Como os clubes escolhem o nome dos seus estádios? Na maioria das vezes eles são batizados com nomes dos dirigentes que promoveram suas construções. Há casos em que grandes jogadores são homenageados, mas poucas vezes os treinadores são lembrados. O estádio do Newell's Old Boys, adversário do Corinthians nesta terça-feira (1º), pelas oitavas de final da CONMEBOL Sul-Americana, com transmissão pela ESPN no Star+, se chama Marcelo Bielsa. E isso diz muito sobre a cultura da cidade de Rosário.
O município no interior da Argentina é um polo formador de grandes estrategistas, e Bielsa tem um papel de destaque nesta história. Mesmo tendo dirigido o time principal do Newell´s por apenas três anos e meio, deixou um enorme legado. Revolucionou as categorias de base, revelando grandes jogadores, e desenvolveu uma identidade de jogo que marca o time até hoje. Além disso criou uma escola de treinadores que carregam seus conceitos mundo afora.
A influência do atual técnico da seleção uruguaia sobre os jogadores que trabalharam sob sua orientação no Newell´s do início dos anos 90 foi tão grande que vários viraram treinadores. Alguns de sucesso, como Mauricio Pochettino (Chelsea), Eduardo Berizzo (seleção do Chile) e Gerado Martino (Inter Miami). Outros chegaram a dirigir times da primeira divisão argentina como Juan Manuel Llop, Fernando Gamboa e Julio Zamora. E há ainda os que trabalham como auxiliares em vários cantos do mundo.
As ideias Bielsistas, porém, alcançaram profissionais que não viveram aquele vestiário. Dois deles estão aqui no Brasil: Juan Pablo Vojvoda (Fortaleza) era zagueiro da base do Newell´s naquela época e usava sua carteirinha de atleta do clube para entrar sem pagar em todos os jogos do time principal. Também nascido em Rosario, Jorge Sampaoli seguiu tanto os caminhos abertos por Bielsa que o substituiu na seleção chilena e conduziu o grupo formado por ele ao primeiro título do país na Copa América, em 2015.
A “revolução” de Bielsa no futebol argentino começou quando ele ganhou o título do torneio de reservas em 1988. O ponto de partida era que todos os jogadores participassem tanto do ataque quanto da defesa, com muita intensidade. Uma adaptação do “futebol total” que a Holanda apresentou ao mundo na Copa do Mundo de 1974 à realidade local. A partir daí uma série de outras ideias se espalharam pelo mundo do futebol fazendo com que “El Loco” se transformasse numa referência internacional. Mas Bielsa não é um caso isolado em Rosário.
O ambiente futebolístico da capital da província de Santa Fé é especial. Sempre houve muito pensamento e estudo sobre futebol por lá. Quem conta é outra enorme personalidade do esporte, que também criou a sua “escola”: Cesar Luis Menotti – campeão do mundo em 1978. “El Flaco” classifica a paixão com que se vive o futebol em Rosário como “um feito cultural inimaginável”. Os estádios são mais fechados e a torcida fica mais próxima do campo, o que dificulta a comunicação e isso exige que as equipes entrem em campo muito conscientes do que fazer. Há um intenso debate diário entre jogadores e treinadores. Outro ponto citado por Menotti é que os responsáveis pela introdução do futebol na cidade foram escoceses, que passavam mais a bola que os ingleses.
Nascido e criado numa família de classe média alta de Rosário, Bielsa sempre foi apaixonado pelo jogo. Formado zagueiro na base do Newell´s, teve a carreira de jogador abreviada por lesões. Dedicou-se a estudar futebol e virou técnico da base do clube, onde criou um sistema para descobrir talentos em todo o país. Viajou 25 mil quilômetros em três meses recrutando jovens.
Deste trabalho surgiu, entre outros, Gabriel Batistuta. Foi com um time inteiramente revelado na sua "cantera" que o Newell´s ganhou o Campeonato Argentino de 1988. Nos anos seguintes, foi o clube que mais cedeu atletas para a seleção nacional, em uma estrutura que, anos depois, fez aparecer Lionel Messi.
Bielsa assumiu o comando da equipe principal em 1989 e ganhou o campeonato de 90/91, além do Clausura de 92. Também levou o Newell´s à final da CONMEBOL Libertadores de 1992, que perdeu nos pênaltis para o São Paulo de Telê Santana no Morumbi. Depois foi embora e nunca mais voltou. Em 2009 passou a dar nome ao estádio para que fique claro que suas ideias são bem-vindas.
Bielsa foi quem convocou pela primeira vez para a seleção da Argentina um jovem defensor revelado no Newell´s de nome Gabriel Heinze, atual técnico do time. Um zagueiro/lateral que encerrou a carreira no clube onde foi campeão sob o comando de Tata Martino. É uma espécie de dinastia. As ideias estão lá. O clube é o mesmo e a torcida igualmente é apaixonada. Trabalha com muitos "pibes" da base e outros veteranos que voltaram para casa depois de rodarem pelo mundo – vários jogadores fazem isso por lá. Será que um dia Bielsa também?
É este time, de uma escola de futebol, que vai enfrentar a equipe do técnico mais marcante do Brasil no período em que Bielsa brilhava por lá, Vanderlei Luxemburgo. Cabe a nós refletir porque nem ele, nem Telê Santana ou outros grandes estrategistas de nosso futebol geraram suas “escolas” de treinadores. Não me parece que seja culpa deles.
Próximos jogos do Corinthians:
Newell's Old Boys (C) - terça-feira (01/08), 21h30 - CONMEBOL Sul-Americana, com transmissão pela ESPN no Star+
Internacional (F) - sábado (05/08), 18h30 - Brasileirão
Newell's Old Boys (F) - terça-feira (08/08), 21h30 - CONMEBOL Sul-Americana, com transmissão pela ESPN no Star+
