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Messi, por brasileiros ex-Barcelona: no 'quintal de casa' no vestiário e 'dream team' em choque

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Edmílson elogia Messi e afirma sobre tudo que o argentino fez: 'Acho que ele não tem noção' (1:59)

O defensor brasileiro jogou no Barcelona de 2004 a 2008 (1:59)

Eleito pela sexta vez pela Fifa o melhor jogador do mundo, Lionel Messi é um dos maiores nomes do futebol mundial em todos os tempos. Maior vencedor do prêmio, o camisa 10 da Argentina deixou para trás Cristiano Ronaldo, da Juventus, com cinco taças.

O ESPN.com.br conversou com brasileiros que jogaram com La Pulga e trouxe histórias do argentino que brilha pelo Barcelona desde a adolescência.

'DESTE MUCHACHO CUIDO YO!'

Edmílson chegou ao Barcelona na temporada 2004/05, a mesma em que o craque argentino foi promovido ao time profissional. Ele conheceu La Pulga nos treinos e de cara ficou impressionado.

"Lembro que fiquei nove meses de molho por causa de uma lesão no ligamento cruzado. Quando voltei a treinar, vi a diferença que o Messi já fazia. Na época, ele completava os treinos com a gente no profissional, mas ainda não tinha essa potência muscular e se machucava muito, mas o Barça montou um projeto para ele", lembrou.

"Contrataram um personal trainer para cuidar especificamente da evolução dele, e fizeram todo tipo de alongamentos e massagens. Mas já dava para ver que ele era diferenciado. Eu pensava: 'Esse cara só não vai ser o que ele quiser da vida se ele não quiser'", relatou.

"Eu treinava antes e depois do trabalho por causa da manutenção do meu joelho, e a gente ficava junto. Eu notava que ele não queria fazer, mas tinha que fortalecer a posterior para não se arrebentar direto, e ele entendeu. Não foi à toa que virou o que virou", salientou.

Edmílson também lembrou uma divertida história envolvendo Jorge Messi, pai de La Pulga.

"Um dia, eu estava no hotel e o José Fuentes, que era meu empresário, me perguntou: 'Tem algum menino bom aí no Barça?'. E eu respondi: 'Olha, tem um tal de Messi que vai dar o que falar... É um argentino baixinho e cabeludo que quando você olha para ele não dá nada, mas joga demais'", rememorou.

"Aí o Fuentes foi ver um treino, ficou impressionado e foi falar com o pai do Messi, que respondeu na lata: 'Pode deixar que, deste muchacho, cuido yo!' (risos)", gargalhou.

"Ele sempre foi dirigido pela família e cuidado de perto pelo pai dele", acrescentou.

'TOME CUIDADO!'

O ex-lateral direito Belletti, que jogou com Messi por três temporadas na Catalunha, entre 2004 e 2007, antes de se transferir para o Chelsea, lembra o dia em que Messi fez seu primeiro treino com o elenco profissional do Barcelona

"Quando o Messi subiu do time B e começou a treinar no profissional, o Frank Rijkaard colocava ele com a gente nos trabalhos de 11 contra 11 no campo reduzido. Lembro que o Messi estava no time reserva e eu no titular. Aí o Iniesta apontou pro Messi e falou para mim: 'Belletti, você conhece aquele garoto ali?'. Falei: 'Eu não'. E ele: 'Cuidado, hein...'", lembrou o brasileiro.

"Aí eu brinquei com o Iniesta: 'Ele que tome cuidado! Eu estou em boa fase, estou no auge!' (risos). Na primeira bola que o Messi recebeu, já pensei: 'Caramba, o moleque é abusado!'. Ele tinha 16 anos! Depois, quando me preparei para marcar e definir um jeito de tentar roubar a bola dele, ele já tinha passado e feito a jogada do gol (risos)", sorriu.

Daí em diante, Belletti viu que estava diante de uma joia rara no futebol.

"Ele sempre teve muita personalidade, além de ser um cara de nível muito competitivo. Os garotos que sobem da base no Barça, a maioria já sobe com alguma confiança. Mas ele foi muito acima disso. A gente falava: 'Deixa ele solto, dá confiança pro moleque!'", relembrou.

EM BRIGA DE CACHORRO GRANDE...

Além da enorme qualidade em campo, Edmílson também é muito elogioso ao comportamento de Messi fora das quatro linhas.

"Ele ganhou fama muito cedo e poderia ter entrado nos caminhos errados de sair, ir para a balada... Uma vez ou outra saiu com os caras, mas tínhamos eu e o Sylvinho para alertar: 'Messi, está vendo isso aqui? Está errado. Não tinha que ir...'", contou.

Apesar da timidez, o argentino se entrosou bem no vestiário.

"Ele era bem apegado ao Deco e ao Ronaldinho, porque eram os craques que resolviam os jogos dentro de campo, e isso era uma coisa que ele também queria fazer. Já eu e o Sylvinho éramos da defesa e carregávamos o piano para o time, e tínhamos também que dar os conselhos: 'Calma aí, menino, não vai por aí. Tem que respeitar os mais velhos, você ainda não é maior do que ninguém. O Ronaldinho ainda é o melhor do mundo'. Mas o Messi sempre foi legal, nunca teve problemas de comportamento", revelou.

La Pulga também sabia "ler" bem as "panelas" do vestiário blaugrana.

"Ele era muito observador do vestiário, e isso era uma qualidade muito importante. Messi via as intriguinhas do Eto'o contra o Ronaldinho. O Eto'o trabalhava pra caramba para o time, mas o Ronaldinho estava no melhor momento da carreira, nunca que o Eto'o ia chegar perto daquele nível. Não que o Eto'o não fosse bom, até porque ele também era craque, mas o Ronaldinho era 'o cara' do momento em todo o futebol mundial. E o Messi soube entender essa hierarquia desde sempre", observou.

'NUNCA FICA NERVOSO'

Nas decisões, é muito comum os jogadores ficarem com famoso "frio na barriga" com a expectativa de levantar o troféu nacional.

Quer dizer, quase todos...

Segundo conta o ex-volante Edmílson, Messi sequer sente a pressão das grandes partidas, encarando decisões desse tipo como partidas "no quintal de casa".

"Dentro do vestiário, eu fazia uma preparação para jogar. Tinha um ritual de colocar música e tomava um café ou um Red Bull pra ficar aceso. Daí o Messi, quando ia jogar contra um Real Madrid, uma Juventus, ficava assim [faz gesto de encostado quase deitado], despreocupado... Parecia que ia jogar no quintal de casa! Todo mundo tenso e ele lá, super calmo... Tinha muita frieza", contou.

"Eu não vi o Pelé jogar. Por isso, para mim o Messi é o melhor de todos os tempos que vi. Parece que está em outro esporte", completou.

'ELE NÃO TEM NOÇÃO DO QUE É'

Para Edmílson, Messi não tem noção do que representa para a história do futebol.

"Eu estive em Barcelona algumas vezes nos últimos anos e a gente ficou conversando. Sempre que converso com o Messi é meio assim, eu falo: 'Cara, você só vai entender o que está fazendo quando parar de jogar'. Acho que ele não tem noção do que está fazendo em nível de recordes e gols. O que ele faz é simplesmente surreal", exaltou.

"Acho que daqui uns 10 anos tudo isso vai ser ainda mais falado. Para mim, é algo impactante", completou.

O brasileiro diz que o camisa 10 vive o futebol o tempo todo.

"Eu acho que ele não tem noção do que representa para o futebol mundial, a importância que ele tem. Pela forma que ele trata, é como se fosse um hobby para ele. E quando o cara coloca a profissão como prioridade, que é o caso dele, aí as coisas acontecem naturalmente para ele, até pelo talento que tem", filosofou.

Edmílson ainda conta que Messi é completamente diferente dos boleiros popstar no quesito de ligar para sua imagem.

"Quando conversamos, é quase sempre só futebol... Ele fala da família dele, das coisas que ele gosta, até fez umas tatuagens e começou a usar barba... Você não vê o cara falando de redes sociais, algo assim. E ele não precisa mudar o cabelo a cada dia para ser notado e dizerem que ele é o melhor do mundo. Ele vai sempre aparecer pelo futebol que demonstra em campo, e não pelas coisas que faz fora das quatro linhas", encerrou.