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Ronaldo e Simeone discutiram por grana na Inter, e 'Fenômeno' deu lição de moral na frente do time

A Inter de Milão teve um time recheado de craques entre o final dos anos 1990 e início dos 2000. Esse plantel estrelado formou grandes amizades e produziu grandes momentos, como o título da Copa da Uefa 1997/1998, mas também passou por alguns terremotos internos.

O maior deles talvez tenha sido a 'treta' entre Ronaldo 'Fenômeno' e Diego Simeone por conta dos 'bichos' a serem pagos aos atletas durante a temporada.

Segundo o ex-volante Zé Elias, que defendeu a equipe nerazzurra etre 1997 e 1999 e atualmente é comentarista da ESPN Brasil, este 'duelo de titãs' aconteceu antes da temporada 1998/1999 e deixou um "clima estranho" no ar.

"No começo da temporada, sempre tem as discussões dos prêmios. O Ronaldo, que era o líder da equipe, pediu a palavra e falou: 'A premiação tem que ser paga em valor integral a quem joga, 50% a quem fica no banco e 25% para quem não é relacionado'. Mas o Simeone foi contra", lembrou.

"Ele pediu a palavra e disse que não achava justo os jogadores não relacionados ganharem 25% de premiação. O Ronaldo, então, rebateu e disse que, se não fosse o elenco todo, não teria nem como treinar, e a decisão de quem ia jogar e viajar era totalmente do treinador, já que, na maioria dos casos, nenhum jogador dava 'migué'", recordou.

De acordo com o ex-meio-campista da seleção brasileira, a manifestação de Simeone contra a premiação aos não relacionados foi surpreendente.

"Na hora que teve essa discussão, ficou um clima um pouco estranho, até porque ninguém estava esperando essa manifestação por parte do Simeone. Mas, no final, das contas, prevaleceu o que o Ronaldo falou e deu tudo certo", relatou.

Zé Elias jogou com Simeone por duas temporadas (1997/1998 e 1998/1999), frequentemente formando o meio-campo ao lado do holandês Aron Winter e do francês Youri Djorkaeff.

Dos tempos em que atuou com o argentino, ficaram lembranças de um jogador extremamente sério e que conquistou a torcida na base da raça.

"Simeone era muito profissional e sempre estava totalmente focado naquilo que ele precisava fazer dentro de campo. Ele pisava no gramado já sabendo exatamente o que tinha que fazer. E ele era tão focado que, fora das partidas, nos momentos de concentração, era até difícil saber onde estava a cabeça dele, conhecer um pouco mais da personalidade dele", rememorou.

"Lembro que quando ele foi contratado do Atlético de Madrid, a torcida da Inter não gostou muito do jeito dele jogar. Toda vez que ele pegava na bola, os torcedores vaiavam. Só que, ao invés de se esconder, ele falava para os caras em campo: 'Não tem problema, dá a bola em mim! Deixa eles vaiarem, pode tocar pra mim!'. Ele pedia a bola o tempo todo", contou.

"Aí, depois do terceiro mês, já estavam todos batendo palmas para ele. Afinal de contas, ele mostrou enorme personalidade, jogou muito bem e até fez gols importantes. Esse lado da personalidade dele sempre foi o que mais me impressionou", exaltou Zé Elias.

"Além disso, ele era um doente por futebol. Era uma coisa impressionante. Se deixassem, ele assistia jogos pela televisão das 6h da manhã até meia-noite (risos). É um apaixonado. Ele sabia de tudo o que estava acontecendo, até mesmo no Brasileirão", revelou.

Zé Elias também garante que as histórias de que Simeone "escalava o time" são meras "lendas".

"Nosso técnico 'Gigi' Simoni tinha o hábito de falar com todos os atletas antes da partida. Ele dizia o que estava pensando em fazer com o time e perguntava a opinião de todos. Quase sempre, a maioria respondia: 'Gigi, o senhor é quem sabe, o treinador é o senhor'. Só que o Simeone por vezes respondia: 'Não, eu acho melhor jogar com os jogadores de tal forma'", relatou.

"Nisso, criou-se uma lenda no vestiário de que o Simeone escalava o time, mas isso nunca foi verdade. Inclusive, ele e o Gigi tinham uma ótima relação, pois eles já tinham trabalhado juntos no Pisa, que foi o primeiro time do Simeone na Europa depois que ele foi contratado do Vélez Sarsfield", observou.

O hoje comentarista, porém, salienta que, já naquela época, dava para notar que Simeone seria treinador no futuro.

"Já dava para ver que ele seria técnico. Com cinco minutos de jogo, ele já mandava o time todo mudar o posicionamento para anular o adversário", recordou.

"Sempre foi um cara muito sério e profissional, nunca foi muito de brincadeiras. Dá até para dizer que ele já era meio que nosso 'treinador' na época. Ele nunca deixa o ritmo cair, porque quer ser sempre um exemplo para os outros", encerrou.

Simeone jogou duas temporadas pela Inter, sendo contratado pela Lazio na temporada 1999/2000.

Em 2003/2004, ele retornou ao Atleti e depois voltou para a Argentina, onde viveu seu "canto do cisne" como jogador no Racing, aposentando-se em 2006.

Atualmente, o "Cholo" é treinador do Atlético de Madri, que comanda com "mão de ferro" (e vários títulos) desde dezembro de 2011 - exatamente como Zé Elias já previa.