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Balboa, ex-Real Madrid, lembra chegada de Robinho: 'A gente achava que tinha o novo Pelé'

No final de julho de 2005, a torcida do Real Madrid ficou em polvorosa depois que o time merengue anunciou sua nova contratação: o atacante Robinho, maior estrela do Santos e do futebol brasileiro naquele momento, por 24 milhões de euros (R$ 147,82 milhões, na cotação atual).

O craque foi recebido por uma multidão de jornalistas no aeroporto de Barajas, em Madri, e em seguida apresentado com festa no Santiago Bernabéu. Ganhou a camisa 10, que havia sido de Luís Figo, das mãos do presidente Florentino Pérez. E, após fazer embaixadinhas e estripulias no gramado, recebeu o caloroso abraço dos fãs blancos.

Mas não foram apenas os fãs que enlouqueceram com a chegada de Robinho. O próprio elenco do Real ficou impactado com a nova contratação, que chegou para somar ao time de "galácticos" comandado pelo brasileiro Vanderlei Luxemburgo, ao lado de Ronaldo "Fenômeno", Raúl, Zidane, Roberto Carlos, Sergio Ramos, Casillas e outros.

É o que o conta o ex-atacante Javier Balboa, que era cria das categorias de base merengues e estava integrado ao elenco profissional na temporada 2005/06, a primeira de Robinho na Espanha.

Em entrevista à ESPN, ele lembrou a estreia do brasileiro contra o Cádiz, 24 horas depois de ter pousado em Madri. O "Rei das Pedaladas" teve uma atuação espetacular, com diversos dribles e lances de efeito, o que deu uma certeza ao plantel: o "novo Pelé", como a imprensa espanhola já chamava Robinho, havia chegado.

"Robinho era um espetáculo. Quando ele chegou, já fez aquele jogo fantástico, e todos achávamos que tínhamos o novo Pelé conosco", exaltou Balboa, que atualmente trabalha como comentarista do "El chiringuito", mais famoso programa esportivo da TV espanhola.

"O impacto da chegada dele foi gigantesco. Um dia depois de chegar de viagem, ele já fez uma estreia muito boa, em um jogo fora de casa. Deu 'lambreta', pedaladas. Todos ficaram muito admirados", relembrou.

Balboa conta que, antes do duelo contra o Cádiz, os jogadores do Real haviam visto muito pouco de Robinho, já que, naqueles tempos, o YouTube ainda engatinhava.

"Nós não tínhamos visto ainda como ele era jogando. Aqui na Espanha, o máximo que passava eram alguns highlights dele com o Santos na TV. Mas vendo só isso não tem como você ver tudo o que o cara sabe fazer", relatou.

"Até por isso, no dia seguinte os jornais aqui da Espanha estavam pasmos, falavam que ele era o 'novo Fenômeno', o craque, o número 1", recordou.

Em pouco tempo, Robinho tornou-se uma celebridade tão marcante na Espanha que isso acabou afetando até mesmo Balboa no período de transição entre as equipes B e A do Real.

"Curioso que, quando ele chegou, eu jogueiuma partida boa pelo Real B e fiz lances como pedaladas. Aí, os jornais colocaram: 'É o novo Robinho'. Para você ver como foi o impacto da chegada dele aqui", salientou.

AS 'PORRADAS' DE SALGADO

O fato de Robinho já ter chegado com tudo ao Santiago Bernabéu não quer dizer, porém, que ele tinha sido poupado pelos veteranos do elenco.

Balboa conta que, durante os treinos, o "Rei das Pedaladas" costumava apanhar bastante, principalmente do lendário Michel Salgado, que jogou 10 anos pelos merengues.

"Ele jogava sempre pelo lado esquerdo e passava todas pelo Michel Salgado, que sempre foi considerado um dos melhores laterais direitos da história da Espanha, além de ser rápido, agressivo e forte. Aí chegou um garoto vindo do Brasil, que brincava, dava pedaladas e jogava sorrindo. Ele levava cada porrada! (risos)", divertiu-se.

"Era como que para marcar território, do tipo: 'Calma! Você chegou agora aqui no Real, tem que respeitar as pessoas'. Mas esse era o estilo de jogo do Robinho, nunca foi falta de respeito com ninguém", observou.

O ex-atacante, que se aposentou em 2018, pelo Al-Mesaimeer, do Catar, também recorda que as "porradas" serviram para, pouco a pouco, Robinho se adaptar ao futebol europeu, que era muito mais físico e rápido que o brasileiro, no qual ele reinou entre 2002 e 2005.

"No começo, ele jogava exatamente do mesmo jeito do que no Santos, fazia as mesmas coisas. Só que não era fácil, porque o Salgado dava forte nele. Eram lances de treino, algo normal. Mas serviu para que o Robinho soubesse as coisas que ele poderia fazer e quando fazer ou não fazer algo na Espanha", explicou.

"Às vezes, o lance era para ele dar um drible, mas ele queria dar dois. Aí, ele aprendeu que precisava às vezes dar um drible só e sair para o jogo com um passe", acrescentou.

Além disso, o brasileiro tinha boa relação com os companheiros, apesar das pancadas.

"Ele adorava brincar com o Salgado, com o Gravesen, com o Casillas... É uma pessoa muito alegre, que gostava muito das brincadeiras. Além disso, lembro que ele adorava jogar futsal depois dos treinos com o Marcelo, o Higuaín e o Gago", lembrou.

Robinho, aliás, foi responsável direto pelo 1º gol de Balboa pelo time principal do Real Madrid, na temporada 2006/07.

"Meu gol foi na Champions League, contra o Olympiakos, numa partida em casa que ganhamos por 4 a 3. Marquei depois de uma linda jogada do Robinho", festejou.

IMPACTO MAIOR QUE VINICIUS JR.

Segundo Javier Balboa, a chegada de Robinho ao Real Madrid foi mais impactante do que a de Vinicius Jr., apesar do ex-flamenguista ter sido muito mais caro.

"O impacto da chegada dele ao Real foi muito maior do que o do Vinicius, porque a primeira vez de qualquer coisa é sempre maior", dissertou.

"Era a primeira vez que um brasileiro jovem como o Robinho chegava ao Bernabéu, e sendo visto como 'novo Pelé' ou 'novo Ronaldo'. Ele nunca tinha jogado na Europa, então as pessoas estavam descobrindo quem era aquele jovem", acrescentou.

"Quando o Vinicius foi contratado, havia os casos do Robinho, do Neymar e de outros na Espanha. Já o Robinho, quando chegou, era demais, algo inédito", comparou.

Ao todo, o "Rei das Pedaladas" jogou quatro temporadas em Madri, anotando 35 gols em 135 jogos, nos quais alternou sempre entre titularidade e banco de reservas. Foi campeão de LaLiga duas vezes, e conquistou também uma Supercopa da Espanha.

Ao final de 2008/09, depois de muitas idas e vindas sobre uma renovação de contrato com o Real, ele acabou vendido ao Manchester City, recém-comprado pelo dinheiro do mundo árabe, por 42 milhões de euros (R$ 259,11 milhões, na cotação atual).

Frequentemente criticado na Espanha por não ter mantido o hype de sua chegada, Robinho é defendido por Balboa, que crê que o brasileiro não só jogou bem nos tempos de Bernabéu como deveria ter seguido com a camisa merengue ao invés de ter ido para a Premier League.

"Ele começou muito bem, depois oscilou. Normal, porque quando chegou ao Madrid era muito jovem. Mas temos que lembrar que ele terminou muito bem na sua última temporada, antes de ir para o City", detalhou.

"Acho que ele poderia ter ficado no Real Madrid, porque tinha muita qualidade. Claro que faltava um pouco de regularidade, mas era um craque e um cara que, no vestiário, também era espetacular", finalizou.