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Champions League: Brasileiro que vestiu a 10 em única semifinal do PSG revela conversa que teve com Neymar

Após 25 anos, o Paris Saint-Germain voltará a disputar uma semifinal de Champions League. E uma coincidência une as duas equipes: o dono da camisa 10 era um brasileiro. Em 1995, era Valdo quem vestia o número que hoje pertence a Neymar.

O ex-meia revelado pelo Grêmio e hoje com 56 anos virou um dos grandes ídolos da equipe francesa. Titular da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1990, ele foi um dos grandes destaques do Benfica campeão português que foi vice-campeão da Copa dos Campeões – atual Champions - na temporada 1989/1990.

A ida ao PSG quase não aconteceu porque Valdo tinha tudo certo para se mudar para a Itália.

“Estudava italiano há cerca de um ano e já tinha despertado interesse da Fiorentina. Faltando seis meses para o fim do meu vínculo [com o Benfica], eu assinei um pré-contrato com a Roma e estava tudo certo. O problema é que o presidente Dino Viola morreu e eles barraram todas as transferências”, contou em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.

O meia diz que o clube italiano queria esperar seis meses. Valdo não quis ficar desempregado e começou a olhar outros mercados.

“Devolvi todo o adiantamento da Roma, e o empresário Manoel Barbosa apareceu com o presidente do PSG. Eles me falaram do projeto e eu aceitei.”

Valdo foi parar na França por indicação do zagueiro Ricardo Gomes, que tinha sido recomendado anteriormente ao Benfica pelo próprio meia.

Para aprender a falar francês, o brasileiro lia jornais e assistia aos programas esportivos na televisão, mesmo sem entender quase nada no começo. “É um idioma muito difícil de aprender, e os franceses não nos ajudavam quando errávamos algo (risos)”, recordou.

“Nosso primeiro objetivo era ficar entre os três primeiros na temporada para ir para a Copa da Uefa [atual Liga Europa]. No segundo, era vencer algum campeonato e no terceiro, faturar o Francês”, contou.

Mesmo sendo ídolo no PSG, o brasileiro fazia questão de fazer atividades de uma pessoa normal. No dia seguinte a ter uma de suas melhores atuações pelo time francês – quando brilhou na vitória sobre o Real Madrid pela Copa da Uefa de 1993 –, o brasileiro foi com a esposa fazer compras no supermercado.

“Foi engraçado porque o pessoal olhava e não acreditava que era eu (risos). Mas depois eles vieram falar comigo e pediram fotos e autógrafos. Sempre tinha consciência de que isso tudo um dia iria acabar. Por isso era importante o amor e o respeito!”, explicou.

“Hoje em dia os jogadores atingiram um nível que é impossível imaginar o Neymar no supermercado (risos). As pessoas não estão mais acostumadas com isso. Eles não podem ir aos restaurantes ou praias”, analisou.

O PSG passou a se reforçar com nomes como George Weah, Ginola e Raí, este último uma indicação de Valdo.

“Conheço o Raí desde os 16 anos na Copa São Paulo e criamos uma grande amizade. Era muito fácil jogar com ele. Escrevemos as primeiras páginas internacionais do PSG, que hoje é essa máquina!”, contou.

Champions de 1995

Na Liga dos Campeões de 1995, o PSG classificou-se em primeiro lugar no grupo B com 12 pontos, à frente do Bayern de Munique (seis pontos). Nas quartas de final, eliminou o Barcelona do técnico Johan Cruyff depois de um empate (1 a 1) no Camp Nou e uma vitória por 2 a 1 na França.

Na semifinal, o PSG parou no poderoso Milan após perder os dois jogos (0 a 1 em casa e 2 a 1 em Milão). A equipe rossonera foi derrotada na decisão pelo o Ajax, de Louis Van Gaal.

Curiosamente, Valdo tinha recusado uma oferta do Milan em 1991.

“Era o time bicampeão europeu e seria muito complicado eu conseguir ser titular logo de cara. Esse time era sinistro. Eu confiava em mim, mas eles estavam encaixados”, explicou.

O artilheiro da competição foi George Weah, com sete gols. O liberiano foi eleito o melhor jogador do mundo naquele ano pela Fifa.

“Ele tinha muita força física e ginga. Quebrava de um lado para o outro. Não era tão bom para fazer tabelas, mas participava muito do jogo. Quando embalava com a bola, atropelava todo mundo pela velocidade. O jogo aéreo dele era maravilhoso”, contou

Em quatro temporadas no PSG, Valdo conquistou quatro títulos e fez 14 gols em 147 jogos. Virou ídolo da torcida e um torcedor do clube.

No meio de 1995, voltou ao Benfica, no qual ficou por duas temporadas. Depois, passou por Nagoya Grampus, do Japão, Cruzeiro, Santos, Sport, Atlético-MG, Grêmio e Juventude antes de pendurar as chuteiras pelo Botafogo, em 2004.

Valdo e Neymar

O ex-meia conheceu Neymar em um jogo amistoso promovido por Falcão, craque do futsal, em 2009.

“Fiquei muito impressionado com ele. Lembro que cheguei em casa e falei para o meu pai: ‘Esse moleque é diferenciado demais. A velocidade com que executava os movimentos é algo fora do comum’”, recordou-se.

Valdo só iria reencontrar pessoalmente com seu sucessor da camisa 10 do PSG em 2020. O ex-meia foi ao treinamento da equipe, em Lisboa, após o time francês eliminar a Atalanta nas quartas da Champions.

“É uma honra o fato de que Ronaldinho, Raí, Nenê e Neymar vestiram a camisa 10 do PSG. O importante é estar com os brasileiros! O menino Ney é fantástico. Ele está em uma idade maravilhosa. Fiquei muito feliz pela forma como ele tratou e o carinho que teve por mim. Foi uma emoção muito grande por tudo que ele representa”, contou o ex-atleta sobre o encontro.

“Perguntei para o Neymar como conseguiu fazer aquele gol lindo contra o Flamengo [no Brasileiro de 2011 que valeu o Prêmio Puskas]. Ele disse que foi um improviso em cima do Ronaldo Angelim. Eu disse que aquilo foi coisa de gênio e ele deu risada. Esse menino é sinistro (risos)”, relatou.

Valdo comemorou a classificação para a semifinal com uma garrafa de champanhe. Agora, ele torcerá para que o PSG supere a campanha de 1995.

“Meus amigos me zoaram, mas eu tinha certeza que iria passar. Preferia que o adversário na semifinal fosse o Atlético de Madrid porque é um time mais previsível. O Leipzig é mais complicado porque tem mentalidade alemã e marca o tempo todo, mas acredito que o PSG vai vencer por 2 a 1. Eles não têm Neymar, Mbappé e Thiago Silva (risos). Acho que a final será contra o Bayern”, disse.

“Na minha época, a camisa [do PSG] não fazia medo em ninguém. Mas hoje em dia é diferente, ninguém quer enfrentar o PSG. O time está cheio de jogadores de seleção e o ataque é Neymar e Mbappé, como é que a defesa adversária vai dormir? (risos)”, afirmou.

Treinador na África

Depois que parou de jogar, Valdo trabalhou por um tempo como empresário de jogadores antes de virar treinador.

Ele se dividia entre Lisboa e Paris quando recebeu um convite – por meio de um fornecedor de material esportivo - para ser técnico das seleções de base do Congo, na África.

Valdo conta que costuma acordar às 4h30 e faz o café para receber os jogadores da equipe antes de ir para os treinos.

“Costumo mostrar os vídeos do Alex [ex-meia de Cruzeiro e Palmeiras] para os meninos. Ele foi um craque, eu o chamo de Pelezinho e queria muito ter jogado com ele.”

No ano passado, Valdo assumiu a seleção principal do país e tentará a classificação para a Copa Africana de Nações e a Copa do Mundo de 2022, no Catar.

“Temos meninos muito promissores nas seleções de base que logo estarão fazendo sucesso na Europa. Temos muitos jogadores na segunda divisão da França. O problema é que eles querem sair de qualquer forma do Congo e aceitam a primeira proposta, não pensam na carreira”, explicou.