte da parede tem uma favela, a segunda um cinturão da Chute Boxe e a terceira o letreiro de Las Vegas.
"90% dos nossos atletas vêm da periferia, não só de São Paulo, mas do Norte e Nordeste do país. E até de outros países. E até o de outros países, eles vem de um nível de pobreza muito grande. A gente se ajuda muito, independente de quem tem mais ou tem menos. Aqui na nossa sala a gente fez um grafiti, que simboliza a periferia, aí passa pela nossa equipe e aí chega em Las Vegas. A ideia é essa, poderem estar todo dia estudando, a famosa lei da atração, que eles enxerguem, que possam passar por aqui e ir pra Las Vegas assinar com uma grande organização".
Essa imagem fica em uma sala de aula no andar abaixo dos tatames e octógono na academia. Sim, isso mesmo. Uma sala de aula com lousa e carteiras.
Na Chute Boxe, Diego Lima dá a seus atletas uma condição inovadora. Além de ensinar as técnicas a luta, também ensina a vencer na vida. "Minha ideia nesse novo espaço era fazer verdadeiros campeões, mas não só nos ringues, também na vida. Por isso a gente acabou implementando algumas coisas como essa sala de aula, onde todos os atletas profissionais fazem aula de educação financeira, educação jurídica, Inglês e Espanhol, que eu acredito que são coisas fundamentais para a vida e não se dedica sobre isso nas escolas".
"Faz mais ou menos um ano que temos essa estrutura, melhorou muito a estrutura do tatame, o octógono maior. Com a pandemia a gente não podia abrir a academia e viemos para um espaço onde a gente podia trabalhar. Nossa ideia é que todos os atletas façam isso, não somente os que estão no UFC. A vida é uma roda-gigante, a ideia é que todos tenham a mesma estrutura".
